segunda-feira, 21 de abril de 2008

O “bullying” e os estrangeirismos

Novo post de Rui Baptista:

Viajando em malaposta, as novidades vindas lá de fora levam o seu tempo a chegar até nós, mas quando chegam chegam em força. Num dos media (palavra latina adoptada pelos ingleses usada entre nós sem qualquer restrição, a ponto de hoje se escrever desnudada de aspas ou da grafia em itálico), é noticiado um novo caso de “bullying” da responsabilidade de um criança em transição para o período da adolescência: “O tema está em voga e os casos sucedem-se. O mais recente foi em Castanheira de Pera, onde um aluno de 12 anos da Escola Básica 2.º e 3.º Ciclo Byssaia Barreto agrediu uma professora. A situação foi de tal maneira grave que até a GNR foi chamada ao local” (“Diário as Beiras”, 19.Abril.2008).

Dias atrás, vi-me confrontado com um comentário feito ao meu “post” – “A DREN e o segredo de polichinelo” (13.Abril,2009) –, em que me foi feita a proposta da substituição da palavra inglesa “bullying” por uma outra genuinamente portuguesa. Mas como traduzir em uma só palavra um conceito tão abrangente como “actos de agressão física, verbal ou psicológica contra indivíduos incapazes de se defenderem”? Daqui, eu continuar a utilizar este anglicismo. Aliás, idêntico critério é seguido habitualmente em citações académicas para que a respectiva tradução não saia desvirtuada do seu verdadeiro sentido porque “tradutore, traditori”.

Já no desporto, mesmo quando as palavras ainda não têm tradução, o respectivo uso popular vai aportuguesando-as: “football” traduzido por futebol, “box” por boxe, “basketball” por basquetebol, etc. Já “bowling”, jogo ainda com pouca implantação entre nós, não encontra tradução em português nas enciclopédias e dicionários de referência, com excepção do “Houaiss”, o único a registar bólingue. Aguardemos para ver se este significante é dado como nado-morto, é tido como bastardo ou é perfilhado.

Aliás, a “Internet” tem sido um terreno fértil e bem adubado para a proliferação de anglicismos como “post”, “e-mail”, “download”, etc. Mas mesmo aqui os aportuguesamentos vão chegando, embora encontrando resistência por parte de muitos cibernautas que insistem em não utilizá-los, dando preferência às palavras originais.

Em desacordo com um exagerado chauvinismo em querer traduzir toda e qualquer palavra estrangeira, Eça polvilhou, a seu bel-prazer, páginas de prosa genial que lhe nasciam da pena sob a forma de galicismos. Com isso, sujeitou-se à crítica de medíocres contemporâneos seus e de gerações vindouras que o acusaram de pedantismo. De modo igual, um filólogo de grande referência, Cândido de Figueiredo (1846-1962), critica o uso de estrangeirismos: “Mais escrupulosos são os que não podendo evitar o império do abat-jour o aportuguesam um pouco chamando-lhe abajur. A verdade, porém, é que não temos necessidade sequer do mascarado estrangeirismo. Em linguagem nossa temos para o mesmo uso: sombreira, quebra-luz, pantalha, bandeira”. Ora das palavras para fugir a este galicismo, resta hoje quebra-luz de uso pouco corrente. Sombreira, bandeira e pantalha [ paradoxalmente, de etimologia estrangeira também ela: pantalla, em espanhol] não encontraram guarida na nossa linguagem comum não se subtraindo à tirania da pátria de Victor Hugo.

Muitos anos atrás, que já lhes perdi a conta, uma serviçal de minha mãe, ao lhe ser dito que fosse buscar um soutien ao cesto da roupa, ficou parada e com um ar um tanto atarantado até que exclamou triunfante : - “Ah, já sei, um apara mamas!” Moral da história: nessa época, a gente do povo não se encontrava fadada para as modernices do “franciú”!

Agora, em época nossa, ainda que não conste do “Houaiss” (dicionário na vanguarda da adopção de grande número de neologismos), nada me espanta o próximo aportuguesamento da palavra “bullying” para bulingue. Desta forma, se evitarão situações embaraçosas para quem não domina o idioma de Shakespeare.

Para os devotos do arcaísmo da prosa de Aquilino Ribeiro, com o acréscimo desta palavra nos Dicionários da Língua Portuguesa, sairá, ainda que infimamente, redimida a honra do léxico nacional. Não é tudo, mas é alguma coisa! Desta forma, poderá a nação respirar de alívio pelo saldo de uma dívida que diminuirá em uma unidade o número de peregrinismos importados e em “vergonhosa circulação” nas páginas dos jornais e nos teclados dos nossos computadores! Bem sei que se trata de um “fait-divers”, face à polémica acesa sobre o novo acordo ortográfico.Mas enfim…

23 comentários:

  1. Eu não percebo nada de Português, mas talvez molestar ou maltratar sirvam para traduzir bullying, há que perguntar a quem sabe.
    Não estou a ver o pessoal a dizer para aí: fui bulido com um murro na cara, ou, o meu colega buliu-me.
    Não tem mal nenhum usar palavras que não existam na nossa língua mas não estou certo que neste caso não haja nenhuma para isso, o fenómeno do bullying é tão velho como a humanidade, deve haver uma palavra portuguesa para isso, não é uma novidade para a qual se criou uma palavra nova inglesa, como email, bullying é velho.
    Os ingleses também copiam e não é pouco, fartam-se de usar expressões estrangeiras, como "arguido", por causa do caso Madie, e usam também montes de palavras francesas, nos jornais pelo menos, muito mais do que nós.

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  2. A palavra portuguesa correspondente existe, e creio ser bem mais antiga. É a palavra praxe.
    Não é usada porque fica bem importar um americanismo em eduquês, falar que como se sabe importámos directamente de Boston. E se calhar a alguns pesaria utilizar uma expressão que em contexto académico lhes pode deixar alguma intranquilidade na consciência.

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  3. GAITA!!
    isto está a dar-me trabalho. Alteraram as configurações para se poder comentar?

    Maria

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  4. Ia,
    molestar e mais não sei quê não servem. São fracas, chochas.

    Bulir existe e os brsaucas usam que se fartam.

    Olhe aqui:

    do Lat. bullire
    v. int.,
    mexer-se levemente;agitar-se;palpitar;
    v. tr.,
    tocar, mover levemente.
    - com (alguém): inquietar, incomodar (alguém).

    Repare bem nesta última entrada que até se adequa.

    Presente do Indicativo
    bulo
    boles
    bole
    bulimos
    bulis
    bolem

    Mais: vem do latim e os brasucas usam. Onde foram eles buscar o verbo, o termo?

    Os brasileiros usam uma série de expressões que nós já não usamos. Até gostava de saber se nos Descobrimentos, bulir era usado pelos portugueses...se fez parte da nossa linguagem corrente nos idos quinhentistas e seiscentistas..
    Conclusão: os ingleses, muuito provavemente foram buscar o termo ao latim. Os brasucas usam-no. Vamos a ver e ainda fomos nós os primeiros a introduzir isto há 500 anos! Andamos aqui a discutir se há tradução portuguesa e seremos nós quem está na origem da expressão...

    Rui,
    Eu concordo consigo.

    A miudagem aqui no Porto usa muito a palavra "Guna" para se referir aos maus. São os gunas.

    No Priberam:
    guna

    s. f., Bot.,
    planta trepadeira de S. Tomé.

    do Sânsc. guna, virtude

    Entrada na wiki: pt.wikipedia.org/wiki/Guna

    Artigos:
    www.apagina.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=4336
    www.apagina.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=4284

    Vale a pena ler:
    www.asseptic.org/letra/00037

    No Porto é mais ou menos o que lá está escrito.
    Em Coimbra, os Mitras, ^não sei.

    jc,
    praxe idem aspas. Até podia ser pela prática sistemática de alguma coisa, mas falta-lhe a carga negativa.

    E pronto, está postado o comentário no blog DRN, à conta de umas clicadelas ( o que é isso, clicar...?
    palavra portuguesa para blog, hum..? ) :))))

    Maria

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  5. Acho que praxe não é bem isso. Nos anos cinquenta, lá na parvónia, usávamos "peguilhar" ou "peguinhar" para significar isso tudo. Claro que muitas pessoas diziam, e continuam a dizer, "empeguilhar", que julgo não existir. Mas "peguilhar" e "peguinhar" existem, ó lá se existem! Já agora, "pedante" é um italianismo. Nós temos os saborosos "peralvilho e "pintalegrete"

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  6. Para a Maria

    BALADA DA NEVE

    ... ... ... ...

    É talvez a ventania:
    mas há pouco, há poucochinho,
    nem uma agulha BULIA
    na quieta melancolia
    dos pinheiros do caminho...
    ... ... ... ...

    (Augusto Gil)

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  7. Maria

    Bulir é do séc. XIII/XIV, e é usada em Portugal.

    Pertence ao grupo dos verbos acabados em –ulir, como
    BULIR
    REBULIR
    ESCAPULIR

    Os dois primeiros conjugam-se igualmente, tal como Maria escreveu o pres. indicat., mas o escapulir é diferente, como pode verificar, nos três primeiros tempos e no último:

    escapulo
    escapules
    escapule
    escapulimos
    escapulis
    escapulem

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  8. João, :))))
    (obrigada, gostei mesmo)

    Deixemos então as agulhas dos pinheiros sem bulir,
    descansando da ventania e da melancolia,
    porque os caminhos não são quietos
    e
    muitas vezes,
    bulem por falta de alegria...
    ... ...

    Maria

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  9. João,

    eu sabia que se usa bulir, pouco é certo, mas "os antigos", como se diz na província, ainda se saem com o "aquilo buliu comigo".
    A minha mãe, por exemplo, 80 anos, ainda lhe sai.:)

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  10. Maria

    Escreveu bem o pres.indic. do verbo bulir, mas agora escreveu

    Bulem por falta de alegria

    Sem querer arrastei-a para o bulem influenciada pela leitura do

    Escapulem

    MAS TUDO BEM.

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  11. Maria, eu já disse que sou fraco a Português, só estava a sugerir.

    Peguilhar tem exactamente o mesmo sentido com que é usado em Inglaterra, mas tem um problema: em Lesvoa não é usado e um gaijo já sabe que se não se usarem palavras que pareçam finas, e sem sotaque lesvoeta, elas não colam.

    Maus tratos parece-me suficiente para descrever essas situações em que há peguilhanço e molestação por parte de seja quem for, mas só estou a sugerir.

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  12. Caros comentadores: Obrigado pelas vossas achegas que muito valorizaram o meu post, e que muito apreciei pela postura correcta de que se revestiram. Em minha opinião (e as opiniões valem o que valem, como se costuma dizer), a tradução para a palavra "bullying" não se apresenta fácil.

    Esta espécie de agressão não se realiza unicamente dentro dos muros da escola. Por vezes, é levada a efeito extra-muros, embora à porta das escolas. Não se realiza só entre alunos (como a praxe académica), atinge professores e funcionários das escolas que são agredidos pelos alunos.

    Enfim, uma complicação tremenda que penso que se enquadra na palavra "bullying". A discussão está lançada. Venham outras possíveis (ou impossíveis) traduções.

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  13. João,
    GANDA PONTAPÉ NA GRAMÁTICA!
    :))
    (Maria de joelhos, em acto de contrição)

    Obgd João pela correcção.
    Não fui nada induzida, foi mesmo por não ter ido conferir, foi um automatismo ( afinal, não é propriamente verbo que eu conjugue todos os dias!!) .

    Ia,
    é difícil. Mas eu tenho a minha "linguagem" invadida por termos anglo-saxónicos por força do trabalho do meu marido. Se calhar , por isso, não me arrepio assim muito. E gosto desta espécie de colonização global da linguagem, confesso. Faz-me sentir mais cidadã do mundo, sei lá. :)

    Rui,
    como sabe, eu estou de acordo consigo.


    M

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  14. Creio que existe algum medo ou falta de imaginação para inventar termos portugueses catitas para neologismos em voga como “e-mail” ou “software”. Diz-se que devemos usar «correio electrónico” em lugar de “e-mail”. Pois, pois. Fixe. Quem é que está com pachorra para dizer: «Ontem o Manel enviou-me um correio electrónico com umas fotos da casa nova»? E “software” então? As designações que vejo mais recomendadas são “programa de computador” e “suporte lógico”. Ora “programa (de computador)” é usado pelos informáticos com um sentido mais restrito que “software”. E “suporte lógico”... está bem, até podia ser, mas porquê duas palavras? Os franceses inventaram “logiciel”, e gostam, e até usam. Quem é o especialista que se atreve a propor semelhante em português? Abóbora, só nos saem acordos ortográficos...

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  15. Por lapso, onde escrevi arcaísmos, relativamente à prosa de Aquilino Ribeiro,emendo para provincianismos.

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  16. Regionalismos será a expressão mais correcta, até.

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  17. Rui, eu ainda não acabei!
    É só para te dizer que tu falas de bullying como se isso fosse um fenómeno exclusivo de escolas, mas não é, os ingleses utilizam bullying em todas as situações onde há intimidação e molestação, por isso não vás utilizar a palavra erradamente.
    Tens um bom artigo na Wiki sobre o assunto:
    http://en.wikipedia.org/wiki/Bullying

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  18. la, acabei de fazer a consulta que me sugere. Na verdade, aliás como eu julgo ter deixado subentendido anteriormente, o "bullying" não se refere unicamente ao interior das escolas e a uma acção entre indíviduos jovens. Pode ser entre adultos e em qualquer outro contexto. Entre vizinhos, por exemplo.

    Mas se verificar, o meu texto teve como ponto de partida chamar a atenção para uma forma de "bullying" em que o agressor da professora tem apenas 12 anos de idade.

    Como eu escrevo no meu comentário acima:"Enfim, uma complicação tremenda [talvez fosse mais exacto ter escrito "um fenómeno de uma tremenda complexidade"] que penso que se enquadra na palavra "bullying". A discussão está lançada. Venham outras possíveis (ou impossíveis) traduções".

    É pois com este espírito de discussão permanente que encaro a sua contribuição que agradeço.

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  19. Rui, La Pan e outros...

    Aqui no Brasil (falo do sul do Brasil), BULIR também tem uma conotação sexual. Seria algo como: ele me buliu = ele me acariciou sem a minha permissão. Bulir tem o sentido de mexer,mas "Mexeu comigo" toma o sentido sexual mesmo.

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  20. Vamos às origens para melhor interpretação do “bullying”, consultando dois dicionários: o da língua inglesa e o da língua americana. Assim como se disséssemos, língua portuguesa e língua brasileira.

    A - INGLÊS
    LONGMAN DICTIONARY OF CONTEMPORARY ENGLISH, da Lognman Group Limited, UK, 1980

    “1. Bully – n., a person, esp. a schoolboy, who uses his strength to hurt weaker people or make them afraid”, i.é:
    Brigão - uma pessoa, especialmente um aluno, que usa a sua força para prejudicar as pessoas mais débeis ou torná-las medrosas.

    “2. Bully – adj., slang (calão), very good.”

    “3. Bully – v., to act like a bully towards, often with the intention of forcing someone to do something, v.g. bullying smaller boys (into doing things”), i.é:
    Brigar - actuar como um brigão contra alguém, muitas vezes com a intenção de o/a forçar a fazer algo, v.g. intimidação dos rapazes mais pequenos (na realização de coisas).

    “Bullyboy – n., informal, a rough fellow, esp. one employed to beat people up”. Ou seja: um indivíduo bruto, em especial alguém encarregado de espancar pessoa/s

    B - AMERICANO
    WEBSTER’S NEW WORLD DICTIONARY OF THE AMERICAN LANGUAGE, da Williams Collins+ World Publishing , Inc., USA, 1976.

    “1. Bully”, n., significa namorado/a, com origem no holandês “buole” que, por sua vez derivaria do alemão “buhle”, ambas fontes com o mesmo significado. É provável que o sentido atribuído por Marta Bellini encontre aqui algumas raízes para a interpretação do bulir, considerando a influência dos imigrantes alemães no Brasil, e as interpretações que as palavras vão sofrendo com o tempo.

    “2. Bully – n., a person who hurts, frightens, or browbeats those who are smaller or weaker”, ou seja:
    Brigão - uma pessoa que magoa, assusta, ou intimida aqueles que são mais pequenos ou mais fracos.

    ”Bullying – v., to behave like a bully (toward)”, significa:
    Brigar - comportar-se como um brigão (contra alguém)”, mas, em termos coloquiais, funciona como adjectivo com o sentido de “fine, very good” (tudo bem, muito bem).

    C - PORTUGUÊS
    DICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA DA ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA (I vol.), da Verbo, 2001

    “Briga – s.f. (Do ital. Briga). 1. Disputa entre duas ou mais pessoas, acompanhada de violência física; confronto físico entre pessoas ou animais. = LUTA, RIXA. (…)”

    “1. Brigão, ona – adj. (De brigar + suf. –ão, ou do fr. Brigand ‘soldado de infantaria’). Que é dado a desordens, a rixas, que briga muito. =BRIGUENTO, RIXOSO. (…)

    “2. Brigão, ona – s. (De + suf. –ão, ou do fr. Brigand ‘soldado de infantaria’). Pessoa que é dada a desordens, a rixas; pessoa que briga muito. = BRIGUENTO, RIXOSO. (…)

    C1 - DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO NOVA FRONTEIRA DA LÍNGUA PORTUGUESA, de António Geraldo da Cunha, ed. Nova Fronteira, 2.ª ed., Rio de Janeiro, 1982. (Obs.: aqui não me repugnava nada que os brasileiros tivessem escrito DA LÍNGUA BRASILEIRA, como os americanos)

    “Briga, s.f., ‘luta, combate, desavença’ ! XV, brigua XV ! do fr. Brigue, deriv. Do it. Briga e, este, do célt. *briga // brigador 1813 // brigalhada XX // brigão XVII // brigar XIV // briguento 1813.”

    C2 - DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO DA LÍNGUA PORTUGUESA, de José Pedro Machado, ed. Livros Horizonte, vol. I, Lisboa, 1995

    “Briga, s. Talvez do gót. Brikan, ‘romper, quebrar, partir’, pelo it. briga ou fr. brigue. Em 1472: «… e dellas se poderiam recreçer briguas e comtendas…», Des., II, p. 107. Em cast. brega, donde o nosso brega, termo da linguagem tauromáquica.

    “Brigão, s. Do fr. brigand, «soldado de infantaria», sentido que se observa até ao séc. XV, mas é a partir de XIV que se documenta o moderno, devido aos prejuízos causados por soldados ou bandos armados; séc. XVI, (Morais).”

    “Brigar, v. De briga, 1813, mas o voc. Deve ser mais ant.”.

    CONCLUSÃO
    Afinal temos BRIGA e BRIGÃO.
    O que acontece é que os jornalistas apanharam aquela do bullying nos jornais ingleses, viram do que se tratava e aplicaram-na imediatamente ao caso português, como se em português não houvesse correspondente ao bullying.

    Mas ficam aí as notas para que as pessoas façam as suas escolhas.

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  21. Caro João:

    Uma coisa extraio do seu comentário: o exaustivo estudo linguístico de uma situação difícil de ser definida por uma palavra portuguesa que abranja todo o conceito que a palavra inglesa "bullying" nos dá de ser uma acção continuada sobre um indivíduo mais fraco e, por isso, incapaz de se defender. Na verdade, esta situação contempla o acto de brigar por parte apenas do agressor. Todavia, o brigão é o indivíduo que, por tudo e por nada, entra em confronto físico com outra pessoa mesmo sem avaliar se é ou não mais forte saindo-lhe o tiro pela culatra, por vezes. Isto é, levando na cara (passe o plebeísmo).

    Seja como for, parece-me ser a palavra portuguesa que mais se aproxima da tradução da palavra inglesa, embora esta nem sempre signifique um confronto físico por a agressão poder ser de natureza psicológica sobre um indivíduo mais fraco.

    Com o seu valioso comentário, está reaberta uma nova frente de discussão que veio abrir novos e importantes horizontes. Aliás, Ortega y Gasset diz-nos que cultura é frente ao dogma discussão permanente. Neste caso, ambos não assumimos,nem qualquer outro autor dos comentários, julgo eu, uma posição dogmática. Apenas fomos depositários do desejo em encontrar uma tradução fiel para português da palavra "bullying".

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  22. Caro Rui

    Para terminar, o que diz

    THE COMPACT EDITION OF THE OXFORD ENGLISH DICTIONARY, da Oxford University Press, UK, 1980

    “Bully (v. trans.) -To act the bully towards; to treat in an overbearing manner; to intimidate, overawe”, i.é:
    Brigão (v. trans.) - Ameaça do brigão em direcção a ; tratar de uma maneira dominante; intimidar,

    “Bully (v. intrans.) - To drive or force by bullying; to frighten into a certain course”. i.é:
    Actuar ou forçar intimidando; amedrontar num dado momento

    “Bullying (subst. verbal) – The action of the verb to bully: overbearing insolence; personal intimidation; pretty tyranny. Often used with the reference to schoolboy life.”,i.é:
    Acção do verbo para ameaçar: insolência dominante; intimidação pessoal; bonita tirania. Muitas vezes usado com a referência à vida de aluno na escola.

    “Bullying (participial adjective) – That bullies or acts like a bully; domineering, menacing.”, isto é:
    Intimidação (adject. partic.) – Que ameaça ou actua como um brigão; dominante, ameaçador.

    Donde, as traduções apontam para Brigão e Brigar, e não para qualquer outro signo. Quando se diz de determinado indivíduo que é brigão subjaz a ideia de que é o primeiro a ameaçar, física ou verbalmente, independentemente do resultado da briga que provoca. O que caracteriza o brigão é o querer amedrontar, intimidar ou dominar alguém,porque se considera em vantagem relativamente ao ameaçado.

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  23. Minha avó, portuguesa de Trás-os-Montes, usava a palavra bulir.

    José Luiz Teixeira (de São Paulo)jl.teixeira@terra.com.br

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