segunda-feira, 20 de junho de 2011

Sobre Bento de Jesus Caraça (1901-1948)


Novo post de António Mota de Aguiar:

Bento de Jesus Caraça, nascido em Vila Viçosa no seio de uma família de camponeses, fez parte da geração dos brilhantes matemáticos portugueses que viveram nas décadas de 30 e 40 do século passado. Ao contrário de alguns matemáticos desta época que se formaram em universidades europeias, Caraça licenciou-se em Lisboa no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (actual ISEG), em 1923, onde mais tarde leccionou como professor catedrático.

Se repararmos que se licenciou aos 22 anos e morreu aos 47, concluímos que em escassos 25 anos construiu uma vida com extraordinário valor onde pontifica a obra matemática e pedagógica que nos deixou. Bento Jesus Caraça não foi tanto um investigador, mas mais um pedagogo, que deu um notável contributo à educação nacional, contribuindo de forma relevante para a preparação profissional da juventude do seu tempo.

Caraça foi co-fundador, em 1936, do Núcleo de Matemática, Física e Química e, em 1938, do Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia, além de ter participado na criação da Gazeta de Matemática., que ainda hoje se edita.

Publicou muitos artigos, deu conferências, como A Cultura integral do Individuo – problema central do nosso tempo, que ficou justamente célebre, e publicou alguns livros como: Interpolação e Integração Numérica, Lições de Álgebra e Análise, Cálculo Vectorial, e, sobretudo, Conceitos Fundamentais de Matemática, obra ainda hoje citada e divulgada.

Em 1941, fundou a Biblioteca Cosmos, dedicada à edição de livros de divulgação científica e cultural, que foi um marco da história da cultura em Portugal do século XX. Ao longo dos 7 anos de vida a Editora Cosmos publicou 114 títulos (sob os mais diversos ramos do saber), 145 volumes, composta por 7 secções, com uma tiragem de cerca de 800.000 volumes. A Biblioteca Cosmos foi, no século XX, a pioneira da moderna cultura científica em Portugal, panorama onde se destaca hoje a colecção Ciência Aberta, da Gradiva.

No prefácio dos seu livro Conceitos Fundamentais de Matemática, Bento de Jesus Caraça, escreveu:

“(…) A matemática é geralmente considerada como uma ciência à parte, desligada da realidade, vivendo na penumbra do gabinete, um gabinete fechado, onde não entram os ruídos do mundo exterior, nem sol, nem os clamores dos homens. Isto, só em parte é verdadeiro.
Sem dúvida, a Matemática possui problemas próprios que não têm ligação imediata com os outros problemas da vida social. Mas não há dúvida também de que os fundamentos mergulham, tanto como os de outro qualquer ramo da ciência, na vida real, uns e outros entroncam na mesma madre”.

Esta obra recebeu da parte de António Sérgio uma virulenta crítica, por este entender que a ciência devia aparecer completamente desvinculada da esfera do sensível, enquanto Bento de Jesus Caraça combatia esta concepção de ciência, defendendo que a intuição do sensível é o fundamento do entendimento do mundo, o objectivo da própria ciência. Deixaremos para outra oportunidade a análise desta temática.

Bento de Jesus Caraça foi militante do Movimento de Unidade Democrática e membro do Partido Comunista Português. Em 1946 foi preso e em Outubro desse ano expulso da sua cátedra de professor do ISCEF. Com o avolumar dos problemas políticos, como a prisão, a doença do coração de que sofria agravou-se e, no dia 25 de Junho de 1948, faleceu.

Dele disse Ruy Luís Gomes:

“E sacrificando tudo, desde a cátedra, de que foi afastado, até às exigências da sua saúde precária, aos grandes valores morais – inteireza de carácter, sentimento de solidariedade e coerência de princípios – deu-nos a todos a melhor lição da sua vida”.

António Mota de Aguiar
(Investigador do Instituto de História Contemporânea da FCSH da UNL)

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