Facts about the FCT/ESF science evaluation: the story so far

terça-feira, 3 de Junho de 2008

VIDA DE GALILEU

Texto sobre "Vida de Galileu" de Bertold Brecht (na foto) suscitado pela minha participação no colóquio sobre "Retórica e Teatro" realizado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto no ano passado:

Mostrar a ciência em palco constitui uma das melhores formas de fazer cultura científica, isto é, de levar a ciência à sociedade [1, 2]. Nas peças do chamado “teatro científico” (teatro sobre temas de ciência, entenda-se, pois o teatro é uma forma de arte e, por isso, pouco tem de científico) encontram-se boas illustrações tanto do discurso científico como do discurso contrário. Esse teatro, que inclui peças como “Copenhagen” [3] do inglês Michael Frayn, ou “Oxigénio” [4] dos norte-americanos Carl Djerassi e Roald Hoffmann, tem conhecido ultimamente um grande interesse em todo o mundo e também em Portugal.

Mas esse tipo de teatro é mais antigo. A peça “Vida de Galileu” do dramaturgo alemão Bertold Brecht (1898-1956) é perfeita para recolher exemplos da relação entre retórica teatral e retórica científica. “Vida de Galileu”, como o próprio nome indica, mostra o percurso biográfico do matemático e físico Galileu Galileu (1564 - 1642) desde os seus tempos de jovem professor de Matemática na Universidade de Pádua até aos tempos de reclusão domicilária em Arcetri, perto de Florença, depois de ter sido condenado pela Inquisição em 1633 e de ter abjurado publicamente as suas teses mais polémicas. A acção situa-se no início do século XVII, precisamente no tempo de Revolução Científica. Brecht, baseado em factos reais mas não se inibindo de tomar as suas liberdades literárias, põe na boca do sábio pisano (nasceu e estudou em Pisa) algumas das afirmações que abalaram verdades estabelecidas na época, nomeadamente ao advogar a mudança do sistema de Ptolomeu para o sistema de Copérnico, o que significa uma mudança de uma visão estritamente religiosa do mundo natural, baseada numa leitura literal da Bíblia, para uma visão científica, baseada na observação e na experimentação. O papel de Deus passou a ser diferente; num certo sentido, pode dizer-se que se esvaziou.

Na cena três, que se passa na cidade de Pádua em 10 de Janeiro de 1610 (lembre-se que em 2009 se celebra o quarto centenário das primeiras observações celestes com o telescópio, realizadas nos últimos dois meses de 1609), Galileu declara ao seu amigo Sagredo, depois de ter espreitado o céu com o telescópio, instrumento que ele aperfeiçou e que foi o primeiro a utilizar para observações astronómicas, e de ter descoberto as luas de Júpiter, que eram astros que de certa forma confirmavam o sistema de Copérnico (não giravam em redor da Terra):

Não pare de olhar, Sagredo. O que você vê é que não há diferença entre céu e terra. Hoje, 10 de Janeiro de 1610, a humanidade regista em seu diário: aboliu-se o céu.

Uso para a citação a edição brasileira [5], uma vez que se aguarda a publicação entre nós de uma tradução recente de “Leben des Galilei” na colecção de obras quase completas de “Teatro” de Brecht que está em curso na Cotovia (há uma tradução portuguesa de 1970, feita por Yvette Centeno [6], e há traduções de alguns excertos feitas por esse grande germanista que foi Paulo Quintela [7]). A versão original da peça foi escrita em 1937-1939, nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, mas há mais duas, escritas uma imediatamente após a a guerra (1945-1947) e a outra no pós-guerra (1956-1957), sendo muito interessante notar a evolução do texto da peça em paralelo com a evolução dos acontecimentos históricos a meio do século XX, nomeadamente a explosão da primeira bomba atómica que põe fim à guerra e o período de paz na chamada “guerra fria”. Esta evolução encontra-se bem descrita e comentada no livro “Do Pobre B.B. em Portugal” [8], que resultou de trabalhos de investigação efectuados pelo Centro de Estudos Germanísticos da Universidade de Coimbra, que também faz a história das várias representações da peça em Portugal. Recentemente, a peça foi representada no Teatro Aberto, de Lisboa, em versão de João Lourenço e Vera San Payo de Lemos e encenação de João Lourenço.

Mais adiante, na mesma cena, há um diálogo entre Galileu e Sagredo (este amigo existiu mesmo, sendo também o nome do leigo inteligente que surge nos “Diálogos sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo”), que é bem elucidativo das dificuldades de ordem teológica que a “nova ciência” vinha trazer:

Sagredo - Mas você não tem um pouco de juízo? Não percebe a situação em que fica se for verdade o que está vendo? Se você andar por aí gritando pelas feiras que a Terra é uma estrela [sic, aqui no sentido de astro] e que não é o centro do universo?”

Galileu - Sim senhor, e que não é o universo enorme, com todas as suas estrelas, que gira em torno de nossa Terra, que é ínfima – o que aliás era de imaginar.

Sagredo – E que, portanto, só existem estrelas! E Deus, onde é que fica?

Galileu – O que é que você quer dizer?

Sagredo – Deus, onde é que fica Deus?

Galileu em fúria – Lá não! Do mesmo jeito que ele não existe aqui na Terra, se houver habitantes de lá que queiram achá-lo aqui!

Sagredo - Então onde é que fica?

Galileu - Eu sou teólogo? Eu sou matemático.

Sagredo – Antes de tudo você é um homem, e eu pergunto: onde é que está Deus no sistema do mundo?

Galileu – Em nós, ou em lugar algum.

Sagredo gritando - A mesma fala do queimado-vivo!

Galileu - A mesma fala do queimado vivo!

Sagredo – Por causa dela ele foi queimado! Não faz dez anos!

Galileu - Porque ele não tinha como provar! Que ele só afirmava!”

O "queimado-vivo" era o filósofo italiano Giordano Bruno (1548-1600) que tinha sido condenado à morte por heresia pela Inquisição e executado na fogueira na cidade de Roma. Repare-se como Galileu expõe a diferença entre a retórica, ou “técnica ou arte de convencer”, baseada no conhecimento certo (“ele não tinha como provar”) e a retórica pura e simples (“ele só afirmava”). Mais adiante, na cena quatro, Galileu está na sua casa de Florença, cidade para onde entretanto se tinha mudado, e é visitado por professores da universidade local. No diálogo entre um filósofo e um matemático, que defendiam as posições da Igreja, e Galileu, o papel da observação, possibilitada pelo novo instrumento, é convenientemente enfatizado:

O filósofo - ... Mas eu receio que isso tudo não seja tão simples. Senhor Galileu, antes de aplicarmos o seu famoso telescópio, gostaríamos de ter o prazer de uma disputa. Assunto: E possível que tais planetas existam?

O matemático - Uma disputa formal.

Galileu - Eu achava mais simples os senhores olharem pelo telescópio para terem a certeza”.

Neste diálogo curto está sumariada a posição científica que Galileu advogava e que acabou, como é sabido, por triunfar. Ainda mais adiante, na mesma cena, a supremacia da observação, baseada no novo instrumento, relativamente ao conhecimento puramente livresco, baseado em Aristóteles:

“Matemático - Meu caro Galileu, por mais antiquado que pareça ao senhor, eu ainda tenho o hábito de ler Aristóteles, e lhe garanto que acredito nos meus olhos quando leio.

Galileu - Eu me acostumei a ver como os senhores de todas as faculdades fecham os olhos a todos os factos, fazendo de conta que não houve nada. Eu mostro as minhas observações e eles sorriem, eu ofereço o meu telescópio para que vejam, e eles citam Aristóteles”.

Um exemplo final do diálogo brechtiano sobre o espírito científico, ou melhor, a falta dele, encontra-se na cena sete, passada em 5 de Março de 1616 quando a Inquisição coloca a obra de Galileu no Index. A cena passa-se em casa do cardeal Roberto Bellarmino (1542-1621), em Roma, curiosamente durante um baile de máscaras. Galileu encontra o dono da casa, no século XX nomeado santo e doutor da Igreja, e o cardeal Maffeo Barberini (1568-1644), mais tarde papa com o nome de Urbano VIII :

“Galileu, tomando impulso para uma explicação – Eu sou um filho devoto da Igreja...

Barberini – Pessoa incorrigível. Ele quer provar, com toda a candura, que, em matéria de astronomia, Deus escreve asneiras! Deus então não estudou astronomia como convinha, antes de redigir a Sagrada Escritura? Caro amigo!

Bellarmino - Mesmo ao senhor, não lhe parece provável que o Criador saiba mais que a sua criatura a respeito da criação?

Galileu - Mas, meus senhores, afinal, se o homem decifra mal o movimento das estrelas, poderá errar também quando decifra a Bíblia?

Bellarmino - Mas, meu senhor... afinal, decifrar a Bíblia é da competência dos teólogos da Santa Igreja, ou não?

Galileu não responde.”

Galileu é calado com um argumento de autoridade e, em seguida, Bellarmino ordena-lhe que abjure das suas posições heliocêntricas. Na sequência, Barberini remata: “Bem, vamos repor as nossas máscaras. Mas o pobre Galileu não tem nenhuma”. Há aqui um teatro dentro do teatro e só Galileu não tem fuga: está condenado a fazer o seu próprio papel.

BIBLIOGRAFIA

[1] Carlos Fiolhais, “Ciência em Palco”, in “Partilha de Cena”, nº 0, Coimbra: Mafia – Federação Cultural de Coimbra, 2007.

[2] Mário Montenegro, “Texto dramático sobre tema científico: o caso particular de Carl Djerassi”, Tese de mestrado em texto dramático, Porto: Universidade do Porto, 2007.

[3] Michael Frayn, Copenhagen”, New York: Anchor, 2000.

[4] Carl Djerassi e Roald Hoffmann, “Oxigénio”, Porto: Editora da Universidade do Porto, com prefácio de José Ferreira Gomes e tradução de Manuel João Monte.

[5] Bertold Brecht, “Teatro Completo”, vol. 6 (de um total de 12), “Os fuzis da Senhora Carrar, Vida de Galileu e Mãe Coragem e os seus filhos”, Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 3ª edição, 1991, tradução de Roberto Schwartz da versão original da "Vida de Galileu".

[6] Bertold Brecht, “Vida de Galileu”, Lisboa: Portugália, 1970, tradução de Yvette Centeno.

[7] Paulo Quintela, “Obra Completa”, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 5 volumes, 1996-2001, com organização de Ludwig Scheidl, António Sousa Ribeiro, Carlos Guimarães e Maria Helena Simões.

[8] Maria M. Gouveia Delille (coordenação), “Do Pobre B. B. Em Portugal : a recepção dos dramas Mutter Courage und ihre Kinder e Leben des Galilei”, Coimbra: Minerva, 1998, estudos de M. Antónia Teixeira e M. Fátima Gil.

6 comentários:

  1. "Sagredo – Antes de tudo você é um homem, e eu pergunto: onde é que está Deus no sistema do mundo?"

    Deus é o Criador do sistema do mundo.

    Ele está acima e fora do sistema, mas, como Criador, intervém dentro do sistema.

    Alguém estaria à espera de que Deus fosse apenas uma parte física ou energética do "sistema mundo", passível de observação e reprodução laboratorial?

    De resto, o facto de se falar em "sistema do mundo"(um todo em que as partes estão precisa e funcionalmente integradas) é inteiramente consistente com a ideia criacionista bíblica de que o mundo foi criado de forma racional e sistemática.

    Só a criação sistemática do mundo é que pode estar na origem do "sistema do mundo".

    As explosões que conhecemos não constroem sistemas. Elas destroem sistemas.

    Se existe um "sistema mundo" isso corrobora plenamente a existência de Deus.

    A Bíblia explica a origem do sistema, o modo como o pecado humano desencadeou a corrupção de todo o sistema e o forma como o Criador promete restaurar todo o sistema, tendo começado com a ressurreição física de Jesus Cristo.

    Existe mais evidência da ressurreição física de Jesus (evento histórico observado e relatado) do que de que o Universo
    e a vida surgiram por acaso (eventos hipotéticos não observados nem relatados por ninguém).

    ResponderEliminar
  2. Historicamente, Bellarmino não impôs a Balileu que abjurasse da sua fé, nem lhe aplicou qualquer censura.

    Alfredo Dinis

    ResponderEliminar
  3. Caro Alfredo Dinis
    Para mim é claro que os diálogos de Brecht são imaginados. Digo acima que Brecht tomou as suas liberdades literárias, como seria natural que um escritor fizesse.
    Cordialmente
    Carlos Fiolhais

    ResponderEliminar
  4. Este é um post muito interessante, gostei muito de o ler.

    Mas, mais uma vez, constato a total impossibilidade de alguém ligado à ciência de contar a história de galileu sem a distorcer a favor da ciência.

    Memso no diálogo de galileu com o «cientista» e o «filósofo», o autor teve de "esclarecer" que estes "defendiam a posição a igreja"

    Ora isto é um rematado disparate e uma inverdade. Evidentemente que o filósofo e o cientista representavam a posição da filosofia e da ciência. Que sempre estiveram contra o Galileu e nunca a favor dele

    A verdade, a verdade, é que ao Galileu valeu sempre a protecção da Igreja e nunca dos «cientistas» ou dos «filósofos» ou dos «matemáticos». Como é natural, Galileu pretendia provar que todo o seu conhecimento estava errado.

    Não era pois a Igreja quem mais tinha a temer de Galileu, era a ciência da época.

    A única coisa que a Igreja queria que o galileu não fizesse era ensinar a teoria copernicana. E foi a Igreja que deu ao Galileu o que ele precisava para realizar a sua obra máxima. O que o Galileu sempre lhe agradeceu e até nem é escondido na peça de Brecht. Como não é escondido que foi o astrónomo do papa quem deu razão ao galileu e que nenhum "cientista" da época o fez.

    Porque é que tudo isto é tão cuidadosamente escamoteado neste e em todos os textos sobre o assunto escrito por mão de cientistas?

    Confesso que me assusta um pouco este corporativismo "científico". Para mim, a verdade sobrepõe-se ao "clubismo". Devo ser um bocado como o Manuel Alegre...

    ResponderEliminar
  5. Ora, ó Alf... complexo de Édipo, pois claro! :)

    É essa mesma rejeição da paternidade e desejo de afirmação, tanto perante a filosofia como a religião, que lhe são anteriores, que continua a levar a ciência actual pela via da negação de tudo aquilo que possa, mesmo remotamente, lembrar que o Universo é um organismo inteligente e que se auto-determina!

    Só a extrema balbúrdia super deselegante da miríade de partículas elementares que por aí surgem a esmo - e então o mítico "gravitão" (!) é mesmo a referência máxima da caótica confusão! - mostra bem como a ciência permanece ainda a milhas (de anos-luz!) da verdade, num conhecimento (?) hiper-fragmentado que a ela não conduz.

    Deveras, como pode ser honesto aquele que mente, mesmo que já nem saiba que o faz ou por que o faz?!

    Ou que verdade pode ser encontrada por quem tem os sentidos e a mente tão toldada que já não consegue contemplar a pura e manifesta Inteligência, o fim último da Ciência?!

    De novo, eis um testemunho maravilhoso daquilo que acontece quando o véu da cegueira cai e a mente reactiva dá lugar à outra contemplativa. May be only a few will understand, but this is such a precious wisdom... IT IS!!! :)


    My Stroke of Insight: Peace is just a thought away

    ResponderEliminar
  6. Onde situa duas cenas onde ha diferença entre filosofia e religiao?

    ResponderEliminar

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.