quinta-feira, 5 de setembro de 2019

XISTO, UMA PEDRA, NO FALAR DAS GENTES, TRANSFORMADA EM ROCHA, NOS MANUAIS DE ENSINO


Antes de ser pedra, o xisto foi poeira de argila misturada, sobretudo, com quartzo pulverizado durante os processos de erosão e transporte). 

Levada pelos rios a caminho do mar profundo, onde foi vasa (lama) e onde, com o passar dos milhões de anos petrificou, esta poeira transformou-se em xisto argiloso. 

No falar dos geólogos, o termo “xisto” (do grego, xystós, fender), dito isoladamente, é ambíguo. Tem de ser precisado com o adjectivo “argiloso” porque há outros xistos que, tendo começado por ser argilosos, deixaram de o ser, na sequência de transformações no âmbito do metamorfismo. 

A forma lamelar (como nas micas) das minúsculas partículas argilosas determinou a fissilidade ou xistosidade desta rocha, quando o sedimento, que começou por ser, ficou sujeito a compressão. Esta característica que se revela pela aparência folheada e pela facilidade com que se deixa abrir segundo os correspondentes planos, está na base do termo brasileiro, folhelho, sinónimo do nosso xisto argiloso. É, sobretudo, no centro de Portugal, entre Castelo Branco e Coimbra, uma região do soco antigo marcada geologicamente pela presença significativa do Complexo Xisto-grauváquico, de idade câmbrica, que se situa a chamada Rede das de Aldeias de Xisto, que integra 27 aldeias, distribuídas por 16 concelhos. 

A aldeia de Piódão, na Serra do Açor, concelho de Arganil, publicitada turisticamente como a “Aldeia Histórica de Portugal", é considerada uma das mais significativas desta relação do Homem com esta pedra e, sem dúvida, uma das mais belas do País. 


Com esta rocha, em tosco e de obtenção relativamente fácil, as populações rurais, desde as mais primitivas, construíram pelas suas próprias mãos, sem qualquer intervenção de engenharia ou arquitectura, muros, choças, cabanas, habitações e outras obras, Nos dias de hoje e numa intervenção de pendor artístico, que pouco ou nada tem de rural, o xisto guindou-se a material de eleição de uma corrente arquitectónica moderna, especialmente posta em prática em vivendas. 

Um esclarecimento adicional e importante. Na verdade, a par do xisto, que deu nome sonante a estas aldeias, há sempre, mas sempre, uma outra, nunca falada, mas muito mais importante, quer em termos de solidez da pedra (mais coesa e rígida) usada nas ditas construções, quer em termos da respectiva quantidade. 

Essa outra pedra chama-se grauvaque, um nome que a geologia foi buscar ao alemão, “Graywacke” (termo introduzido na nomenclatura litológica, em 1789, por Otto Lasius) que significa pedra cinzenta. 

Enquanto que “xisto” é uma palavra antiga e de uso popular, em Portugal, “Grauvaque” é um jargão do foro geológico, só aqui chegado com os nossos geólogos pioneiros de finais do século XIX. Não admira, portanto, a omissão desta importante rocha nas referidas construções e no discurso a elas alusivo. 

Mas o que é o grauvaque? É uma rocha sedimentar arenítica, coesa, com mais de 15% de matriz (muito fino), ocupando praticamente todos os vazios. Os grauvaques são rochas exclusivamente marinhas profundas, próprias do Paleozoico e do Precâmbrico. A sua génese está associada a um tipo particular de correntes marinhas que promovem uma alternância de deposição de materiais finos (argila e silte), de que resultam os xistos, e materiais arenosos que dão origem ao grauvaque. 

Se quiser ir um pouco mais adiante, saiba que o grauvaque é um arenito impuro, de granularidade variável (de grãos finos a grosseiros), que contêm quartzo (20 a 50%), feldspatos sódicos e/ou potássicos, micas, litoclastos siliciosos, pelíticos e, muitas vezes, vulcaníticos. No cimento, além de minerais argilosos, com destaque para a ilite e a clorite, é comum a presença de carbonatos (calcite e/ou dolomite), sílica e óxidos de ferro. Da matriz faz parte uma fracção primária, sinsedimentar, e uma outra, secundária, pós deposicional, resultante de alterações de grãos minerais e líticos mais ou menos instáveis, no decurso dos processos diagenéticos tardios e metamórficos.
A. Galopim de Carvalho

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