quinta-feira, 29 de abril de 2010

GRANDES ERROS - A VIDA DE BRIAN


Já aqui referi que nem um grau em Física nem sequer o Prémio Nobel da Física conferiam imunidade contra o cometimento de grandes erros. O grande Wolfgang Pauli, Prémio Nobel da Física pela sua proposta do princípio de exclusão de Pauli, enveredou a certa altura da sua vida pelo misticismo, procurando soluções mais ou menos esotéricas para problemas de física.

Mas há outros casos, embora poucos, com algumas semelhanças. O físico britânico Brian David Josephson, que obteve em 1973, com apenas 33 anos (o que é, de facto, notável), o Prémio Nobel da Física, em merecido tributo pela sua previsão do chamado efeito Josephson, um fenómeno da área da supercondutividade, conheceu também, tal como Pauli, uma grave crise pessoal a dada altura da sua vida. Procurou sair dela através desenvolvendo o interesse por temas que os seus colegas de física acharam estranhos e da prática da meditação. Tem procurado, embora debalde, soluções físicas para questões esotéricas. Hoje, com 72 anos, Josephson ainda acredita em fenómenos paranormais, para os quais não existe qualquer evidência científica, como a telepatia, julgando ver na teoria quântica as bases de uma explicação.

No ano de 2000, muitos colegas seus criticaram um parágrafo que ele escreveu sobre a teoria quântica para uma publicação dos correios britânicos:

"Quantum theory is now being fruitfully combined with theories of information and computation. These developments may lead to an explanation of processes still not understood within conventional science such as telepathy, an area where Britain is at the forefront of research."

David Deutsch, físico da Universidade de Oxford, não teve papas na língua em apontar a heresia:

"It is utter rubbish. Telepathy simply does not exist. The Royal Mail has let itself be hoodwinked into supporting ideas that are complete nonsense".

Essas críticas não impediram Josephson de continuar a liderar o Projecto de Unificação Mente-matéria na Universidade de Cambridge, cujos resultados têm tido dificuldade em serem aceites em revistas científicas de topo.

A crença na telepatia não é o único erro na vida de Brian Josephson. Ele também acredita, por exemplo, que o fenómeno da fusão fria, anunciado por Fleishmann e Pons, deve ser real e merece mais investigação. Um erro raramente vem sozinho...

9 comentários:

  1. Na verdade, há quem chame à empatia, conferida pelos neurónios-espelho (e ausente, por exemplo, em autistas), a verdadeira telepatia.

    É engraçado, mas aconteceu o mesmo comigo :-p. Tive uma "crise de espiritualidade", vendo tudo sobre a forma de átomos e moléculas, e acabei por me virar para a mecânica quântica, ou melhor, para a filosofia que daí advém. O único erro, penso eu, é partir do principio que o mundo macroscópico funciona da mesma forma q o mundo das partículas sub-atómicas.
    Talvez a espiritualidade resida no desejo egoísta de o nosso EU permanecer após a morte, e no medo que a morte suscita, ou no parco consolo de saber que voltaremos a ser apenas pó de estrelas...queremos sempre algo mais, não é justo desaparecer assim...não consola...

    A questão da telepatia "nasceu" da hipótese de que dois electrões "criados juntos" permanecerem ligados mesmo as grandes distâncias, como se um "sentisse" o mesmo que o outro. O "erro" (pessoalmente não gosto de me referir à fé como um "erro" em si, propriamente) está em esperar que o mundo macroscópico tenha propriedades idênticas.
    Também penso ser um erro negar algo à partida só pq nunca foi propriamente visto ou cientificamente comprovado. A telepatia é uma dessas coisas; se a virmos como um conjunto de características como empatia, perspicácia, poder de dedução, sintonia, etc...voilá, adivinhamos os pensamentos dos outros. Um exemplo: como é que os surdos compreendem os seus interlocutores ouvintes?...leitura labial, em parte. Empatia, contextualização, perspicácia, poder de dedução e sintonia também.

    ResponderEliminar
  2. Lembremo-nos que as teorias de Darwin tb foram contestadas (ainda o são!) e que se levou muito tempo a aceitar as evidências. Só porque algo não foi demonstrado (exemplo: a vida fora do planeta terra, que a lógica nos diz existir, mas cuja prova cabal não existe), não significa propriamente que seja um erro. Peço desculpa, mas tenho esta mania de achar que nada é impossível, o ser humano é que ainda não chegou à resposta...por mais improvável que pareça na altura.

    È somente uma opinião de uma desiludida com a Ciência, eheheh.

    ResponderEliminar
  3. É como o Carlos, também lhe está a acontecer algo parecido com essa crença de que a ciência tem tudo a ver com a poesia, a música, etc.
    E que tal um artigozinho na physical review a falar sobre a relação da poesia com a física, hum?
    luis

    ResponderEliminar
  4. Para se fazer Ciência não basta uma mente analítica. Um espírito aberto, capaz de contemplar diversas soluções, dava uma ajudinha...

    Ai a física não tem nada a ver com a música?... ehehehe...o som, onda mecânica, é pois, invenção humana do Carlos Fiolhais, pois claro...
    ...e Beethoven, Beethoven tb devia ser um grande parvo, qd descobriu como uma usar a anatomia e propagação no som na composição das suas peças musicais, já na altura em que estava surdo..

    ResponderEliminar
  5. Ó Vani, não digas banalidades, toda a gente sabe disso, que as notas são determinadas frequências, que o som são ondas mecãnicas, etc. Mas não é por saber muito sobre esse assunto que faz dum físico um compositor, ou sequer ter ouvido para música e ser capas de tocar um instrumento, assim como um bom compositor não tem que ter jeito para a física ou a matemática, pode ser um nabo nisso, e mesmo um analfabeto ou nem sequer saber ler uma pauta.
    É isso que critico no Carlos, essa mania de arranjar ligações que não existem entre os poetas ou os compositores e a ciência.
    Isso é completamente ridículo, basta olhar para o mundo que nos rodeia, não é preciso fazer um estudo sobre isso.
    luis

    ResponderEliminar
  6. A frase lapidar:

    "David Deutsch, físico da Universidade de Oxford, não teve papas na língua em apontar a heresia"

    Heresia. Que belo termo para um cientísta fazer uso.

    Quanto ao mais, o Carlos Fiolhais bem pode juntar a esta lista os nomes Bohr, Bohm, Heisenberg, Von Neumann, etc, etc. Afinal, estes, tal como Pauli e Josephson, cometeram o "erro" de ,a partir de uma certa altura, não terem embarcado no positivismo infantil de que Fiolhais gosta tanto. Este catedrático de Coimbra é um exemplo soberbo dos horrores da ciência à Kuhn.

    ResponderEliminar
  7. Ó Luís, não perca o seu tempo comigo: sou banal e só digo banalidades. E, enfim, com isto encerro a minha participação banal no que pensei poder ser uma verdadeira troca de ideias, e não uma guerra de egos.

    Até à vista.

    ResponderEliminar
  8. É bem possível que o fenómeno da comunicação telepática tenha a sua explicação científica na física , claro que sim, pertence ao mundo do tempo-espaço. Uma linguagem universal arcaica que a física contemporânea tem dificuldade em provar , em avaliar..., talvez com a ajuda da parapsicologia.

    ResponderEliminar

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.