quinta-feira, 30 de junho de 2011

Tudo se teria evitado

A barulheira nos jornais, o alarido nas televisões, a condenação pelas altas entidades, a má fama do Centro de Estudos Judiciais, a audiência pela Ministra da Justiça e a demissão da Diretora e, sobretudo, mais este descrédito para a Justiça - atual e futura; tudo. E até que esse sindicato contra-natura, o dos juízes, viesse culpabilizar, obviamente, o anterior Governo por este copianço num dado exame. Bastava que o professor soubesse da importância que tem a avaliação e do cuidado que deve revestir. E que é indispensável para qualquer curso ou tipo de formação; bastava, pois, que professor e alunos fizessem o que lhes competia.

Pequenas coisas da maior importância. É frequente pensar-se, mesmo entre professores, que ensinar e fazer aprender é suficiente, e que a avaliação é uma obrigação de segunda ordem, negligenciável. Já houve até “teorias” que a consideravam dispensável; não é. Faz parte do conjunto uma avaliação coerente com os objectivos a alcançar e os conteúdos a aprender. Para dar uma informação em retorno daquilo que se fez, e com garantia de rigor e igualdade de tratamento dos alunos. Se não houver uma boa avaliação, o processo fica incompleto e a formação pode tornar-se inútil ou até contraproducente. A investigação sobre avaliação educacional e pedagógica é imensa e tem proporcionado, não só formas mais rigorosas e justas de avaliar (através da docimologia, da doxologia da docimástica), mas demonstrado, também, as suas potencialidades formativas. E até a função determinante na aprendizagem e na qualidade desta, através da avaliação formativa, sobretudo pelas suas formas mais evoluídas do “assessment for learning” (avaliação para a aprendizagem).

Independentemente destes aspectos da investigação, todo a gente compreende que ao professor compete garantir, até para o seu bom-nome, rigor e justiça nas avaliações que faz. É óbvio que os alunos que copiam e que passam sem saber têm um tratamento de favor, em relação aos outros, o que é injusto. Mas, pior, introduzem vírus na sociedade e nas funções profissionais, porque passam por ter conhecimentos e competências que não têm. E pior ainda, ultrapassam muitas vezes outros mais preparados e honestos, o que é socialmente desastroso.

Ora isto acontece em muitos lados e não só no Centro de Estudos Judiciários. Mas quem vai meter na cabeça de professores deficientemente formados (ou cheios de preconceitos antipedagógicos e maus hábitos) que isto é prejudicial para todos? Quem vai ser capaz de lhes fazer perceber os desastres em cadeia que esta atitude provoca? E conseguir que muitos papás, que só querem o bem dos seus filhos, claro, deixem de pressionar os professores para os seus rebentos terem as melhores notas sem quererem saber de justiças? E quem vai agora emendar os erros que se fizeram nas mais variadas formações de professores, em institutos e escolas de toda a forma e feitio, com altíssimas classificações, e os seus diplomados a ultrapassar os de instituições cientificamente mais exigentes e de avaliações mais rigorosas e comedidas?

Como em múltiplas situações, bastava que se tivesse feito como era devido e teríamos evitado este vexame nacional. Mas como todos sabemos que há milhares de situações onde, em vez de funcionar bem, se desfunciona, por hábito, desleixo ou ignorância, vai haver mais alaridos assim? Talvez fosse um bom sinal. Se cada um começasse a funcionar como deve que salto nós não daríamos!

João Boavida

5 comentários:

  1. Chama-se mediocridade. Falta de ambição, falta de honestidade, falta de educação, falta de pais, falta de coragem, falta de indignação, falta de auto-estima, falta de inteligência por causa de onde tudo isto nos leva. Está em todo o lado e por isso só conseguiremos mudar globalmente. É bom sinal concerteza se houver mais alaridos porque há muito para corrigir e para isso é preciso que continue a haver indignação.

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  2. De um modo geral, concordo com o teor do post, mas não posso deixar de notar que todo o nosso sistema educativo está construído de modo a privilegiar, não a avaliação, mas a eficácia na realização de um exame. Em regra, tem melhores notas um aluno que se preparou, treinando os exames da disciplina nos últimos dez anos (com o tempo, estes tendem a ser todos iguais), do que aquele que estudou e digeriu toda a bibliografia disponível. Baseados nesta lógica, há colégios especializados em treinar (como quem treina animais de circo) os alunos do 11.º e 12.º anos na realização das provas de física e de matemática. Como são muito eficientes nesta função, os alunos tiram dezanoves e vintes e entram em Medicina, o seu objectivo inicial. No primeiro exame na faculdade, quedam-se pelo dois ou pelo três.
    Por outro lado, as suas palavras «introduzem vírus na sociedade e nas funções profissionais, porque passam por ter conhecimentos e competências que não têm. E pior ainda, ultrapassam muitas vezes outros mais preparados e honestos, o que é socialmente desastroso» são significativas. Elas revelam que, para nós, a avaliação é um exercício que se reduz à escola. Depois da escola, deixa de haver a avaliação. É normal. É o que acontece nas sociedades como a nossa que privilegiam as habilitações, os títulos académicos, às qualificações, ao saber efectivo.

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  3. Quem vai emendar os erros? Bem, para emendar pelo menos alguns desses erros, conto com o Professor Nuno Crato. E alguns bons, esforçados e vocacionados professores que conheço contam também com ele para, pelo menos, chamar os bons à luta e tentar mudar algo.

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  4. José Batista da Ascenção30 de junho de 2011 às 12:25

    Sobre isto tenho vontade de escrever umas páginas.
    Mas, por agora, estou concentrado na "correcção" de umas dezenas de exames do ensino secundário.
    Há muita coisa que é preciso ser dita.
    Se bem que, em qualquer lado que aborde casos concretos de procedimentos que, aos meus olhos, não passam de crimes, habitualmente deparo com um mutismo que (mais) ninguém parece querer perturbar.
    Parece(-me) que só nos indignamos no abstracto.
    Quando se trata de chamar os bois pelos nomes, moita-carrasco.
    E é assim.
    E com o tempo (aparentemente) tudo esquece.
    Excepto as dívidas do país... Que pagaremos.
    Nós, os do costume.

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