sábado, 4 de agosto de 2012

CARTA ABERTA A EUGÉNIO LISBOA



CARTA ABERTA A EUGÉNIO LISBOA
“Calar-se equivale a deixar crer que não se julga nada e nada se deseja, e, em certos casos, isso equivale, com efeito, a não desejar coisa alguma” (Sophia de Mello Breyner).
Caríssimo Eugénio:
Escrevo-te esta “Carta Aberta”, em presença das proporções que a discussão (não me atrevo a chamar-lhe polémica pelo respeito que este tipo literário me merece) sobre o teu post de crítica literária, intitulado Manuel Alegre: Pintar a Cor do Vento (27/07//2012), que, em outras ocasiões e a pedido meu, me enviaste, e aqui por mim publicado “com o prazer e o proveito de sempre”, como escrevi em sua brevíssima introdução. Aliás texto desmerecedor de qualquer tipo de deselegância, embora, infelizmente, e com grande estupor meu, não entendida como tal em alguns comentários  que lhe foram tecidos.
Começo por apelar para uma possível descriminação de juízos meus, desde já o confesso, sem punhos de renda, que  aqui deixo e a que era impossível eu subtrair-me. Obviamente! E tu, meu bom Eugénio, com a tua generosidade e amizade, decerto, me perdoarás as descoloridas palavras que te dirijo ditadas pelo sentimento e escritas com a razão que entendo assistir-me, e que eu não devia e, muito menos, podia deixar de trazer a público, embora sabendo não fazerem a devida justiça ao reconhecimento público da tua elevada craveira cultural. Craveira cultural de que me falece o engenho para dela dar o devido e justíssimo relevo público com o brilho de todos aqueles académicos,  escritores e colegas teus de docência que o fizeram na homenagem que te foi prestada na Universidade de Aveiro e traduzida no livro, Eugénio Lisboa, Vário, Intrépido e Fecundo (“Opera Omnia”, 2011).
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E isto porquê? Simplesmente, e tão só, pela metáfora do título do teu valioso texto que um exagerado racionalismo não soube, ou pior do que isso, não quis entender, quiçá, por conveniência argumentativa em que a razão cedeu terreno a simples e descabidas opiniões despojadas do “soberaníssimo bom senso” de que nos falava Antero. Aliás, metáforas encontramos, por exemplo,  na prosa do festejado Baudelaire (in A invenção da Modernidade) quando dele lemos: “Seremos capazes de comparar nossos olhos preguiçosos e os nossos ouvidos ensurdecidos com aqueles olhos que perfuram a bruma, com aqueles ouvidos que ouviram a erva crescer?”. E porque, como nos advertiu, Johan Goethe, “qualquer ideia proferida desperta outra contrária”, “ouvidos que ouviram a ver a  relva a crescer”, será  uma “patetice”? Mas adiante.
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Sei, por experiência própria e de vida, que a polémica nem sempre é (ou foi) um campo de peleja de boas maneiras e de discussões bem intencionadas por ao manejo destro e elegante do florete da argumentação sagaz se sobreporem, não poucas vezes, golpes violentos de cacete, como diria Antero, ou da espada do desforço que foi  arma do passado  para sustentar argumentos que se tinham como razão  não consentindo a deixar cair o lábaro aos pés de intoleráveis insultos. Ou seja, aqui a desobediência ao preceito de Fialho de Almeida: “Eu não respeito as suas ideias, respeito-o a si”.
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Bem sei eu que a própria definição de polémica, “herdada da arte da guerra” (Nemésio) nos diz da belicosidade que a ela subjaz. Ou seja, a polémica caracteriza uma situação de guerra, mas que não deve redundar numa espécie de guerra civil que nada respeita e ninguém é respeitado. O próprio Eça, uma presença constante em meus textos, apesar de declarar o firme propósito de “acutilar instituições, costumes, tipos humanos e aplicar-lhes a moralizadora ‘bengalada de homem de bem’”, ao que penso, não terá deixado de sentir  a incomodidade em ser obrigado, a contragosto,  a cruzar ferros, embora o fizesse com rara elegância,  em obediência a Ramalho: “O escritor que se cala não é um combatente que fica firme no seu posto; é um soldado que cai; a cerrada turba dos beligerantes passa-lhe por cima e segue avante”.
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Mas busquemos na transcrição deste elucidativo texto de António Sérgio, de que te fizeste admirador presente e constante (segundo A. Campos Matos, em “biografia modelar”: José Régio, a Obra e o Homem),  o seu desencanto por um certo tipo de polémica arruaceira de que se fez paradigma Camilo que nela se empenhou, há que confessá-lo, com denodo:
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Contestar a ideia de um certo homem, ou defendida por um certo homem, não é insultar esse mesmo homem: sabe-se isto no mundo inteiro e só se desconhece neste país. E porquê? Porque muitos dos que escrevem, berram, ou declamam na nossa terra, andam a fingir de pessoas cultas: nunca se elevaram autenticamente à vida do pensamento, ficaram ao nível do fanatismo e dos simples interesses e relações pessoais. As ideias em Portugal são meros instrumentos sectários e nem cá se percebe que se defendam ideias que não sejam instrumentos de quaisquer paixões” (António Sérgio, Prefácio a O Seiscintismo, Lisboa, 1926).
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Vai esta carta já longa, mas não a quero terminar sem lhe descortinar o motivo que, em opinião minha,  pode ter despoletado toda uma controvérsia: uma possível animosidade política para com Manuel Alegre logo aproveitada para lhe desmerecer o grande mérito de poeta que o é, e, como tal, com reconhecimento público incontroverso. E eu estou bem à vontade para esta minha tomada de posição por não navegar na rota das suas águas políticas. Mas fazer glosa com um simples título de um texto teu, Manuel Alegre: Pintar a Cor do Vento, justifica, mais do que isso, impôs, que te escrevesse, Eugénio,  esta Carta Aberta.  Mesmo que outros motivos não houvesse (embora os haja de sobra!) dignos e merecedores do meu desagrado público, este me sobeja: Calar-se equivale a deixar crer que não se julga nada e nada se deseja!
Recebe um abraço de grande e longa amizade,
Rui Baptista

10 comentários:

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  2. Quando o vento tiver cor,
    vou-lhe tirar o retrato,
    mesmo dando de barato
    que ele seja um estupor!

    JCN

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  6. Caríssimo Rui, fico-te muito grato e não pouco comovido, por teres querido, em boa prosa esclarecida, amenizar a atmosfera espessa. que quase sufocou o meu textinho dedicado ao Manuel Alegre. Ele (não eu) merecia melhor. Como todas as personalidades fortes e bem recortadas, é natural que o poeta de "Praça da Canção" suscite anti-corpos. Eu terei sido apenas, como dizes, o alvo ao lado. Mas não sei se terá sido só isso, ou seja, um antagonismo ideológico. Vem-me sempre ao espírito, nestes casos, a última palavra dos "Lusíadas". Grande poeta, camões terá sido, não raro, mordido pela mosquitada. É a vida. O mundo está pejado de poetastros a quem faz mau sangue a boa poesia que outrosa fazem. Mas há recursos mais elegantes e mais eficazes do que dar vazão ao ressabiamento. Este quase nunca leva a bom porto. Dou aqui uma boa e provada receita: sabendo que o poeta Geoirge Wither (1588 - 1667) ia ser executado, por traição, o seu colega (em poesia), John Denham, suplicou ao Rei que o poupasse. E deu a seguintre e honesta razão: enquanto Wither vivesse, não havia o perigo de Denham ser considerado o pior poeta de Inglaterra. Consolemo-nos: há sempre piuor do que nós. Nem tudo está perdido.
    E, já que falo de maus poetas,não resisto a traduzir, livre mas fielmente,uns versos maliciosos do grande Samuel Taylor Coleridge:

    Os cisnes cantam antes de morrer;
    boa coisa e muito de louvar
    seria que pudessem falecer
    alguns poetas, antes de cantar.

    Teu velho amigo, de há mais de
    há mais de cinquenta anos

    Eugénio Lisboa

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  7. Sem a arte e engenho no manejo das palavras de Rui Baptista e muitíssimo menos de Eugénio Lisboa, socorro-me, para dar algum relevo ao apreço que me mereceu o post intitulado "Manuel Alegre: Pintar a Cor do Vento", do soneto LXX de William Shakespeare:

    "Se te censuram, não é teu defeito,
    Porque a injúria os mais belos pretende;
    Da graça o ornamento é vão, suspeito,
    Corvo a sujar o céu que mais esplende.
    Enquanto fores bom, a injúria prova
    Que tens valor, que o tempo te venera,
    Pois o Verme na flor gozo renova,
    E em ti irrompe a mais pura primavera.
    Da infância os maus tempos pular soubeste,
    Vencendo o assalto ou do assalto distante;
    Mas não penses achar vantagem neste
    Fado, que a inveja alarga, é incessante.
    Se a ti nada demanda de suspeita,
    És reino a que o coração se sujeita."

    De um desconhecido
    Sérgio Viana

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    1. Caro Sérgio Viana: Escrevo estas breves linhas com a tristeza de ter visto Eugénio Lisboa ser atacado e a alegria sentida de ler o poema de Shakespeare que transcreveu no seu comentário.

      “Et pour cause”, não posso, em meu nome pessoal, deixar de agradecer o seu preito de homenagem a Eugénio Lisboa. Não esgota ele, por mais copioso que seja, o valor de ensaísta, crítico literário, poeta, escritor, académico de Eugénio Lisboa porque, sei-o por experiência própria, é sublimado pela forma como cultiva com desvelo e rega com a benevolência das almas de eleição o nobre sentimento da Amizade.


      Por último, enraízo nos dois primeiros versos do poema de Shakespeare, por si citado, toda uma tempestade que o bom senso devia savaguardar: ”Se te censuram não é teu defeito, / Porque a injúria os mais belos pretende”.

      Bom senso sugerido pelo conselho de Goethe, um outro gigante do pensamento europeu: “Todos os dias devíamos ouvir um pouco de música, ler uma boa poesia, ver um quadro bonito e, se possível, dizer algumas palavras sensatas”!

      Nuito cordialmente,

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    2. Como costumo dizer, em metáfora minha: as gralhas não pousam, ousam! Assim, por via da coisas, substituo, no fim deste meu comentário, a expressão "Nuito corialmente, por "Muito cordialmente".

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  8. Caro Rui, aproveito este veículo para agradecer, por teu intermédio, a Sérgio Viana, as bonitas e bem acompanhadas palavras que me dirige. Depois de tanta trovoada mal amanhada, mas violenta e persistente, sabe bem a gente ver-se lambido, ainda por cima, com música de Shakespeare ao fundo. Que bom!
    E, já que falas em gralhas, algumas desfeiam também o texto com que agradeci o teu. São coisas pequenas (Camões com "c" minúscuylo, "piuor" em vez de "pior" e mais uma ou duas; pressionavam-me poara ir almoçar e não pude rever), que o leitor inteligente corrigirá automaticamente e que deleitarão o leitor de mau feitio. Não importa: a este convém sempre dar-lhe algumas migalhas com que se entretenha. Soyons charitables!
    Abraço extensível a Sérgio Viana do
    Eugénio

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