segunda-feira, 23 de setembro de 2013

A QUEDA DOS LIBERAIS E A LIÇÃO DA ALEMANHA

Em 10 de Julho escrevi aqui e no Público num texto intitulado "Consciência e Poder" sobre o aumento desproporcionado da influência do CDS no governo português:
"Ao acumular a vice-presidência do Conselho de Ministros com a coordenação económico-financeira, a ligação à troika e a reforma do Estado, e ao conseguir para o CDS-PP a pasta da Economia, terá lugar uma perversão da democracia, pois dará a um partido que tem 11,7 por cento dos votos uma influência desmesurada no futuro do país. O fenómeno, apesar de exacerbado aqui e agora, não é inédito. Trata-se do problema que a ciência política designa por “poder desrazoável” do terceiro partido. Na Alemanha os liberais (FDP) foram sempre o terceiro partido entre 1949 e 1994, sem nunca terem alcançado uma votação superior a 12,8 por cento. Coligaram-se quer à direita, com o CDU-CSU, quer à esquerda, com o SPD. Na maior parte desse período, o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão foi, por isso, sempre um liberal. No actual governo alemão, chefiado por Angela Merkel, o FDP, que teve uns anómalos 14,6 por cento nas eleições de 2009, detém as pastas de Vice Chanceler e Economia, Negócios Estrangeiros, Justiça, Saúde e Cooperação Económica. Contudo, envolto em profundas contradições, tem caído em desgraça, afundando-se em sucessivas eleições estaduais. As sondagens dão-lhe hoje menos de cinco por cento no país quando as eleições federais são já em 22 de Setembro. Abaixo dessa barreira nem sequer entram no Bundestag."
 Os resultados das eleições de ontem confirmam o previsto. O partido liberal (FDP), "muleta" de Angela Merkel ficou de fora no parlamento alemão. Os resultados foram aliás curiosíssimos, como que funcionando como um "ajuste fino": Nem liberais nem o novo partido defensor do abandono da Europa e do euro tiveram 5%, o mínimo constitucional para entrar no Bundestag. A CDU-CSU venceu mas sem maioria absoluta (embora por muito poucos lugares), sendo obrigada a coligar-se com o segundo partido, o SPD, uma coligação que será provavelmente boa para o projecto europeu. Há ainda a hipótese de de a CDU-CSU se coligar com os Verdes, mas eu  não acredito nesse casamento (e ainda menos numa coligação de contrários, como o CDU-CSU com os  Die Linke).

Em Portugal está tudo tão mal que talvez não fosse má ideia pensar-se uma grande coligação do PS e PSD, naturalmente com outros líderes num e noutro lado  (eventualmente António Costa e Rio Rio), deixando irrevogavelmente o CDS de fora.

4 comentários:

  1. Será que os "empreendedorismo para crianças" perceberam a mensagem? Será que vão despertar do seu sonho liberal-dogmático ou voltar a encher-nos de "lições morais" sobre a maravilhosa purga económica e excelente oportunidade que é a sangrenta austeridade? Claro que não.

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  2. A partidarite portuguesa impede coligações como a sugerida. Não se alcança a floresta, cada árvore quer tapar a outra.

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  3. Pese embora os liberais tenham tido o seu pior resultado de sempre não deixa de ser algo surpreendente, ainda para mais num país tão liberal como a Alemanha.

    O sistema político, por lá, ao contrário do de cá está construído em bases completamente diferentes e basta perceber a forma como por lá e por cá se faz campanha para perceber exactamente isso.

    Os partidos são autênticos cancros.

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