sábado, 27 de março de 2010

O Terceiro Homem












A revista Nature publica esta semana um artigo de quatro páginas que vem revolucionar completamente a nossa história recente. É uma história dos nossos dias como espécie, não dos nossos dias de pessoas com uma vida evolutivamente muito curta, o que é válido para qualquer espécie.

A equipa de Svante Paabo, do Max Planck Institut de Leipzig, publicou os resultados da análise do DNA mitocondrial de um Homo sapiens que viveu no sul da Sibéria há cerca de 30-50 mil anos. O DNA foi extraído da falangeta do quinto dedo da mão. Graças à sua preservação no gelo, foi possível extrair uma quantidade suficiente de DNA em muito bom estado, o que é extremamente raro.

A análise desse DNA mitocondrial, por comparação com o nosso, o de Neandertais, que entretanto se conseguiu obter, e o de chimpanzés, produziu resultados absolutamente inesperados.

O que há de absolutamente especial no homem de Denisova? Não é facto – real - de não pertencer à nossa sub-espécie, isto é, não é um Homo sapiens sapiens, ou seja um homem moderno actual. É que este homem de Denisova também não é um Neandertal. Trata-se de um terceiro Homem!

A distância genética (medida em número médio de nucleótidos diferentes, isto é, de letras trocadas no DNA) entre nós e os Neandertais é de 202 posições nucleotídicas. A distância entre nós e o Homem de Denisova é de 385 posições. Por comparação, a nossa distância em relação aos chimpanzés é de 1462 posições. Isto que dizer que o Homem de Denisova é mais diferente de nós que o Homem de Neanderthal. Supondo que o tempo de divergência entre nós e os chimpanzés é de seis milhões de anos, isso significa que os nosso antepassados e os do Homem de Denisova se terão separado há cerca de um milhão de anos (muito antes da separação humanos-Neandertais: 500 mil anos).

Até hoje, pensava-se que nos últimos 500 mil anos teriam existido apenas duas sub-espécies da espécie Homo sapiens: Nós e o H. sapiens neandethalensis. Este último, que ocupou grande parte da Europa, durante os últimos 300 mil anos, extinguiu-se há 28 mil anos, com as últimas populações conhecidas encontradas na Península Ibérica. Foram avançadas várias hipóteses para a extinção dos Neandertais que parece ser acompanhada da progressão dos humanos modernos; umas mais benignas que outras para a nossa linhagem. Mas não fazia parte do quadro conceptual que pudessem existir outras formas, mais formas de humanos, com divergências relativamente antigas e cujas populações persistiram até tão recentemente.

Há alguns anos levantou-se a polémica possibilidade de o designado ‘hobbit’, descoberto na Ilha das Flores, no mar de Timor, ser uma espécie ou sub-espécie diferente da nossa, que desapareceu há pouco mais de dez mil anos. Em alternativa, poderia tratar-se de um caso de nanismo e de mais uma série de patologias reunidas num único indivíduo. Não está ainda resolvido qual das duas hipóteses é a correcta. O mistério do Homem das Flores ainda se encontra em aberto.

A descoberta deste Homem de Denisova, de que não há mais do que aquele fragmento de esqueleto, vem colocar o nosso passado evolutivo num quadro muito diferente. Se este siberiano é um terceiro homem, porque não aceitar que o homem das Flores é um quarto. E, se assim é, torna-se muito mais plausível admitir mais sub-espécies noutras regiões isoladas. A nossa espécie parece, assim, ter um carácter muito especioso, isto é, com tendência para frequente separação entre populações e rápida evolução em sentidos diversos.

Tudo isto é muito surpreendente. A falangeta do Homem de Denisova aponta para um passado bem diferente do que imaginávamos. Esperemos para saber o que nos dirá a análise do DNA nuclear. Este é um verdadeiro filme de suspense, como o ‘terceiro homem’ de Carol Reed.

7 comentários:

  1. Mas como desapareceram os Neanderthais e os Denisotas ?! Terão sido extintos naturalmente ? Terão os cro-magnons os exterminado? à paulada , provavelmente!!

    Cumpts,
    Madalena

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  2. José Batista da Ascenção28 de março de 2010 às 16:10

    Eu, nada credenciado no assunto, sinto às vezes que os Neanderthais não se extinguiram ainda, e que serão mesmo abundantes na zona ocidental da Península Ibérica. E alguns terão mesmo largas capacidades, pelos menos as necessárias para acederem ao poder legislativo e exectuivo cá do rectângulo. Parece-me também que os restantes: nós, incluindo eu e a minha família, temos particular tendência para os "escolher a dedo", mediante eleições democráticas, e os colocar nos lugares de responsabilidade. E em momentos de maior estupor chego a admitir que não haverá português que não transporte um ou outro gene típico de longínquos antepassados. Racionalmente curvo-me, porém, respeitosamente, perante as opiniões dos geneticistas. Eles que falem. E digam. E se precisarem dos meus próprios genes para analisar, gratuitamente os ofereço, sob o compromisso de que sobre as minhas mazelas, enquanto indivíduo, se guardará reserva. Quanto ao resto, disponham.

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  3. E eu teria continuado a ler não houvesse aquele ponto final...
    Imagino, quando penso nestes assuntos fascinantes, se não terá existido uma era em que tenhamos convivido com outros grupos de hominídeos, de sub-espécies dentro da nossa, se teremos interagido, se teremos miscigenado, se teremos entrados em lutas territoriais, se, na nossa luta pela supremacia da espécie, não os teremos aniquilado pela violência, por um lado, ou pela miscigenação, por outro.
    Fascinante.

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  4. Por que é que estes gajos hão-de aparecer sempre em lugares... tão esquisitos?!... JCN

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  5. ao que parece, através de análise de ADN seria fácil detectar eventuais sobreviventes Neandertais
    entre nós sapiens (?)
    Conheço uma família em Évora que me parece tipicamente Neenderthal, Cromagnon, sei lá, pré-sapiens, e que, estou seguro, não se oporia a submeter-se a análises desse tipo.
    Já lancei o desafio aos cientistas da área (antropólogos)mas nunca ninguém se mostrou interessado na possibilidade de vir a associar o seu nome à descoberta de interesse mundial que assegure a sobrevivência do Homem Primitivo entre o sofisticado Sapiens

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  6. Meu caro amigo Platero: será que a sua Transtagânia está destinada a fornecer-nos um elo mais da brumosa cadeia dos hominídeos?!... A crer em si e nos seus conhecimentos pessoais, há boas perspectivas. Deus o ouça e faça com que a sua Évora salte da penumbra da modernidade para a gloriosa claridade dos primórdios do ser humano! E que eu ainda cá esteja... para o constatar! JCN

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  7. HOMO CHAPIENS

    Quando a Universidade é incapaz
    de fazer progredir a humanidade
    de forma vigorosa ou eficaz
    pelo que toca à sua identidade;

    quando de facto a Universidade,
    sem nisto haver espírito mordaz,
    não tem, para o fazer, capacidade,
    parece estar andando para trás.

    Será concretamente a situação
    do caso português, sem distinção,
    que longe de tornar o "homo sapiens"

    mais engenhoso, aberto e cogitante,
    determinado a olhar para diante,
    insistem em procriar o "homo chapiens"?

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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