segunda-feira, 23 de setembro de 2013

CONCORRER EM 2013 A UMA BOLSA É UM TIRO NO ESCURO

Transcrevo, com a devida vénia, o artigo de Nicolau Ferreira publicado hoje no Público, a propósito do concurso de bolsas individuais da Fundação para a Ciência e Tecnologia, cujo prazo termina hoje.


Os três meses de limbo começam a contar a partir de hoje. O prazo das candidaturas ao concurso de bolsas individuais da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) termina nesta segunda-feira, às 17 horas.

Os resultados só serão anunciados daqui a 90 dias. Até lá, Cristina Matos, Francisco Leitão, Ana Filipa Ferreira, e Carolina Bento, que concorreram a estas bolsas, vão ter de esperar para saber como vão ser os próximos quatro anos.

Anualmente, alguns milhares de candidatos com vontade de se especializarem — parte deles com a esperança numa carreira científica —, atravessam esta espera. Mas as hipóteses de se ganhar uma bolsa individual de doutoramento da FCT em 2013 parecem mais reduzidas.

"A FCT não anuncia quantas bolsas estão a concurso, tendo apenas ameaçado com mais cortes", diz ao PÚBLICO Francisco Leitão, 28 anos, candidato que quer fazer um doutoramento na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, centrado na forma como a Europa olhava para a Península Ibérica no século XV, com base em relatos de viajantes. "Pretendo recriar as impressões, preconceitos ou choques sentidos por um europeu do século XV", explica. Mas o que espera do concurso? "Independentemente da qualidade do projecto ou do curriculum vitae [do candidato], qualquer prognóstico é um tiro no escuro." Há alguns dados que podem ajudar a decifrar a escala da redução das bolsas, temida pelos candidatos com quem falámos. No concurso de 2012 foram atribuídas 1198 bolsas individuais de doutoramento e 677 de pós-doutoramento, cujo prazo de candidatura este ano também termina hoje. Em 2007, no pico do financiamento da FCT, a relação foi de 2031 bolsas para 914. Desde aí, o número tem vindo a descer.

No final de Junho, a presidência da de bolsas individuais que serão concedidas, pois o orçamento para 2014 encontra-se em discussão", referiu ao PÚBLICO o gabinete de imprensa da FCT na sexta-feira, três dias depois do seu presidente, Miguel Seabra, dizer na Comissão de Educação, Ciência e Cultura, na Assembleia da República, que a verba atribuída à fundação no Orçamento do Estado 2014 deverá aumentar, mas este aumento será para as despesas com novas competências da FCT.

Última oportunidade

O que se sabe é que as candidaturas tanto a bolsas individuais de doutoramento como às de pós-doutoramento têm subido. Em 2011, foram 5285 candidaturas, 3775 para doutoramentos. No ano seguinte o total passou para as 6490.

Para 2013, a FCT explica que só vai poder aferir esse número a partir de amanhã, quando o concurso ficar fechado e for possível "contabilizar as candidaturas lacradas". Mas a ABIC diz ter recebido um "fluxo semelhante aos outros anos de pedidos de reclamações e dúvidas para as candidaturas", conta-nos André Janeco, presidente desta associação.

Para Cristina Matos, 30 anos, esta é a terceira e "última oportunidade" para conseguir a bolsa de doutoramento. Pelo menos em Portugal. Cristina está a trabalhar no grupo de Química Organometálica e Bioorganometálica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). A jovem investigadora tem um percurso diferente dos outros candidatos com quem o PÚBLICO falou, já que começou por tirar a licenciatura em Física e Química na área do ensino na Universidade dos Açores, deu aulas e só mais tarde, em 2008, é que tirou o mestrado em Química Inorgânica e Biomédica. "Quando fui para a licenciatura sempre quis ir para a área de investigação", diz. A primeira vez que se candidatou para uma bolsa de doutoramento já tinha a tese de mestrado feita mas não tinha artigos publicados, o que desvalorizou o seu currículo. Em 2011 começou a trabalhar neste grupo da FCUL e no ano passado candidatouse de novo à bolsa sem conseguir.

Agora, voltou à carga. "Vou bem preparada. Mas nunca assumo que vou conseguir a bolsa porque nunca se sabe", confessa. No seu projecto de doutoramento vai investigar moléculas com elementos metálicos. "Estou à espera de desenvolver um composto mais próximo para aplicar na medicina", explica. Além disso, se ganhar a bolsa, quer aproveitar estes quatros anos para estabelecer contactos, fazer colaborações e avaliar quais as futuras oportunidades profissionais que terá.

Mas sente as limitações que a crise está a trazer à actividade científica. "Mesmo em relação a 2011, a sensação que me dá é que a burocracia cresceu. As pessoas que deveriam ter mais tempo para a investigação ficam mais presas a justificações orçamentais e a procurar por outras fontes de financiamento", exemplifica. Isto, já por si, pode limitar a capacidade de apoio que os orientadores dão aos alunos de doutoramento— que apesar de toda a experiência, estão ainda numa fase de aprendizagem da sua carreira —, mas Cristina Matos defende que estes problemas são ainda mais insidiosos nos peqquenos grupos de investigação.

"Os grupos maiores têm pessoas vocacionadas para fazerem propostas. Quando isso não há, torna-se complicado gerir tudo", explica, acrescentando que esses grupos "vão acumulando projectos e os mais pequenos não o conseguem, apesar da qualidade, por falta de dimensão."

A incerteza e a escassez do financiamento para o trabalho científico podem, para Helena Freitas, "acabar por condenar a própria investigação", defende a bióloga e professora da Universidade de Coimbra. "É inegável que a insatisfação da própria comunidade que acolhe os estudantes também começa a ser muito grande, até porque a carga lectiva dos docentes é cada vez maior", refere. Apesar disso, a bióloga considera que continua a valer a pena tirar o doutoramento em Portugal onde os grupos são globalmente competitivos.

A experiência de Maria Mota dá-nos um contexto da evolução portuguesa recente. "Enquanto em 1995, quando sai para Londres para fazer o meu doutoramento não havia grandes opções em Portugal, hoje os jovens têm uma grande gama de escolha com muitos laboratórios a serem referências internacionais", defende a especialista em malária e líder de uma equipa no Instituto de Medicina Molecular, em Lisboa. Mas avisa que "em tempos de crise, com menos acesso à obtenção de projectos por parte dos investigadores, o número de equipas de investigação nestas condições começa a reduzir".

Mas as duas investigadoras são peremptórias na necessidade dos doutorandos. "Não há ciência sem alunos de doutoramento. São eles a base de um sistema científico de sucesso", diz Maria Mota.

Condições piores

Há outros factores que pioram as condições de um doutoramento. Além da mensalidade das bolsas de 980 euros não ser actualizada há mais de dez anos, há uma série de mudanças que limitam as possibilidades de quem escolhe esta via.

No último ano lectivo, os alunos que ganharam uma bolsa mista e já tinham iniciado este tipo de doutoramento — feito a meias numa universidade portuguesa e noutra estrangeira —, viram as regras mudar. A FCT deixou de pagar as propinas de ambas as universidades, e passou a pagar só as da instituição que confere o grau. No final de Julho de 2013 haviam 2007 bolsas mistas em execução, 126 destas era a instituição estrangeira a conferir o grau.

A FCT cortou ainda o subsídio de execução gráfica da tese, que pode custar algumas centenas de euros e que, segundo André Janeco, também ajudava a pagar os emolumentos do final do doutoramento. Além disso, os 750 euros anuais que os alunos tinham direito para a apresentação de trabalhos em reuniões científicas — uma ajuda fundamental quando estas acontecem noutros países —, passaram a ser concedidos uma única vez nos quatro anos do grau.

Mas qual é a importância destas conferências? "Por um lado, vemos o que os outros países estão a fazer [no nosso tema] e podemos aprender com isso. Por outro, damos a conhecer aquilo que estamos a fazer aqui. É assim que a ciência evolui", responde-nos Ana Filipa Ferreira, 26 anos, que há quatro está a trabalhar no Centro de Oceanografia da FCUL e da Universidade de Évora.

Ana Filipa Ferreira é bióloga de formação e esteve nestes últimos quatro anos com bolsas de projectos científicos e fez ainda alguns trabalhos de monitorização ambiental encomendados por empresas ao centro. Agora candidatou-se a uma bolsa de doutoramento para um projecto que tem como objectivo a regulamentação da pesca nos estuários dos rios portugueses para "maximizar o lucro económico e a conservação das espécies de peixe", resume. "Espero poder contribuir para o país."

Se não conseguir a bolsa, as perspectivas não são muito boas. "O projecto onde estou acaba no final do ano e têm sido poucos os projectos aprovados. Apesar de trabalhar há quatro anos, os bolseiros não têm direito a qualquer subsídio de desemprego. Terei de voltar para casa dos meus pais", antecipa.

Alguns têm mais sorte. Carolina Bento, 25 anos, sente-se uma "felizarda". Se não ganhar a bolsa da FCT, pode contar com os seus pais. "Sei que muita gente não vai ter essa oportunidade."

A jovem tirou a licenciatura em Engenharia Informática no Instituto Superior Técnico. Fez aqui o mestrado onde estudou as ligações virtuais de "pessoas influentes" nas redes sociais. A Internet vai continuar a estar no centro no doutoramento. Desta vez, irá analisar redes sociais com localização geográfica como o Foursquare onde pode estudar "padrões de movimentos diários ou as pessoas que vão de férias".

Francisco Leitão já foi prejudicado pelo atraso do concurso das bolsas deste ano, que só abriu no final de Julho, um problema apontado desde logo pela ABIC. Por isso, vai ter de tomar a decisão de se candidatar ao doutoramento em Cambridge antes de saber se ganhou a bolsa. "Como muitos outros doutorandos, terei de começar a minha investigação já em Outubro com a necessidade de pagar imediatamente propinas", conta, acrescentando que as alternativas para se financiar serão contrair um empréstimo ou, "muito provavelmente" arranjar um trabalho.

O estrangeiro é uma opção tentadora. Cristina Matos refere que se não conseguir a bolsa, poderá virar-se lá para fora. Francisco Leitão aponta as condições da Universidade de Cambridge, que terá "mais medievalistas do que em todo o nosso país", além de bibliotecas com mais material para consultar sobre Portugal do que cá. E depois do doutoramento, vai voltar? "É provável que não. Nesta como noutras áreas, a tendência é para que se fechem portas, se limitem oportunidades e o país se torne mais deprimido."

Nicolau Ferreira
Público 23.09.2013

4 comentários:

  1. Concorrer a uma bolsa FCT sempre foi um tiro no escuro. Isto é, sempre esteve refém da boa disposição de quem lia a proposta. Mas agora, em que as taxas de sucesso, tanto das bolsas como dos projecto, colapsaram para 10% (ou menos), concorrer a uma bolsa da FCT passou a ser algo como dar um tiro no escuro e, ainda assim,acertar no centro de um alvo em movimento. Adorava saber quanto custa ao país ter uma comunidade científica a gastar 25% do seu tempo, ao longo de um ano, a preparar projectos e bolsas...que raramente são aprovadas. Adorava saber quanto custa ao país investir na formação de mestres e doutores que, simplesmente, ficam sem nada. Adorava saber quanto custa ao país conceder metade das bolsas a estrangeiros que, raramente, por cá ficam quando finalizam a bolsa (em especial, os pós-doutoramentos).

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  2. Em primeiro lugar, é uma asneira que uma pessoa com bolsa de projecto anos a fio, tendo resultados, tenha que perder 4 anos com uma bolsa de doutoramento tendo mais que experiencia para escrever uma tese. Nao se ve isto em lado nenhum e só demonstra a confusao que esta o sistema cientifico portugues.

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    1. Ninguém impede ninguém de fazer um doutoramento com bolsas de projectos... Só tem que pagar as propinas da instituição que lhe confere o grau...

      Marco

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  3. ??

    Ao fim de seis meses pode entregar a tese e terminar a bolsa. A FCT até agradece.

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