sábado, 25 de junho de 2011

MILIA PASSUUM - A MILHA ROMANA

Crónica publicada no Boas Notícias elaborada a partir de um exercício no 1º Atelier de Escrita em Comunicação de Ciência, que teve lugar na Casa da Escrita, em Coimbra, no passado dia 21 de Junho.

Qual a distância que um centurião romano percorria ao fim de mil passos? Uma milha romana, a primeira medida unitária para longas distâncias.

A quanto é que uma milha romana equivale em metros?

Não sabemos ao certo! É que o metro é uma medida padrão e o nosso bom senso “diz-nos” que uma passada de um centurião deveria variar consoante a altura das suas pernas e da propulsão dada pelo avanço de cada perna.

De facto, os milia passuum (mil passos) deste militar romano percorreriam uma distância que lhe era característica. Até porque os mil passos a que refere a milha romana não eram os de um só homem, o centurião, a marchar, mas do conjunto de cem soldados (a centúria), que ele comandava e que marchavam atrás dele. A propósito, acrescente-se que uma centúria era uma formação militar constituída por dez filas de dez soldados formando um quadrado.

Este quadrado militar avançava então em ritmo de marcha e comandada pelo centurião que marca o compasso. De certa forma, a distância percorrida dependia da velocidade da marcha, do ritmo do passo. O que sugere que uma milha romana não só indicava uma distância percorrida após mil passos mas também o intervalo de tempo necessário para os cumprir.

Este raciocínio transporta-nos para a ideia de que uma milha romana seria, na realidade útil, mais a medida da velocidade do centurião a marchar, do que só uma medida de uma distância. Ao dizer que precisavam de marchar, por exemplo, dez milhas, o centurião não só indicava a distância a que se encontrava de um eventual alvo, mas também o tempo que demoraria a conduzir os seus cem soldados até ele.

Mas voltemos à questão da conversão possível para o “nosso” metro padrão até para podermos precisar a variabilidade da milha romana. Isto é relevante também para a importância do erro aplicado a escalas com grandezas diferentes. Vamos a seguir concretizar este problema.
Uma passada em marcha de três centuriões diferentes poderia diferir em poucos centímetros.

Suponhamos uma diferença média de 15 centímetros entre as passadas de cada um dos centuriões. Esta diferença pode não parecer muito crítica numa única passada, por exemplo de 1,5 metros: 10% de variação média. Mas essa diferença de 15 centímetros seria suficiente para que os 3 centuriões percorressem distâncias substancialmente diferentes ao fim dos seus mil passos, se marchassem com uma velocidade igual: 1350 metros, 1500 metros e 1650 metros!

Noutra perspectiva, para que percorressem a mesma distância depois de mil passos, os três centuriões no exemplo anterior teriam de marchar a velocidades diferentes. Ou seja, gastariam períodos de tempo diferentes para percorrer uma milha romana.

Mas a história deixou-nos registos sobre a diferença entre a marcha dos centuriões.

De facto, há indicações arqueológicas que balizam na história a milha romana entre os 1481 e os 1580 metros. Ou seja, 99 metros de diferença! Outro dado arqueológico que se encontra hoje no Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra, mostra que quatro milhas romanas são iguais a 5920 metros. Segundo esta prova, baseada na distância de um marco viário, com a indicação “IIII” e encontrado àquela distância métrica de Aeminium (designação romana da povoação que deu origem a Coimbra), uma milha romana equivale a 1480 metros.

Uma outra fonte indica-nos que uma milha romana equivalia a 5000 pés romanos. Isto garante-nos, pelo menos, que os pés dos inúmeros centuriões romanos não tinham todos o mesmo tamanho!

E a milha americana? Isso é uma outra história, também imperial, mas inglesa.

António Piedade

20 comentários:

  1. MILLE PASSUUM ou MILIA PASSUUM? JCN

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  2. Caro Professor, sempre a aprender. Obrigado.

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  3. Milia passum duplo U?

    a primeira medida unitária para longas distâncias

    e o estádio grego?

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  4. Ó santa, ó crassa ignorância, sr. "one hundred trillion"! Errar é humano, mas tanto!... JCN

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  5. Pelas palavras do Cientista António Piedade.

    Na medida em que a lucidez caminha de coisa alguma, para em suma...

    Tornamo-nos mais reais que imaginários.

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  6. Na medida em que a lucidez caminha de coisa alguma para nenhuma coisa pois aos 80 anos de Soares a lucidez já era pouca e há ai pessoal de idades variáveis que nunca a tiveram

    Tornamo-nos mais imaginários que reais

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  7. Cara senhora: recomende ao sr. "one hundred trillion" que estude as regras elementares da língua latina! Que falta está fazendo a tradicional "menina de cinco olhos"! JCN

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  8. Caro Sr. JCN, como "menino dos olhos" de nossa estima, vos já recomendais.

    Pois errar, há quem concebe que seja humano, e por este vos justificar. Porém ao modelo para com a perfeição, já não mais.
    Então o erro pelo erro quando quisera ser desumano, tivera outro preço de arcar.

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  9. Caro António Piedade:
    A centúria era constituída por 80 homens agrupados em 10 grupos de 8 que partilhavam uma tenda (contubernium). Era este grupo de 80 homens era comandado por um centurião.

    José Paulo Andrade
    ( www.pbase.com/jandrade )

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  10. Caro José Paulo Andrade,
    Obrigado pelo reparo. Contudo, a composição da centúria variou com o tempo e contexto, tendo inicialmente sido composta por 100 militares.
    Mas a sua observação é pertinente. Aponta para o problema com que me confronto sempre que escrevo um texto com limitações de espaço. Não devo transmitir erros, mas muitas vezes as próprias fontes são inexactas e divergentes as autoridades. O que fazer? não escrever sobre o assunto? Ou fazê-lo com a ressalva de que há dúvidas sobre o mesmo, ou esperar que alguém mais conhecedor do mesmo me corrija?
    Quando é o caso, opto muitas vezes por esta última.
    O diálogo é importante na comunicação, quer seja de ciência ou poesia. Exactamente para a verificação do conteúdo, para a compreensão do modo como foi transmitido no contexto das limitações da forma. Mas também para nos fazer reparar naquilo que nos escapou e assim começar a preencher as erratas que acompanham o homem que erra!
    António Piedade

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  11. Acrescento ao meu último comentário.
    Neste caso, deveria ter escrito, logo no original, que a centúria foi inicialmente composta por 100 legionários, mas a sua composição alterou-se ao longo da história romana? Ou simplesmente ter escrito que o centurião era aquele que comandava uma centúria de soldados romanos e deixar que o leitor mais curioso fosse à procura da sua composição?
    Hoje, inclino-me até mais para esta última.

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  12. Comentário recebido de GA:

    Guilherme de Almeida disse ...

    Caríssimos

    No ink
    http://latindictionary.wikidot.com/noun:mille-passus
    podem encontrar-se informações curiosas sobre essas designações latinas da milha romana.

    Tenho um artigo escrito, semelhante, mas sobre a milha náutica (actualmente denominada milha marítima internacional), o seu significado e vantagens práticas.
    Guilherme de Almeida
    g.almeida@vizzavi.pt

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  13. Caro Dr. António Piedade:

    Tanto barulho por coisa nenhuma! Tirando o pormenor da designação, já corrigida, de MILLE por MILLIA, o seu artigo nada tem que se lhe diga em termos de correcta informação, matéria em que me julgo versado por dever de ofício e afeição. De facto, o termo "centurião", durante o período clássico por excelência,ou seja, o período tardo-republicano, era já, por assim dizer, um fóssil linguístico que não correspondia às funções que lhe eram cometidas. Alteraram-se as estruturas, mas perdurou o termo. Se na altura primordial da formaão legionária ,o centurião comandava efectivamente um punhado de cem cidadãos em armas ("milites"), com o tempo passou a comandar 250 homens, ou seja, meia cohorte, o que quer dizer que cada legião, num total de 5000 soldados, possuía 20 centuriões, passando o mais qualificado a chamar-se o "primus pilus", sendo particularmente célebre o "primus pilus" da décima cohorte da décima legião do exército cesariano a operar nas Gálias. Assim é que é! Para um centurião chegar a essa categoria teria de ser objecto de 20 promoções. Era obra! É com estes centuriões que teremos de nos haver nas nossas reflexões, como foi o sseu caso, caro Doutor. Faça como Ulisses, pondo cera nos ouvidos... para não ter de ouvir o enganoso canto das sereias! JCN

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  14. O quê de tanto conhecimento coisa nenhuma? Coisa algumas, ilustríssimo JCN!

    Haveria o que vos bastasseis
    ou baixadas e ruas inexatas
    aos momentos de lentidão
    por caminhos percorridos
    são de tristes em oração
    ter desejos, por semblantes
    esfumaçam na trigueira
    em constante constelação
    sinos são sinais das tabuleiras
    cópias sagradas ao teu afã
    seguem por entre missões
    que fogem de ti vazios do adro
    falecidas em possuídas construções
    vozes sem vento que temem alados
    deverias ao presente deste, sentir
    o que sente, quando da tábua
    tua rasura sem delongas
    ou figuras paginam teu dia
    tua sorte, em que dias entre o norte
    vigoras dos teus escombros a ser encantado.

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  15. A unidade mínima de uma centúria é o contubernium: constituído por 8 legionários e dois auxiliares logísticos. O número 80 e o número 100 podem estar ambos corretos, dependendo do que se fala.

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  16. A primeira tropa de Engenharia mais organizada foi a do Exército romano, denominadas "fabri" (do latim fabricare). Tinham treinamento especializado em locais específicos que hoje seriam consideradas escolas, e deixaram obras como estradas, pontes, fortificações por toda a Europa, muitas ainda existentes. Leonardo da Vinci e Galileu fizeram muitos projetos com finalidades militares. Uma curiosidade, o compasso, inventado por Galileu nasceu como um instrumento militar.

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  17. As medidas anteriormente ao sistema métrico eram antropomórficas. No entanto, cada civilização fixou estas medidas constituindo padrões regulamentares.
    No caso do Império Romano, a Unidade Fundamental de Medidas é o Pé = 296,3 mm, pelo que uma Milha (de 5000 pés) = 1481,50 m

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