terça-feira, 18 de Janeiro de 2011

DIVULGAÇÃO DE CIÊNCIA

Lancei o seguinte desafio aos leitores do "Diário de Coimbra", desafio esse que expando aqui ao universo de leitores do De Rerum Natura.


Vivemos num sociedade baseada no que decorre do conhecimento científico e tecnológico. Para uma cidadania consciente, parece-me fundamental que o nível de cultura científica e tecnológica seja nivelado por cima e não abaixo da superficialidade que permite os embustes que enriquecem à custa da ignorância colectiva.

Neste contexto, gostava de saber qual a opinião do leitor sobre o estado da cultura científica em Portugal? O que acha da divulgação de ciência que por cá se faz? Quem é que faz divulgação de ciência em Portugal? Qual a sua utilidade, quem beneficia com ela? Qual a sua relação com a divulgação de ciência que se faz noutros países?

Envie-me os seus comentários para momentum@diariocoimbra.pt ou apiedade@ci.uc.pt
Responderei a todos os emails e eventualmente alguns poderão ser publicados neste espaço.

Lanço este desafio no Ano Internacional da Química e dirijo-o a toda a população em geral.

António Piedade

8 comentários:

  1. Respondendo ao desafio de António Piedade, deixo expressas algumas considerações pessoais, acerca do tema proposto. Numa óptica de pessoa meramente interessada por aquilo que o rodeia, nos diversos campos sociais, partindo do princípio que o objectivo da ciência se reflecte em última análise, na tecnologia.
    É com algum desânimo que verifico pelas notícias trazidas a público, que um bom número de cientistas portugueses, atingem notoriedade em países estrangeiros. A este “fenómeno”, penso que esteja associado algum descure por parte dos órgãos governamentais que tutelam a investigação.
    Contudo, e tanto quanto julgo perceber, é em países estrangeiros, como os Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Suíça, etc. que os nossos jovens cientistas, encontram campo fértil para dar continuidade aos seus estudos e investigações, assim como espaço em projectos avançados , para os quais lhes são colocados à disposição, meios técnicos e monetários.
    Verifico ainda e com satisfação, que a qualidade evidenciada pelos cientistas portugueses, os torna apreciados e desejados nos países onde são acolhidos. O que fará certamente com que, num futuro mais ou menos próximo, Portugal, com uma nova política de valorização técnico-científica, possa vir a afirmar-se como uma referência, no campo da investigação e descoberta científica.
    A acrescentar a esta “previsão”, realço a iniciativa de construção do recente centro de investigação da Fundação Champalimaud, na zona ribeirinha de Pedrouços, a qual se dedica à investigação no campo da biomédica.
    Esperemos que este exemplo, sonhado pelo empresário António de Sommer Champalimaud, possa vir a servir de embrião, para que surjam novos projectos, nas diversas áreas da ciência e da tecnologia.

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  2. Transcrevo, com a devida autorização, o comentário que me foi enviado pelo arqueólogo Luís Faria:

    "Trabalhei 10 anos em Arqueologia no nosso pais e agora estou a trabalhar na República da Irlanda.
    1 - As universidades servem para produzir desempregados e não têm qualquer contributo para a sociedade. O conhecimento que produzem está ultrapassado, uma vez que não se baseia nas últimas descobertas arqueológicas, sendo produzido em isolamento feudal. As universidades portuguesas encontram-se desligadas de 99% dos trabalhos arqueológicos, ditos de salvamento.
    2 - Os trabalhos de salvamento são realizados por empresas privadas. Estas empregam profissionais na maioria em condições extremamente precárias, sem condições de higiene e segurança, sem experiência. A falta de experiência é preferida palas empresas porque podem pagar menos e manipular os resultados.
    3 - No trabalho de campo: na Irlanda o que interessa é a experiência e saber fazer, todos começam por baixo, não existem Drs e um cargo implica, antes demais, responsabilidade. Em Portugal o titulo e quem se conhece vem primeiro, a formalidade da incompetência reina aliada à preguiça e intriga. Não existe trabalho de grupo nem discussão de métodos e objectivos.
    4 - A linguagem usada nas publicações cientificas é uma barreira para quem publica e para quem lê, a forma tem mais peso que o conteúdo. Mais importante, não existe critica construtiva dos temas, apenas discussões intermináveis de nada e para nada.
    O resultado: a Arqueologia portuguesa não tem nem peso nem impacto na sociedade. Ninguém sabe o que é a Arqueologia, perdem-se monumentos, perde-se a nossa identidade cultural, os profissionais desistem, emigram ou são internados."

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  3. Transcrevo com a devida autorização um comentário que recebi da Maria Fialho em resposta ao desafio. Por ser longo, vou dividi-lo em dois.

    "É-me difícil acreditar na existência de cultura científica no país que detém os recordes de maior número de telemóveis por habitante, com trocas sistemáticas perseguindo upgrades, sempre na senda da propriedade da última moda, e que apenas os usa para as mais básicas tarefas. O mesmo país tem défices de leitura acentuados e os licenciados sabem ler e escrever deficientemente e, mais ainda, uns não têm esta consciência e outros não querem saber.
    A divulgação da cultura científica de forma sistemática e coerente é feita pontualmente por algumas instituições onde se incluem alguns museus e parentes, como o pavilhão do conhecimento, e universidades que proporcionam encontros abertos ao exterior; os Centros de Ciência Viva, quando abrem, são uma boa surpresa mas depois pecam por não introduzirem novidades, por não criarem uma rotina mecânica de novidade, de mudança e acabam por ser sempre iguais. Há programas televisivos como o Falar Global ou um que dava na rtp2 com o Vasco Trigo, cujo nome não me recordo que 'falam' para as 'pessoas comuns' com linguagem acessível e, de alguma maneira, procuram, ou mostram, uma transversalidade em conteúdos e em públicos alvo. E depois há a internet em geral para curiosos e certos blogues para interessados. Não há literatura de divulgação científica para o cidadão comum, até porque o cidadão comum está mais interessado na divulgação desportiva...
    A Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica não vai ao encontro dos cidadãos: quem precisa dela, por vários motivos, procura-a, ou seja, não há um efectivo relacionamento biunívoco."
    (continua)

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  4. Continuação do comentário de Maria Fialho:


    A utilidade da divulgação científica nem se discute, está relacionada com o grau de comprometimento dos cidadãos com a ciência e as suas aplicações cujo beneficiário é o próprio cidadão. Discute-se (ou seria melhor dizer, fala-se?) muito hoje sobre tecnologia porque esta domina as nossas vidas: os jovens pais colocam um aparelhómetro ao lado do seu filho recém-nascido para o poderem ouvir à distância. É o primeiro gadget do novo homem. A seguir, a rua, e as actividades dela característica, foi substituída por playstations e os pequenos MacGyver's estão em vias de extinção. Todos queremos usufruir das maravilhas da nova era e se decorarmos palavrões como nanotecnologia é porque temos uma doença qualquer e lemos algures - na revista Super Interessante, por exemplo! - que a medicina se socorrerá dela para nos pôr chips a fazer maratonas no sangue que nos vão curar. É o milagre da técnica e da tecnologia ao alcance de todos, e será melhor alcançado ainda se usarmos ecobolas!
    No norte e no leste da Europa há uma maior aproximação da ciência aos cidadãos que começa na escola, com programas com um equilíbrio e um modus faciendi diferente do nosso: a matéria dada em português nos anos que antecedem a (suposta) entrada na universidade é de loucos e com probabilidades de utilização iguais ou inferiores a zero (!). Ora se a própria língua é tratada assim, de tal forma que leva os alunos, hoje jovens, amanhã cidadãos adultos, a odiar regras gramaticais e conjunções verbais, como hão-de ter o mínimo gosto por equações? Se a própria língua, aquela que usam para se exprimir no dia-a-dia lhes surge com tanta prega e tanto alinhavo, como se aproximarão duma química ou das abstracções da física? Isto para não falar da preguiça natural... mas não entrarei por aí e conto com o seu perdão para a forma simplista como coloquei as coisas."
    Areia às Ondas http://areiaasondas.blogspot.com/

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  5. Discordo de "As universidades servem para produzir desempregados e não têm qualquer contributo para a sociedade"; apesar de compreeender perfeitamente qual o sentido e alcance que se pretendia com a frase, é preciso não esquecer que foi nessas universidades que nos foram dadas as ferramentas que nos permitem ter o discernimento actual e a preocupação em fazer chegar a verdadeira ciência aos cidadãos que a ela não têm acesso.
    Tb é nessas universidades que se faz investigação cientifica de mérito e que se criam pessoas com muito a dar e que, se reunidas as condições (o que, realmente, não acontece muitas vezes...), podem vingar e trazer muita ciência à sociedade.

    Compreendo contudo que a frase se aplique maioritariamente ao estado da arqueologia e à universidade enqto instituição de ensino. No entanto, foi nessas universidades que adquirimos as ferramentas que nos permitem ultrapassar esse atraso.

    Aplicado à arqueologia, subscrevo inteiramente. Ninguém sabe o que é e ninguém lhe dá atenção...

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  6. Com a permissão da jornalista Maria João Nunes, transcrevo aqui excertos de um texto da sua autoria e comentário que me enviou a propósito do desafio lançado:

    «O mundo actual, no qual vivemos, tem como uma das suas características fundadoras a presença real da Ciência e da Tecnologia no quotidiano. Como tal, cada vez mais as pessoas são chamadas a participar nos debates e discussões propostos pela sociedade global a partir do domínio de conhecimentos científicos alargados que, regra geral, parecem de difícil apreensão por quem não se movimenta na área. A forma encontrada pela maior parte das pessoas para entrar em contacto com as novas ideias, propostas e produtos gerados pela Ciência é recorrerem aos meios de Comunicação de massas. Perante esta realidade, os media passaram a desempenhar a função estratégica de fornecedores de informação científica, informação essa que permite que todos nos sintamos minimamente alinhados com as questões centrais de um mundo que, sob a égide da Ciência e da Tecnologia, se mostra em transformação rápida e contínua.

    Acompanhando as tendências internacionais, os meios de Comunicação portugueses têm-se empenhado em responder às necessidades de um público ávido em conhecer um pouco mais a Ciência e os seus domínios. Em Portugal, além das secções especializadas e os cadernos temáticos dos principais jornais e revistas, existe ainda uma variedade de periódicos de divulgação científica. Apesar disto, ainda são raros os profissionais qualificados no sector do jornalismo científico, pois são poucas as escolas de Comunicação e os cursos de especialização que preparam os jornalistas para actuarem nesta área editorial.

    Mas, afinal o que é o jornalismo científico? São comuns as referências que invocam as expressões «divulgação científica» e «jornalismo científico» como sinónimos. Pensa-se que a divulgação científica abarca um número elevado de iniciativas disseminadoras do Conhecimento, podendo abranger modalidades variadas de Comunicação, desde uma conversa informal até peças jornalísticas. Entre estas duas expressões há uma rica gama de possibilidades: obras de literatura e poesia, livros didácticos, jogos, estórias infantis escritas ou de difusão oral, banda desenhada, filmes, programas de rádio e de televisão, websites, peças teatrais, músicas, exposições museológicas, entre outras. A amplitude atribuída à divulgação científica tem-se mostrado como um obstáculo dos estudos, a ponto de vários investigadores tentarem circunscrever a prática.
    Há investigadores que propõem a diferenciação entre divulgação e disseminação científica, atribuindo a esta última a função de transferência de informações de caracteres científicos e tecnológicos para um público selecto, formado por especialistas, e transcritas em códigos especializados. Mesmo assim, as propostas de conceituação da divulgação científica ainda se apresentam provisórias.
    Um segundo grupo de estudiosos prefere conceituar a prática em questão através do seu trabalho com a linguagem, o que implica o fundamento da divulgação em Ciência como sendo o empenho na recodificação da linguagem científica, visando com isso favorecer que parcelas de saberes restritos se tornem acessíveis e inteligíveis para um público não especializado. Um terceiro grupo de investigadores prefere centrar as discussões não na questão da linguagem, mas sim na análise dos fins que a tarefa de divulgação deseja.
    (...)
    continua

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  7. Continuação da contribuição da Jornalista Maria João Nunes:
    "Para que serve o jornalismo científico? Qual o papel social atribuído ou, pelo menos requerido, a esta especialidade jornalística? As respostas a este dilema variam de sentido, dependendo de quem as coloca. Agentes governamentais, investigadores, jornalistas e a sociedade, apesar de todas as ressalvas endereçadas à divulgação científica e especialmente ao jornalismo científico, têm propostos direcções, tentando com isto tornar mais concretos e eficientes os conhecimentos sobre Ciência e Tecnologia no contexto da vida colectiva.

    O jornalismo científico é, ao mesmo tempo, resultado e incentivador da sociedade democrática. A constatação desta realidade confere-lhe, assim, novos compromissos. A defesa de um jornalismo interpretativo, condição essencial para um jornalismo científico consequente, tem alimentado múltiplos conflitos entre os divulgadores de Ciência e os empresários da Comunicação inebriados pela ideologia neoliberal e, neste contexto, cabe mais uma vez a pergunta: para que serve, afinal, o jornalismo científico? Uma possível resposta será que o jornalismo científico deve contribuir para uma alfabetização crescente da sociedade para que esta tome consciência de que abusos cometidos em nome de um pretenso conhecimento exclusivo, poderão conduzir levam a desastres sociais que podem e devem ser evitados. Caso contrário, a arbitrariedade, arrogância e ganância não terão limites.

    Envolvidos com propostas mais amplas para a divulgação da Ciência encontram-se também os profissionais que, em nome da prática de um jornalismo analítico, isto é, que não se restringe em traduzir a linguagem especializada dos cientistas, procuram estabelecer uma visão crítica, abordando a produção e a circulação do Conhecimento nos quadros das políticas públicas e das reais necessidades sociais. Parece-me, pois, que o jornalista especializado em Ciência e Tecnologia deve, pois, contribuir para a renovação de uma área do jornalismo que pretende estabelecer e seguir novos compromissos para o século XXI.»

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  8. E ainda um último comentário da Maria João Nunes:

    "...é essencial as instituições/laboratórios/universidades/centros de investigação terem assessores de imprensa que «falem a mesma linguagem» tanto dos investigadores como dos jornalistas. É aqui que entram os divulgadores e os comunicadores de Ciência. Julgo que os investigadores teriam menos problemas com a Comunicação Social se pudessem ter algum dos seus pares em contacto com a Comunicação Social. A opção que muitas instituições têm tomado em contratarem empresas de Relações Públicas e deixarem toda a comunicação nas mãos delas não é a mais correcta, na minha opinião. Porquê? Porque estas empresas têm mais clientes, díspares em actividade, e muitas vezes não conseguem compreender as reais necessidades de comunicação da instituição. E garanto-lhe que um comunicador de Ciência sabe!"

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