quarta-feira, 12 de outubro de 2022
O LIVRO ENQUANTO OBJETO
"Acordar de manhã não pode ser só por dinheiro"
"Atualmente somos bombardeados com notícias económicas, políticas, sociais que às vezes nem sabemos distinguir o que é certo e o que é errado e acho que a filosofia nos vai levar a um patamar de conhecimento e a uma maneira diferente de pensar". (...) "Acordar de manhã não pode ser só por dinheiro".
PREFÁCIO: «Voando Com Giorgio Parisi»
Meu prefácio ao livro que acaba de sair na Bertrand: «A minha história na Física, O voo dos estorninhos e outros sistemas complexos», do italiano Giorgio Parisi, Nobel da Física de 2021:
Não costuma haver controvérsias sobre o mérito dos laureados com o Prémio Nobel da Física. E essa regra manteve -se quando, em Outubro de 2021, a Academia de Ciências Sueca anunciou que metade do Prémio ia para o italiano Giorgio Parisi pela sua «descoberta das relações entre desordem e flutuações em sistemas físicos que vão das escalas atómicas às planetárias». A outra metade foi divida irmãmente entre o japonês Syukuro Manabe e o alemão Klaus Hasselmann pela sua «modelação física do clima da Terra, pela quantificação da variabilidade e pela previsão segura do aquecimento global». A Academia reuniu as duas metades sob o título de «sistemas complexos»: todos os premiados deram «contribuições pioneiras para a nossa compreensão de sistemas físicos complexos».
É das maravilhas dos sistemas complexos que trata o presente livro de divulgação científica, a primeira obra a sair da pena do autor após ter recebido o mais prestigiado prémio científico do mundo (só tem outro livro desse género, A Chave, a Luz e o Bêbedo. Como se desenvolve a investigação científica, publicado pela Gradiva em 2022). Parisi convida -nos a fazer, com ele, um voo sobre os sistemas complexos, sistemas formados por pequenas partes com interacções complicadas, que podem exibir comportamentos colectivos bastante curiosos. O todo é maior do que a soma das partes. O mais interessante é que a descrição do todo não exige o conhecimento pormenorizado das partes. Não raro o que se sabe sobre um sistema complexo pode aplicar -se a outro que, aparentemente, é muito diferente: os físicos adoram descortinar paralelismos escondidos na enormíssima profusão de fenómenos naturais. O voo de Parisi ora é alto, para fornecer uma panorâmica, ora é baixo, rasante mesmo, para vermos mais de perto um ou outro caso particular. O autor leva-nos a voar com ele, prezando a inteligência do leitor, não o infantilizando, mas dispensando equações, com o intuito de atrair quem não tenha formação matemática (foi outro sábio italiano, Galileu Galilei, quem afirmou que «o livro da natureza está escrito em caracteres matemáticos»). O seu trabalho científico é percorrido à vol d’oiseau com graça e beleza.
Este livro apresenta não só os sistemas complexos, mas também e principalmente o modo como se faz a ciência. Para isso são dados vários exemplos. O primeiro é o voo dos estorninhos, que explica o título original (In un volo di storni): Parisi iniciou em 2008 estudos desses pássaros com um impressionante comportamento gregário. Eles formam bandos que evoluem em padrões tão diversos como curiosos, com manobras rápidas que parecem bailados. Em Portugal os estorninhos são aves comuns (os estorninhos pretos passam cá todo o ano e os estorninhos -malhados, uma espécie protegida, só cá passam a estação fria). Na região do Oeste, no Bombarral, há uma aldeia dos Estorninhos e o mesmo acontece na serra algarvia, não longe de Tavira. Pois o que é que têm os físicos a dizer sobre os estorninhos, que pareciam à partida ser um assunto restrito à zoologia? É que os bandos de aves são sistemas complexos, cujas leis o físico procurou descobrir. Como nos conta Parisi logo no início, a sua equipa fotografou os estorninhos de Roma para tentar perceber o seu extraordinário voo colectivo. O essencial da evolução do grupo é a manutenção das distâncias de cada um aos seus vizinhos mais próximos. A resposta rápida do bando às inflexões dos seus dirigentes são surpreendentes. Talvez a análise destes processos nos possa ajudar a compreender outros processos colectivos, incluindo aqueles que são feitos pelos humanos quando seguem as modas que vão aparecendo.
Parisi, o sexto italiano a receber o Prémio Nobel da Física (o mais conhecido é talvez o genial Enrico Fermi, que ganhou o Nobel de 1938 pela sua descoberta de novos elementos pesados), é um romano dos quatro costados. Nascido na Cidade Eterna pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial (mais precisamente, em 1948), doutorou -se em 1970 na Universidade de Roma La Sapienza, uma das mais antigas universidades do mundo. O seu mentor, nos tempos tumultuosos que se seguiram ao Maio de 1968, foi o famoso físico italiano Nicola Cabibbo, especialista em física de partículas, também dita física de altas energias: em ciência ter bons mestres ajuda muito. Trabalhou depois dez anos no Laboratório Nacional em Frascati, perto de Roma, período durante o qual beneficiou de estadas científicas nos Estados Unidos e em França. De 1981 a 1992, Parisi foi professor de Física Teórica na Universidade de Roma Tor Vergata, voltando depois à sua alma mater, para ocupar a cátedra de Física Quântica. Uma das suas maiores glórias foi ter presidido à Academia dos Linces, sediada em Roma, que é a mais antiga academia científica do mundo. Remonta a 1603, tendo tido Galileu como membro. Depois de dissolvida, reapareceu em força a meio do século xix. A Academia das Ciências de Lisboa organizou, em 2022, uma sessão conjunta com a Academia dos Linces, onde Parisi apresentou uma comunicação por via telemática. Porquê linces? Porque os observadores científicos necessitam de ter uma capacidade de observação só comparável à desses felídeos. A presidência dessa prestigiada academia esteve longe de ser a única distinção antes do Nobel: Parisi, cujos trabalhos totalizam quase cem mil citações, um número muito invulgar, recebeu os maiores prémios da área da física. O Nobel, ao contrário de algumas inesperadas inflexões dos estorninhos, não surpreendeu ninguém.
Parisi, à semelhança de Fermi (romano como ele), embrenhou- -se em vários ramos da física, desde as partículas elementares, no início, ao voo dos estorninhos, mais recentemente, tendo também investigado as idades do gelo da Terra. O seu trabalho mais citado foi publicado em 1977, em parceria com o seu colega Guido Altarelli. Situando -se na área da física de partículas, diz respeito à liberdade que os quarks têm quando estão muito próximos uns dos outros dentro dos protões e neutrões (um grupo de três quarks dificilmente se separa, tal como escravos agrilhoados, que muito perto uns dos outros «se sentem» livres). Mas o trabalho que verdadeiramente o celebrizou foi apresentado numa série de artigos iniciados em 1979 e coroado com um livro em coautoria publicado pela World Scientific em 1987. O tema são os vidros de spin, ligas metálicas em que uma das espécies constituintes tem um comportamento magnético, isto é, os seus átomos têm tendência para alinhar com os seus semelhantes (spin é um termo técnico para designar os átomos magnéticos). Esses materiais são chamados vidros por as posições dos spins serem aleatórias tal como as posições das partículas constituintes dos vidros. A relevância dos resultados levou a que esses fossem aplicados noutras áreas da ciência como as ciências de computação.
Uma marca forte deste livro consiste no facto de o autor contar, a partir da sua própria experiência, como é o trabalho científico. O cientista tem de estar obcecado pelo assunto, de modo a pensar muito nele. Precisa de intuição, que por vezes faz a sua mente saltar para outro domínio: Parisi «tropeçou» no método que revolucionou a física dos vidros de spin quando ainda trabalhava em questões de física de altas energias. Para se distinguir, tem de se ser capaz de fazer apostas audaciosas. E tem, em diálogo, de convencer os colegas da justeza dessas apostas. A minha história preferida deste livro anda à volta de uma demonstração que Parisi referiu numa conferência em Paris como solução de um problema muito intrincado. Ela tinha -lhe sido dada por dois colegas que trabalhavam numa área particular. Quando um outro físico lhe perguntou como é que isso era possível, o físico italiano disse -lhe os nomes dos dois colegas. Sabendo quais eram os métodos que eles usavam, o interlocutor, sem qualquer explicação adicional, concluiu passados poucos segundos como era a demonstração. Afinal era simples, apesar de engenhosa. Em física, como noutros ramos da ciência, por vezes há telepatia. E a física, que parece à partida muito difícil, acaba por ser divertida, como a montagem de um puzzle em conjunto. Como diz neste livro um amigo de Parisi: «Ser físico é uma trabalheira, mas sempre é melhor do que trabalhar.»
Cumpre ainda destacar a defesa que Parisi faz, nesta obra como noutras ocasiões ao longo da sua vida, da ciência fundamental. Cita o norte-americano Richard Feynman, físico teórico também nobelizado que resolveu alguns problemas práticos como a causa do desastre do vaivém Challenger da NASA: «A ciência é como o sexo, também tem consequências práticas, mas não é por isso que o fazemos.» O sábio italiano encabeçou em 2016 um grande movimento de cientistas em favor da investigação fundamental, queixando -se da falta de atenção dos governos. Deixando a «torre de marfim» do cientista, ele não fugiu à acção política quando ela urgia. Entre nós faz falta quem o imite, encabeçando a comunidade científica, na senda do malogrado José Mariano Gago, para conseguir a necessária ascensão da ciência.
Em entrevistas recentes, Parisi tem revelado alguns aspectos da sua vida privada. Gosta de ler (é fã de Isaac Asimov, o prolixo autor de ficção científica e também divulgador de ciência) e de caminhar. Nos últimos anos, interessou -se pela dança: aprendeu danças populares gregas e forró brasileiro. Diz que tem pena de nunca ter ido ao Brasil, mas tece encómios às músicas de Luiz Gonzaga, o «Rei do Baião», e ao livro Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.
Por último, é justo destacar a palavra de apreço que o autor deixa, no final, para Anna Parisi (que não tem com ele qualquer ligação de parentesco), por ela o ter ajudado neste livro. Essa sua colaboradora é uma italiana licenciada em Física que enveredou pela carreira de editora e escritora de livros juvenis de ciência. Fundou a editora Lapis, na qual criou a colecção Ah, saperlo!, com direcção científica de Giorgio Parisi. Quatro títulos dessa colecção, que já foi distinguida com vários prémios, foram publicados em Portugal entre 2005 e 2008 pela editora Principia: Números Mágicos e Estrelas Errantes; Asas, Maçãs e Telescópios; O Fio Condutor e Depende (este último é, claro, sobre a teoria da relatividade de Einstein). O mais recente Nobel da Física reconhece a imprescindibilidade da difusão da física para todos, em particular para os mais jovens. Para ele a física não é apenas um assunto dos físicos: interessa a todos, devendo fazer parte da nossa cultura.
Estou certo de que a leitura deste livro, bem traduzido por Maria Ferro, vai contribuir para alargar a cultura científica nacional. Pode até acontecer que faça uma revoada na mente de alguns leitores, tal como o espectacular voo dos estorninhos no céu. Está de parabéns a Bertrand por colocar os leigos interessados a par dos últimos desenvolvimentos científicos na área dos sistemas complexos, pela voz de um dos mais notáveis cientistas contemporâneos.
Coimbra, 30 de Maio de 2022
A supremacia da tecnologia sobre a humanidade é evitável.
terça-feira, 11 de outubro de 2022
A CRÍTICA LITERÁRIA TAL QUAL
NÃO FOI SÓ O ORÇAMENTO QUE ENCOLHEU
segunda-feira, 10 de outubro de 2022
Extracto de «O Homem de Neanderthal» (Gradiva, 2019) de Svante Paabo, Nobel da Medicina de 2022
Neandertal ex machina
Numa noite de 1996, já tarde, tinha eu acabado de adormecer, o telefone tocou. Do outro lado da linha estava Matthias Krings, um aluno de pós‑ ‑graduação do meu laboratório, no Instituto de Zoologia da Universidade de Munique. Tudo o que ele disse foi: «Não é humano.»
«Vou já», resmunguei. Vesti qualquer coisa e atravessei a cidade de carro, até ao laboratório. Nessa tarde, o Matthias tinha ligado as nossas máquinas de sequenciação do ADN, alimentando‑as com fragmentos de ADN que extraíra e amplificara de um pequeno pedaço de osso do braço de um neandertal pertencente ao Museu Rheinisches Landesmuseum (Museu Estadual do Reno), de Bona. Os anos consecutivos de resultados na sua maioria decepcionantes tinham‑me ensinado a manter as expectativas baixas. O mais provável era que, fosse o que fosse que ele tivesse extraído, não passasse de ADN bacteriano ou humano que se tivesse infiltrado no osso algures durante os 140 anos desde que fora desenterrado. Mas, ao telefone, o Matthias parecia muito empolgado. Teria conseguido recolher material genético de um neandertal? Parecia‑me pouco expectável.
No laboratório, encontrei o Matthias com Ralf Schmitz, o jovem arqueólogo que nos ajudara a obter autorização para extrair o pequeno pedaço de osso do braço do fóssil neandertal guardado em Bona. Mal conseguiam conter o regozijo quando me mostraram a cadeia de A, C, G e T que saía de um dos sequencia‑ dores. Nem eles nem eu víramos jamais algo parecido.
Aquilo que a um leigo pode parecer uma sequência aleatória de quatro letras é, na verdade, a estrutura química em estenografia do ADN, o material genéti‑ co armazenado em quase todas as células do corpo. As duas cadeias da famosa dupla hélice do ADN são constituídas por unidades que contêm os nucleótidos adenina, timina, guanina e citosina, abreviados por A, T, G e C. A ordem segundo a qual estes nucleótidos ocorrem constitui a informação necessária para formar o nosso corpo e permitir as suas funções. O fragmento específico de ADN para o qual estávamos a olhar fazia parte do genoma mitocondrial — ADNmt, abreviada‑ mente —, que é transmitido nos óvulos de todas as mães aos filhos. Há várias centenas de cópias deste ADNmt armazenadas nas mitocôndrias, estruturas minúsculas nas células, e ele especifica a informação necessária para que essas estruturas cumpram a sua função de produção de energia. Cada um de nós tem apenas um tipo de ADNmt, que compreende uns meros 0,0005 por cento do nosso genoma. Uma vez que transportamos em cada célula muitos milhares de cópias de um único tipo, este é particularmente fácil de estudar, ao contrário do resto do nosso ADN — de que há apenas duas cópias armazenadas no núcleo da célula, uma da nossa mãe e outra do nosso pai. Em 1996, já se tinham estudado sequências de ADNmt em milhares de seres humanos de todo o mundo. Essas sequências eram habitualmente comparadas com a primeira sequência de ADNmt hu‑ mano a ser determinada, e essa sequência referencial comum podia, por sua vez, ser usada para compilar uma lista das diferenças registadas e as respectivas posições. O que nos empolgou foi a sequência que determinámos a partir do osso do Neandertal conter alterações que nunca tinham sido vistas nesses milhares de seres humanos. Eu mal podia acreditar que aquilo que estávamos a ver era real.
Como me geralmente acontece quando deparo com um resultado empolgante ou inesperado, rapidamente fui assaltado por dúvidas. Investiguei todas as possibilidades de aquilo que estávamos a ver não ser bem assim. Talvez, numa altura qualquer, alguém tivesse usado cola feita a partir de pele de vaca para tratar os ossos e estivéssemos perante o ADNmt de uma vaca. Não: verificámos imediatamente o ADNmt de vaca (que outros tinham já sequenciado) e vimos que era muito diferente. Esta nova sequência de ADNmt era claramente próxima das sequências humanas e, no entanto, ligeiramente diferente de todas elas. Comecei a acreditar que aquele era, efectivamente, o primeiro fragmento de ADN alguma vez extraído e sequenciado a partir de uma forma extinta de seres humanos.
Abrimos a garrafa de champanhe guardada no frigorífico da copa do laboratório. Sabíamos que, se aquilo que estávamos a ver era realmente ADN neandertal, se abria todo um vasto campo de possibilidades. Poderia ser possível, um dia, comparar genes inteiros, ou qualquer gene específico, dos neandertais com os genes correspondentes das pessoas vivas actualmente. Quando regressei a casa a pé, através da silenciosa e escura Munique (tinha bebido demasiado champanhe para conduzir), ainda me custava a acreditar no que tinha acontecido. Deitei‑me, mas não consegui adormecer. Não parava de pensar nos neandertais e no espécime cujo ADNmt parecíamos ter acabado de identificar.
Em 1856, três anos antes da publicação da obra de Darwin A Origem das Espécies, uns trabalhado‑ res que limpavam uma pequena gruta numa pedreira no vale de Neander, cerca de dez quilómetros a leste de Düsseldorf, descobriram o topo de um crânio e alguns ossos que julgaram ser de um urso. Mas, daí a poucos anos, os vestígios foram identificados como pertencendo a uma forma extinta de humano, talvez nossa antepassada. Foi a primeira vez que tais vestígios foram descritos, e a descoberta chocou o mundo dos naturalistas. Ao longo dos anos, a investigação relativa àqueles ossos e a muitos mais como aqueles, entretanto encontrados, prosseguiu, tentando perceber quem eram os neandertais, como viviam e porque desapareceram há uns 30 000 anos, como interagiram com eles os nossos antepassados modernos durante os milhares de anos em que coexistiram na Europa, se eram amigos ou inimigos, nossos antepassados ou simplesmente nossos primos há muito desaparecidos (ver Figura 1.1). As escavações nas estações arqueológicas trouxeram à luz do dia registos extraordinários de comportamentos que nos são familiares, como o cuidar dos feridos, os enterramentos rituais e talvez mesmo a produção de música, o que nos mostra que os neandertais eram muito mais parecidos connosco do que qualquer macaco vivo. Quão parecidos? Se falavam ou não, se serão ou não uma ramificação morta da árvore genealógica dos hominídeos ou se haverá genes deles escondidos em nós, hoje, são questões que se tornaram parte integrante da paleoantropologia, a disciplina académica que se pode dizer ter tido o seu início com a descoberta daqueles ossos no vale de Neander, os mesmos de que parecía‑ mos agora ser capazes de extrair informação genética.
Por muito interessantes que estas questões fossem, parecia‑me que o fragmento de osso neandertal prometia algo ainda maior. Os neandertais são o parente extinto mais próximo dos seres humanos contemporâneos. Se conseguíssemos estudar o seu ADN, descobriríamos sem dúvida que os seus genes eram muito semelhantes aos nossos. Alguns anos antes, o meu grupo tinha sequenciado um grande número de fragmentos de ADN do genoma do chimpanzé e mostrara que, nas sequências de ADN que partilhamos com os chimpanzés, apenas pouco mais de um por cento dos nucleótidos era diferente. Os neandertais deviam ser, claramente, muito mais próximos de nós do que isso. Mas — e isto é que era imensamente empolgante —, entre as poucas diferenças que esperávamos encontrar no genoma nean‑ dertal, haveria aquelas que nos distinguiam de todas as outras formas de antepassados humanos: não apenas dos neandertais, mas também do Rapaz de Turkana, que viveu há uns 1,6 milhões de anos; da Lucy, há uns 3,2 milhões de anos; do Homem de Pequim, há mais de meio milhão de anos. Essas poucas diferenças tinham de constituir os alicerces biológicos da direcção radicalmente nova que a nossa linhagem tomou com o aparecimento dos seres humanos modernos: o advento e o desenvolvimento rápido da tecnologia, da arte sob a forma que hoje reconhecemos imediatamente como arte, e talvez da linguagem e da cultura tal como as conhecemos. Se conseguíssemos estudar o ADN neandertal, tudo isto poderia ficar ao nosso alcance. Embalado por este sonho (ou mania de grandeza), adormeci finalmente quando o Sol estava a nascer.
No dia seguinte, o Matthias e eu chegámos tarde ao laboratório. Depois de verificarmos a sequência de ADN da noite anterior, para nos certificarmos de que não tínhamos cometido erros, sentámo‑nos para planear o que fazer a seguir. Uma coisa era obter a sequência de um pequeno fragmento de ADNmt que parecia interessante, a partir de um fóssil de neandertal, outra coisa seria convencermo‑nos a nós mesmos — quanto mais ao resto do mundo — de que aquele era ADNmt de um indivíduo que tinha vivido (naquele caso específico) há uns 40 000 anos. O meu trabalho ao longo dos doze anos anteriores tornou o passo seguinte muito claro. Em primeiro lugar, tínhamos de repetir a experiência — não apenas o último passo, mas todos os passos, começando com um novo pedaço de osso, para provar que a sequência que obtivéramos não era um acaso, fruto de uma molécula de ADNmt moderna danificada e modificada que se encontrasse no osso. Em segundo lugar, precisávamos de ampliar a sequência de ADNmt que tínhamos obtido recolhendo fragmentos sobrepostos de ADN do pedaço de osso. Isto permitir‑nos‑ia reconstituir uma sequência mais longa de ADNmt, com a qual poderíamos começar a calcular quão diferente era o ADNmt dos neandertais relativamente ao dos seres humanos actuais. E depois era necessário um terceiro passo. Eu próprio tinha afirmado muitas vezes que quaisquer afirmações extraordinárias sobre sequências de ADN de ossos antigos exigiam provas extraordinárias — nomeada‑ mente a repetição dos resultados noutro laboratório, um passo invulgar numa área científica geralmente competitiva. A afirmação de que obtivéramos ADN dos neandertais seria certamente considerada extraordinária. Para excluirmos fontes desconhecidas de erro no nosso laboratório, precisávamos de partilhar uma parte do precioso material ósseo com um laboratório independente e esperar que aquele conseguisse replicar o resultado. Discuti tudo isto com o Matthias e o Ralf. Traçámos os planos para o trabalho que nos esperava e jurámos uns aos outros manter o segredo restrito aos nossos grupos de investigação. Não queríamos atrair 1 as atenções antes de termos a certeza de que o que tínhamos era mesmo o que pensávamos ter. (...)
MEU PREFÁCIO A “O PATRIMÓNIO É MEU, É TEU, É NOSSO. VAMOS CUIDÁ-LO” DE ADÍLIA ALARCÃO (ED. FUNDAÇÃO BISSAYA BARRETO):
O nome de Adília Alarcão era, para mim, uma lenda, quando tive o gosto de a conhecer de forma mais próxima no quadro do conselho que foi criado para apoiar a organização da «Coimbra - Capital Nacional da Cultura», em 2003.
Ninguém te tocará os lábios
Ninguém te tocará os lábios,
Sem que o coração fale.
Ninguém te tocará os lábios,
Sem que o mundo se cale.
"PISA para Escolas" também em Portugal
“O projeto PISA for Schools contribui para melhorar as oportunidades de aprendizagem e o bem-estar dos alunos, capacitando professores e líderes escolares por meio de conexões globais e benchmarking internacional com base numa escala comum fornecida pelo PISA.”
“fornecer resultados a nível escolar para fins de avaliação comparativa e de melhoria das escolas.”
“Por que comparar resultados de nível escolar internacionalmente?"
Dada a nossa economia global baseada no conhecimento, tornou-se mais importante do que nunca comparar os alunos não apenas com os padrões locais ou nacionais, mas também com o desempenho dos melhores sistemas escolares do mundo. Tem havido um interesse crescente em comparar o desempenho dos alunos com referências internacionais, tanto como um indicador de como os alunos estão preparados para participar numa sociedade globalizada, assim como um meio de estabelecer metas acima e além dos níveis básicos de proficiência ou expectativas locais.”
“Por que o projeto desencoraja o estabelecimento de rankings entre as escolas?
O Teste para Escolas baseado no PISA e os seus resultados são projetados para fornecer às escolas uma ferramenta de diagnóstico para promover a reflexão, a aprendizagem entre pares e a ação. Eles não devem ser interpretados ou usados como classificações escolares ou para “tabelas da liga”. Além disso, o PBTS não fornece relatórios de desempenho ao nível de aluno e não pode ser usado para classificar o desempenho do aluno.”
Bom entendedor compreenderá que, não é pelo facto de não se fornecer um relatório individual por aluno que se irá evitar a tendência implícita, dado tratar-se de um estudo de índole comparativa, de emulação entre escolas e de incitamento ao ensino para os resultados, treinando-se os alunos para os critérios pré-definidos e descurando vertentes formativas que não sejam abrangidas pelo programa.
Esta é mais uma forma de medir o desempenho das escolas que conta, em Portugal, com a adesão voluntária de mais de 100 escolas, à data, correspondente à fase piloto, conforme noticiado pela RTP Madeira, realçando-se o entusiamo envolto na iniciativa da parte de diversas entidades:
“Para o presidente do IAVE, essa é a principal mais-valia do projeto: a possibilidade de, através dos resultados da avaliação, as escolas tentarem perceber o que podem mudar para responder às dificuldades dos estudantes.”
Os restantes países que aderiram ao projeto são: Andorra, Austrália, Brasil, Brunei, China, Colômbia, Japão, Cazaquistão, Espanha, Tailândia, Emirados Árabes Unidos, Reino Unido e Estados Unidos da América.
O guia de aplicação para as escolas, também disponível em português, encontra-se acessível em 15 línguas diferentes, fator que revela a clara aposta da OCDE neste projeto, que tenderá a robustecer-se.
domingo, 9 de outubro de 2022
A LÍNGUA PORTUGUESA REVISITADA
teve sempre, pra mim, um sabor índico.
Nela, força e luz foi o que vi
e também um supremo gozo lúdico!
Língua clara, sonora e poderosa,
soube sempre ser máscula e doce,
podendo surfar onda alterosa
e também dar seu elegante couce.
Insinuante e muito sensual,
soube, por outro lado, ser austera.
Tendo nascido em Portugal,
vi-a, em Moçambique, à minha espera.
Foi amiga fiel e quente amante,
enfeitada com oiro e diamante!
A PRIVATIZAÇÃO ESCONDIDA DA ESCOLA PÚBLICA
Ah, pousarei sempre o olhar
Ah, pousarei sempre o olhar
Em tudo o que é imorredouro!
Onde poderei adormecer
E depois de adormecer sonhar.
Ah, pousarei sempre o olhar
Em tudo o que é imorredouro!
Onde poderei morrer
E depois de morrer acordar.
sexta-feira, 7 de outubro de 2022
A VIDA É UMA CURTA PASSAGEM
– sermos recordados por quem amámos:
por um gesto que aconteceu fazermos
ou por uma dádiva que deixámos.
Esse curto suplemento de vida
é a vida que nos é consentida
quinta-feira, 6 de outubro de 2022
O GRANDE ORÁCULO
Ele ouvia vozes que mais ninguém
ouvia. Eram vozes de além,
que perturbavam o seu doce harém
e não deixavam que dormisse bem.
Ele escrevia os segredos que ouvia,
em livros duros que ao mundo servia.
Por todo o mundo ele distribuía
o que uma pitonisa lhe dizia!
Aquilo era obscuro e sem sentido,
sendo, porém, por todos pressentido
que havia ali segredo escondido.
A obscuridade do que dizia,
por ser obscura, é que seduzia
a muita gente que a ele afluía.
Eugénio Lisboa
«O PRINCÍPIO DA INCERTEZA» DE AGUSTINA BESSA-LUÍS
Meu texto sobre Agustina Bessa-Luís, que faria 100 anos a 15 de Outubro, saído nas Artes entre as Letras:
Agustina
Bessa-Luís (1922-2019) escreveu sobre a vida portuguesa, em particular da gente
do Norte do país. Não estando a cultura nacional historicamente entranhada pela
ciência e pela tecnologia como está em outros países europeus, não era de esperar
que a cultura científico-tecnológica fosse relevante nas histórias de vida de
Agustina.
No entanto,
encontramos alguns termos científicos na sua obra. Por exemplo, o título Princípio
da Incerteza, que deu a uma trilogia formada pelos romances Joia de Família (2001), Grande Prémio de
Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, A Alma dos Ricos (2002) e Os Espaços
em Branco (2003), os dois primeiros adaptados ao cinema por Manoel de
Oliveira (1908-2015), sob os títulos de O
Princípio da Incerteza (2002) e Espelho
Mágico (2005). Enunciado em 1926 pelo físico alemão Werner Heisenberg, o
título genérico diz que não se pode saber exactamente a posição e a velocidade de
uma partícula quântica, isto é, quanto mais se conhecer a posição menos se saberá
da velocidade e vice-versa. Esse
enunciado pode ser deduzido de axiomas da teoria quântica, sendo. uma
fatalidade no estranho mundo das micropartículas. Mais adequado do que
incerteza seria o termo «indeterminação», uma vez que não se pode determinar em
simultâneo os valores das duas grandezas físicas.
Tal norma da
física quântica, que viola o nosso senso comum uma vez que, para um automóvel,
podemos saber ao mesmo tempo posição e velocidade, não passa de uma metáfora na
trilogia literária, pois não se descortina uma relação óbvia entre os romances
e o mundo das partículas não passa de uma metáfora. A apropriação literária de
um termo da física não é inédita. Encontra-se noutras obras como O Princípio da Incerteza (1993), do escritor francês Michel Rio, e na
peça de teatro Copenhaga (2000), do
dramaturgo inglês Michael Frayn. Se a relação com a física quântica é algo difusa
em Rio, ela é bastante nítida em Copenhaga,
peça que em Portugal foi representada no Teatro Aberto em Lisboa em 2003
encenada por João Lourenço e interpretada pelos actores Carmen Dolores, Paulo
Pires e Luís Alberto. A peça trata a incerteza tanto na física como nas
relações humanas, ao descrever o encontro que teve lugar em Copenhaga em 1941 entre
Heisenberg e o seu mestre Niels Bohr, físico dinamarquês. O discípulo representava
o ocupante e o mestre o ocupado. Os dois tinham segredos atómicos e da
conjugação das suas vontades dependia o futuro do mundo. Saíram separados, mas,
como em todas as relações humanas, o desfecho não podia ser previsto: era
incerto.
Na trilogia de
Agustina paira também uma contínua incerteza. Ao ler esses romances, o leitor
não pode adivinhar o que vai acontecer. Na história de Joia de Família surgem casos de corrupção, delinquência e crime. É
descrito um incêndio numa casa de alterne do Norte que se assemelha ao que
aconteceu realmente em 1997 no estabelecimento Mea Culpa em Amarante, em
que morreram treze pessoas. Por seu lado, A
Alma dos Ricos anda à volta dos mistérios da alma feminina (a mulher ocupa
um lugar relevante em toda a ficção de Agustina), uma alma que, entre nós, tanto
pode ser submissa como rebelde. Finalmente,
em Os Espaços em Branco perpassam cenários
e cenas da modernidade lusitana como os centros comerciais, o comércio de
droga, a imigração ilegal, todos eles sintomáticos de uma sociedade desigual. Os
três romances são independentes, embora existam personagens recorrente. O
painel dos três fornece um retrato desalentado da contemporaneidade portuguesa,
mostrando como uma sociedade de raízes antigas reage a novas influências e
vícios. Agustina dá um retrato da alma humana, portuguesa e universal. Escreve
em Alma dos Ricos a propósito de um
dos seus personagens, usando uma imagem científica: "Ela tomara um caminho tão solitário como o das
estrelas e não havia uma fórmula para o descrever e compreender.” Numa
entrevista à jornalista Maria Augusta Silva, a escritora sumariou assim o seu Princípio
da Incerteza: “Para mim, o
Ser é infinito, tem uma história que se desenvolve, mas sem remate. É uma
trilogia tocada pela asa da incerteza.”
É claro que ciência e literatura são diferentes: a ciência
lida com o real e objectivo, ao passo que a segunda não tem de o fazer. Mas, numa
entrada do Caderno de Significados (Guimarães)
intitulada “A Ciência da Literatura”, datada de 1984, Agustina afirma que “a
literatura é uma ciência”, acrescentando “encíclica”, isto é. que circula:
“A literatura é uma fisionomia interior. Vemos como as mulheres são dispostas a conservar um rosto e não a criar um rosto. A literatura tem que criar o rosto; manifestar nela a marca que está no fundo de todos os seres e que é a inteligência. Por isso digo que a literatura é uma ciência, uma ciência encíclica em que a arte da palavra origina a tão bela cultura externa que os gregos admiraram. Quanto mais a alma humana estiver distribuída por harmoniosos laços de pensamento, vontade e paixões, mais a literatura será obra digna dos homens e das mulheres que a fizerem.”
ESCRITOS DE EGÍDIO NAMORADO
Meu texto no último JL:
O físico-químico Egídio Namorado (1920–1976) foi o irmão mais novo do poeta
neorrealista Joaquim Namorado (1914-1986): os dois foram, nos anos de 40 e 50,
membros proeminentes da direcção da Vértice, a «revista de cultura e
arte» criada em Coimbra em 1942 (nos fundadores esteve Eduardo Lourenço), que conheceu
nova vida a partir do número 4-7 em 1945, graças ao entusiasmo de uma geração
jovem. Egídio foi essencialmente um filósofo da ciência, embora também tenha
feito incursões pela história da ciência, pela arte e pela cultura portuguesa.
Quando acabou o curso na Universidade de Coimbra, foi convidado pelo catedrático
de Física Mário Silva para seu assistente, mas o seu alinhamento à esquerda impediu-o
de exercer essas e outras funções no Estado, tendo de viver de explicações. Só
em 1958 se mudaria para Lisboa, onde foi primeiro arquivista na Companhia
Portuguesa de Indústrias Nucleares e depois funcionário da Fundação Gulbenkian (director
adjunto do Serviço de Ciência e director do Centro de Cálculo). Morreu no tempo
da pós-Revolução, quando muito haveria ainda a esperar dele.
Natural de Alter do Chão, Egídio estudou no Liceu José Falcão em Coimbra,
onde foi director do jornal Alvorada, sucedendo a Fernando Namora. Aos
17 anos já escrevia, sob pseudónimo, no Sol Nascente, «quinzenário de
ciência, arte e crítica» fundada em 1937 no Porto e que durou até 1940. Egídio invectiva
as posições idealistas, situando-se claramente do lado do materialismo. A doutrina
filosófica então dominante era o positivismo lógico do Círculo de Viena, que
começou com um manifesto de 1928 e terminou em 1936 com o assassinato de um dos
seus principais mentores às mãos de um fanático nazi. Num dos seus artigos, Egídio
zurziu José Régio, declarando que a filosofia desligada dos factos da ciência
não passa de metafísica, isto é, não tem qualquer valor. As revistas culturais da
época acolhiam tanto artigos de ciência e filosofia como de arte e literatura.
Uma delas O Diabo, saído em Lisboa entre 1934 e 1940. Foi aí que,
numa série de artigos em 1936, o médico portuense Abel Salazar (que tinha sido
demitido da Universidade do Porto em 1935 pela sua oposição ao outro Salazar) empreendeu
um cerrado proselitismo do positivismo lógico. Em Coimbra saiu entre 1939 e 1941
a Síntese, «revista mensal de cultura científica, literária, artística» (da
qual o jovem José Saramago foi editor). Bem mais antiga e longeva (prolongou-se
até aos dias de hoje), é a Seara Nova, «revista de doutrina e crítica», fundada
em 1921 em Lisboa por Raul Proença e uma plêiade de intelectuais. Todas essas
revistas acolheram vozes críticas ao Estado Novo.
A Imprensa da Universidade de Coimbra acaba de publicar Escritos sobre
Filosofia, Ciência e Arte, de Egídio Namorado, com 524 páginas (o livro
está on-line, no quadro da política de acesso aberto da editora), organizado
por João Clímaco, professor aposentado da Faculdade de Economia daquela universidade
e sobrinho do autor. O organizador, que assina o prefácio e uma nota biobibliográfica,
que é uma versão revista de um seu texto saído na revista Nova Síntese, escolheu
e ordenou 25 textos de Egídio. Exceptuando dois que saíram em O Tempo e o
Modo, um que saiu na Seara Nova
e outro na revista Electricidade (este, mais técnico, é uma especulação
sobre a existência de um quantum de comprimento), todos os outros saíram
na Vértice, que foi um viveiro do neorrealismo (a ela pertenceram, além
dos Namorados, Carlos de Oliveira, João José Cochofel, Rui Feijó et al.).
Lembro que a colecção de poesia Novo Cancioneiro, que incluiu o Aviso
À Navegação de Joaquim Namorado, e o romance Esteiros, de Soeiro
Pereira Gomes, são de 1941.»
Os melhores textos de Egídio são de filosofia de ciência. Fica neles claro que
não é um materialista lógico, mas sim um «materialista moderno». Ao materialismo
de pendor lógico-matemático baseado na experiência faltava a dimensão histórico-social
que a sua orientação marxista propugnava. Expoente desses textos é a sua tentativa,
em 1970, de conciliação do materialismo com as posições de António Sérgio,
falecido no ano anterior, próximo do idealismo (Sérgio teve uma violenta polémica
nos anos 30 com Abel Salazar, e outra, mais fina, nos anos 40, na Vértice,
com Bento de Jesus Caraça). Joel Serrão respondeu a Egídio, tomando para si as
«dores» de Sérgio. Dos textos sobre história da ciência sobressai um sobre Galileu,
de 1974. Nos textos sobre arte um de louvor ao neorrealismo, de 1962. E, dos textos
sobre cultura portuguesa, destaco os seus dois textos sobre Camões, de 1966 e
1970, nos quais busca pontes entre o Camões épico, materialista, e o Camões
lírico, idealista.
Já existia uma antologia de Egídio Namorado, Ponto de Vista, organizada
pelo próprio e publicada pela Vértice em 1958, com reedição em 1977 (prefaciada
por Ferrando Catroga), pelo que não é de estranhar que quatro textos coincidam
nos dois livros. Mas o seu livro de estreia saiu em 1945, tecendo críticas ao
Círculo de Viena: A Escola de Viena e Alguns Problemas de Conhecimento.
Não foi aliás o primeiro português a fazê-lo: o filósofo e mais tarde também
pedagogo Delfim Santos, que estudou em Viena, não ficou muito impressionado
pela doutrina que bebeu directamente na fonte (publicou em 1938 Situação
Valorativa do Positivismo, tese de doutoramento que não foi aceite pela Universidade
de Coimbra). Outros nomes críticos da Escola de Viena foram Vitorino Magalhães
Godinho, que escreveu em 1940 Razão e História, tese de licenciatura na
Universidade de Lisboa, e Vasco Magalhães Vilhena, marxista como os Namorados,
que escreveu em 1941 um livro intitulado Unidade da Ciência, tese de
doutoramento que foi reprovada em Coimbra tal como a de Santos (Vilhena defenderia
outra tese na Sorbonne e seria um dos exilados que regressou de Paris num dos
primeiros aviões após o 25 de Abril).
Conheci pessoalmente Joaquim Namorado, que me deixou uma forte impressão,
mas não o seu irmão Egídio. Mas foram-me úteis as traduções que ele fez na área
de Física Quântica, a sua teoria física de eleição: os textos seminais de Niels
Bohr e o manual de Física Atómica de Max Born, ambos publicados pela Gulbenkian.
Depois de ler os seus Escritos sobre Filosofia, Ciência e Arte só posso concluir
que gostaria de o ter conhecido.
No Dia Mundial do Professor, a preocupação é a falta destes profissionais
• “Acelerar os esforços para melhorar o estatuto dos professores e as suas condições de trabalho para tornar a profissão docente mais atraente por via de um diálogo social robusto e da participação dos professores nas decisões educacionais;
• Acelerar o ritmo e melhorar a qualidade do desenvolvimento profissional dos professores através da adoção de políticas nacionais abrangentes para professores e pessoal docente;
• Aumentar o financiamento para professores através de estratégias nacionais integradas de reforma e governança funcional efetiva e estratégias financeiras dedicadas.”
"a falta de formação, condições de trabalho pouco atrativas e financiamento inadequado são fatores que minam a profissão e agravam a crise global de aprendizagem".
quarta-feira, 5 de outubro de 2022
Aguardo por ti, encontro feliz
Aguardo por ti, encontro feliz.
Eu quero conhecer
o teu rosto.
O espelho
remoto é indecifrável,
Mente-me o
outro lado da rua.
E fica eternamente
em silêncio
O sol que te
beija o rosto e recua.
terça-feira, 4 de outubro de 2022
Prémio Nobel da Física para o Gato de Schrödinger
Alain Aspect, John F. Clauser e Anton Zeilinger foram anunciados como os premiados com o Nobel da Física de 2022, pelas suas "experiências com fotões entrelaçados, instituindo a violação das desigualdades de [John] Bell e tornando-se pioneiros na ciência da informação quântica".
O entrelaçamento quântico é um dos conceitos mais contraintuitivos da mecânica quântica, mas também uma das mais fundamentais consequências do formalismo matemático da teoria, e a base das novas tecnologias quânticas.
Um pequeno extrato pré-print sobre entrelaçamento e teleportação pode ser visto aqui
O GATO, ESSE DESCONHECIDO
Education at a Glance, a definir as políticas de educação nacionais desde o início do século XXI
“A Direção de Educação e Competências da OCDE contribui para esses esforços desenvolvendo e analisando os indicadores quantitativos e internacionalmente comparáveis que publica anualmente no Education at a Glance.”
“O Education at a Glance atende às necessidades de uma variedade de usuários, desde governos que buscam aprender lições de políticas até académicos que exigem dados para análises adicionais e o público em geral que deseja monitorizar como as escolas dos seus países estão a progredir na produção de alunos de classe mundial.”
- especialista em política educativa, sendo procurada pelos governos nacionais para, com ela, aprenderem a desempenhar o seu trabalho;
- produtora de dados de qualidade credível e incontestável, aos quais os investigadores científicos poderão recorrer para legitimar os seus trabalhos;
- a melhor conhecedora das realidades nacionais dos seus 38 países-membros, entre outros;- uma entidade qualificada para estabelecer o que é, a nível mundial, o perfil de um “bom aluno”.
“O que os testes PISA não revelam é se há uma boa atmosfera na sala de aula, se bons princípios de trabalho são incutidos ou se as humanidades são bem-ensinadas.”
“A OCDE é uma organização económica e olha para a educação a partir dessa perspetiva. O PISA é um teste muito específico que analisa algumas coisas. As escolas e os países devem defender que oferecem muito mais do que isso.”
A LÓGICA DO MERCADO APLICADA AOS SISTEMAS ESCOLARES
“… os suecos acreditavam que a desregulação era a solução para tudo, da gestão dos caminhos de ferro à educação dos filhos, mas isso acabou: há partes da nossa vida que o mercado não pode preencher. E aponta o dedo às organizações com fins lucrativos, considerando-as responsáveis pela crise que se abateu sobre o país...”.
No início dos anos de 1980 o sistema de ensino deste país ainda era centralizado: a organização e o financiamento dependiam do Estado, tendo as escolas uma autonomia limitada. Apesar de ser considerado um dos mais bem-sucedidos e igualitários do mundo, cresceram as críticas acerca da falta de diversidade pedagógica e da reduzida liberdade de escolha da escola por parte dos pais. Então, a decisão política (social-democrata) foi de descentralização: a partir de 1989, o ensino básico e secundário passou para a alçada de 290 municípios.A oposição dos sindicatos de professores em nada mudou o sentido da decisão e em 1991, sob uma política de direita, foi feita uma nova reforma (a da “friskolor” ou “escolas gratuitas”) destinada a acabar com o quase monopólio da educação pública. Tal foi conseguido com a figura do “cheque-educação” (inventada pelo economista americano Milton Friedman, ideólogo do neoliberalismo) distribuído pelos municípios.Cada aluno passou a receber um “cheque” independentemente da escola onde estivesse matriculado. Nos primeiros anos, o valor do “cheque” era mais baixo para o sector privado, mas em 1994, quando os social-democratas voltaram ao poder, igualaram o valor com o sector público. Em nome da igualdade, defendiam o direito de os pais escolherem a escola para os filhos, independentemente do seu rendimento. Passou a caber aos municípios definir o valor do cheque, podendo as escolas privadas estabelecer-se onde entendessem, desde que a inspecção escolar as validasse. As diferenças de nível educativo entre os estabelecimentos de ensino aumentaram e os professores qualificados começaram a faltar.Em suma, à medida que a privatização avançou e a intervenção pública recuou, aumentaram as desigualdades educacionais.
segunda-feira, 3 de outubro de 2022
A palavra ou quem mais pode
A palavra ou quem mais pode.
A palavra
traz a vida à morte
E deita por
terra a corola num corte.
Sempre flor e
sempre semente.
Sempre
corolário cinzelado na pedra.
Sempre sol de
algum poente,
Sempre céu
derramado na terra.
Este é outro monte
Este é outro monte
E um rio ao fundo.
Ah, o ouro da fonte,
O sol do tamanho
Do mundo
E o arrebol
No horizonte?!
Este é outro monte
E um rio ao fundo.
domingo, 2 de outubro de 2022
O que é a noite senão o frémito
O que é a noite senão o frémito
Desse terno corpo sem término
Que alguém eterno ouve dentro de ti.
sábado, 1 de outubro de 2022
Que competências deve desenvolver a educação escolar para um país mais próspero?
como se devem preparar os jovens para o futuro?
“Ela também pode formar e dar ferramentas para o trabalhador imediatamente entrar no mercado de trabalho, mas nós queremos sobretudo que os nossos alunos aprendam a pensar, sejam talentosos na criatividade e não sejam mecanizados no uso de tecnologias que, todos sabemos, rapidamente se tornarão obsoletas. Se nós os prepararmos para usar determinadas ferramentas e não os prepararmos para aprenderem a usar qualquer ferramenta, falhámos o nosso objetivo.”
“Algo que as máquinas não podem fazer, mas que as pessoas fazem melhor com máquinas. Pode ser na medicina, educação, design, pesquisa, trabalhar com dados (...). Há muito espaço para as pessoas acrescentarem valor. Não precisamos de competir com as máquinas. (...) Mas podemos usar as máquinas como ferramentas para sermos mais eficazes naquilo em que somos excelentes. Encorajo os estudantes a saberem comunicar, escrever, apresentar, liderar e a pensarem de forma analítica.”
- afetam a nossa capacidade de pensar e de interpretar o mundo;- o desenvolvimento da linguagem fica comprometido;- têm efeitos sobre a capacidade de concentração;- induzem a problemas de memorização;- influem a transtornos do sono;- a integridade do nosso funcionamento é afetada.
“Se queremos arruinar o sistema de atenção de uma criança, o multitasking (pedir-lhe que faça várias coisas ao mesmo tempo) é uma boa forma de comprometer o sistema de atenção.”
“Um problema complexo. Preparar o futuro passa por dar ferramentas úteis e por valorizar o esforço de aprendizagem. Aprender a ler o mundo deve ser o objetivo. As novas tecnologias até podem ser uma ajuda preciosa, mas tem de haver regras.”
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Que janela é esta que não posso abrir
Que janela é esta que não posso abrir,
Só com receio de ouvir a tua voz?
Que janela é esta rente ao chão,
Onde ninguém me quer o olhar,
Claro como o rio, como o amor?
Que janela é esta que não posso abrir,
Impregnada de silêncio e pavor?
Que janela é esta rente ao chão,
Que me pode partir o frágil coração?!
Não te posso dar mais, vento
Não te posso dar mais,
Vento ou fome,
Do que pomares em flor,
Do que a minha pele.
Ah, ter-te
Em todos os seus umbrais…
E toda ela,
Toda ela em mel!
"MAIS LIVROS, MAIS LIVRES" - UM CICLO DE CONFERÊNCIAS
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