O semanário "Expresso" colocou-me algumas perguntas sobre ciência e fé para um trabalho que foi publicado no último número da revista "Única". Aqui estão elas juntamente com as respostas:
P- A circunstância de um cientista ter uma fé religiosa de qualquer tipo, isto é, ser crente, condiciona-o no seu trabalho? Limita-o? Tira-lhe objectividade, discernimento ou capacidade de análise?
R- Há, como sempre houve, muitos cientistas crentes e há também muitos cientistas não crentes. De entre os primeiros é justo destacar o italiano Galileu
Galilei e o inglês Charles Darwin, cujas obras são motivo para comemorações à escala mundial em 2009, que protagonizaram episódios de conflito entre ciência e religião (Darwin chegou a estudar para pastor anglicano, foi uma pessoa religiosa
durante largos anos e só no fim da sua vida se declarou agnóstico). Mas pode também referir-se o inglês Isaac Newton e o checo
Gregor Mendel (este último era mesmo monge agostiniano). Nos cientistas ateus ou agnósticos, o caso do norte-americano e
suíço Albert Einstein é algo especial pois ele, à maneira do holandês Bento
Espinosa, substituía Deus pela “harmonia cósmica”. Podem também incluir-se nesse grupo os norte-americanos Richard Feynman e Carl
Sagan, embora estes tenham sempre respeitado e até enaltecido o sentido do religioso (o segundo procurou até bastante a aproximação com líderes religiosos, nomeadamente em defesa do nosso planeta). Alguns cientistas deste segundo grupo têm vindo a ter intervenções bastante mediatizadas nos últimos tempos em favor do ateísmo: por exemplo, o biólogo inglês Richard
Dawkins, que tem empreendido uma espécie de “cruzada” contra a religião, e o físico norte-americano, galardoado com o Nobel da Física tal como Einstein e Feynman,
Steven Weinberg, talvez menos
prosélito do que
Dawkins mas também com posições ateístas bastante claras. Não conheço estatísticas sobre a crença dos cientistas, mas, sendo estes pessoas comuns antes de serem cientistas, é natural que neles se encontrem os mesmos fenómenos de crença ou de descrença que se encontram na sociedade em geral. Em particular, é natural que se encontrem nos cientistas as mesmas afiliações religiosas que se encontram na sociedade em que vivem (um outro Prémio Nobel da Física, o físico paquistanês
Abdul Salam, era muçulmano). Como a sociedade moderna é mais laica e como a “confissão” pública de descrença é mais socialmente aceitável, é também natural que cada vez mais se ouçam vozes de cientistas que expressam dúvidas sobre Deus ou mesmo que afirmam as suas certezas individuais em desfavor de Deus.
Dito isto, fica claro que se pode ser cientista e ter ao mesmo tempo uma fé religiosa. Muitos exemplos da história da ciência e da actualidade mostram que é pacífica a coexistência de ciência e religião. De uma forma apenas metafórica, direi que ocupam partes do cérebro diferentes. Não penso, por isso, que a crença religiosa de um cientista o limite, que lhe retire objectividade na ciência que faz. Um cientista sabe que quando está num laboratório, não está numa igreja e que quando está numa igreja não está num laboratório. Claro que haverá sempre excepções que confirmarão esta regra...
P- Qual é a diferença fundamental entre uma teoria científica e uma crença religiosa?R- Ciência e religião devem ser vistas como maneiras diferentes, muito diferentes até em vários aspectos, de encarar o mundo, que correspondem a necessidades humanas diferentes. Apesar das diferenças, julgo que elas fazem bem em respeitar-se mutuamente. A ciência é a descoberta do mundo, recorrendo à racionalidade e à experimentação. Está pronta a corrigir os erros se houver suficiente evidência para eles, conseguindo assim progredir ao longo do tempo. A religião é um outro tipo de visão do mundo, que não assenta na racionalidade nem na experimentação. Assenta em geral em dogmas que têm uma tradição histórica profunda e que não podem ou que muito dificilmente podem ser revistos. Quando um cientista é dogmático não está a ser científico. E quando um religioso está disposto a rever continuamente as verdades da sua religião, não está a ser religioso.
Nos casos de Galileu e Darwin houve "choque" entre descobertas científicas e dogmas estabelecidos relativos ao lugar da Terra
e no Universo e à origem do homem. O caso de Galileu, o autor do método científico, está hoje reconhecidamente ultrapassado, tendo até a Igreja Católica, passados vários séculos, reconhecido o seu erro. Parece até que Galileu vai ter uma estátua nos jardins do Vaticano. No caso de Darwin, que curiosamente está sepultado na catedral de Westminster, em Londres, o ”choque” chegou até aos dias de hoje, com os
criacionistas a combaterem a teoria da evolução por vários meios, principalmente nos Estados Unidos, mas já com preocupantes afloramentos na Europa. No
blogue “De
Rerum Natura” temos acompanhado esses
desenvolvimento não de uma forma neutra, mas tomando partido pela ciência e contra a anti-ciência que o criacionismo representa. De facto, querer como alguns querem que nas aulas de ciência se ensine o criacionismo ao mesmo tempo que o evolucionismo é um absurdo completo pois não se pode ensinar como ciência o que é precisamente o oposto dela. O irracional poderá ocupar o seu lugar, mas não pode ocupar o lugar do racional. Uma tal atitude poderia até ser um atentado contra a democracia, pois alguns autores dessas ideias perseguem ideais teocráticos, que no fundo pretendem a subordinação do Estado a ideologias religiosas.
P- Quando se discutem (ou testam, como no LHC) os primeiros instantes do Universo há espaço para a ideia da intervenção divina na criação?R- A ideia de que houve um “
Big Bang”, isto é, o início do espaço-tempo, tem uma base lógico-empírica bastante sólida. Neste momento não há sequer uma teoria alternativa que seja minimamente consistente. Portanto, não é uma ideia de base religiosa. O facto de essa ideia moderna coincidir, apenas de uma maneira geral e vaga, com uma ideia bastante antiga da Igreja Católica, é sem dúvida curioso. A este respeito lembro que um dos autores da
teoria do “
Big Bang” foi o astrofísico belga
Georges Lemaître, que era sacerdote católico. E acrescento que vários altos dirigentes religiosos se congratularam com o que chamaram a “base científica” da criação descrita na Bíblia. Mas é óbvio desde o tempo de Galileu que a Bíblia não é um livro de ciência... Os astrofísicos não trabalharam com base na Bíblia para agradar ao Papa. Olham com atenção para o céu com poderosos telescópios, instrumentos muito superiores aos que Galileu usou há quase 400 anos, e são hoje capazes de fazer experiências na Terra que recriam, por pequenos tempos e em pequenos espaços, as condições que terão existido por todo o lado no cosmos primitivo. As suas conclusões, por absoluta falta de informação, nada dizem sobre o que se terá passado antes do “
Big Bang” (a pergunta sobre a causa do “
Big Bang” é legítima, mas não pode ser respondida pela ciência). Os astrofísicos não podem nem aliás querem provar a existência ou a inexistência de Deus. O astrofísico inglês
Stephen Hawking e outros falam, de facto, de Deus, mas trata-se de uma imagem, uma imagem que tem força e impacte... Einstein também falava de Deus sem acreditar em qualquer Deus pessoal. O físico norte-americano
Leon Lederman fala de “partícula de Deus” a propósito do procurado bosão de
Higgs. Essas imagens podem ser e são muitas vezes perigosas porque dão a entender que há uma mistura entre ciência e religião quando, de facto, não há. Elas mostram apenas que alguns cientistas são uns bons comunicadores...
P- A Igreja Católica tem uma longa história de repressão e condicionamento do pensamento científico que remonta, pelo menos, a Galileu? A posição actual é diferente?R- Sim, a Igreja Católica já se penitenciou a propósito do caso Galileu. Há hoje um Observatório Astronómico no Vaticano, a cargo de jesuítas, onde se realiza investigação científica. O próprio Papa tem convocado cientistas e teólogos para alguns encontros sobre ciência e fé. Também não penso que haja tensão actualmente a propósito da evolução, embora possa haver a esse respeito palavras menos felizes de um ou outro membro do clero. Nisto a Igreja Católica distingue-se de algumas igrejas evangélicas, que têm ideias radicais baseadas na Bíblia. Contudo, não se pode dizer que não haja tensão entre a ciência e a
Igreja a respeito de outros assuntos, nomeadamente sobre os limites éticos da moderna investigação biomédica. Muitos biólogos e médicos acham que são conservadoras as posições oficiais da Igreja sobre algumas questões de biologia e medicina, nomeadamente a utilização de células
estaminais. Provavelmente assistiremos a uma evolução das posições da Igreja neste domínio à medida que a ciência evoluir e a tecnologia associada se revelar
benfeitora do homem.
P- O cientista no seu trabalho segue um protocolo rigoroso, com verificação de leituras, comprovação de factos e cálculos, etc. Fica alguma lugar para a inspiração, para a criatividade, para o «tiro do escuro»?R- Em primeiro lugar, embora sem ser de tipo religioso, o cientista também tem crenças no seu trabalho. Um cientista tem de acreditar na sua hipótese. A grande diferença relativamente à fé religiosa é que o cientista tem de estar preparado para deixar de acreditar na sua hipótese se a experiência não a confirmar. Sim, há um grande lugar para a inspiração e para a livre criatividade no trabalho científico. Por exemplo, só certos génios são capazes de certas hipóteses geniais. E nem eles sabem de onde lhe vêm essas intuições. Pode dizer-se até que há algo de irracional na racionalidade científica, embora as modernas
neurociências tenham vindo a procurar esclarecer o modo como funciona o cérebro humano. Vai, com certeza, saber-se mais sobre ele e talvez se verifique que a criatividade em ciência não é lá muito diferente da criatividade artística - o cérebro encontra subitamente unidade em algo que parecia desunido. De repente, estabelece um sentido onde não parecia haver sentido nenhum.
Faz-se luz onde estava escuro. O cérebro humano parece “feito” para procurar um sentido razoável das coisas. É racional. Mas convém acrescentar que o cérebro humano também parece “feito” para dar sentidos não razoáveis, também é irracional. Alberga tanto a racionalidade como a irracionalidade. Na linha de Darwin, há desenvolvimentos científicos recentes que atribuem à evolução humana a origem e desenvolvimento das religiões. Acreditar terá sido uma vantagem competitiva, tanto para um indivíduo como para o seu grupo. Isto é, a pertença a um grupo religioso terá sido um factor que ajudou à sobrevivência do indivíduo e do grupo. Esta ideia, expressa por exemplo pelo filósofo norte-americano Daniel
Dennett ou pelo biólogo inglês Lewis
Wolpert, ainda não é consensual e está a fazer o seu caminho. Não sabemos ainda o suficiente, mas é curioso que o aparecimento e a afirmação do fenómeno religioso sejam hoje objecto de pesquisa científica...
P- Há descobertas por acaso, como a da penicilina. A «serendipidade» é aliás frequente na história das grandes descobertas. Que papel pode ter o acaso na descoberta científica?R- O acaso tem certamente um papel na descoberta científica. Acontecem coisas aos cientistas – por exemplo estar num certo sítio a uma certa hora – que podiam não acontecer. Claro que é preciso estar atento ao acaso, que só assim pode ser um acaso criativo. Por exemplo, as descobertas da radioactividade e dos raios X, no final do século XIX, poderão ter sido casuais. Contudo, distinguiria esse tipo de acaso da “
fezada”, a intuição do que vai acontecer que se expressa sob a forma de uma hipótese científica. Uma hipótese não costuma ser por acaso, antes se baseia em teses anteriores devidamente testadas e comprovadas.