domingo, 27 de dezembro de 2009

O QUE MUDAVA NA CIDADE DE COIMBRA?


Meu depoimento publicado no jornal "Público" de hoje:

A Biblioteca Joanina da Universidade, uma das jóias da cidade de Coimbra, foi construída no século XVIII sobre uma prisão medieval, que mais tarde foi prisão académica. Quando, a páginas tantas, os livros deixaram de caber na Joanina, o Estado Novo construiu o actual edifício da Biblioteca Geral. A Biblioteca nova, tal como a velha, não foi construída sobre o vazio, mas sim sobre a antiga Faculdade de Letras, que por sua vez foi feita sobre o antigo Teatro Académico. Uma cidade faz-se à medida das suas necessidades e ambições.

A Biblioteca Geral, com mais de um milhão de obras e documentos, está hoje a rebentar pelas costuras: não cabe lá mais nada. Está, portanto, na hora de mudar. O espaço da Penitenciária de Coimbra, mesmo às portas da Universidade e entre dois notáveis jardins, oferece-se como a solução, pois deixou há muito de servir como prisão. Aí deve erguer-se a "Casa do Conhecimento" de que a Cidade do Conhecimento precisa. Numa estreita colaboração da Universidade com a Câmara, Coimbra poderá ter a maior biblioteca-arquivo do país, com base nos valiosos fundos das Bibliotecas Geral e Municipal, assim como nos ricos espólios dos Arquivos da Universidade e Municipal, e com a ajuda das tecnologias que fazem as mais modernas bibliotecas e arquivos. Poderá ser um grande centro de desenvolvimento cultural, que saiba ao mesmo tempo preservar a memória e desbravar o futuro.

18 comentários:

  1. José Batista da Ascenção27 de dezembro de 2009 às 20:45

    Ah, se em Coimbra se fizer isso! Será que se faz?
    Os que por lá passámos, e que temos por Coimbra uma nostalgia muito particular, quase temos dúvida de que tamanha coisa se concretize. Não virão uns empreiteiros prometer construções vistosas com outros fins? Não se inventarão uns negócios extraordinários que privem não apenas os conimbricences, nem a zona centro, nem apenas o país, mas todos quantos, vindos de qualquer parte do mundo, possam desfrutar do muito que Coimbra pode dar? E que bom que seria apoiar também a jóia científica e urbanística que é o Jardim Botânico? E já agora melhorar o Jardim da Sereia, que, desde que o conheço, e excluo aqui talvez os últimos cinco anos, porque nunca mais lá fui, me pareceu sempre um espaço mal valorizado. E eu queria, a exemplo do que fiz com todos os lugares da Coimbra que vivi, poder ainda visitá-lo com orgulho junto dos meus filhos.
    Perdoem se este escrito soa a lamechice, mas, realmente, quanto mais se afastam do (meu) presente os tempos idos de Coimbra, mais eu a sinto como especial, embora abaixo do prestígio e da consideração que (me parece que) a todos devia merecer

    ResponderEliminar
  2. José Batista da Ascenção27 de dezembro de 2009 às 21:41

    Ele há coisas!... Pois não é que li o título como se estivesse no presente em vez do imperfeito, e a interrogação me passou por afirmação?!... E por isso saiu o comentário anterior... Resta que não vem do desejo expresso nenhum mal ao mundo. Só que era bom demais, para passar de sonho/desejo.

    ResponderEliminar
  3. Ao falar-se das últimas grandes alterações urbanísticas da Alta coimbrá, designadamente a construção da actual Faculdade de Letras, vem-me à ideia a polémica travada à volta da residência de Eugénio de Castro, que foi preciso demolir para dar lugar ao referido edifício universitário, o que por desgosto terá originado o falecimento do carismático Poeta, que não terá resistido à grave "afronta". Será que um dia também irá abaixo a histórica "canforeira" que, por trás da torre da Universidade, derrama o seu hindustânico perfume pelos seus entornos? Esperemos que não... para que também não se desgostem os Montezumas de Carvalho, nados e criados à sua centenária sombra! JCN

    ResponderEliminar
  4. ESTRANHO AROMA

    Nas ruas de Coimbra que Deus guarde
    há um odor difícil de explicar
    prioritariamente sobre a tarde
    nos dias de calor canicular.

    Vindo de algures, não se sabe donde,
    ouve-se o canto ardente da cigarra
    que na copa das árvores se esconde
    cortando o ar como uma cimitarra.

    Respira-se um aroma oriental,
    extravagante, de jardim botânico,
    como se fosse um hálito hindustânico.

    Será que brota da árvore ancestral,
    a canforeira,que ainda se conserva
    ao pé da escadaria de Minerva?

    JCN

    ResponderEliminar
  5. José Batista da Ascenção29 de dezembro de 2009 às 19:21

    O que conheço junto à escadaria de Minerva é um tulipeiro (Liriodendrum tulipifera L.), bem conhecido como a árvore-do-ponto, por florir por altura dos pontos (exames), razão por que os estudantes lhe terão dado esse nome, nome que acabou por se tornar a designação vulgar da espécie em Portugal.
    Gostei do soneto.
    E também me lembro do meu professor de genética: o Prof. Dr Montezuma de Carvalho, um professor com aptidão para o desenho (caricaturava alguém em 1-2 minutos e pintava), mas atrapalhava-se com a enorme confusão de livros, quadros e quanta papelada acumulada no seu gabinete, sempre que nos abeirávamos para qualquer esclarecimento. Quando, na condição de orientador científico dos estagiários do Liceu José Falcão, se aproximou mais de nós - o grupo restrito de estagiários - mostrou-nos um gato que tinha conservado num frasco com formol havia mais de 30 anos, notável por ter só um olho no centro da testa - um ciclopes. Também nos falou da carta que possuía em seu poder, provinda de alguém a meter a "devida" cunha para Salazar ser admitido na Unviversidade de Coimbra. Na altura dizia que havia de publicar a coisa, não sei se publicou ou não. Mas fiquei a saber que um professor que nos parecia distante, e com uma dicção pouco expressiva, era uma pessoa inteligentíssima e de uma enorme sensibilidade. Já agora só mais um pormenor: um dia, enchia ele o quadro com a resolução de um problema de genética, quando um dos colegas, dos poucos que ainda tentava seguir o raciocínio disse para o do lado: "o gajo enganaria-se?"; como ele ouviu, olhou a plateia (isto na sala com o nome do prof. Quintanilha), virou-se novamente para o quadro, correu mentalmente o que tinha feito, virou-se outra vez para os alunos e, olhando por cima dos óculos, afirmou gravemente: "o gajo enganarou-se"!

    ResponderEliminar
  6. Se gostou do soneto, aqui vai outro... dedicado à memória do filho mais velho do Prof. Joaquim de Carvalho, ou seja, o Dr. Joaquim de Montezuma de Carvalho, ilustre magistrado e advogado, amigo meu, recentemente falecido, o qual, como primoroso ensaísta que era, algumas vezes dissertou sobre a árvore em questão:


    Quando no pátio da Universidade
    da Lusa-Atenas por acaso passo
    vem-me à memória em todo aquele espaço
    a sua amiga personalidade.

    Vezes sem conta, na correspondência
    que comigo trocou, fez alusão
    que ali tivera a sua residência
    nos tempos de estudante, que lá vão.

    Lembrava sobretudo a canforeira
    que por detrás da Torre perfumava
    toda a área que ficava à sua beira.

    Ainda hoje lá se encontra por sinal
    essa árvore hindustânica, ancestral,
    de que nas suas cartas me falava!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

    ResponderEliminar
  7. José Batista da Ascenção30 de dezembro de 2009 às 16:18

    Muito obrigado.

    ResponderEliminar
  8. Prosseguindo no mesmo tema e tom:

    LÁ CONTINUA!

    Por atenção a si, meu nobre Amigo,
    hoje passei pela Universidade
    que foi durante a sua mocidade
    o seu paterno e doce lar antigo.

    E não deixei de ir ver a canforeira
    que por detrás da Torre derramava
    um cheiro oriental que perfumava
    a sua ex-residência toda inteira.

    Dei-lhe saudades suas na ilusão
    de que ela de bom grado as recebeu
    e com destino a si... mas devolveu.

    Enquanto a canforeira estiver lá
    e Deus me permitir andar por cá
    alvo será da minha devoção!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

    ResponderEliminar
  9. E que Deus permita que ande por cá muitos anos. E que continue a escrever assim.
    Obrigado outra vez.

    ResponderEliminar
  10. " A ÁRVORE-DO-PONTO"

    (A quem teve a gentileza de ma recordar)

    O tulipeiro existente
    às escadas de Minerva
    ainda lá se conserva
    para lembrança da gente?

    Assim como a canforeira,
    tem também a sua história
    pois é como uma bandeira
    da académica memória.

    Sempre que ela florescia,
    esse evento coincidia
    com as testes escolares

    que do ponto se chamavam
    e que em casos singulares
    dos exames dispensavam!

    JCN

    ResponderEliminar
  11. José Batista da Ascenção31 de dezembro de 2009 às 12:21

    A João de Castro Nunes, pela sensibilidade, delicadeza, sentimento e qualidade da escrita: se tem alguma obra em verso dedicada a Coimbra ou à Academia ou relacionada, bem que eu gostava de a conhecer e adquirir.
    Obrigado. Obrigado. Obrigado.
    Deste humilde "filho de Coimbra", a quem a "mãe" nada deve.

    Desejo-lhe Bom Ano. E apetece-me deixar-lhe um Abraço. Que aqui fica. Para que o sinta, tal como (Lho) deixo.

    ResponderEliminar
  12. Corrijo a gralha "as testes" por "os testes". Distracçaõ- JCN

    ResponderEliminar
  13. Ainda divagando em torno à canforeira:

    ARCA DE CÂNFORA

    Foi o poder da cânfora existente
    por trás da Torre da Universidade
    que garantiu, conforme eu estou crente,
    a sua singular longevidade.

    Com seu forte poder desinfectante
    baniu do tempo a acção destruidora
    mantendo-a viva, activa e actuante,
    alheia à tentação niveladora.

    Como antigo escolar que dela fui,
    motivo de honra ainda constitui
    as suas aulas ter frequentado.

    Vezes sem conta tenho já pensado
    que foi devido à velha canforeira
    que ela se conservou desta maneira!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

    ResponderEliminar
  14. COIMBRA... AGORA

    (Em polémica com o Dr. Joaquim de Montezuma de Carvalho à volta de Torga, que não era santo da sua devoção)

    Ilustre, grato e assumido filho
    da Coimbra dos lentes e futricas,
    como resposta a todas as rubricas
    aponto-lhe os critérios que perfilho!

    Atenha-se ao presente da cidade
    sem preocupações revivalistas,
    cosmolita, o encanto dos turistas,
    velhinha... a respirar modernidade!

    Desligue-se da sua "canforeira"
    que é letra morta e nem sequer já cheira
    por mais activo olfacto que se tenha!

    Mais dia menos dia será lenha,
    mas os versos de Torga, se calhar,
    por toda a eternidade irão durar!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

    ResponderEliminar
  15. CORRIGENDA
    Onde no 7º verso se lê "cosmolita" deve ler-se "cosmopolita". JCN

    ResponderEliminar
  16. José Batista da Ascenção1 de janeiro de 2010 às 22:15

    Abençoada Canforeira.
    Torga telúrico, nosso, de todos, para sempre.
    Mas se eu pudesse, obrigava João de Castro Nunes a escrever poesia, sobre o que quisesse, com o dever de mostrar mais dessa Coimbra que transporta no peito. Mostre-no-la, como a sente, porque é bonita deveras, assim pintada pela sua mão/coração.

    ResponderEliminar
  17. Deslumbrado e, ao mesmo tempo, grato pelas suas benevolentes apreciações, acaso imerecidas, devo dizer-lhe, meu caro Dr. José Baptista da Ascensão, que, no pressuposto de a Administração abrir um post sobre Coimbra, eu teria o maior gosto em colaborar, a título de comentário, com alguns dos meus poemas alusivos, e aina em parte inéditos, à "nossa" bem-mada cidade, que ambos "trazemos no peito". Que o Novo Ano lhe seja propício!

    JCN

    ResponderEliminar
  18. A gratidão é minha. E acerca do que agradavelmente sinto nunca quem mo proporciona imerece os meus agradecimentos. Como poderia isso ser?
    O que poderíamos fazer para a Administração (lhe) abrir um post sobre Coimbra? Coimbra bem o merecia. E João de Castro Nunes também. Espero que não se importe de não lhe chamar Doutor. É que assim fica mais João de Castro Nunes.

    ResponderEliminar

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.