segunda-feira, 31 de março de 2014

CRENDICES NO TELEJORNAL DA RTP

Crónica publicada primeiramente em vários jornais regionais.



Vivemos numa sociedade científica e tecnológica. Por isso, o conhecimento científico deve estar acessível a todos para garantir uma melhor cidadania em democracia. De facto, o convívio com o pensamento científico desenvolve uma atitude crítica, uma opinião própria mais esclarecida e fundada na verdade dos factos.

A ciência permite aceder a um melhor conhecimento do mundo em que vivemos, permite erradicar as superstições, os obscurantismos e as crendices. Estas últimas sempre foram usadas por charlatões para enganar falaciosamente os outros, num aproveitamento vigarista da ignorância.

Os meios de comunicação social são veículos muito importantes para a comunicação do conhecimento científico. São uma ponte fundamental entre os cientistas e o público em geral. Contudo, verifica-se que o espaço por eles dedicado a assuntos científicos e tecnológicos é muito insuficiente tendo em conta o papel que a ciência e a tecnologia ocupam no nosso dia-a-dia.

Um caso melhor estudado é o da televisão. Segundo o relatório “Ciência no Ecrã”, realizado pela Entidade Reguladora da Comunicação Social e pelo Instituto Gulbenkian da Ciência, apenas 0,8% do tempo dos telejornais em horário nobre é dedicado à ciência, sendo que a duração média das peças de ciência no telejornal da RTP, por exemplo, é de cerca de três minutos.

Recorde-se que a televisão pública é financiada por todos os consumidores de electricidade em Portugal (através da contribuição audiovisual), incluindo os cegos e os surdos, para além das transferências do Orçamento de Estado, pelo que devemos ter, no mínimo, uma atitude de exigência de qualidade e seriedade no serviço público prestado. 

Acontece que a televisão pública decidiu recentemente incluir no Telejornal das oito, não uma rúbrica de ciência, mas um espaço relativamente destacado para divulgar crendices e pseudociências (ou seja, actividades que, apesar de aludirem a uma pretensa base científica, de ciência não têm nada).

Em cinco rúbricas emitidas a televisão pública gastou 34 minutos e 39 segundos do Telejornal a fazer publicidade enganosa a produtos e serviços milagrosos. Como bem sintetizou o comunicador de ciência David Marçal (aqui e aqui), o Telejornal da RTP deu tempo de antena a: um especialista em "medicina popular" que afirma fazer diagnósticos médicos medindo, aos palmos, a roupa dos pacientes; «a um "endireita" que diz ter um "dom" que "herdou do pai", que trata "males dos ossos e dos nervos de uma forma que não tem explicação", mas que terá demonstrado, com um galo, a validade do seu tratamento em tribunal; a uma cartomante que diz acertar em 90% das vezes; a uma fitoterapeuta que afirma fazer diagnósticos de doenças graves através da leitura da íris, e que diz tratar o cancro de uma paciente com uma raiz que "tem a forma do corpo humano" e conclui dizendo que "a quântica pode determinar a data da morte do ser humano"; a um médium que afirma "incorporar" os espíritos "de quem partiu, geralmente santos" para curar diversos males».

Estas rúbricas, que a RTP apresenta com o título enganoso “acreditar” (nada do que é apresentado é credível!), são autênticas publicidades enganosas a actividades nada verosímeis, para além do que são apresentadas sem qualquer contraditório. Num serviço de natureza jornalística a televisão pública dá tempo de antena a um conjunto de aldrabices. Isto não é serviço público. Serviço público seria contribuir para desmistificar aquelas crenças.

Como comunicador de ciência, o mínimo que se me impõe é o de avisar o leitor para esta situação escandalosa. Não se deixe enganar e exija seriedade e profissionalismo jornalístico na televisão pública.


António Piedade

9 comentários:

  1. A mim parece-me crendice a forma como coloca a sua fé na ciência e na tecnologia para garantir a cidadania e a democracia. Foi na sociedade mais científica e tecnológica da Europa que se aviltou a cidadania e a democracia. O veículo da ciência é sempre o homem. Crendice parece-me também o dizer-se que a leitura da íris não possa ter fundamento científico. Quando era menino o médico lia-me a língua e os olhos, coisa caída em desuso não porque sejam falsos aqueles métodos mas porque o acesso a análises é mais simples do que era. Sempre foram indicadores do estado de saúde. O coito interrompido era praticado como método anticoncepcional muitos séculos antes de Cristo sem que se tivesse descoberto os espermatozóides e a sua função. O conhecimento empírico não é desprezável nem desprezível. Afrimá-lo é pouco científico e contraproducente. Outra coisa é separar o trigo do joio. É que andam sempre juntos.

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    1. Pastor, o que parece nem sempre é, crendice e fé provêm da sua religião e que não passam no crivo científico, da Europa não percebi, o veículo da ciência é o metodo cientifico, e é para todos, o da religião é a crença e a fé para tirar o dinheiro e mandar para o inferno, os que utilizam o certo e a razão. Leitura da íris por quem ou o quê, a visão é o que mais nos ajuda, mas o que melhor nos engana. Quando foi menino já existia "A Evolução de Darwin". O trizavô de cristo, era mais inteligênte, já se masturbava e sabia que... certo. Afirmá-lo pode ser científico, se passar pelo metodo e não contraproducente, e não andam sempre juntos no fim de separá-los, para os perceber basta dissecá-los para saber distingui-los, podiam é ter evoluido juntos. Abraço. F.O.

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    2. Caro Fernando Oleiro,
      A evolução de Darwin não conseguiu que o Fernando tivesse percebido o que escrevi. Lamento pelos dois.

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  2. A comunidade científica em geral deveria fazer mais pressão para que a RTP apresentasse programas e notícias sobre Ciência. Infelizmente, o nosso atraso cultural está também ligada à péssima informação que circula nos canais televisivos.

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  3. Confesso que, frequentemente, me sinto um ente estranho dada a quantidade de pessoas, que me rodeiam, que acreditam nas coisas mais assombrosas, desde a cartomancia à astrologia, passando por hipotéticas manipulações de energia, bruxaria (mesmo) e tantas outras. Há uma enorme panóplia de crenças que a serem verdade já há muito nos tínhamos auto extinguido. Nessa linha tenho, ainda, a registar uma colega e a sua preferência por música com taças tibetanas que, frequentemente, deixa a tocar na nossa sala , acho que com o intuito de nos dar um ambiente calmo.... confesso que já, muitos de nós, pensamos em a esganar!
    Curioso é que muitos dos crentes, são colegas das chamadas Ciências Exactas e nos deixa , aos de História , um forte sabor a Idade Média.
    Aliás este fenómeno e a feudalização da economia às grandes empresas que conduz ao fim do Estado moderno é, mesmo, o retorno à Idade Média.
    Ivone Melo

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    1. Se calhar é mesmo melhor retornar a uma Idade Média já que a ciência continua fora do controle dos cientistas, servindo agendas e cruzadas perigosas para a prórpia sobrevivência da humanidade, tal como a conhecemos!!! Há alturas que, se calhar, o melhor é queimar a ciência e voltar ao velho bom sensoque nos permitiu chegar até hoje, apesar de tudo.

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    2. Notícias e intenções transhumanistas como estas, certamente fazem-nos duvidar se a ciência não está apenas a ser usada para decompôr e destruir o Homem. A imortalidade é uma parvoíce em si mesmo e a melhor evidência de que a ciência é cada vez mais uma crença consolidando uma ideologia anti-humana: http://www.youtube.com/watch?v=ckwGUai_Vvk

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  4. A falta de contraditório é que me parece ainda mais grave.
    Mas será que os espectadores se deixam levar na cantiga ou o que os prende ao televisor é a curiosidade de ver até onde vai a maningância? Os mágicos e ilusionistas sempre fascinaram.
    A comunidade científica tem tudo para ganhar espaço na TV, mas se não tiver público...E talvez o problema seja esse. Se a ciência tivesse tantos aficcionados como o futebol...A ciência espectáculo também tem os seus inconvenientes.
    Será que nos países mais avançados as televisões conseguiram "massificar" a ciência, como "massificaram" a música e o desporto, por exemplo?

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    1. Excelente questão.
      A ciência não pode explicar todas as facetas necessárias à existência e tenho dúvidas que isso fosse benéfico sequer. Muita gente busca nas artes do oculto uma melhor compreensão de si mesmo, assim uma espécie de oportunidade de sair da mentalidade convencional e retornar ao mistério original da Vida e da existência, através de um desafio proprioceptivo consigo mesmo. A ciência é uma crença como as outras, por mais que ela tenha produzido obra, infelizmente tornou-se excessivamente materialista... e facto não tem que se assim.

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