quarta-feira, 12 de outubro de 2022

O LIVRO ENQUANTO OBJETO

Por João Boavida 

Um livro pode ser muitos mais do que um simples livro. Não só por aquilo que transmite mas por aquilo que é enquanto objeto. 

Há frequentemente uma relação afetiva que vai muito para lá da obra que o autor produziu e que ali está impressa. O veículo pelo qual essa palavra chega até nós - o livro - é frequentemente motivo de grandes amores e até paixões.

Não falo dos livros ricamente encadernados e gravados a ouro, ou vertidos em preciosos pergaminhos, nem sequer dos livros com ricas iluminuras medievais, que são muitas vezes obras de grande arte e requinte, e que só pensar nas quantas horas e nas tantas habilidades que exigiram para ser produzidos nos comove. Ao aplicarem todo o seu engenho e paciência na produção de livros, sobretudo sagrados, os copistas medievais transpuseram para o objeto o valor que atribuíam ao conteúdo. E os livros eram tão raros e tão difíceis que, obtê-los e poder estudá-los, era um benefício que hoje dificilmente podemos imaginar.

Sendo objetos raros, o valor sagrado e doutrinário que os livros transmitiam, e que iluminava quem os lia ou quem os ouvia ler, foi sendo absorvido pelo próprio objeto, e assim, com a valorização do conteúdo foi-se valorizando o continente. 

Com a generalização do texto impresso e a difusão cultural a veneração pelo livro foi-se laicizando e vulgarizando, mas o amor pelo objeto mantém-se, em inúmeras pessoas, frequentemente até muito para lá do conteúdo propriamente dito. É o culto do livro como objeto.

Ainda não há muito, pessoas cultas e abastadas mandavam encadernar, a carneira, coleções inteiras de livros de certos autores, que veneravam, assim os preservando muito para lá das suas próprias vidas. Aproveitando esse sentimento, coleções mais baratas, mas com aparato, ainda não há muito eram produzidas em grande quantidade e vendidas de porta em porta ou por círculos restritos de produção livresca.

Apesar da vulgarização e massificação da produção livreira o livro mantém ainda uma certa dignidade enquanto objeto. Refere-se uma dada obra de um autor, e somos levados a pensar naquilo que o autor escreveu. É, de facto, o elemento principal, a razão de ser do livro, apesar de haver ainda quem os compre, sobretudo se vistosamente encadernados, para dar ambiente a uma sala ou prestígio a uma família.

Mas não é disso que se trata aqui, como é evidente, embora seja o bom nome alcançado pelo livro que leva a esta atitude.

Porém, a massificação do livro, nos nossos dias, destruiu, muito deste culto, pela quantidade incalculável de livros, do mais variado valor, forma e feitio, que se publicaram e continuam a publicar. Mas um livro, mesmo corrente, não é um objeto qualquer, ou melhor, o livro objeto não é assunto secundário, porque duma mesma obra podemos ter um livro excelente ou um livro indigente, e isso conta muito na missão que é suposto desempenhar.

De facto, ao lado do texto há o livro objeto, pois uma coisa não vive sem a outra, e nesse objeto há vários fatores que o podem qualificar, ou degradar.

Um livro bem conseguido deve ser, também aqui, uma síntese entre o conteúdo e a forma. A qualidade e natureza do papel, no que diz respeito à gramagem e à cor, o tipo e o tamanho das letras, o entrelinhado, as margens – esquerda, direita, superior e inferior - a capa, a sobrecapa, a folha de rosto, as badanas, se as tiver, a lombada, a cosedura ou a colagem, tudo isto são aspetos que salvam ou perdem um livro.

Não é raro encontrarem-se grandes obras em que, pela sua extensão, ou por economia, ou pelas duas, os editores escolheram um tamanho de letra e uma magreza de margens que os torna quase ilegíveis.

Há livros que, de tão descuidados na apresentação, inibem o gosto de ler, quase nos rejeitam. Um livro bem feito acaricia o olhar, sente-se nas mãos, na polpa dos dedos, manuseá-lo é logo um prazer entusiasmante, mesmo que subtil. E fazê-los bem não fica necessariamente mais caro, só que é preciso entregar a sua conceção a quem sabe.

Diga-se, a propósito, que em medos do século passado, entre as décadas de 40 / 70 se produziram em Portugal inúmeras capas de livros que são hoje referência e que, muitas delas, pela sua originalidade, imaginação e arrojo, são um património cultural, artístico e gráfico de grande valor. Artistas como Sebastião Rodrigues, João da Câmara Leme, Victor Palla, Querubim Lapa, Luís Filipe de Abreu, Paulo Guilherme, Infante do Carmo, António Garcia, Octávio Clérigo, Abel Manta, Manuel Correia e Manuel Ribeiro de Pavia, deixaram obra a muitos títulos admirável, quer pelas capas, quer pelo formato, quer pelo todo do livro, e que, muitos anos depois, ainda nos provocam a emoção acima referida.

E certas coleções ficaram famosas, como, por exemplo, a Antologia do conto moderno, da Atlântida e os Novos prosadores, da Coimbra Editora; Os melhores romances dos melhores romancistas, da Inquérito; as Antologias universais (Os mestres do conto), da Portugália; e Obras escolhidas de autores escolhidos, da Romano Torres, ainda nos anos 40/50. E, um pouco mais tarde, a coleção Contemporânea, da Portugália Editora; a Dois Mundos, da Livros do Brasil, cujo formato de base ainda hoje se mantém, tal como a Coleção Miniatura, com capas originais e de muito bom gosto, enriquecidas, cada uma delas, com aguarelas de Bernardo Marques e posteriormente de Infante do Carmo. O prestígio desta coleção foi tal que a Porto Editora anda atualmente a publicar uma segunda série, em tudo igual à primeira se bem que num formato menos miniatural. Mas ainda há mais: Os Livros de Bolso, a Unibolso e Os livros das Três Abelhas, todas da Ulisseia; O livro de bolso da Portugália; o Livro de Bolso Europa-América, sem esquecer os livros os Livros RTP, que tiveram enorme divulgação.

Neste movimento de renovação e valorização literária é de justiça lembrar o editor Joaquim Figueiredo Magalhães, que, à frente da Ulisseia, em meados do século passado, revolucionou o campo editorial português com a edição dos chamados livros de bolso. Joaquim Magalhães pensava o livro como algo que deve ser uma obra artística enquanto tal, numa síntese de inovação e acabamento, isto é, obras bem escolhidas, bem traduzidas e artisticamente servidas em termos gráficos. Foi arrojado, inovador, imaginoso e revolucionou a maneira como se faziam e distribuíam livros em Portugal, tornando-os sugestivos, artisticamente valiosos e acessíveis a todos. E demonstrando que o bem feito não é necessariamente caro e o mal feito barato. Até aos escritores começou a pagar mais altas percentagens do que era costume.

Mas penso que isto está a passar. Há já uns largos anos fui dar um seminário a mestrandos duma nossa universidade e muito espantado fiquei quando os alunos – já professores, ou candidatos a isso – a certa altura preferiram umas tantas folhas fotocopiadas ao livro correspondente, onde havia, de resto, muita informação útil para a sua formação, e que, pelo facto de haver ali vários exemplares, me dispunha a oferecer-lhos. As fotocópias pesavam menos e a doutrina nelas contida desapareceria em breve, o que seria um alívio.

Publica-se muito, nunca se publicou tanto como hoje, lembraram-me aqui outro dia, mas os escaparates das grandes superfícies, que já foram comparadas a eucaliptos a secar livrarias, são montras de horrores salpicados aqui e ali por livros de facto bons. E mesmo em algumas livrarias é preciso passar duas ou três filas de novidades, que nos são sugeridas, para chegar ao que interessa. O comércio do livro estará pujante, mas o livro parece desaparecer sob toneladas de livros impressos.

Por outro lado, o livro como objeto de uso corrente, como companheiro para as horas vagas, está a desaparecer, e penso que isso é fatal. Toda a gente, indiscriminadamente, cultos e incultos, gastam o seu tempo, as suas esperas e até as suas caminhadas usando e abusando dos telemóveis, percorrendo os olhos por notícias, anúncios, títulos, jogos, mensagens, isto é, recebendo estímulos instantâneos que não dão grande informação nem fazem pensar. 

Estamos, tudo o indica, e entrar num novo paradigma de difusão cultural e literária, e a questão é saber como é que se vai ficar depois disto.

João Boavida

"Acordar de manhã não pode ser só por dinheiro"

Por Cátia Delgado

“Presidente do dstgroup, empresa de engenharia e construção localizada em Braga, oferece pós-graduação de filosofia aos funcionários”, noticiou ontem a TSF.

Trata-se de uma iniciativa de uma empresa, cuja finalidade última é a obtenção de lucro. Percebeu-se que o pensamento criativo (também como fator de competitividade) se constrói, não apenas como resultado do desenvolvimento técnico de habilidades/ competências, mas pelo estímulo ao pensamento.

Assim, em horário laboral, cerca de 500 trabalhadores desta empresa estão a ter aulas de filosofia. Para o presidente do grupo, áreas como as artes, a cultura e a filosofia constituem uma condição essencial para o desenvolvimento da liberdade criativa. 

Um dos trabalhadores/alunos relata o impacto que a presente formação tem na sua vida, tanto pessoal como profissional:
"Atualmente somos bombardeados com notícias económicas, políticas, sociais que às vezes nem sabemos distinguir o que é certo e o que é errado e acho que a filosofia nos vai levar a um patamar de conhecimento e a uma maneira diferente de pensar". (...) "Acordar de manhã não pode ser só por dinheiro".

PREFÁCIO: «Voando Com Giorgio Parisi»


Meu prefácio ao livro que acaba de sair na Bertrand: «A minha história na Física, O voo dos estorninhos e outros sistemas complexos», do italiano Giorgio Parisi, Nobel da Física de 2021:

  Não costuma haver controvérsias sobre o mérito dos laureados com o Prémio Nobel da Física. E essa regra manteve -se quando, em Outubro de 2021, a Academia de Ciências Sueca anunciou que metade do Prémio ia para o italiano Giorgio Parisi pela sua «descoberta das relações entre desordem e flutuações em sistemas físicos que vão das escalas atómicas às planetárias». A outra metade foi divida irmãmente entre o japonês Syukuro Manabe e o alemão Klaus Hasselmann pela sua «modelação física do clima da Terra, pela quantificação da variabilidade e pela previsão segura do aquecimento global». A Academia reuniu as duas metades sob o título de «sistemas complexos»: todos os premiados deram «contribuições pioneiras para a nossa compreensão de sistemas físicos complexos». 

É das maravilhas dos sistemas complexos que trata o presente livro de divulgação científica, a primeira obra a sair da  pena do autor após ter recebido o mais prestigiado prémio científico do mundo (só tem outro livro desse género, A Chave, a Luz e o Bêbedo. Como se desenvolve a investigação científica, publicado pela Gradiva em 2022). Parisi convida -nos a fazer, com ele, um voo sobre os sistemas complexos, sistemas formados por pequenas partes com interacções complicadas, que podem exibir comportamentos colectivos bastante curiosos. O todo é maior do que a soma das partes. O mais interessante é que a descrição do todo não exige o conhecimento pormenorizado das partes. Não raro o que se sabe sobre um sistema complexo pode aplicar -se a outro que, aparentemente, é muito diferente: os físicos adoram descortinar paralelismos escondidos na enormíssima profusão de fenómenos naturais. O voo de Parisi ora é alto, para fornecer uma panorâmica, ora é baixo, rasante mesmo, para vermos mais de perto um ou outro caso particular. O autor leva-nos a voar com ele, prezando a inteligência do leitor, não o infantilizando, mas dispensando equações, com o intuito de atrair quem não tenha formação matemática (foi outro sábio italiano, Galileu Galilei, quem afirmou que «o livro da natureza está escrito em caracteres matemáticos»). O seu trabalho científico é percorrido à vol d’oiseau com graça e beleza. 

Este livro apresenta não só os sistemas complexos, mas também e principalmente o modo como se faz a ciência. Para isso são dados vários exemplos. O primeiro é o voo dos estorninhos, que explica o título original (In un volo di storni): Parisi iniciou em 2008 estudos desses pássaros com um impressionante comportamento gregário. Eles formam bandos que evoluem em padrões tão diversos como curiosos, com manobras rápidas que parecem bailados. Em Portugal os estorninhos são aves comuns (os estorninhos pretos passam cá todo o ano e os estorninhos -malhados, uma espécie protegida, só cá passam a estação fria). Na região do Oeste, no Bombarral, há uma aldeia dos Estorninhos e o mesmo acontece na serra algarvia, não longe de Tavira. Pois o que é que têm os físicos a dizer sobre os estorninhos, que pareciam à partida ser um assunto restrito à zoologia? É que os bandos de aves são sistemas complexos, cujas leis o físico procurou descobrir. Como nos conta Parisi logo no início, a sua equipa fotografou os estorninhos de Roma para tentar perceber o seu extraordinário voo colectivo. O essencial da evolução do grupo é a manutenção das distâncias de cada um aos seus vizinhos mais próximos. A resposta rápida do bando às inflexões dos seus dirigentes são surpreendentes. Talvez a análise destes processos nos possa ajudar a compreender outros processos colectivos, incluindo aqueles que são feitos pelos humanos quando seguem as modas que vão aparecendo.

 Parisi, o sexto italiano a receber o Prémio Nobel da Física (o mais conhecido é talvez o genial Enrico Fermi, que ganhou o Nobel de 1938 pela sua descoberta de novos elementos pesados), é um romano dos quatro costados. Nascido na Cidade Eterna pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial (mais precisamente, em 1948), doutorou -se em 1970 na Universidade de Roma La Sapienza, uma das mais antigas universidades do mundo. O seu mentor, nos tempos tumultuosos que se seguiram ao Maio de 1968, foi o famoso físico italiano Nicola Cabibbo, especialista em física de partículas, também dita física de altas energias: em ciência ter bons mestres ajuda muito. Trabalhou depois dez anos no Laboratório Nacional em Frascati, perto de Roma, período durante o qual beneficiou de estadas científicas nos Estados Unidos e em França. De 1981 a 1992, Parisi foi professor de Física Teórica na Universidade de Roma Tor Vergata, voltando depois à sua alma mater, para ocupar a cátedra de Física Quântica. Uma das suas maiores glórias foi ter presidido à Academia dos Linces, sediada em Roma, que é a mais antiga academia científica do mundo. Remonta a 1603, tendo tido Galileu como membro. Depois de dissolvida, reapareceu em força a meio do século xix. A Academia das Ciências de Lisboa organizou, em 2022, uma sessão conjunta com a Academia dos Linces, onde Parisi apresentou uma comunicação por via telemática. Porquê linces? Porque os observadores científicos necessitam de ter uma capacidade de observação só comparável à desses felídeos. A presidência dessa prestigiada academia esteve longe de ser a única distinção antes do Nobel: Parisi, cujos trabalhos totalizam quase cem mil citações, um número muito invulgar, recebeu os maiores prémios da área da física. O Nobel, ao contrário de algumas inesperadas inflexões dos estorninhos, não surpreendeu ninguém. 

Parisi, à semelhança de Fermi (romano como ele), embrenhou- -se em vários ramos da física, desde as partículas elementares, no início, ao voo dos estorninhos, mais recentemente, tendo também investigado as idades do gelo da Terra. O seu trabalho mais citado foi publicado em 1977, em parceria com o seu colega Guido Altarelli. Situando -se na área da física de partículas, diz respeito à liberdade que os quarks têm quando estão muito próximos uns dos outros dentro dos protões e neutrões (um grupo de três quarks dificilmente se separa, tal como escravos agrilhoados, que muito perto uns dos outros «se sentem» livres). Mas o trabalho que verdadeiramente o celebrizou foi apresentado numa série de artigos iniciados em 1979 e coroado com um livro em coautoria publicado pela World Scientific em 1987. O tema são os vidros de spin, ligas metálicas em que uma das espécies constituintes tem um comportamento magnético, isto é, os seus átomos têm tendência para alinhar com os seus semelhantes (spin é um termo técnico para designar os átomos magnéticos). Esses materiais são chamados vidros por  as posições dos spins serem aleatórias tal como as posições das partículas constituintes dos vidros. A relevância dos resultados levou a que esses fossem aplicados noutras áreas da ciência como as ciências de computação. 

Uma marca forte deste livro consiste no facto de o autor contar, a partir da sua própria experiência, como é o trabalho científico. O cientista tem de estar obcecado pelo assunto, de modo a pensar muito nele. Precisa de intuição, que por vezes faz a sua mente saltar para outro domínio: Parisi «tropeçou» no método que revolucionou a física dos vidros de spin quando ainda trabalhava em questões de física de altas energias. Para se distinguir, tem de se ser capaz de fazer apostas audaciosas. E tem, em diálogo, de convencer os colegas da justeza dessas apostas. A minha história preferida deste livro anda à volta de uma demonstração que Parisi referiu numa conferência em Paris como solução de um problema muito intrincado. Ela tinha -lhe sido dada por dois colegas que trabalhavam numa área particular. Quando um outro físico lhe perguntou como é que isso era possível, o físico italiano disse -lhe os nomes dos dois colegas. Sabendo quais eram os métodos que eles usavam, o interlocutor, sem qualquer explicação adicional, concluiu passados poucos segundos como era a demonstração. Afinal era simples, apesar de engenhosa. Em física, como noutros ramos da ciência, por vezes há telepatia. E a física, que parece à partida muito difícil, acaba por ser divertida, como a montagem de um puzzle em conjunto. Como diz neste livro um amigo de Parisi: «Ser físico é uma trabalheira, mas sempre é melhor do que trabalhar.» 

Cumpre ainda destacar a defesa que Parisi faz, nesta obra como noutras ocasiões ao longo da sua vida, da ciência fundamental. Cita o norte-americano Richard Feynman, físico teórico também nobelizado que resolveu alguns problemas  práticos como a causa do desastre do vaivém Challenger da NASA: «A ciência é como o sexo, também tem consequências práticas, mas não é por isso que o fazemos.» O sábio italiano encabeçou em 2016 um grande movimento de cientistas em favor da investigação fundamental, queixando -se da falta de atenção dos governos. Deixando a «torre de marfim» do cientista, ele não fugiu à acção política quando ela urgia. Entre nós faz falta quem o imite, encabeçando a comunidade científica, na senda do malogrado José Mariano Gago, para conseguir a necessária ascensão da ciência. 

Em entrevistas recentes, Parisi tem revelado alguns aspectos da sua vida privada. Gosta de ler (é fã de Isaac Asimov, o prolixo autor de ficção científica e também divulgador de ciência) e de caminhar. Nos últimos anos, interessou -se pela dança: aprendeu danças populares gregas e forró brasileiro. Diz que tem pena de nunca ter ido ao Brasil, mas tece encómios às músicas de Luiz Gonzaga, o «Rei do Baião», e ao livro Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.

 Por último, é justo destacar a palavra de apreço que o autor deixa, no final, para Anna Parisi (que não tem com ele qualquer ligação de parentesco), por ela o ter ajudado neste livro. Essa sua colaboradora é uma italiana licenciada em Física que enveredou pela carreira de editora e escritora de livros juvenis de ciência. Fundou a editora Lapis, na qual criou a colecção Ah, saperlo!, com direcção científica de Giorgio Parisi. Quatro títulos dessa colecção, que já foi distinguida com vários prémios, foram publicados em Portugal entre 2005 e 2008 pela editora Principia: Números Mágicos e Estrelas Errantes; Asas, Maçãs e Telescópios; O Fio Condutor e Depende (este último é, claro, sobre a teoria da relatividade de Einstein). O mais recente Nobel da Física reconhece a imprescindibilidade da difusão da física para todos, em particular para os mais jovens. Para ele a física não  é apenas um assunto dos físicos: interessa a todos, devendo fazer parte da nossa cultura. 

Estou certo de que a leitura deste livro, bem traduzido por Maria Ferro, vai contribuir para alargar a cultura científica nacional. Pode até acontecer que faça uma revoada na mente de alguns leitores, tal como o espectacular voo dos estorninhos no céu. Está de parabéns a Bertrand por colocar os leigos interessados a par dos últimos desenvolvimentos científicos na área dos sistemas complexos, pela voz de um dos mais notáveis cientistas contemporâneos. 

Coimbra, 30 de Maio de 2022

ana paula jardim na casa da escrita

A supremacia da tecnologia sobre a humanidade é evitável.

Tal como outros neurocientistas, com presença na comunicação social (por exemplo, Nicholas Carr e Michel Desmurget), Susan Greenfield tem explicado muito claramente que os "nativos digitais" (nascidos na era digital e que usam o digital de forma acrítica) não demonstram as mesmas capacidades cerebrais que os não "nativos digitais" porque o seu cérebro é diferente.

Diz (ver aqui) que não são tanto os aspectos lógicos da inteligência que se ressentem, mas o modo de perceber o mundo e de interagir nele, pois:

1 - as redes sociais alteram a identidade e as relações interpessoais; 
2 - os videogames provocam dependência, modificam a atenção e a concentração, geram hiperatividade e stress;
3 - os programas de busca confundem informação com conhecimento.

Nota que os videogames aumentam áreas do cérebro que liberam dopamina, um neurotransmissor (substância química produzida pelos neurónios) responsável pela sensação de prazer e de motivação tendo um efeito viciante.

Há que consciencializar a nossa condição humana e como a conseguimos alcançar, de outro modo acabaremos vítimas da tecnologia. Ela é inevitável, mas a sua supremacia sobre a humanidade é evitável. 

Vale a pena ler o livro acima identificado pela compreensão que nos faculta disto mesmo.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

A CRÍTICA LITERÁRIA TAL QUAL

Por Eugénio Lisboa

A relevância da protuberância contida no texto da estância remete para a errância, frequentemente prejudicada pela ignorância da importância da circunstância na captação da inconsequência, a qual preside, com alguma inevitável intolerância, ao destino improvável da dissonância. Resta-nos depositar alguma esperança na redundância, sempre bem arguida, nem que contaminada por alguma ligeira mas necessária petulância. Mais claro não consigo ser, dada a inobservância da vacância [1] 
______________________
[1] Sobre este mesmo ingente tema, poderá consultar-se, com muito proveito, a importante obra do grande semiótico lusíada, Joanino Beirante Cantante, apropriadamente intitulada DA JACTANTE ERRÂNCIA.

NÃO FOI SÓ O ORÇAMENTO QUE ENCOLHEU

À memória de Nicolau Tolentino 
Tudo encolheu nestes nossos dias:
o nosso orçamento é mais pequeno
do que a pilinha do José Matias.
O ordenado mínimo é obsceno

e o poder de compra encolheu,
como vestido que apanhou chuva.
De promessas, logo se arrependeu
o ministro que deu nega, com luva.

A ambição dos jovens feneceu
e por isso, em vez de irem ao polo
seu orgulho facilmente ferveu,

com a chance de saltarem pró colo
de uma actriz de telenovela,
que lhes disse como nasce uma estrela!

Eugénio Lisboa

No declive, de coração partido

No declive, de coração partido

E cada vez menos indistinto.

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Extracto de «O Homem de Neanderthal» (Gradiva, 2019) de Svante Paabo, Nobel da Medicina de 2022


Neandertal ex machina

Numa noite de 1996, já tarde, tinha eu acabado de adormecer, o telefone tocou. Do outro lado da linha estava Matthias Krings, um aluno de pós‑ ‑graduação do meu laboratório, no Instituto de Zoologia da Universidade de Munique. Tudo o que ele disse foi: «Não é humano.»

 «Vou já», resmunguei. Vesti qualquer coisa e atravessei a cidade de carro, até ao laboratório. Nessa tarde, o Matthias tinha ligado as nossas máquinas de sequenciação do ADN, alimentando‑as com fragmentos de ADN que extraíra e amplificara de um pequeno pedaço de osso do braço de um neandertal pertencente ao Museu Rheinisches Landesmuseum (Museu Estadual do Reno), de Bona. Os anos consecutivos de resultados na sua maioria decepcionantes tinham‑me ensinado a manter as expectativas baixas. O mais provável era que, fosse o que fosse que ele tivesse extraído, não passasse de ADN bacteriano ou humano que se tivesse infiltrado no osso algures durante os 140 anos desde que fora desenterrado. Mas, ao telefone, o Matthias parecia muito empolgado. Teria conseguido recolher material genético de um neandertal? Parecia‑me pouco expectável. 

No laboratório, encontrei o Matthias com Ralf Schmitz, o jovem arqueólogo que nos ajudara a obter autorização para extrair o pequeno pedaço de osso do braço do fóssil neandertal guardado em Bona. Mal conseguiam conter o regozijo quando me mostraram a cadeia de A, C, G e T que saía de um dos sequencia‑ dores. Nem eles nem eu víramos jamais algo parecido. 

Aquilo que a um leigo pode parecer uma sequência aleatória de quatro letras é, na verdade, a estrutura química em estenografia do ADN, o material genéti‑ co armazenado em quase todas as células do corpo. As duas cadeias da famosa dupla hélice do ADN são constituídas por unidades que contêm os nucleótidos adenina, timina, guanina e citosina, abreviados por A, T, G e C. A ordem segundo a qual estes nucleótidos ocorrem constitui a informação necessária para formar o nosso corpo e permitir as suas funções. O fragmento específico de ADN para o qual estávamos a olhar fazia parte do genoma mitocondrial — ADNmt, abreviada‑ mente —, que é transmitido nos óvulos de todas as mães aos filhos. Há várias centenas de cópias deste ADNmt armazenadas nas mitocôndrias, estruturas minúsculas nas células, e ele especifica a informação necessária para que essas estruturas cumpram a sua função de produção de energia. Cada um de nós tem apenas um tipo de ADNmt, que compreende uns meros 0,0005 por cento do nosso genoma. Uma vez que transportamos em cada célula muitos milhares de cópias de um único tipo, este é particularmente fácil de estudar, ao contrário do resto do nosso ADN — de que há apenas duas cópias armazenadas no núcleo da célula, uma da nossa mãe e outra do nosso pai. Em 1996, já se tinham estudado sequências de ADNmt em milhares de seres humanos de todo o mundo. Essas sequências eram habitualmente  comparadas com a primeira sequência de ADNmt hu‑ mano a ser determinada, e essa sequência referencial comum podia, por sua vez, ser usada para compilar uma lista das diferenças registadas e as respectivas posições. O que nos empolgou foi a sequência que determinámos a partir do osso do Neandertal conter alterações que nunca tinham sido vistas nesses milhares de seres humanos. Eu mal podia acreditar que aquilo que estávamos a ver era real. 

Como me geralmente acontece quando deparo com um resultado empolgante ou inesperado, rapidamente fui assaltado por dúvidas. Investiguei todas as possibilidades de aquilo que estávamos a ver não ser bem assim. Talvez, numa altura qualquer, alguém tivesse usado cola feita a partir de pele de vaca para tratar os ossos e estivéssemos perante o ADNmt de uma vaca. Não: verificámos imediatamente o ADNmt de vaca (que outros tinham já sequenciado) e vimos que era muito diferente. Esta nova sequência de ADNmt era claramente próxima das sequências humanas e, no entanto, ligeiramente diferente de todas elas. Comecei a acreditar que aquele era, efectivamente, o primeiro fragmento de ADN alguma vez extraído e sequenciado a partir de uma forma extinta de seres humanos. 

Abrimos a garrafa de champanhe guardada no frigorífico da copa do laboratório. Sabíamos que, se aquilo que estávamos a ver era realmente ADN neandertal, se abria todo um vasto campo de possibilidades. Poderia ser possível, um dia, comparar genes inteiros, ou qualquer gene específico, dos neandertais com os genes correspondentes das pessoas vivas actualmente. Quando regressei a casa a pé, através da silenciosa e escura Munique (tinha bebido demasiado champanhe para conduzir), ainda me custava a acreditar no que tinha acontecido. Deitei‑me, mas não consegui adormecer. Não parava de pensar nos neandertais e no espécime cujo ADNmt parecíamos ter acabado de identificar. 

Em 1856, três anos antes da publicação da obra de Darwin A Origem das Espécies, uns trabalhado‑ res que limpavam uma pequena gruta numa pedreira no vale de Neander, cerca de dez quilómetros a leste de Düsseldorf, descobriram o topo de um crânio e alguns ossos que julgaram ser de um urso. Mas, daí a poucos anos, os vestígios foram identificados como pertencendo a uma forma extinta de humano, talvez nossa antepassada. Foi a primeira vez que tais vestígios foram descritos, e a descoberta chocou o mundo dos naturalistas. Ao longo dos anos, a investigação relativa àqueles ossos e a muitos mais como aqueles, entretanto encontrados, prosseguiu, tentando perceber quem eram os neandertais, como viviam e porque desapareceram há uns 30 000 anos, como interagiram com eles os nossos antepassados modernos durante os milhares de anos em que coexistiram na Europa, se eram amigos ou inimigos, nossos antepassados ou simplesmente nossos primos há muito desaparecidos (ver Figura 1.1). As escavações nas estações arqueológicas trouxeram à luz do dia registos extraordinários de comportamentos que nos são familiares, como o cuidar dos feridos, os enterramentos rituais e talvez mesmo a produção de música, o que nos mostra que os neandertais eram muito mais parecidos connosco do que qualquer macaco vivo. Quão parecidos? Se falavam ou não, se serão ou não uma ramificação morta da árvore genealógica dos hominídeos ou se haverá genes deles escondidos em nós, hoje, são questões que se tornaram parte integrante da paleoantropologia, a disciplina académica que se pode  dizer ter tido o seu início com a descoberta daqueles ossos no vale de Neander, os mesmos de que parecía‑ mos agora ser capazes de extrair informação genética. 

Por muito interessantes que estas questões fossem, parecia‑me que o fragmento de osso neandertal prometia algo ainda maior. Os neandertais são o parente extinto mais próximo dos seres humanos contemporâneos. Se conseguíssemos estudar o seu ADN, descobriríamos sem dúvida que os seus genes eram muito semelhantes aos nossos. Alguns anos antes, o meu grupo tinha sequenciado um grande número de fragmentos de ADN do genoma do chimpanzé e mostrara que, nas sequências de ADN que partilhamos com os chimpanzés, apenas pouco mais de um por cento dos nucleótidos era diferente. Os neandertais deviam ser, claramente, muito mais próximos de nós do que isso. Mas — e isto é que era imensamente empolgante —, entre as poucas diferenças que esperávamos encontrar no genoma nean‑ dertal, haveria aquelas que nos distinguiam de todas as outras formas de antepassados humanos: não apenas dos neandertais, mas também do Rapaz de Turkana, que viveu há uns 1,6 milhões de anos; da Lucy, há uns 3,2 milhões de anos; do Homem de Pequim, há mais de meio milhão de anos. Essas poucas diferenças tinham de constituir os alicerces biológicos da direcção radicalmente nova que a nossa linhagem tomou com o aparecimento dos seres humanos modernos: o advento e o desenvolvimento rápido da tecnologia, da arte sob a forma que hoje reconhecemos imediatamente como arte, e talvez da linguagem e da cultura tal como as conhecemos. Se conseguíssemos estudar o ADN neandertal, tudo isto poderia ficar ao nosso alcance. Embalado por este sonho (ou mania de grandeza), adormeci finalmente quando o Sol estava a nascer. 

No dia seguinte, o Matthias e eu chegámos tarde ao laboratório. Depois de verificarmos a sequência de ADN da noite anterior, para nos certificarmos de que não tínhamos cometido erros, sentámo‑nos para planear o que fazer a seguir. Uma coisa era obter a sequência de um pequeno fragmento de ADNmt que parecia interessante, a partir de um fóssil de neandertal, outra coisa seria convencermo‑nos a nós mesmos — quanto mais ao resto do mundo — de que aquele era ADNmt de um indivíduo que tinha vivido (naquele caso específico) há uns 40 000 anos. O meu trabalho ao longo dos doze anos anteriores tornou o passo seguinte muito claro. Em primeiro lugar, tínhamos de repetir a experiência — não apenas o último passo, mas todos os passos, começando com um novo pedaço de osso, para provar que a sequência que obtivéramos não era um acaso, fruto de uma molécula de ADNmt moderna danificada e modificada que se encontrasse no osso. Em segundo lugar, precisávamos de ampliar a sequência de ADNmt que tínhamos obtido recolhendo fragmentos sobrepostos de ADN do pedaço de osso. Isto permitir‑nos‑ia reconstituir uma sequência mais longa de ADNmt, com a qual poderíamos começar a calcular quão diferente era o ADNmt dos neandertais relativamente ao dos seres humanos actuais. E depois era necessário um terceiro passo. Eu próprio tinha afirmado muitas vezes que quaisquer afirmações extraordinárias sobre sequências de ADN de ossos antigos exigiam provas extraordinárias — nomeada‑ mente a repetição dos resultados noutro laboratório, um passo invulgar numa área científica geralmente competitiva. A afirmação de que obtivéramos ADN dos neandertais seria certamente considerada extraordinária. Para excluirmos fontes desconhecidas de erro no nosso laboratório, precisávamos de partilhar uma parte do precioso material ósseo com um laboratório independente e esperar que aquele conseguisse replicar o resultado. Discuti tudo isto com o Matthias e o Ralf. Traçámos os planos para o trabalho que nos esperava e jurámos uns aos outros manter o segredo restrito aos nossos grupos de investigação. Não queríamos atrair 1 as atenções antes de termos a certeza de que o que tínhamos era mesmo o que pensávamos ter. (...)

MEU PREFÁCIO A “O PATRIMÓNIO É MEU, É TEU, É NOSSO. VAMOS CUIDÁ-LO” DE ADÍLIA ALARCÃO (ED. FUNDAÇÃO BISSAYA BARRETO):


O nome de Adília Alarcão era, para mim, uma lenda, quando tive o gosto de a conhecer de forma mais próxima no quadro do conselho que foi criado para apoiar a organização da «Coimbra - Capital Nacional da Cultura», em 2003.

 Ela era, na altura, directora do Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra (que dirigiu entre 1999 e 2005, para além de uma direcção curta em 1979) e tinha, atrás de si, no seu notável currículo, a direcção do Museu e das Ruínas de Conímbriga, em Condeixa-a-Velha, onde esteve entre 1967 e 1999 (esses 32 anos de dedicação plena à antiga cidade romana fizeram-na merecer o epíteto de “Senhora Conímbriga”). Foi no seu tempo que prosperou o Museu Monográfico de Conímbriga, que tão bem mostra objectos romanos cuidadosamente restaurados. 

 Na grande maioria das vezes vi-me a concordar com o que Adília Alarcão dizia no conselho que referi: a sua opinião, expressa num tom sereno e delicado, era sempre clara e inteligente. Verifiquei a vastidão e densidade do saber acumulado através da sua prolongada experiência de protecção do património. 
 Agora, passada uma década e meia desde que se reformou, continua a transmitir-nos o seu rico saber sobre o património. Neste livro, dirigindo-se especialmente aos mais novos, fá-lo de maneira inovadora. Concebeu uma história muito plausível passada em ambiente escolar, que se apoia num diálogo também bastante plausível, na qual os alunos aprendem o valor do património a partir de um trabalho prático: o aparecimento de uma pichagem na parede de uma capela antiga é o pretexto para todo um percurso de aprendizagem, que congrega várias disciplinas. A revisão científica foi, por isso, feita por especialistas de diferentes áreas. 

Património (do latim, patrimonium, de patri, pai + monium, recebido) é, em direito e economia, o conjunto de bens, direitos e obrigações de valor económico de que é titular uma pessoa singular ou colectiva. Pode, como indica a etimologia, ter sido recebido como herança, ou pode ter sido adquirido. Mas, no âmbito da cultura, a ideia de herança prevalece: património cultural é o “conjunto dos bens materiais ou imateriais transmitidos pelos antepassados e que constituem uma herança coletiva” (Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa). O património, recebido dos nossos antepassados, é nosso no presente e deve ser dos nossos vindouros. Como nem tudo o que se recebe se pode conservar de modo a ser transmitido, considera-se património o melhor da herança que nos foi legada, precisamente aquilo que vale a pena transmitir. É tudo o que por várias razões - sociais, políticas, religiosas, estéticas, afectivas, etc. - valorizamos e, contrariando a usura do tempo, entregamos ao futuro. 

 Adília Alarcão mostra neste livro, servindo-se de exemplos concretos e de um processo heurístico, o que é o património, tanto material como imaterial, quais são os agentes que ameaçam a sua preservação, e o que podemos e devemos fazer para o entregar, em bom estado, à posteridade. Os alunos desta história aprendem pensando e fazendo, que é a melhor maneira de aprender. Os alunos do 2.º ou 3.º ciclos que lerem este livro poderão fazer o mesmo.

 A escola não cumprirá a sua missão de garante da continuidade humana se não conseguir consciencializar as crianças e jovens do enorme valor do património. É da sua essência seleccionar, de entre todo o rol de conhecimentos e valores que a humanidade foi juntando ao longo do tempo, aqueles que são imprescindíveis para as novas gerações. Ora, a noção de património é das que são mais indispensáveis na nossa vida colectiva, pois sem um bom conhecimento do passado não pode haver uma identidade comum que nos permita continuar no trilho do tempo. Para que a humanidade, organizada nas suas várias comunidades, saiba quem é e para onde há-de ir, precisa antes do mais de saber quem foi. 

 Este livro, uma feliz edição da Fundação Bissaya Barreto, pode ser muito útil nas escolas ou nas famílias para a tomada de consciência, desde tenra idade, da relevância do património. Um outro livro que pode ser útil, neste contexto, é Ciência a Brincar. Descobre o Património! (Bizâncio, 2008), que Constança Providência escreveu comigo e que, fazendo parte do Plano Nacional de Leitura, é recomendado para a realização de projectos entre o 3.º e o 6.º anos de escolaridade. Essa obra resultou de um desafio que Adília Alarcão nos lançou no referido ano de “Coimbra - Capital Nacional da Cultura” para a concepção de uma maleta pedagógica que permitisse desenvolver nos infantes o respeito pelos monumentos. A maleta não se pôde fazer, por a Capital ter seguido outros caminhos, mas fez-se um guia de experiências simples que indicam como se pode aprender a valorizar o património. Tais experiências podem servir para projectos a realizar na escola ou fora dela de modo a fortalecer a ideia de património. 

 Como bem diz o título desta obra, o património é de todos nós. Se o valorizarmos, conservando-o o melhor que formos capazes, será também de todos aqueles que vierem depois de nós. Temos esse compromisso para com o futuro. 

 Coimbra, 15 de Setembro de 2021 
 Carlos Fiolhais 
Professor de Física da Universidade de Coimbra

Ninguém te tocará os lábios

Ninguém te tocará os lábios,

Sem que o coração fale.

Ninguém te tocará os lábios,

Sem que o mundo se cale.

"PISA para Escolas" também em Portugal

Por Cátia Delgado

Foi divulgada, nos últimos dias, mais uma iniciativa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) que Portugal acolhe de braços abertos. Pese embora o cariz económico do organismo, tal como em muitos países desenvolvidos, também no nosso se estreitam as relações com a referida entidade. 

Refiro-me ao PISA for Schools, uma extensão do reconhecido Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), que avalia as competências (para resolver situações do quotidiano) dos alunos de 15 anos, nas áreas das ciências, leitura e matemática. O PISA for Schools, já com 10 anos de história e com 2 anos em Portugal, pretende avaliar, igualmente, a forma como os alunos aplicam os conhecimentos adquiridos na escola, em contextos inesperados, mas na perspetiva avaliativa da própria escola.

Como explicado no vídeo de divulgação/ apresentação do projeto, pretende-se comparar os ambientes de aprendizagem com outras escolas, partindo da tríade “medir, explorar e agir”:
“O projeto PISA for Schools contribui para melhorar as oportunidades de aprendizagem e o bem-estar dos alunos, capacitando professores e líderes escolares por meio de conexões globais e benchmarking internacional com base numa escala comum fornecida pelo PISA.” 
Operacionalmente falando, o objetivo é:
“fornecer resultados a nível escolar para fins de avaliação comparativa e de melhoria das escolas.” 
No website do projeto, podem esclarecer-se várias questões, sendo possível notar diversos contrassensos, dos quais destaco o seguinte:
“Por que comparar resultados de nível escolar internacionalmente?"
Dada a nossa economia global baseada no conhecimento, tornou-se mais importante do que nunca comparar os alunos não apenas com os padrões locais ou nacionais, mas também com o desempenho dos melhores sistemas escolares do mundo. Tem havido um interesse crescente em comparar o desempenho dos alunos com referências internacionais, tanto como um indicador de como os alunos estão preparados para participar numa sociedade globalizada, assim como um meio de estabelecer metas acima e além dos níveis básicos de proficiência ou expectativas locais.” 
De seguida, afirma-se o contrário, quando se pergunta:
“Por que o projeto desencoraja o estabelecimento de rankings entre as escolas? 
O Teste para Escolas baseado no PISA e os seus resultados são projetados para fornecer às escolas uma ferramenta de diagnóstico para promover a reflexão, a aprendizagem entre pares e a ação. Eles não devem ser interpretados ou usados como classificações escolares ou para “tabelas da liga”. Além disso, o PBTS não fornece relatórios de desempenho ao nível de aluno e não pode ser usado para classificar o desempenho do aluno.”

Bom entendedor compreenderá que, não é pelo facto de não se fornecer um relatório individual por aluno que se irá evitar a tendência implícita, dado tratar-se de um estudo de índole comparativa, de emulação entre escolas e de incitamento ao ensino para os resultados, treinando-se os alunos para os critérios pré-definidos e descurando vertentes formativas que não sejam abrangidas pelo programa.

Esta é mais uma forma de medir o desempenho das escolas que conta, em Portugal, com a adesão voluntária de mais de 100 escolas, à data, correspondente à fase piloto, conforme noticiado pela RTP Madeira, realçando-se o entusiamo envolto na iniciativa da parte de diversas entidades:

“Para o presidente do IAVE, essa é a principal mais-valia do projeto: a possibilidade de, através dos resultados da avaliação, as escolas tentarem perceber o que podem mudar para responder às dificuldades dos estudantes.” 

Os restantes países que aderiram ao projeto são: Andorra, Austrália, Brasil, Brunei, China, Colômbia, Japão, Cazaquistão, Espanha, Tailândia, Emirados Árabes Unidos, Reino Unido e Estados Unidos da América. 

O guia de aplicação para as escolas, também disponível em português, encontra-se acessível em 15 línguas diferentes, fator que revela a clara aposta da OCDE neste projeto, que tenderá a robustecer-se.

MCE 2022 Ep1 Os dados das ciências climáticas, com Steven E. Koonin

O sol a partir para sempre de mim

O sol a partir para sempre de mim,

Porque tenho falta de interior.

domingo, 9 de outubro de 2022

A LÍNGUA PORTUGUESA REVISITADA

A língua em que um dia nasci
teve sempre, pra mim, um sabor índico.
Nela, força e luz foi o que vi
e também um supremo gozo lúdico!

Língua clara, sonora e poderosa,
soube sempre ser máscula e doce,
podendo surfar onda alterosa
e também dar seu elegante couce.

Insinuante e muito sensual,
soube, por outro lado, ser austera.
Tendo nascido em Portugal,

vi-a, em Moçambique, à minha espera.
Foi amiga fiel e quente amante,
enfeitada com oiro e diamante!

Eugénio Lisboa

A PRIVATIZAÇÃO ESCONDIDA DA ESCOLA PÚBLICA

Stephen Ball é um professor e investigador do Instituto de Educação da Universidade de Londres com enorme prestígio na comunidade científica. O seu nome é sinónimo de honestidade, competência e clarividência. Sem cedermos ao "argumento de autoridade", devemos prestar atenção ao que escreve e ao que escreveu. Num relatório destinado à Education International, com data de 2008, explica, em colaboração com Deborah Youdell, que o co-assina, a passagem de mãos da educação escolar pública do sector público para o sector privado. Passagem que, para ser mais eficaz, é camuflada, mistificada. 

Deixo ao leitor um breve resumo das primeiras páginas que apresentam o trabalho em causa, na esperança de que abra esta ligação e se detenha no conteúdo, sobretudo se for director escolar, professor, formador de professores.

Por todo o mundo, estão a ser introduzidas formas de privatização dos sistemas de ensino públicos. A tendência, crescente entre os governos, pode ter um impacto significativo para os alunos, a equidade, as condições de ensino. A gestão das escolas, sendo justificada pela necessidade de “acompanhar os tempos”, reflecte uma orientação baseada no mercado, competitivo e consumista. Tal tendência é, contudo, oculta. É camuflada pela linguagem da “reforma educativa”, apresentada como “modernização”. 

Assim, o objectivo do estudo é trazer essa tendência para a luz do dia. Precisamos de maior transparência, precisamos de entender melhor o que está a acontecer, para podermos participar num debate público aberto sobre o futuro da educação nas nossas sociedades.
Debate que não deve ser sobre a necessidade de reformas, mas sim sobre o tipo de reformas a fazer e a influência das agências internacionais nelas, as quais valendo-se de técnicas e valores do sector privado, introduzem-nos na educação pública, tornando-a num negócio. 

Ah, pousarei sempre o olhar

 Ah, pousarei sempre o olhar

Em tudo o que é imorredouro!

Onde poderei adormecer

E depois de adormecer sonhar.

 

Ah, pousarei sempre o olhar

Em tudo o que é imorredouro!

Onde poderei morrer

E depois de morrer acordar.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

A VIDA É UMA CURTA PASSAGEM

Há só uma maneira de não morrermos
– sermos recordados por quem amámos:
por um gesto que aconteceu fazermos
ou por uma dádiva que deixámos.

Esse curto suplemento de vida 
– porque os que nos lembram também morrem –
é a vida que nos é consentida 
e, disto, os mortos já não recorrem.

Não há memória que muito dure,
menos ainda, há eternidade. 
Por maior glória que se augure, 

desmenti-lo-á a realidade: 
porque dizer que nós somos mortais
quer dizer que mais é demais. 

Eugénio Lisboa

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

O GRANDE ORÁCULO

Ele ouvia vozes que mais ninguém
ouvia. Eram vozes de além,
que perturbavam o seu doce harém
e não deixavam que dormisse bem.

Ele escrevia os segredos que ouvia,
em livros duros que ao mundo servia.
Por todo o mundo ele distribuía
o que uma pitonisa lhe dizia!

Aquilo era obscuro e sem sentido,
sendo, porém, por todos pressentido
que havia ali segredo escondido.

A obscuridade do que dizia,
por ser obscura, é que seduzia
a muita gente que a ele afluía. 

Eugénio Lisboa

«O PRINCÍPIO DA INCERTEZA» DE AGUSTINA BESSA-LUÍS


Meu texto sobre Agustina Bessa-Luís, que faria 100 anos a 15 de Outubro, saído nas Artes entre as Letras:

Agustina Bessa-Luís (1922-2019) escreveu sobre a vida portuguesa, em particular da gente do Norte do país. Não estando a cultura nacional historicamente entranhada pela ciência e pela tecnologia como está em outros países europeus, não era de esperar que a cultura científico-tecnológica fosse relevante nas histórias de vida de Agustina.

No entanto, encontramos alguns termos científicos na sua obra. Por exemplo, o título Princípio da Incerteza, que deu a uma trilogia formada pelos romances Joia de Família (2001), Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, A Alma dos Ricos (2002) e Os Espaços em Branco (2003), os dois primeiros adaptados ao cinema por Manoel de Oliveira (1908-2015), sob os títulos de O Princípio da Incerteza (2002) e Espelho Mágico (2005). Enunciado em 1926 pelo físico alemão Werner Heisenberg, o título genérico diz que não se pode saber exactamente a posição e a velocidade de uma partícula quântica, isto é, quanto mais se conhecer a posição menos se saberá da velocidade e vice-versa.  Esse enunciado pode ser deduzido de axiomas da teoria quântica, sendo. uma fatalidade no estranho mundo das micropartículas. Mais adequado do que incerteza seria o termo «indeterminação», uma vez que não se pode determinar em simultâneo os valores das duas grandezas físicas.

Tal norma da física quântica, que viola o nosso senso comum uma vez que, para um automóvel, podemos saber ao mesmo tempo posição e velocidade, não passa de uma metáfora na trilogia literária, pois não se descortina uma relação óbvia entre os romances e o mundo das partículas não passa de uma metáfora. A apropriação literária de um termo da física não é inédita. Encontra-se noutras obras como O Princípio da Incerteza (1993), do escritor francês Michel Rio, e na peça de teatro Copenhaga (2000), do dramaturgo inglês Michael Frayn. Se a relação com a física quântica é algo difusa em Rio, ela é bastante nítida em Copenhaga, peça que em Portugal foi representada no Teatro Aberto em Lisboa em 2003 encenada por João Lourenço e interpretada pelos actores Carmen Dolores, Paulo Pires e Luís Alberto. A peça trata a incerteza tanto na física como nas relações humanas, ao descrever o encontro que teve lugar em Copenhaga em 1941 entre Heisenberg e o seu mestre Niels Bohr, físico dinamarquês. O discípulo representava o ocupante e o mestre o ocupado. Os dois tinham segredos atómicos e da conjugação das suas vontades dependia o futuro do mundo. Saíram separados, mas, como em todas as relações humanas, o desfecho não podia ser previsto: era incerto.

Na trilogia de Agustina paira também uma contínua incerteza. Ao ler esses romances, o leitor não pode adivinhar o que vai acontecer. Na história de Joia de Família surgem casos de corrupção, delinquência e crime. É descrito um incêndio numa casa de alterne do Norte que se assemelha ao que aconteceu realmente em 1997 no estabelecimento Mea Culpa em Amarante, em que morreram treze pessoas. Por seu lado, A Alma dos Ricos anda à volta dos mistérios da alma feminina (a mulher ocupa um lugar relevante em toda a ficção de Agustina), uma alma que, entre nós, tanto pode ser submissa como rebelde.  Finalmente, em Os Espaços em Branco perpassam cenários e cenas da modernidade lusitana como os centros comerciais, o comércio de droga, a imigração ilegal, todos eles sintomáticos de uma sociedade desigual. Os três romances são independentes, embora existam personagens recorrente. O painel dos três fornece um retrato desalentado da contemporaneidade portuguesa, mostrando como uma sociedade de raízes antigas reage a novas influências e vícios. Agustina dá um retrato da alma humana, portuguesa e universal. Escreve em Alma dos Ricos a propósito de um dos seus personagens, usando uma imagem científica: "Ela tomara um caminho tão solitário como o das estrelas e não havia uma fórmula para o descrever e compreender.” Numa entrevista à jornalista Maria Augusta Silva, a escritora sumariou assim o seu Princípio da Incerteza: “Para mim, o Ser é infinito, tem uma história que se desenvolve, mas sem remate. É uma trilogia tocada pela asa da incerteza.”

É claro que ciência e literatura são diferentes: a ciência lida com o real e objectivo, ao passo que a segunda não tem de o fazer. Mas, numa entrada do Caderno de Significados (Guimarães) intitulada “A Ciência da Literatura”, datada de 1984, Agustina afirma que “a literatura é uma ciência”, acrescentando “encíclica”, isto é. que circula:

“A literatura é uma fisionomia interior. Vemos como as mulheres são dispostas a conservar um rosto e não a criar um rosto. A literatura tem que criar o rosto; manifestar nela a marca que está no fundo de todos os seres e que é a inteligência. Por isso digo que a literatura é uma ciência, uma ciência encíclica em que a arte da palavra origina a tão bela cultura externa que os gregos admiraram. Quanto mais a alma humana estiver distribuída por harmoniosos laços de pensamento, vontade e paixões, mais a literatura será obra digna dos homens e das mulheres que a fizerem.” 

ESCRITOS DE EGÍDIO NAMORADO

 

Meu texto no último JL:

O físico-químico Egídio Namorado (1920–1976) foi o irmão mais novo do poeta neorrealista Joaquim Namorado (1914-1986): os dois foram, nos anos de 40 e 50, membros proeminentes da direcção da Vértice, a «revista de cultura e arte» criada em Coimbra em 1942 (nos fundadores esteve Eduardo Lourenço), que conheceu nova vida a partir do número 4-7 em 1945, graças ao entusiasmo de uma geração jovem. Egídio foi essencialmente um filósofo da ciência, embora também tenha feito incursões pela história da ciência, pela arte e pela cultura portuguesa. Quando acabou o curso na Universidade de Coimbra, foi convidado pelo catedrático de Física Mário Silva para seu assistente, mas o seu alinhamento à esquerda impediu-o de exercer essas e outras funções no Estado, tendo de viver de explicações. Só em 1958 se mudaria para Lisboa, onde foi primeiro arquivista na Companhia Portuguesa de Indústrias Nucleares e depois funcionário da Fundação Gulbenkian (director adjunto do Serviço de Ciência e director do Centro de Cálculo). Morreu no tempo da pós-Revolução, quando muito haveria ainda a esperar dele.

Natural de Alter do Chão, Egídio estudou no Liceu José Falcão em Coimbra, onde foi director do jornal Alvorada, sucedendo a Fernando Namora. Aos 17 anos já escrevia, sob pseudónimo, no Sol Nascente, «quinzenário de ciência, arte e crítica» fundada em 1937 no Porto e que durou até 1940. Egídio invectiva as posições idealistas, situando-se claramente do lado do materialismo. A doutrina filosófica então dominante era o positivismo lógico do Círculo de Viena, que começou com um manifesto de 1928 e terminou em 1936 com o assassinato de um dos seus principais mentores às mãos de um fanático nazi. Num dos seus artigos, Egídio zurziu José Régio, declarando que a filosofia desligada dos factos da ciência não passa de metafísica, isto é, não tem qualquer valor. As revistas culturais da época acolhiam tanto artigos de ciência e filosofia como de arte e literatura. Uma delas O Diabo, saído em Lisboa entre 1934 e 1940. Foi aí que, numa série de artigos em 1936, o médico portuense Abel Salazar (que tinha sido demitido da Universidade do Porto em 1935 pela sua oposição ao outro Salazar) empreendeu um cerrado proselitismo do positivismo lógico. Em Coimbra saiu entre 1939 e 1941 a Síntese, «revista mensal de cultura científica, literária, artística» (da qual o jovem José Saramago foi editor). Bem mais antiga e longeva (prolongou-se até aos dias de hoje), é a Seara Nova, «revista de doutrina e crítica», fundada em 1921 em Lisboa por Raul Proença e uma plêiade de intelectuais. Todas essas revistas acolheram vozes críticas ao Estado Novo.

A Imprensa da Universidade de Coimbra acaba de publicar Escritos sobre Filosofia, Ciência e Arte, de Egídio Namorado, com 524 páginas (o livro está on-line, no quadro da política de acesso aberto da editora), organizado por João Clímaco, professor aposentado da Faculdade de Economia daquela universidade e sobrinho do autor. O organizador, que assina o prefácio e uma nota biobibliográfica, que é uma versão revista de um seu texto saído na revista Nova Síntese, escolheu e ordenou 25 textos de Egídio. Exceptuando dois que saíram em O Tempo e o Modo,  um que saiu na Seara Nova e outro na revista Electricidade (este, mais técnico, é uma especulação sobre a existência de um quantum de comprimento), todos os outros saíram na Vértice, que foi um viveiro do neorrealismo (a ela pertenceram, além dos Namorados, Carlos de Oliveira, João José Cochofel, Rui Feijó et al.). Lembro que a colecção de poesia Novo Cancioneiro, que incluiu o Aviso À Navegação de Joaquim Namorado, e o romance Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, são de 1941.»

Os melhores textos de Egídio são de filosofia de ciência. Fica neles claro que não é um materialista lógico, mas sim um «materialista moderno». Ao materialismo de pendor lógico-matemático baseado na experiência faltava a dimensão histórico-social que a sua orientação marxista propugnava. Expoente desses textos é a sua tentativa, em 1970, de conciliação do materialismo com as posições de António Sérgio, falecido no ano anterior, próximo do idealismo (Sérgio teve uma violenta polémica nos anos 30 com Abel Salazar, e outra, mais fina, nos anos 40, na Vértice, com Bento de Jesus Caraça). Joel Serrão respondeu a Egídio, tomando para si as «dores» de Sérgio. Dos textos sobre história da ciência sobressai um sobre Galileu, de 1974. Nos textos sobre arte um de louvor ao neorrealismo, de 1962. E, dos textos sobre cultura portuguesa, destaco os seus dois textos sobre Camões, de 1966 e 1970, nos quais busca pontes entre o Camões épico, materialista, e o Camões lírico, idealista.

Já existia uma antologia de Egídio Namorado, Ponto de Vista, organizada pelo próprio e publicada pela Vértice em 1958, com reedição em 1977 (prefaciada por Ferrando Catroga), pelo que não é de estranhar que quatro textos coincidam nos dois livros. Mas o seu livro de estreia saiu em 1945, tecendo críticas ao Círculo de Viena: A Escola de Viena e Alguns Problemas de Conhecimento. Não foi aliás o primeiro português a fazê-lo: o filósofo e mais tarde também pedagogo Delfim Santos, que estudou em Viena, não ficou muito impressionado pela doutrina que bebeu directamente na fonte (publicou em 1938 Situação Valorativa do Positivismo, tese de doutoramento que não foi aceite pela Universidade de Coimbra). Outros nomes críticos da Escola de Viena foram Vitorino Magalhães Godinho, que escreveu em 1940 Razão e História, tese de licenciatura na Universidade de Lisboa, e Vasco Magalhães Vilhena, marxista como os Namorados, que escreveu em 1941 um livro intitulado Unidade da Ciência, tese de doutoramento que foi reprovada em Coimbra tal como a de Santos (Vilhena defenderia outra tese na Sorbonne e seria um dos exilados que regressou de Paris num dos primeiros aviões após o 25 de Abril).

Conheci pessoalmente Joaquim Namorado, que me deixou uma forte impressão, mas não o seu irmão Egídio. Mas foram-me úteis as traduções que ele fez na área de Física Quântica, a sua teoria física de eleição: os textos seminais de Niels Bohr e o manual de Física Atómica de Max Born, ambos publicados pela Gulbenkian. Depois de ler os seus Escritos sobre Filosofia, Ciência e Arte só posso concluir que gostaria de o ter conhecido.

 

 

No Dia Mundial do Professor, a preocupação é a falta destes profissionais

Por Cátia Delgado 


No Dia Mundial do Professor 2022, que se assinala no dia 5 de outubro, a UNESCO lançou o relatório Transformar a educação a partir de dentro: tendências atuais no estatuto e desenvolvimento dos professores, em parceria com a Teacher Task Force, o qual espelha a preocupação mundial com a falta de professores. 
 
Com o intuito de a mitigar, foram definidas três áreas de ação, a saber: 
• “Acelerar os esforços para melhorar o estatuto dos professores e as suas condições de trabalho para tornar a profissão docente mais atraente por via de um diálogo social robusto e da participação dos professores nas decisões educacionais; 
• Acelerar o ritmo e melhorar a qualidade do desenvolvimento profissional dos professores através da adoção de políticas nacionais abrangentes para professores e pessoal docente; 
Aumentar o financiamento para professores através de estratégias nacionais integradas de reforma e governança funcional efetiva e estratégias financeiras dedicadas.”
A temática foi noticiada em vários periódicos, nomeadamente aqui, aqui e aqui, com grande destaque para os 69 milhões de professores que, previsivelmente, faltarão até 2030, antecipando-se que a meta definida pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável com esse horizonte, de uma “educação de qualidade para todos”, falhará. 

Numa nota conjunta com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Unicef e a Educação Internacional (EI), subordinada ao tema que marca o dia, “A transformação da educação começa com os professores”, apela-se aos governos que intensifiquem os apoios à educação no sentido de "manter o seu pessoal e atrair novos talentos".

Nas palavras de Audrey Azoulay, diretora-geral da UNESCO: 
"a falta de formação, condições de trabalho pouco atrativas e financiamento inadequado são fatores que minam a profissão e agravam a crise global de aprendizagem". 
Outro fator destacado é a disparidade salarial entre os docentes e outros profissionais com níveis de formação semelhantes, sobretudo nos países mais desenvolvidos, realçando-se três exemplos que se distanciam da regra, pela positiva: “Singapura, com um salário médio igual a 139 % das profissões comparáveis, Espanha (125 %) e Coreia do Sul (124 %)”. 

As zonas mais afetadas pela presente crise, onde a falta de professores é mais flagrante, são a África Subsaariana e o Sul da Ásia, com as salas de aula mais sobrelotadas do mundo (cerca de 52 alunos, quando a média mundial é de 26).

terça-feira, 4 de outubro de 2022

Prémio Nobel da Física para o Gato de Schrödinger

Alain Aspect, John F. Clauser e Anton Zeilinger foram anunciados como os premiados com o Nobel da Física de 2022, pelas suas "experiências com fotões entrelaçados, instituindo a violação das desigualdades de [John] Bell e tornando-se pioneiros na ciência da informação quântica".

O conceito de entrelaçamento (entanglement em inglês) de dois corpos, como a situação na qual o nosso conhecimento sobre um dos corpos está inextricavelmente correlacionado com o nosso conhecimento sobre o outro, foi introduzido por Schrödinger num famoso artigo publicado em 1935, em que descreve uma experiência imaginária que ficou conhecida como o paradoxo do gato de Schrödinger. Daí o título deste  post.

O entrelaçamento quântico é um dos conceitos mais contraintuitivos da mecânica quântica, mas também uma das mais fundamentais consequências do formalismo matemático da teoria, e a base das novas tecnologias quânticas.

Estes temas são desenvolvidos em detalhe num pequeno livro (sem formalismo matemático), que sairá dentro de dias na IST Press (a editora do Instituto Superior Técnico), e cuja capa se representa na figura, podendo ser adquirido em livrarias e aqui

Um pequeno extrato pré-print sobre entrelaçamento e teleportação pode ser visto aqui 


O GATO, ESSE DESCONHECIDO

Para a Otília, de quem é bom ser gato 
Há que tempos não faço um poema 
dedicado aos tão belos gatinhos!
Ora eles são mesmo o grande tema,
os domésticos e os dos caminhos.

Os domésticos e mesmo os vadios,
tudo são bichos de grande desenho:
são caprichosos mas não são frios,
donos de um esbelto desempenho!

Os gatinhos descobrem gestos novos
e inventam graças intrometidas. 
Insinuam-se entre gentes e povos

com caprichos e ideias atrevidas!
As patinhas despertas dos gatinhos
São hábeis e malandros cacetinhos!

Eugénio Lisboa

Education at a Glance, a definir as políticas de educação nacionais desde o início do século XXI

Por Cátia Delgado

Foi lançado ontem o estudo anual da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), Education at a Glance (a primeira edição data de 1998 e a segunda de 2000, a que se seguiram novas edições todos os anos), numa conferência de apresentação preconizada pelos Secretário-Geral, Mathias Cormann, e diretor da Diretoria de Educação e Competências, Andreas Schleicher, da OCDE e pelo Ministro da Educação e Juventude francês, Pap Ndiaye.

O relatório analisa os sistemas de educação dos 38 países membros da OCDE, assim como da Argentina, Brasil, China, Índia, Indonésia, Arábia Saudita e África do Sul.

Este é considerado, pela organização, o “principal compêndio internacional de estatísticas nacionais comparáveis que medem o estado da educação em todo o mundo”.

A presente edição foca-se no ensino superior e no impacto da pandemia covid-19 durante o ano letivo 2021/2022. Inclui, ainda, outros indicadores, como: gastos públicos e privados em educação; a vantagem dos lucros em educação; ingresso e conclusão do ensino superior; salários estatutários e reais dos diretores das escolas; e salários dos professores e tempos de instrução.

Também em Portugal, à semelhança de outros países, como os EUA, Brasil, Itália, México, Letónia, Espanha, Finlândia, Alemanha e Japão, foi apresentado este relatório. No nosso país, coube a tarefa a Paulo Santiago, Chefe da Divisão de Assessoria e Implementação de Políticas da Direção de Educação e Competências da OCDE, numa sessão, na Reitoria da Universidade de Lisboa, com a participação de Nuno Rodrigues, Diretor-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, Pedro Nuno Teixeira, Secretário de Estado do Ensino Superior e João Costa, Ministro da Educação.


Detemo-nos, por agora, no prefácio do documento que é assumido como “a fonte de referência sobre o estado da educação no mundo", prefácio esse que é praticamente igual ao da edição de 2004. 

Rapidamente se percebem os objetivos do empreendimento, os quais deviam deixar os especialistas em educação e/ou em políticas educativas reticentes e cautelosos na leitura e, ainda mais, no seguimento das recomendações e atribuição de significado aos dados apresentados. 

Começa por referir-se que “os governos procuram cada vez mais comparações internacionais das oportunidades e resultados educativos”, o que dito por uma organização que promove exatamente esses estudos comparativos, não espanta. 

Prossegue, descrevendo, de forma copiosa, o seu trabalho de auxílio aos países na construção de sistemas educativos “mais eficazes e equitativos”: 
“A Direção de Educação e Competências da OCDE contribui para esses esforços desenvolvendo e analisando os indicadores quantitativos e internacionalmente comparáveis que publica anualmente no Education at a Glance.” 
Continua, enunciando os três públicos-alvo que pretende alcançar (governos, académicos e público em geral): 
“O Education at a Glance atende às necessidades de uma variedade de usuários, desde governos que buscam aprender lições de políticas até académicos que exigem dados para análises adicionais e o público em geral que deseja monitorizar como as escolas dos seus países estão a progredir na produção de alunos de classe mundial.” 
Especificamente, a OCDE considera-se:
- especialista em política educativa, sendo procurada pelos governos nacionais para, com ela, aprenderem a desempenhar o seu trabalho;
- produtora de dados de qualidade credível e incontestável, aos quais os investigadores científicos poderão recorrer para legitimar os seus trabalhos;
- a melhor conhecedora das realidades nacionais dos seus 38 países-membros, entre outros;
- uma entidade qualificada para estabelecer o que é, a nível mundial, o perfil de um “bom aluno”.
Entende apresentar, deste modo, “os melhores dados comparáveis internacionalmente disponíveis.” 

Importa, aqui, realçar qual a génese de tais dados. Eles partem da definição de indicadores, estabelecidos pela própria OCDE (conceitos/termos que seleciona e que passam a fazer parte das agendas políticas nacionais), passíveis de ser comparados (“onde a perspetiva comparativa internacional pode oferecer valor agregado”), analisados e avaliados.

Ora, sendo o campo educativo de uma completude tal, como poderá a sua análise e, consequentemente, a definição das medidas políticas a adotar, basear-se em estudos desta natureza? Como poderemos, conscientes das complexidades inerentes à tarefa educativa, mormente de teor humanístico, deixar o futuro da educação nacional afeto ao domínio de estudos meramente estatísticos

São vários os traços que ficam de fora, como alerta Inger Enkvist, numa entrevista ao El País, em 2018, referindo-se ao principal estudo que concorre para a escrita deste relatório, o PISA: 
O que os testes PISA não revelam é se há uma boa atmosfera na sala de aula, se bons princípios de trabalho são incutidos ou se as humanidades são bem-ensinadas.”
Quando questionada se a visão desta entidade para a escola é confluente com a de uma empresa, a pedagoga sueca elucida: 
A OCDE é uma organização económica e olha para a educação a partir dessa perspetiva. O PISA é um teste muito específico que analisa algumas coisas. As escolas e os países devem defender que oferecem muito mais do que isso.” 
A escola devia, de facto, nas pessoas que para ela definem as políticas, afirmar que oferece muito mais do que o que esta organização, por via do fundamentalismo estatístico, lhe quer atribuir.

A LÓGICA DO MERCADO APLICADA AOS SISTEMAS ESCOLARES

Num momento em que as grandes corporações supranacionais com influência na educação insistem no desmantelamento dos sistemas de ensino públicos, na substituição da escola por ambientes diversificados de aprendizagem, na entrega da escolarização a diversos stakeholders (entre os quais se destacam os pais e agentes da comunidade) e em que os Estados parecem nada poder ou querer fazer contra esta tendência, devemos prestar especial atenção a "experiências" que, tendo caminhado nesse sentido, não foram bem sucedidas, por referência, nomeadamente, ao "direito à educação". Uma dessas experiência é a da Suécia. 

Recentes notícias sobre a educação neste país levaram-me a recuperar outra mais antiga. A comparação parece dar razão à esquerda política, mas não é inteiramente assim. Na verdade, tanto a direita como a esquerda, cada uma à sua maneira, têm contribuído para a situação que acima enunciei, muito generalizada no mundo ocidental.

Vejamos, então, o caso a que me referia...

Em 2012, lia-se o seguinte no Diário Económico, de 6 de Setembro:
“… os suecos acreditavam que a desregulação era a solução para tudo, da gestão dos caminhos de ferro à educação dos filhos, mas isso acabou: há partes da nossa vida que o mercado não pode preencher. E aponta o dedo às organizações com fins lucrativos, considerando-as responsáveis pela crise que se abateu sobre o país...”. 
O depoimento é de Jonas Sjöstedt, líder do Partido de Esquerda da Suécia. Passados dez anos, o país tem sido notícia pelos problemas que o seu sistema educativo denota.

Num artigo, ainda recente, publicado no Le Monde com o título L’école suédoise, dégradée par une logique de marché, est devenue un contre-modèle (A escola sueca, degradada pela lógica do mercado, tornou-se um contramodelo), a sua autora, Anne-Françoise Hivert, explica breve mas concisamente esse problemas.


Diz ela:
No início dos anos de 1980 o sistema de ensino deste país ainda era centralizado: a organização e o financiamento dependiam do Estado, tendo as escolas uma autonomia limitada. Apesar de ser considerado um dos mais bem-sucedidos e igualitários do mundo, cresceram as críticas acerca da falta de diversidade pedagógica e da reduzida liberdade de escolha da escola por parte dos pais. Então, a decisão política (social-democrata) foi de descentralização: a partir de 1989, o ensino básico e secundário passou para a alçada de 290 municípios.

A oposição dos sindicatos de professores em nada mudou o sentido da decisão e em 1991, sob uma política de direita, foi feita uma nova reforma (a da “friskolor” ou “escolas gratuitas”) destinada a acabar com o quase monopólio da educação pública. Tal foi conseguido com a figura do “cheque-educação” (inventada pelo economista americano Milton Friedman, ideólogo do neoliberalismo) distribuído pelos municípios.

Cada aluno passou a receber um “cheque” independentemente da escola onde estivesse matriculado. Nos primeiros anos, o valor do “cheque” era mais baixo para o sector privado, mas em 1994, quando os social-democratas voltaram ao poder, igualaram o valor com o sector público. Em nome da igualdade, defendiam o direito de os pais escolherem a escola para os filhos, independentemente do seu rendimento. Passou a caber aos municípios definir o valor do cheque, podendo as escolas privadas estabelecer-se onde entendessem, desde que a inspecção escolar as validasse. As diferenças de nível educativo entre os estabelecimentos de ensino aumentaram e os professores qualificados começaram a faltar. 

Em suma, à medida que a privatização avançou e a intervenção pública recuou, aumentaram as desigualdades educacionais. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

A palavra ou quem mais pode

 A palavra ou quem mais pode.

A palavra traz a vida à morte

E deita por terra a corola num corte.

Sempre flor e sempre semente.

Sempre corolário cinzelado na pedra.

Sempre sol de algum poente,

Sempre céu derramado na terra.

Este é outro monte

Este é outro monte 

E um rio ao fundo.

Ah, o ouro da fonte,

O sol do tamanho

Do mundo

E o arrebol

No horizonte?!

Este é outro monte

E um rio ao fundo.

domingo, 2 de outubro de 2022

sábado, 1 de outubro de 2022

Que competências deve desenvolver a educação escolar para um país mais próspero?

Por Cátia Delgado.

Num programa de debate sobre “as competências que faltam a Portugal” para aumentar a produtividade do país, transmitido pela RTP3, em colaboração com a Fundação Francisco Manual dos Santos (FFMS), no passado dia 21 de setembro, perguntou-se, a um empresário, a um professor de economia, a uma investigadora da mesma área e a um sociólogo, 
 como se devem preparar os jovens para o futuro?
Tendo em conta a transformação digital a que se assiste, no meio empresarial, deverá a escola primar por novas competências mais transversais?

Pedro Góis, sociólogo da Universidade de Coimbra, destaca o papel da Universidade, detentora de uma “massa crítica” privilegiada, para dar resposta às necessidades do mercado, havendo a necessidade de uma maior articulação entre esta e as empresas, que deverão reconhecê-la como o parceiro ideal no que à formação diz respeito. Sobre a direção a tomar pela educação formal no sentido de melhor formar os jovens, o académico coloca a tónica na finalidade última da Universidade
“Ela também pode formar e dar ferramentas para o trabalhador imediatamente entrar no mercado de trabalho, mas nós queremos sobretudo que os nossos alunos aprendam a pensar, sejam talentosos na criatividade e não sejam mecanizados no uso de tecnologias que, todos sabemos, rapidamente se tornarão obsoletas. Se nós os prepararmos para usar determinadas ferramentas e não os prepararmos para aprenderem a usar qualquer ferramenta, falhámos o nosso objetivo.”
David Autor, economista norte-americano e professor no Massachusetts Institute of Technology (MIT), alertou ainda, que o conhecimento é um investimento valioso a longo prazo, pelo que, se Portugal quiser prosperar, deverá apostar no aumento dos níveis de formação universitária. O seu conselho para qualquer jovem estudante que queira vingar num mercado de trabalho cada vez mais marcadamente digital, cuja ameaça da eliminação de certas funções executadas por humanos, devido ao desenvolvimento das tecnologias, sobre ele paira, é simples: 
“Algo que as máquinas não podem fazer, mas que as pessoas fazem melhor com máquinas. Pode ser na medicina, educação, design, pesquisa, trabalhar com dados (...). Há muito espaço para as pessoas acrescentarem valor. Não precisamos de competir com as máquinas. (...) Mas podemos usar as máquinas como ferramentas para sermos mais eficazes naquilo em que somos excelentes. Encorajo os estudantes a saberem comunicar, escrever, apresentar, liderar e a pensarem de forma analítica.
A evidência é clara: as competências que melhor prepararão os jovens para a incerteza do futuro são as humanas e, como tal, desenvolvidas no campo das Humanidades, tendencialmente colocadas de parte pela escola, com primazia das STEM (áreas da Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). 

Também Michel Desmurget, autor do livro “A fábrica de cretinos digitais”, neurocientista e diretor de investigação do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica francês, foi chamado à discussão, apresentando o seu conhecimento sobre as consequências da exposição demasiado prolongada aos ecrãs para as capacidades cognitivas (até 1 hora por dia em crianças acima dos 6 anos de idade ou jovens é admissível). Considerando as novas tecnologias uma boa ferramenta, diz que não estamos a tirar o devido partido delas, privilegiando-se o seu uso pelo divertimento. Neste domínio, os efeitos adversos do contacto excessivo com ecrãs, sobretudo em crianças e jovens, são numerosos: 
- afetam a nossa capacidade de pensar e de interpretar o mundo; 
- o desenvolvimento da linguagem fica comprometido;
- têm efeitos sobre a capacidade de concentração;
- induzem a problemas de memorização;
- influem a transtornos do sono;
- a integridade do nosso funcionamento é afetada. 
Com efeito, o especialista considera que, no que toca à integração do digital na preparação das crianças e jovens para “um mundo em mudança acelerada”, deve primar a cautela. Em última análise, remata:
“Se queremos arruinar o sistema de atenção de uma criança, o multitasking (pedir-lhe que faça várias coisas ao mesmo tempo) é uma boa forma de comprometer o sistema de atenção.”
José Manuel Rosendo, que guiou a entrevista, a partir de França, conclui:
“Um problema complexo. Preparar o futuro passa por dar ferramentas úteis e por valorizar o esforço de aprendizagem. Aprender a ler o mundo deve ser o objetivo. As novas tecnologias até podem ser uma ajuda preciosa, mas tem de haver regras.”

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Com base em textos antes publicados aqui e aqui

Que janela é esta que não posso abrir

Que janela é esta que não posso abrir,

Só com receio de ouvir a tua voz?

Que janela é esta rente ao chão,

Onde ninguém me quer o olhar,

Claro como o rio, como o amor?

Que janela é esta que não posso abrir,

Impregnada de silêncio e pavor?

Que janela é esta rente ao chão,

Que me pode partir o frágil coração?!

Não te posso dar mais, vento

Não te posso dar mais,

Vento ou fome,

Do que pomares em flor,

Do que a minha pele.

Ah, ter-te

Em todos os seus umbrais…

E toda ela,

Toda ela em mel!

"MAIS LIVROS, MAIS LIVRES" - UM CICLO DE CONFERÊNCIAS

A expressão "mais livros, mais livres", do espanhol Màxim Huerta, dá título a um ciclo de conferências promovido pela Associação d...