segunda-feira, 9 de junho de 2008

“AS NUVENS” E O FIM DOS DEUSES


Já aqui falei do teatro de Aristófanes e da sua relação com o teatro de Brecht. Desenvolvo agora o tema:

A arte retórica que discute o papel de Deus no mundo encontra-se no teatro grego, muitos séculos antes de “A Vida de Galileu” de Brecht. Para os gregos tratava-se obviamente não de discutir o papel de Deus mas sim dos deuses. Na comédia “As Nuvens” de Aristófanes (447 a.C. – 385 a.C., sendo as duas datas aproximadas), representada pela primeira vez no ano de 423 a.C. no Teatro de Dionísio, na Acrópole, em Atenas, surgem em cena algumas nuvens, portanto fenómenos atmosféricos, em substituição dos deuses tradicionais. Apesar de se tratar de uma comédia e não de uma tragédia, é notório algum paralelismo com o texto de Brecht. Este era aliás um grande conhecedor do teatro grego.

O livro de Aristófanes “Comédias I” [1] inclui uma excelente tradução portuguesa, assinada por Custódio Magueijo, professor da Universidade de Lisboa, da peça que aqui nos interessa. O volume tem uma introdução geral de Maria de Fátima Silva, professora da Universidade de Coimbra, que foi também responsável pela introdução, tradução e notas de duas outras das peças do livro, e é de resto autora de outras obras sobre Aristófanes [2]. A terceira e última peça incluída é precisamente “As Nuvens”. Tem introdução e notas do tradutor, que já antes tinha sido o autor de uma tradução da mesma peça publicada pela Editorial Inquérito saída em 1984 [3] (nas notas encontram-se notícias sobre a representação da peça em Portugal).

A acção de “As Nuvens” conta-se em poucas linhas. Um abastado proprietário rural, Estrepsíades, procura educar o seu filho, Fidípedes, que era o que hoje poderíamos chamar um “playboy”, delapidando os proventos do pai em cavalos caros e carros de corrida. O velho pretende que o filho aprenda com Sócrates (470 a.C. - 399 a.C.), o “sofista” (os sofistas, entre os quais Protágoras e Górgias, eram mestres que viajavam em busca de discípulos, que lhes pagavam bem; de facto, só o Sócrates dos primeiros tempos é que poderá merecer essa designação), e, perante a resistência do filho, vai ele próprio ver como é essa escola, intitulada Frontistério ou Pensatório, e que constitui uma espécie de faculdade de todas as áreas. Estrepsíades não é bem sucedido no Pensatório, mas consegue que o filho lá entre. Sócrates apresenta então ao aluno duas personagens, o Raciocínio Justo e o Raciocínio Injusto, que retratam afinal os métodos pedagógicos antigo e moderno. Da luta entre os dois sai vencedor o Raciocínio Injusto (o que é afinal uma maneira de o conservador Aristófanes ridicularizar as novas pedagogias). O filho não só acaba por bater no pai como justifica essa sua acção usando tudo o que aprendeu com o Raciocínio Injusto. O pai, desesperado, acaba no final por incendiar o Pensatório. A peça é muito divertida, apesar de ser injusta para com Sócrates, que não surge particularmente bem retratado. Ele não passa, na pena de Aristófanes, de um mestre de retórica, que se faz pagar pelos seus serviços e que, mais do que defender a causa da ciência, se põe, como um mau advogado, ao serviço de qualquer causa. Este Sócrates não é lá muito amigo da verdade...

A peça, que hoje é um clássico entre os vários clássicos de Aristófanes, não conheceu grande sucesso na estreia. Ficou até em terceiro lugar nas Grandes Dionísiacas, a seguir a duas obras de autores menores cujos textos não chegaram até nós. O autor reescreveu depois a peça – o texto que hoje conhecemos resultou desse processo – não se inibindo, no meio do texto (a chamada parábase), de censurar os espectadores por causa da má recepção da peça...

Aristófanes manifesta-se na peça contra a ciência, necessariamente incipiente nessa época, e goza bastante com os astrónomos que a praticam. Por exemplo, encontramos este saboroso diálogo entre Estrepsíades e um discípulo da escola:

“Discípulo - Uma noite, estava ele a estudar a órbita da Lua e as suas revoluções, assim, de nariz espetado no ar e de boca aberta, quando um lagarto pintado cagou lá de cima do telhado.

Estrepsíades: Que gozo, um lagarto pintado cagar em cima destes.”

E, mais adiante:

“Estrepsíades - E porque diabo está o olho do cu virado para o céu?

Discípulo: Bem... esse... estuda Astronomia por sua conta.”

Quando Estrepsíades chega à fala com o próprio Sócrates, este repreendo-o quando o ouve jurar pelos deuses:

“Sócrates - Juras pelos deuses?!... Quais deuses?... Para já, deuses é moeda que não usamos cá na casa.

Estrepsíades - Então por quem é que vocês juram? Será porventura pelo pilim, como em Bizâncio?

Sócrates, desviando a conversa - Queres conhecer as coisas divinas, claramente, de ciência certa?

Estrepsíades- ... Se isso é possível...

Sócrates - Queres conviver e conversar com as Nuvens, as nossa divindades?

Estrepsíades – Claro que quero.”

O paralelismo com a “ausência de Deus” brechtiana é aqui claro, mas surge ainda mais claro num diálogo entre Estrepsíades e Sócrates, que é um magnífico exemplo do uso da retórica em palco:

“E Estrepsíades - Mas... Então e Zeus?... Vejamos pela Terra!... Então Zeus Olímpico não é deus?

Sócrates - Qual Zeus nem meio Zeus!... Não digas asneiras: Zeus... não existe!

E Estrepsíades - Que é que estás dizendo? Então quem é que chove? Sim, antes de mais nada, explica-me lá essa coisa.

Sócrates - São elas [as nuvens] que chovem, obviamente. E é isso mesmo que te vou demonstrar com provas irrefutáveis. Ora bem: onde é que já alguma vez viste chover sem haver nuvens? Em boa verdade, ele, Zeus, deveria chover com céu limpo, na ausência de nuvens.

Estrepsíades - Por Apolo! Com tal argumento provaste muito bem essa teoria... E eu que dantes cuidava que era mesmo Zeus a mijar por um regador!... Mas... Explica-me mais uma coisa: quem é que troveja, que até me põe todo a tremelicar?

Sócrates - São elas que, ao rebolarem-se, provocam, os trovões.

Estrepsíades - Mas como é isso, criatura tão desmedida?

Sócrates - Ao encherem-se abundantemente de água, são forçadas, por via disso, a deslocar-se. Ora, assim cheias de chuva, forçosamente ficam penduradas para baixo... Vai daí, mais pesadas, caem uma sobre as outras, rebentam e estalam.

Estrepsíades - E quem é que as força a mover-se? Não é Zeus?

Sócrates - Nada disso... É o Tornado etéreo.

Estrepsíades - O Tornado? Eis uma ideia que nunca me tinha passado pela cabeça, que Zeus não existe, e que agora, em vez dele, quem reina é o Tornado...

O Tornado é elevado à categoria de divindade e, por isso, é escrito com maiúscula. Mais à frente, Sócrates pergunta a Estrepsíades:

Sócrates - Ora bem: estás disposto, de agora em diante, a não aceitar qualquer outra divindade, que não sejam as nossas, ou seja o caos, as nuvens e a língua, essas e só estas?

Estrepsíades - A essas, pura e simplesmente, nem sequer lhes dirigiria a palavra, ainda que desse de caras com elas, nem lhes ofereceria sacrifícios, nem libações, nem incenso.”

Repare-se como a língua é também considerada uma divindade. Nesse tempo, muito antes da Revolução Científica, a retórica pura, exercida pelo domínio da língua, era um elemento essencial na ciência. Os destinatários do culto devem, para o personagem Sócrates, passar a ser outros. E para isso é preciso, sem grandes discussões, substituir a fé nos deuses pela fé na ciência. Sócrates intima Estrepsíades:

“Sócrates - Ora vejamos. Quando eu te mandar para a frente um conceito científico sobre coisas celestes, faz por abocanhá-lo imediatamente.

Estrepsíades - É o quê? Quer dizer que vou comer ciência assim como um cão a roer um osso?”

Mais tarde, Estrepsíades encontra-se com o seu filho Fidípedes e procura transmitir-lhe a lição que tinha aprendido com Sócrates:

“Estrepsíades – Tás vendo como é bom saber? Zeus - toma nota, Fidípedes – Zeus não existe!

Fidípedes - Então quem é que...?

Estrepsíades- Quem reina agora é o Tornado, depois de ter expulsado Zeus.

Filípedes - Eh lá! Tás doido ou quê?

Estrepsíades - Pois fica sabendo que é mesmo assim.

Filípedes - E quem é que diz tal coisa?

Estrepsíades - Sócrates... de Melos, mais o Querofonte, que percebe de saltadelas de pulgas [Querofonte é um amigo de Sócrates].”

Repare-se que a mentira faz parte da retórica ou “arte de convencer”: apesar de Sócrates ser natural de Atenas, Aristófanes liga-o à ilha de Melos, a terra do filósofo sofista Diágoras, um ateu confesso do século V a.C.que foi por isso forçado a abandonar a cidade de Atenas. Assim, transmite-se liminarmente a ideia de que Sócrates é ateu.

Foi assim que, pelo menos em palco, os deuses começaram a cair na Antiga Grécia. Muito antes de Galileu ter posto as estrelas a ocupar o lugar de Deus, já Sócrates punha os fenómenos meteorológicos naturais a ocupar o lugar dos deuses, colocando em particular o Tornado no lugar do maior de todos, o poderoso Zeus. A fúria de Zeus é substituída pela fúria do Tornado. Foi preciso esperar muito tempo para que, no Norte da Itália, aparecesse com Galileu a ciência experimental como uma nova maneira de ver o mundo e se passassem a submeter as convicções sobre o mundo ao rigoroso escrutínio da observação e da experimentação.

A avaliar por esta peça, Aristófanes não nutria grande respeito pela ciência, tentando como se viu nos exemplos dados ridicularizá-la, ao passo que Brecht foi um admirador confesso dela a ponto de ter dito: “não me é possível subsistir como artista sem me servir da ciência”. Mas ambos colocam em palco um mundo em que não há deuses. Aristófanes e Brecht são duas maneiras de fazer arte que, apesar das óbvias diferenças e da enorme distância temporal, têm evidentes afinidades.

REFERÊNCIAS

[1] Aristófanes, “Comédias I”, Biblioteca de Autores Clássicos, Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2006, Tradução do grego e notas de Maria de Fátima Sousa e Silva e Custódio Magueijo.

[2] Maria de Fátima Silva, “Ensaios sobre Aristófanes”, Lisboa: Livros Cotovia, 2007.

[3] Aristófanes, “As Nuvens”, Lisboa: Inquérito, 1984, prefácio, tradução e notas de Custódio Magueijo.

2 comentários:

  1. Com todo o respeito, este post baseia-se excessiva e acriticamente na conversa fiada dos filósofos gregos, acerca dos quais já o historiador judeu Flávio Joséfo, do primeiro século depois de Cristo, dizia que não tinham vergonha de nos apresentar os relatos mais contraditórios entre si quando falavam sobre a origem de todas as coisas.

    Diferentemente, Flávio Joséfo, embora não sendo cristão, confiava no relato do Génesis, que interpretava como história literal, divinamente inspirada.

    A afirmação de que Galileu colocou as estrelas no lugar de Deus é um erro do maior calibre, considerando que Galileu era um criacionista bíblico, que rejeitou a cosmologia aristotélico-ptolemaica.

    Na verdade, Galileu repudiou uma cosmologia cuja origem última era a filosofia grega e não a hermenêutica bíblica.

    Em vão têm os cientistas naturalistas procurado remover Deus da equação.

    Por mais que tentem, não o conseguem de todo fazer.

    A origem da energia que supostamente terá explodido no Big Bang continua por explicar.

    Se o Universo teve um princípio e se encontra a perder ordem e energia, qual foi a causa primeira dessa ordem e dessa energia?

    A incapacidade de explicação verifica-se também no caso da suposta inflação do Big Bang e dos processos físicos que conduziram à sua paragem.

    E como se passou daí para a precisa sintonia do Universo para a vida?

    A origem das estrelas e das galáxias permanece inexplicada, como se pode observar lendo a literatura especializada.

    Do mesmo modo, nunca ninguém explicou como é que informação codificada contida no DNA poderia ter surgido por processos naturalísticos.

    Muitos cientistas rejeitam o ensino bíblico, alegando que só aceitam evidência empírica como prova científica.

    No entanto, nunca ninguém viu a vida a surgir por acaso nem uma espécie menos complexa a evoluir para outra mais complexa.

    Confunde-se, assim, os factos em si mesmos (v.g. fósseis, rochas, esqueletos) com as interpretações evolucionistas ou criacionistas dos factos.

    No entanto, os factos não falam por si. Eles precisam de ser interpretados.

    Mas, se as observações empíricas são decisivas, então deve ter-se em conta que existe mais evidência histórica de que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos há 2000 anos atrás, em Jerusalém, do que de que a vida surgiu por acaso há alguns biliões de anos atrás.


    O primeiro evento referido foi observado e registado por testemunhas fidedignas, dispostas a morrer por esse facto.

    A crucificação e a morte de Jesus foram relatados pormenorizadamente, com referências a locais e pessoas bem determinados, passíveis de investigação histórica. Sobre eles encontram-se referências em documentos históricos não cristãos.


    Por sua vez, o túmulo de Jesus foi encontrado vazio, só com um lençol, e o cadáver de Jesus nunca foi encontrado.

    Considerando que a ressurreição de Cristo foi proclamada logo a partir de Jerusalém, e não na Índia ou na China, teria sido fácil às autoridades romanas e a judeus desmenti-la.

    Bastaria apresentar o cadáver e calar, desse modo, os discípulos. Tal nunca foi feito.

    O certo é que a proclamação convicta da ressurreição física de Jesus Cristo constituiu o propulsor do Cristianismo num ambiente ostensivamente hostil.


    Diferentemente, a origem acidental da vida nunca foi observada e registada por ninguém, não passando de especulação naturalista falsamente apresentada como ciência.

    Laboratorialmente, todas as tentativas de reproduzir essa origem acidental têm sido votadas ao fracasso.

    A razão é simples: não existe informação codificada sem inteligência, e não existe vida sem informação codificada.

    A ressurreição de Cristo pode ser investigada historicamente. A mesma corrobora o ensino bíblico de que Deus tem inteligência e poder para criar vida da não vida instantaneamente, corroborando o relato do Génesis.

    O mesmo não sucede com o hipotético Big Bang ou com a origem acidental da vida, factos remetidos para um passado profundo hipotético, não observado por ninguém.

    Ou seja, mesmo do ponto de vista empírico, o criacionismo é claramente superior ao evolucionismo, na medida em que faz apelo a factos historicamente testemunhados e investigáveis.

    O evolucionismo remete os seus principais factos para um passado hipotético inacessível e cuja ocorrência real é impossível de provar.

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  2. Dr. Carlos Fiolhais, sei que, apesar de pertencer à área das ciências, também se interessa por economia, pelo menos o suficiente para já ter escrito aqui sobre o IVA, gostaria que lesse um post que escrevi hoje no meu blogue

    http://oafilhado.blogspot.com

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