sábado, 7 de novembro de 2015

"É a civilização, e não meramente a cultura, que a educação deve aspirar a transmitir"

Uma constante nas orientações internacionais para a educação e para a formação no quadro dos sistemas de ensino (à escala mundial) é (exclusiva ou tendencialmente) a preparação para o mercado de trabalho, numa lógica de competição aguerrida, com vista a dar resposta a desafios económicos globais. Tudo e todos têm de se submeter a essa lógica implacável!

Apesar de a escala de referência ser "o global", a incidência é "no local": a ordem é preparar crianças, jovens e adultos para o tecido industrial, comercial, de serviços... regional e nacional. A isto acrescenta-se uma pretensa educação para a cidadania, que, entre outras peculiaridades, de um modo doutrinador muito estratégico, convocando as noções de tolerância e de respeito, reforça a pertença cultural, grupal, étnica...

Sei bem que a preparação da pessoa que se educa, que se forma para integrar os conhecimentos da humanidade e para compreender o seu valor (intrínseco e instrumental) é um discurso (que se faz notar) passadista. Ainda assim, vale a pena reler quem o defende.
“A nossa humanidade comum é necessária para caracterizar o que é verdadeiramente único e irrepetível da nossa condição, enquanto a nossa diversidade cultural é acidental. Nenhuma cultura é insolúvel para as outras, nenhuma brota de uma essencial tão idiossincrática que não possa ou não deva misturar-se com outras, sofrer o contágio de outras. 
Esse contágio (…) é precisamente o que pode chamar-se civilização. E é a civilização, e não meramente a cultura, que a educação deve aspirar a transmitir (…). Aquilo a que nos referimos ao falar de civilização e também de universalidade é a essa potencialidade, que cada cultura possui, de transmutar-se nas outras todas, de não ser uma verdadeira cultura sem transfusões culturais das outras e sem traduções ou adaptações culturais das outras. 
Não se trata de homogeneizar universalmente (um dos pânicos retóricos mais reiterados, a americanização mundial, etc.), mas sim de romper com a mitologia autista das culturas que exigem ser preservadas, idênticas a si mesmas, como se todas não estivessem a transformar-se continuamente, durante séculos, por influxo civilizador das outras (…). 
A tarefa educativa mais apropriada para o nosso mundo hipercomunicacional consiste precisamente em potenciar essa tendência comum e ameaçada para a variedade, mas não para o tribalismo (…). 
Porventura, o afã histérico de ser inconfundível e impenetrável para os outros seja apenas uma reacção face à evidência, cada vez mais óbvia, de que os homens se parecem demasiado, evidência que antes só era sentida por alguns espíritos mais avisados (…). Perderam-se assim muitos matizes? Espreita-nos a homogeneidade universal? Não o creio (…). Para esse processo inovador é bom que a educação prepare também as gerações que vão vivê-lo (…). 
O que realmente está hoje em perigosa alta é, de novo, o recurso às origens como condicionamento inexorável da forma de pensar, isto é, dividir o mundo em duetos estanques de índole intelectual. Quer dizer, só os nacionais de uma nação podem compreender as outras pessoas dessa mesma nação, que só os negros podem entender os negros, os amarelos os amarelos e os brancos os brancos, que só os cristãos compreendem os cristãos e os muçulmanos os muçulmanos, que só as mulheres entendem as mulheres, os homossexuais os homossexuais e os heterossexuais os heterossexuais. 
Cada tribo deve permanecer fechada em si mesma, idêntica de acordo com a sua identidade, estabelecida pelos patriarcas ou caciques do grupo, ensimesmada na sua pureza de pacotilha. E que, portanto, deve haver uma educação diferente para cada um destes grupos que os respeite, isto é, que confirme os seus preconceitos e não lhes permita abrir-se e ser contagiado pelos outros (…). 
Pois bem, aqui temos outra tarefa para a educação universalizadora, ensinar a atraiçoar, racionalmente, em nome da nossa única verdadeira pertença essencial - a humana -, tudo o que de exclusivo, fechado e maníaco exista nas nossas filiações acidentais, por muito acolhedoras que estas possam ser para os espíritos comodistas que não querem mudar de rotinas ou procurar conflitos. É compreensível o temor face (…) a uma escola mais preocupada em suscitar fervores e adesões inquebrantáveis do que em favorecer o pensamento crítico autónomo. 
A formação em valores cívicos pode converter-se, muito facilmente, em doutrinamento (…); a explicação necessária dos nossos principais valores políticos pode, também facilmente, resvalar para a propaganda, reforçada pelas manias castradoras do politicamente correcto (…). 
Seria suicida que a escola renunciasse a formar cidadãos democratas, inconformistas (mas em conformidade com o que o modelo democrático estabelece) inquietos pelo seu destino pessoal (mas não desconhecendo as exigências harmonizadoras do público). Na desejável complexidade ideológica e étnica da sociedade moderna (…) fica a escola como o único âmbito geral que pode fomentar o apreço racional por aqueles valores que permitem a convivência conjunta aos que são satisfatoriamente diversos. 
E essa oportunidade de inculcar o respeito pelo nosso mínimo denominador comum não deve, de modo algum, ser desperdiçada.” 
Fernando Savater, 1997.
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Referência completa; Savater, F. (1997). O valor de educar. Lisboa: Editorial Presença.

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