terça-feira, 4 de março de 2014

Ao estilo Sokal

"Nos últimos anos, muitos estudos têm-se dedicado à criação de chaves públicas e privadas de criptografia; por outro lado, poucos sintetizaram a visualização do problema do produtor-consumidor. Dado o estado actual de arquétipos eficientes, importantes analistas notoriamente desejam uma emulação do controlo de congestionamento de rede, que incorpora os princípios fundamentais de hardware e arquitectura."
O que acha o leitor(a): Este parágrafo é credível? É compreensível? Terá sido extraído de um estudo científico? Estas perguntas fazem-no certamente desconfiar... Talvez o(a) levem a pensar ter sido, vá lá... mais uma brincadeira de estilo Sokal.

Pois, é mais ou menos isso, mas num estado de ironia mais aperfeiçoado... É, pasme-se, um extracto de um suposto artigo produzido por computador. Quer dizer, produzido por um programa especial sem intervenção de mão humana.

Há quase uma década, alguém criou esse programa para mostrar (mais uma vez) a desatenção, o desleixo, o que-quer-que-seja, patente em muitos processos de arbitragem científica.

Parece que duas editoras de revistas consagradas, daquelas onde toda a gente está mortinha por publicar, alteradas por um perito em computação, retiraram de circulação para cima de cem "artigos" que haviam publicado entre 2008 e 2013 (ler aqui e aqui).

6 comentários:

  1. e onde até mortos publicam5 de março de 2014 às 20:05

    Nature, Sci.American, etc e quem as compra tirando as universidades do 3º mundo?

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  2. O que me espanta ainda mais é a) ninguém de entre os utilizadores da IEEE ou da Springer ter detectado a charlatanice, se efectivamente já havia "artigos" destes publicados desde 2008! e b) quantos "artigos" desses foram rejeitados pelos especialistas que os avaliaram e, se sim, porque não denunciaram?! Estará a história bem contada?...
    Excelente blogue e excelente post, obrigada.
    Susana Rodrigues

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  3. O que eu gostaria mesmo de saber é o que pensa o Alan Sokal disto.

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    1. Também me interroguei se a história seria real. Perguntei a quem sabe mais do que eu destas coisas, que me disse que havia grandes possibilidades de ser.

      Sokal é capaz de pensar que, em tão pouco tempo, a realidade superou-se a si mesma. E que as ciências "duras" e "moles" se uniram nesta corrida de "contabilidade de artigos".

      Helena Damião

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  4. Pois eu descansei um bocadinho. Porque não tinha entendido nada do artigo. E já pensava que o erro estaria em mim.

    Há grande desplante e pouca ética em quem assina um artigo produzido por uma máquina. Mas também poucos leitores atentos. Ou estariam como eu, a suspeitarem de si próprios.

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  5. Perhaps
    Podemos considerar, de facto, uma falta de ética e de "amor pela ciência" assinar artigo produzidos por uma máquina, assinar o mesmo artigo várias vezes, manipular e inventar dados para compor artigos, etc, etc, etc. Porém, quando a avaliação dos investigadores passa apenas pela quantidade de publicações, o problema não está só do lado deles. Quem faz questão de manter uma "ética a toda a prova", tem, aliás, poucas possibilidades, já nem digo de triunfar, mas de se manter na instituição de pertença.
    Penso, então, que a responsabilidade das frequentes fraudes em trabalhos académicos terá de ser repartida entre as entidades que definem os critérios de avaliação, as instituições em que a investigação decorre e os investigadores.
    Mas, entretanto, muitos trabalhos que não passam de verdadeiros embustes continuarão a ser publicados em revistas menos ou mais conceituadas.
    MHD

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