segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Obituário:


A 19 de outubro de 2012 morreu Manuel António Pina; iria fazer 69 anos a 18 de novembro;
a 25 de outubro, morreu Jacques Barzun; faria 105 anos a 30 de novembro.

Tive sorte com a família. Houve sempre um bisbilhoteiro pró-ativo por perto, a dar-me a conhecer uma novidade, a espicaçar-me a curiosidade, ou a desfrutar a minha ignorância, o desconhecimento de qualquer coisa.
Durante anos desloquei-me, com alguma regularidade, a um refeitório do Ministério da Educação na avenida Duque de Ávila, com o único intuito de almoçar com a minha tia Maria Luísa, cliente habitual. Irmã do meu pai, professora primária, deliciou-me sempre com um espírito doce e aguçado, e qualidades raras de conversadora.
Frequentemente vinha munida de uma história, uma imagem ou um recorte de jornal, para meu único benefício. A tirinha do Manuel António Pina no Jornal de Notícias era artigo comum: recebia-a do meu pai, que lha enviava do Porto, deliciava-se e passava-ma.
Quando nos últimos anos de vida ela e o meu pai se juntaram em Sintra, passei a ler diretamente o Manuel António Pina: o meu pai nunca deixou de comprar o JN—penso que, sobretudo, por causa da tirinha da crónica, já que também comprava o Diário de Notícias e o Público.
Fiquei freguês.
Recentemente, após a atribuição a Manuel António Pina do prémio Camões pelo conjunto da obra, adquiri um livro inestimável duma editora nortenha: Manuel António Pina por outras palavras & mais crónicas de jornal — Porto: Modo de Ler, 2010.
É daí que, com a devida vénia, passo a citar (p.247):

«O monstro está entre nós
Tinha decidido passar ao largo da TLEBS, o Monstro criado no Ministério da Educação para obrigar os nossos filhos a odiar a língua e a literatura. Que podia uma pequena crónica contra tão medonho Golias? Mas vi num site do Ministério o que o Bicho fez a uma indefesa estrofe de Os Lusíadas, a quem chama (pobre estrofe!) "corpo linguístico ambíguo", e achei de mais. Já se sabia, desde A Lição, de Ionesco, que "a linguística conduz ao crime", mas deitar à força uma oitava na mesa de anatomia e dissecar, diante de miúdos do 9.º ano, ritmos, sentidos, imagens, ideias, sonoridades, emoções, tudo o que faz a misteriosa beleza do verso camoniano, em coisas como "núcleo(s) de complemento(s) preposiciona(is) em posição pós-verbal, constituindo uma unidade sintáctica que serve de locativo à forma verbal (…)" e "núcleo(s) de grupo nominal com função de complemento directo e modificador(es) adjectiva(is) em posição de atributo", nem o Estripador.
Nos meus tempos de estagiário li uma vez numa participação policial que alguém fora mordido por um "animal canídeo do sexo masculino, vulgo cão". Diz a TLEBS que cão é um "nome comum, contável, animado e não humano" (soa como o "robot" da Guerra das Estrelas a falar). Acho preferível a versão do polícia.
JN, 23.11.2008»

Como o escritor está longe de ser um desconhecido no De Rerum Natura, aproveito para remeter o Leitor para dois dos artigos mais recentes aqui saídos: Feira do livro do Porto (1 de junho de 2010) e Toma lá eduquês (10 de junho de 2010).
★
Um outro familiar mais recente, um genro canadiano com um curso de História que também não está quieto com a conversa, remeteu-me para o Jacques Barzun: Da Alvorada à Decadência—De 1500 à Actualidade; 500 Anos de Vida Cultural do Ocidente — Lisboa: Gradiva, 2003.
Começo pelas indicações de artigos no blogue: Rousseau segundo Barzun: o Bom Selvagem como abstracção (17 de janeiro de 2012) e, não muito antes, Jacques Barzun fez 104 anos! (14 de janeiro de 2012).
Deste recordista do Tempo passo igualmente a citar (Teacher in America—Indianapolis: Liberty Fund, 1981. p. xxi):

«[…]
E no entanto não podemos prescindir de ensinar—ou governar. Vemos neste preciso momento a toda a nossa volta a ameaça dos não instruídos—ameaçando-se a si mesmos e a nós, o que é o mesmo que dizer que não se autogovernam e são, portanto, ingovernáveis. Infelizmente, não há método ou artifício que substitua o ensino. Vimos baquear um método a seguir a outro—o "método global" na leitura foi um desastre nacional; e a tecnologia sob a forma da máquina de ensinar não foi menos falaciosa e absurda: requer ensino e capacidade de aprendizagem de qualidade superior para resultar. O mesmo com a fita magnética e a televisão. Ensinar não vai mudar; é um encontro mano a mano, cara a cara. Não há volta a dar—devemos ensinar e aprender, cada um por si, usando palavras e trabalhando contra as eternas Dificuldades. Esta é a condição para viver e sobreviver pelo menos toleravelmente bem: digamos, tão bem como os animais nos campos, cuja instrução vem do interior—e não precisam deste livro.»
António Mouzinho


NOTA: como desconfio de mim como tradutor, aqui segue o original do texto de Barzun:
«And yet we cannot do without teaching—or governing. We see right now all around us the menace of the untaught—the menace to themselves and to us, which amounts to saying that they are unselfgoverned and therefore ungovernable. There is unfortunately no method or gimmick that will replace teaching. We have seen the failure of one method after another—”look and say” in reading has been a national disaster; and technology in the form of the teaching machine has been no less fallacious and absurd: it takes superior teaching and learning ability to profit from the device. And so it is with film and tape and television. Teaching will not change; it is a hand-to-hand, face-to-face encounter. There is no help for it—we must teach and we must learn, each for himself and herself, using words and working at the perennial Difficulties. That is the condition of living and surviving at least tolerably well: let us say, as well as the beasts of the field, which have instruction from within—and no need of this book.»

O Sistema Educativo no Brasil!




Veja o video abaixo:Devemos começar pelas nossas crianças!


domingo, 4 de novembro de 2012

Retrato do Político, segundo Ortega y Gasset


Um notável texto (publicado no Jornal de Letras) do ensaísta e académico Eugénio Lisboa sobre a importância da cultura para os políticos numa altura em que esta simbiose tão arredada parece andar de governantes e parlamentares portugueses:

  Um dos mais notáveis livros que conheço, sobre o “tipo humano” do animal político, capturado, na sua complexidade multifacetada e frequentemente contraditória, foi escrito pelo grande pensador espanhol Ortega y Gasset, que era, além de pensador, um formidável escritor. Lê-lo é um dos grandes prazeres que pode proporcionar-nos essa aliança rara entre um pensamento surpreendentemente original e uma escrita de grande sedução e esplendorosa claridade.

Falecido em 1955 (ano em que perdemos outros dois gigantes: Albert Einstein e Thomas Mann), Ortega y Gasset deixou-nos, ao longo de uma vida cheia e algo turbulenta, um impressionante corpo de obra filosófica: desde o inicial e, de imediato, inspirador Meditaciones del Quijote (1914), e passando por títulos ainda hoje muito lidos, como La Rebelión de las Masas (1930), El Tema de NuestroTiempo (1923), La deshumanización del Arte (1925), El Libro de las Misiones (1940), España Invertebrada (1921), Ideas y Creencias (1979), entre outros, e sem excluir os indispensáveis volumes de El Espectador.

 Poucos escritores e pensadores, em qualquer época, terão ido tão ao fundo dos problemas, por via de um modo tão especial de os iluminar, de um ângulo tão diferente e a uma luz tão peculiar. Tudo isto aliado, como disse, a uma sedutora claridade de expressão. Sobre esta, observou o próprio Ortega que se tratava de algo muito deliberado: “Sempre acreditei que a claridade é a gentileza do filósofo e, além disso, esta nossa disciplina [a filosofia] tem como ponto de honra, hoje mais do que nunca, estar aberta e porosa a todas as mentes, diferente das ciências especiais, que cada vez mais com maior rigor, interpõem entre o tesouro das suas descobertas e a curiosidade dos profanos o dragão medonho da sua terminologia hermética.” Ortega chama à claridade “gentileza”, Vauvenargues (que Voltaire tanto apreciava) apelidava-a de “cortesia”: lesbeauxesprits...

Mas o que aqui nos leva hoje a recordar o grande filósofo espanhol é o seu ensaio “Mirabeau ou o Político”, inserido no famoso Tríptico (1941). Nele, Ortega sonda, com intemerata lucidez, o funcionamento do animal político, de que o grande parlamentar francês teria sido a viva encarnação. Os políticos têm, de há muito, má fama, mas, nos tempos modernos, o tiroteio a eles dirigido tem sido continuado, abundante, feroz e variado. Shaw, por exemplo, observava, através de um personagem da sua peça Major Barbara: “Ele não sabe nada e pensa que sabe tudo. Isso aponta claramente para uma carreira política.” Orwell não era mais manso: “A linguagem política”, observava o autor de Animal Farm “– e, com variações, isto é verdade para todos os partidos, desde os conservadores até aos anarquistas – destina-se a fazer com que as mentiras pareçam verdades, um assassinato pareça respeitável, e a dar uma aparência de solidez ao que não passa de puro vento.” E De Gaulle, político experimentado e grande estadista, não hesitava em parafrasear um dito célebre sobre a guerra: “A política é demasiado séria para poder ser confiada aos políticos.” A obra de Ortega não é, porém, uma empresa de demolição: não faz caricatura, não destrói – analisa. De que é feito um grande político? Que tem ele, que não chega a possuir o político medíocre? O que separa um grande político de um grande intelectual? É a estas perguntas que o célebre ensaio de Ortega visa responder. Resumiremos muito, empobrecendo-o, o denso conteúdo deste vigoroso texto de 50 páginas.

 O filósofo vê, em suma, duas classes antagónicas de homens: “os ocupados e os preocupados; os políticos e os intelectuais.” Quanto aos ocupados, espécie a que, eminentemente, pertencia Mirabeau, Ortega cita uma passagem de uma carta escrita por este a um seu tio, quando se encontrava encarcerado no Forte de Goux: “Salvai-me, peço-vos, desta fermentação terrível em que me encontro, que poderia destruir o efeito produzido em mim pelas reflexões e pelas desditas. Há homens que é preciso ocupar. A actividade, que tudo pode e sem a qual, nada se pode, torna-se turbulência, quando carece de emprego e de objecto.” Mirabeau, em suma, sufoca por não actuar (está preso), por não produzir acção. Ter ideias não lhe chega – é preciso torná-las actuantes. Não é do seu feitio pensar muito antes de actuar. Ortega observa, com penetração: ”Pensar é ocupar-se antes de ocupar-se; é preocupar-se com as coisas, é interpor ideias ante o desejar e o executar. Esta preocupação extrema leva à apraxia, que é uma enfermidade. O intelectual é sempre, com efeito, um pouco enfermo. Pelo contrário, o político é – como Mirabeau, como César -, de imediato, um magnífico animal, uma esplêndida fisiologia.”

Outra característica assinalada pelo filósofo, no político, é, não um certo teor, inevitável, de falta de moralidade, mas, antes, de falta de escrúpulos. “Um homem escrupuloso”, nota Ortega, “não pode ser um homem de acção.” Um intelectual contempla os seus actos, avalia-os e julga-os – flectindo caminho, quando necessário. O intelectual é sensível ao escrúpulo, o político, muito menos. O político faz concessões, entra em compromissos, esquece-se de algumas promessas feitas, quando é expediente: no pequeno político, sem dimensão, estes atropelos dão demasiado nas vistas, por não serem compensados por outras acções de grande gabarito, que, até certo ponto, as redimam e façam “passar”.

 Uma outra diferença – cada vez mais notoriamente actual – que Ortega vê, entre o grande e o pequeno político, residiria na maneira muito diversa como ambos encaram Estado e nação: “A questão começa”, nota o estudioso de Kant e de Goethe, “quando nos perguntamos: essa máquina do Estado, com as suas economias e a sua autoridade, como vai funcionar, actuar sobre a nação? Isto é o que é decisivo: porque a realidade histórica efectiva é a nação e não o Estado. O grande político vê sempre os problemas de Estado através e em função dos nacionais. Sabe que aquele é tão só um instrumento para a vida nacional. Inversamente, o pequeno político, como se vê com o Estado entre as mãos, tende a tomá-lo demasiado a sério, a dar-lhe um valor absoluto, a desconhecer o seu sentido puramente instrumental.” Querem exemplos? Não estão aí, todos os dias, à mão de semear? Não vemos por aí os pequenos políticos a porem os cidadãos a trabalhar para pagarem e encobrirem as trapalhadas de um Estado omnipotente mas não omnisciente?

 O ensaio de Ortega é riquíssimo em sondagens e sugestões e não pode esgotar-se numa breve e precipitada crónica. Para finalizar, queria apenas salientar que, ao opor o tipo do político ao do intelectual, Ortega não visa de modo nenhum “desintelectualizar” o grande político, afirmando, mesmo, que “se nos seus cimentos orgânicos e no seu mecanismo psicológico é o político a fórmula inversa do homem destinado à intelecção, não será grande político se não possuir uma política de alto mar e de larga travessia”, acrescentando ser “ilusório crer que o político pode sê-lo, sem ser, ao mesmo tempo, e em não escassa medida, intelectual.” Ao grande político é necessária, pois, a grande cultura, que, nos pequenos, invariavelmente, escasseia. Dizia Enoch Powell – formidável parlamentar e temível classicista – que a regra prática, para qualquer político sério é: "ler, ler e ler.” Aqui fica o aviso.

Eugénio Lisboa

Estado Social


Terá algum dos partidos autoridade e legitimidade para repensar o Estado Social? 
Não. 
Porque nunca pararam para dizer que o caminho que seguíamos era insustentável. 

É esse o papel dos líderes e das elites que, mais uma vez, falharam: havia eleições para ganhar e um discurso de facilidade para vender.

Agora é altura de tomar consciência do problema e resolvê-lo de forma definitiva, tendo o tempo e a folga necessária para o fazer.

Vai doer?
Vai.
Muito!

http://re-visto.com/estado-social

Corporativismo endémico

Sindicalmente a nossa situação agora é esta: faz greve quem pode e não necessariamente quem deve ou quem tem razões para isso. O que subverte por completo a ideia e a função dos sindicatos. Porque os sindicatos são para defender os trabalhadores contra a exploração ou a prepotência dos patrões, e o que vemos hoje são greves de profissões poderosas, em defesa de direitos corporativos, e a aumentar a lástima das classes mais indefesas e débeis.

É ver a revolta e a indignação dos pobres utentes suburbanos da CP, com vidas massacradas, desesperados com as greves sucessivas e incompreensíveis dos maquinistas. É ver os estivadores dos portos fazerem greve para manterem privilégios aristocráticos sem se importarem com as machadadas na economia moribunda. É ouvir os pilotos da TAP com argumentos grevistas ofensivos para a inteligência das pessoas. É ver os juízes lutarem para manter privilégios de classe como se fossem operários do ordenado mínimo a lutar por mais meio por cento.

Ora, assim não há hipóteses de uma verdadeira renovação deste tecido puído que é a sociedade portuguesa. A verdade é que a Revolução de 74 não mudou esta mentalidade corporativa, que ganhou até requintes de eficácia. O 25 de Abril não soube, ou não quis, acabar com o nosso endémico corporativismo. Não deu por ele. Está tão entranhado nos nossos hábitos e nas nossas estúpidas tolerâncias que nem o vemos. É como certas doenças silenciosas que, quando as descobrimos, está o organismo todo contaminado e já não há salvação.

Veja-se como o poder judicial – um órgão de soberania – se conseguiu sindicalizar. Ou seja, juntou-se aquilo que um marxista julgaria impossível: as vantagens do patronato às reivindicações operárias, num casamento perfeito. Como pensava Salazar, de resto. Mas enquanto no corporativismo do Estado Novo era para controlar interesses de classes antagónicos, puxando geralmente o Estado para o mais forte, agora unem-se forças opostas para potenciar vantagens juntando, numa classe, o melhor de dois mundos. E colocando, é claro, o Estado ao seu serviço, com prejuízo de todos os que não podem fazer o mesmo. Até os militares, que sempre foram uma casta, mas tinham a sua ética, ameaçam com revoltas porque, dizem, lhes faltam as verbas. Quando deviam ser os próprios a reconhecer que há grandes desperdícios na Defesa.

Duplicação e triplicação de serviços, de estruturas, de instalações, de centros de formação, de campos de treino, que podem e devem ser concentradas. Multiplicação de meios, de unidades, de homens, de chefias, de regalias, que deviam ser reduzidas ou simplesmente desaparecer. Todos neste momento agradecíamos que os militares, em vez de manifestações de feição sindical, se chegassem à frente propondo concentrações e fusões inteligentes para que as despesas com a Defesa ficassem em 1% do PIB, como acontece em Espanha, por exemplo, e não manter tudo como está para continuar a gastar 2% do PIB. Alguém compreende as razões para isto?

Em Portugal, ao contrário do que devia ser, quanto mais a crise aperta e o dinheiro diminui, mas cresce o poder das corporações a reivindicar meios. Quanto mais insuportável é certa psicologia de casta mais a casta se enquista e se arroga direitos que não devia ter. Em certos grupos juntou-se o poder de sempre, e que lhes vinha de cima, do tempo das teocracias, à força que aprenderam nas manifestações e nas greves operárias, ou seja, conseguiram, para si, o poder dos aristocratas e a agressividade dos plebeus. Mais uma originalidade nossa. As reformas estruturais podem, pois, dormir descansadas.

João Boavida

sábado, 3 de novembro de 2012

CONTRIBUTOS DOS TRÊS LIBERAIS - G. CENTAZZI, COR. AMORÓS E D. PEDRO IV PARA A GINÁSTICA NA CASA PIA - 2

Segunda parte do texto de João Boaventura. A primeira parte pode ser lida aqui.

Pela leitura da tese de Centazzi, dedicada, entre outros, e com o destaque que se afigura muito significativo, a Monsieur le Colonel Amorós, Directeur du Gymnase normal civil et militaire de Paris, autor de dois volumes do Manuel d’éducation physique, gymnastique et morale, cujas 1.ª edições datam de 1830, o l.º tomo, com 500 pp,., e o 2.º tomo, com 530 pp., acompanhados de um Atlas auxiliar com 50 pranchas de desenhos, dos quais, 16 alusivos a aparelhos de ginástica, e 34 pranchas com figuras humanas executando os exercícios, com perto de cinco reedições pela mesma editora, À la Librairie Encyclopédie de RORET, Paris [11]. Estranhamente estas referências nunca são citadas por Centazzi, quando estão totalmente ligadas ao autor – são inseparáveis.
Acima reprodução da capa do Tomo 1, edição de 1847 e abaixo reprodução da capa do Tomo 2, edição de 1848, únicas acessíveis. As medidas dos dois exemplares são idênticas: 11 mm x 15 mm.
Abaixo facsimile da capa do Atlas, edição de 1847. As medidas desta referência. 24 mm x 16 mm.
Seria provável, pelas referências a Amorós e pelos elogios circunstanciais que Centazzi lhe teceu, que alguma empatia se teria operado pelo facto de o espanhol, de seu nome completo Don Francisco Amorós y Ondeano, marquês de Sotelo, natural de Valência, ter passado pela mesma experiência política e social de Centazzi. Pelo contrário, é omisso nos contactos, tanto na tese como na autobiografia [12], notando-se algum distanciamento, em contraste com a gratidão, ainda que modesta, além de uma síntese da obra amorosiana desenvolvida, ínsitas na tese, e referência elogiosa a dois casos clínicos resolvidos com a ginástica dita agora como a francesa, mas insertos em revistas médicas que acaba por citar, suscitando dúvidas sobre a obtenção dos dados, se, pela fonte pessoal Amorós, se pela fonte revistas médicas. Pelos dados omitidos, a fonte documental terá sido a opção, o que se deduz por nunca referir qualquer contacto pessoal.

Será tanto mais estranho e incompreensível se se considerar que, ao publicar em Lisboa, em 1836, com o título Considerações gerais sobre os exercícios ginásticos, e as vantagens que deles resultam, ensaio lido e dedicado à Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa pelo seu sócio G. Centazzi, Doutor em Medicina [13] (Typ. de A.S.Coelho e C.ª), poderia ter alargado os considerandos sobre a figura e os trabalhos de Amorós nos Ginásios, aos quais o livre acesso era permitido, ampliando assim os conhecimentos e saberes adquiridos junto do pai da Ginástica Francesa, já que, adoptada da tese de 18 páginas, a nova versão mereceria mais do que as 32 páginas com que saiu do prelo, e melhorada minimamente no conteúdo.

Acima, capa do manuscrito de Centazzi oferecido à Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa (185 mm x 230 mm).

Aliada à ausência de bibliografia – poderia ter citado as três referências muito bem organizadas e concatenadas por Amorós, cujo desconhecimento ou desinteresse se estranha – e à simples narração histórica desde gregos e romanos, mal chegando a Amorós, os limites em que a obra de Centazzi se desenvolve mantêm-se, transmitindo mais a pressa em publicá-la do que dar a conhecer em concreto todos os passos para que asopera da ginástica fossem eficazes. Em vez de realçar os trabalhos desenvolvidos pelo Coronel espanhol, em Paris, limitou-se a reproduzir o que a Europa sabia minimamente:

Foi o Coronel que tentou há alguns anos introduzir a Ginástica na Espanha, e de proclamar altamente as vantagens que dela resultam; chegou mesmo a começar um Ginásio, quando a guerra veio por desgraça destruir os seus trabalhos: este acontecimento decidiu o Coronel Amorós de se retirar para França, e ir fundar em Paris o seu estabelecimento, cujas vantagens geralmente conhecidas hoje, deram motivo à fundação de Ginásios secundários em quase todas as Cidades daquele Reino. O Governo Português pareceu estranhar que no nosso país não houvesse ainda estabelecimento algum desta ordem, e para isso pediu ao Coronel Amorós em 1834 de lhe enviar alguma pessoa capaz para formar um Ginásio em Lisboa, o que este fez enviando-lhe Mr. Marquer, Oficial do Exército Francês de conhecida capacidade e merecimento.

A este propósito, Diem, no capítulo relativo à história do desporto em Portugal, sem referir a fonte, dá outra versão: “Recordemos que Amorós estuvo algún tiempo de servicio en Portugal y probablemente ejerció alguna influencia” [14]. Este facto nunca foi comprovado, muito embora Amorós, após a abdicação de Carlos V, em 1802, a favor de Joseph, irmão de Napoleão, “tenha sido nomeado chefe da polícia em Portugal”, como esclarece Diem [15], o que também não parece plausível, porque tal presença, pela figura de que se tratava, não passaria desapercebida em Portugal. De resto importa acrescentar que a primeira invasão francesa em Portugal acabou com a rendição de Junot – assinatura da Convenção de Sintra – em 20.08.1808, quando a nomeação de Amorós foi em Fevereiro de 1809, logo Junot ainda não tinha conhecimento dela por antecipação, pelo que nunca poderia ter entrado em Portugal. Considerando ainda que, nas 2.ª (1809) e 3.ª (1810-1811) invasões, as tropas francesas saíram sempre derrotadas, nunca ocupando a Capital, qualquer hipótese cai pela base.

O Major Viriato Rodrigues, numa conferência proferida em 09.10.1931, aborda o convite enviado por Soult a Amorós, no começo da Restauration, sem especificar, se a 1.ª (1814-1815), ou a 2.ª (1815-1830), visto que ocorreram em datas diferentes. Carece de credibilidade, se considerarmos que o Gen. Soult foi ministro da guerra de 03.12.1814 a 11.03.1815, e 1.º ministro de França, desde 11.10.1832 a 18.07.1833; desde 12.05.1839 a 01.03.1840; desde 29.10.1840 a 19.09.1847. Dentro destas faixas de tempo cabe o tempo em que Amorós implantou o Ginásio em Paris, onde chegou em Dezembro de 1813, se naturalizou em 1816, e passou por inúmeras dificuldades, perante as quais Soult nunca interveio a seu favor, sinal de que nunca convidou Amorós. Se tivesse de facto convidado Amorós não tomaria a atitude de ignorá-lo. A melhor confirmação reside em todos os manuscritos do criador da ginástica que não faz uma única referência ao nome de Soult, nem a qualquer pedido que dele tivesse partido.

No 123.º aniversário do Ginásio Club Português, uma revista da capital, sumariando a história do GCP, volta a referir que D. Pedro tinha trazido para Lisboa o coronel francês Amoros “com o objectivo de dar aulas de ginástica”, o que não se concretizou, como mais adiante se esclarecerá.

NOTAS:
[11] Em 1998, a Editions Revue «EP.S», Paris, decidiu reimprimir os três volumes editados em 1834
[12] Centazzi, G., op.cit.
[13] O DG n.º 138, de 13.6.1836, anunciava a publicação nos seguintes termos: “Lisboa, 12.6.1836 – Publicação Litteraria. Sahiu á luz = Considerações geraes sobre os Exercícios Gymnasticos, e as vantagens que delles resultam. = Ensaio lido e dedicado a Sociedade das Sciencias Medicas de Lisboa, pelo seu sócio G. Centazzi, Doutor em Medicina. Vende-se na loja de livros de Martin & Irmãos, defronte do chafariz do Loreto, n.º 6.” O Boletim do Instituto Nacional de Educação Física, n.º 3, de 1962, reproduz este texto, a páginas 151~182. 
[14] In “História de los Deportes”, vol. II, ed. Luís de Caralt, Barcelona, 230.
[15] Id.Ibid., p. 207.

João Boaventura

(Continua)

A MINHA PARTE NO DESPESISMO DA NOSSA AFLIÇÃO

Texto do Professor Galopim de Carvalho.

Pegadas de dinossáurios de Pego Longo (Carenque, Sintra) 

É por demais conhecido o meu envolvimento nas lutas pela preservação e valorização do nosso património geológico que, naturalmente, inclui o de natureza paleontológica, com relevo muito particular para os vestígios aqui deixados pelos grandes senhores da Terra no Jurássico e no Cretácico, há dezenas e dezenas de milhões de anos.

Do mesmo modo que um machado de pedra lascada deixado pelos nossos antepassados, um velho pergaminho, um castelo ou um palácio, uma pintura, um livro ou uma partitura são documentos com os quais se fez e faz a História, uma rocha, um mineral, um fóssil ou um trilho com pegadas de dinossáurios são documentos de uma outra história bem mais antiga, mas não menos importante, na qual radica a nossa existência como habitantes deste planeta.

Uma história de milhões e milhões de anos que, por responsabilidade do nosso sistema de ensino, não faz parte da cultura da generalidade dos portugueses.

No tempo que estamos a viver, toda a gente fala do alegre despesismo promovido e consentido por gerações de governantes ao longo das últimas décadas, despesismo só agora denunciado por alguns dos cidadãos que, por inerência das funções que exercem ou exerceram, sempre estiveram mais informados do que o comum do cidadão eleitor, no qual me incluo. Reconheço e penitencio-me de ter sido responsável por uma parte (ainda que infinitésima) desse “deslumbramento” de um pequeno país a armar ao primeiro mundo.

De entre as despesas que, por diligências minhas, foram feitas por Câmaras municipais ou pelo Governo central na salvaguarda de algumas ocorrências do referido património, devo destacar a mais volumosa, que correspondeu à abertura dos dois túneis da CREL, sob a jazida com pegadas de dinossáurios de Pego Longo (Carenque, Sintra). As diligências pela defesa desta jazida configuraram uma luta árdua, que durou anos, fez história na comunicação social na última década do século que findou e deu azo à edição de um livro “Dinossáurios e a Batalha de Carenque” (1994, Editorial Notícias).

Com o apoio da generalidade dos media, esta luta acabou vencedora, com o governo de então a disponibilizar 1 600.000 contos (8 000 000 euros) verba que correspondeu ao aumento dos custos exigidos pela abertura dos referidos túneis. Só duas vozes se fizeram ouvir, contestando este projecto, o que, então, não me agradou, como é compreensível.

Reconheço hoje que foram vozes sábias, a lutar contra o despesismo, vozes que ninguém quis ouvir. A terminar, devo dizer que, para tristeza minha, nunca mais se gastou um cêntimo neste que é um dos partimónios paleontológicos mais valiosos do nosso país (hoje em total abandono e em acelerada degradação) e que, devidamente aproveitado, seria um importante pólo de atracção turística.

Mas é preciso que se diga que esta recusa de gastar dinheiro na conclusão deste projecto (uns trocos, face ao que já se gastou) não decorre de um recuar face ao dito deslumbramento, mas sim de um lamentável desinteresse dos responsáveis que não têm sabido ver nesta realização uma mais valia para a região e para o país.

Galopim de Carvalho

"O que se passa agora?"

Destacamos o extracto duma entrevista recente ao escritor Mário de Carvalho (na foto) que o leitor José Batista transcreveu em comentário:
"... não é inocente o que se tem feito. Quando amputamos durante anos, no Secundário, o conhecimento da História e dos nossos textos clássicos, estamos a retirar capacidade de compreensão da língua e até a empobrecer o contexto. Porque os pensamentos e os conceitos fazem-se com palavras. Quanto menor for o domínio vocabular, menos acesso temos à realidade e ao pensamento. E há quem esteja interessado nisso. Nos primeiros tempos de Salazar, os professores, na sua maioria republicanos, foram substituídos por regentes escolares, que ensinavam a ler, escrever e contar e, na verdade, pensava-se que, quando muito, era isso que os portugueses deviam saber. O que se passa agora? O consumidor precisa de ler Camões e «Os Lusíadas», a mitologia? Não. Basta que conheça o vocabulário elementar que lhe permita compreender um anúncio. A pobreza, a miséria vocabular, em que estão encurralados e enclausurados os portugueses é da mesma natureza do ler, escrever e contar que Salazar entendia que bastava para o povo."
In Jornal de Letras n.º 1097, de 17 a 30 de outubro de 2012, página 10.

2.ª Parte da Conferência de Bento de Jesus Caraça na Universidade Popular (22/03/1931)

“Pode argumentar-se que isso não é verdade, pois muitas pessoas se elevam do fundo da massa a altas situações sociais; mas, em primeiro lugar, se se comparar o número delas com a totalidade, ele fica reduzido a bem pequenas proporções e quantos homens de grandes aptidões se tem perdido por as suas circunstancias de modo nenhum lhe terem tornado possível essa ascensão.

Em segundo lugar, que se contem, desses tais «muitos», quantos se conservaram sempre fiéis à sua própria classe e aos seus ideais de emancipação humana e não desertaram ingressando no campo contrário!

Este problema é tão grave e constitui um drama tão pungente que escritores da vanguarda chegam a advogar o afastamento dos proletários da ideia de cultura. Se a cultura é utilizada pela classe burguesa como elemento de opressão e se o proletário culto se transforma num burguês, renegando a sua classe, acabe-se com a cultura!, dizem eles.

Será de defender e seguir esta atitude? Sê-lo-ia se o desenvolvimento da cultura levasse fatalmente à opressão, mas a cultura não significa de modo nenhum opressão pois que, como se viu, «compreende o máximo desenvolvimento das capacidades intelectuais, artísticas e materiais encerradas no homem».

O que deve fazer-se é, não destruir a cultura, mas pelo contrario intensificá-la e desenvolvê-la cada vez mais, acabando com o seu monopólio numa classe e restituindo-lhe toda a pureza dos seus fins.

Deve portanto promover-se a cultura de todos e isso é possível porque ela não é inacessível à massa; o ser humano é indefinidamente aperfeiçoável e a cultura é exactamente a condição indispensável desse aperfeiçoamento progressivo e constante.

Compreendendo a cultura assim e não como um conjunto de coisas que estão escritas nos livros e que os estudantes têm que decorar não se sabe bem para quê, quais devem ser os seus objectivos e que formação mental deve procurar conseguir no homem?

Deve em primeiro lugar dar a cada homem a consciência integral da sua própria dignidade.

Em todos os homens existe a mesma parcela de dignidade, simplesmente nalguns está de tal modo adormecida que chegam a dar a impressão de seres inferiores, gerando os sentimentos de humilhação. A humilhação do homem perante o homem é imoral.

Eduquemos e cultivemos a consciência humana, acordemo-la quando estiver adormecida, demos a cada um a consciência completa de todos os seus direitos e de todos os seus deveres, da sua dignidade, da sua liberdade. Sejamos homens livres, dento do mais belo e nobre conceito de liberdade - o reconhecimento a todos do direito ao completo e amplo desenvolvimento das suas capacidades intelectuais, artísticas e materiais.

Assim, a cultura e liberdade identificam-se - sem cultura não pode haver liberdade, sem liberdade não pode haver cultura. Deve ainda a cultura tender ao desenvolvimento do espírito de solidariedade. Não apenas solidariedade de cada um com os da sua família, da sua aldeia ou da sua pátria - solidariedade do homem com todos os outros homens de todo o mundo.

Este internacionalismo não significa de modo nenhum a destruição da pátria, antes pelo contrário, implica a sua consolidação e o seu alargamento a todas as nacionalidades - a formação da pátria humana. O coração do homem é grande e nele cabe bem o amor da sua nacionalidade ao lado do amor de toda a humanidade.

As ideias de internacionalismo têm caminhado muito e têm conquistado muito terreno. Os próprios governos dos Estados promovem a criação de organismos superiores a cada um dos Estados independentes - Sociedade das Nações, Federação Europeia. São portanto internacionalistas, dum internacionalismo diferente é claro do aqui exposto, pois enquanto este se baseia na fraternidade real dos povos, aquele tem por objectivo a defesa de certos interesses que se não encontram já bem assegurados, considerando-se cada um Estado isolado, dentro das suas fronteiras.

Postos assim os objectivos morais essenciais da cultura, vejamos qual deve ser o agente da criação e desenvolvimento dessa cultura - Estado ou as instituições particulares?

Evidentemente que no estado actual de organização social só o Estado tem condições para ser esse agente. Como? Proporcionando a todos a aquisição da cultura nas suas escolas. A escola deve ser portanto aberta a todos e por consequência gratuita em todos os seus graus - primário, secundário e superior. Enquanto certos graus de ensino, pelo seu custo, só puderem ser frequentados pelos ricos, a cultura continuará a ser monopólio duma classe.

Mas não basta que a Escola seja gratuita; para que ela seja na realidade acessível a todos é preciso ainda que o Estado vá mais longe, procedendo à sustentação material daqueles que a frequentam, para que se não vejam obrigados, por falta de meios, a afastar-se dela empregando o seu tempo em ganhar o pão para si e quantas vezes também para os seus.

Mas ainda mesmo que assim fosse, era preciso proceder a uma renovação constante, pois o professor, desde que seja funcionário público, sente uma tendência - lei do menor esforço - para a cristalização nos métodos de ensino. É necessária essa renovação nas pessoas e nos métodos; a classe dos professores não deve nunca descansar sobre os resultados conseguidos na véspera.

Por enquanto, como a Escola não é entre nós nada do que deveria ser, é preciso fazer um grande esforço e uma grande campanha no sentido da radical modificação do actual estado de coisas.

Enquanto a Escola não seguir no seu ensino a orientação exposta, não será um instrumento de liberdade e progresso mas sim um elemento impeditivo da felicidade, liberdade e justiça sociais.

Por várias razoes, a iniciativa desse movimento de transformação e renovação não sai do Estado; às Universidades Populares incumbe portanto o dever de serem as suas impulsionadoras activas.

A sua acção é mais livre do que a da Escola Oficial visto não terem as peias que esta tem e não terem a obrigação do cumprimento de certos programas previamente fixados. A sua liberdade na escolha das matérias do seu ensino é completa e podem ainda proporcionar a adultos que tem a sua vida de trabalho, e sem que a interrompam, a aquisição de conhecimentos que não poderiam ir buscar, dadas as condições da sua vida, à Escola Oficial.

As Universidades Populares devem auxiliar todas as iniciativas particulares com os mesmos objectivos e ir ao encontro de todas as aspirações culturais das massas trabalhadoras, tentando sempre satisfazê-las.

O seu ensino não deve cristalizar em certas fórmulas; se isso acontecer, tornar-se-ão obstáculos ao progresso. Devem constituir, por assim dizer, a vanguarda do ensino e a sua acção, sem contrariar a da Escola, deve ser um complemento dela.

A sua utilidade e justificação da sua existência está nas possibilidades de libertação espiritual que der às massas trabalhadoras.

Às organizações sindicais cabe um papel enorme nesse trabalho de libertação, promovendo intensamente a cultura dos seus membros.

A emancipação futura da humanidade será o resultado da união de todos os esforços individuais e colectivos orientados pelos mesmos ideais.”

1.ª Parte da Confertência de Bento de Jesus Caraça na Universidade Popular (22/03/1931)


Citada anteriormente em excerto, num comentário ao meu “post”  “Já agora, a Ordem dos Professores e a Fenprof” (31/10/2012), e enviada, depois,  pelo assíduo leitor e comentador do DRN  Ildefonso Dias, publico o texto integral, dividido em duas partes, da conferência do ilustre matemático Bento de Jesus Caraça (1901-1948), um académico que muito se dedicou e honrou variados aspectos da vida cultural portuguesa:

“O HOMEM encontra-se sobre a Terra, não por qualquer acto especial da Natureza, mas como resultado duma lenta e progressiva evolução a que estão sujeitos todos os seres vivos. Assim, ele foi colocado na sua origem, não numa situação de privilégio, como pretendem certas doutrinas à margem da ciência, mas nas mesmas condições que os outros animais e sujeito às mesmas necessidades primárias - alimentar-se e abrigar-se, resumindo-se estas necessidades numa única essencial - conservar a vida.


O êxito na conservação da vida depende do maior ou menor conhecimento que se tem do meio ambiente e dos perigos que nele se encontram; no que o homem se distinguiu dos outros animais foi na sua maior aptidão ao meio e maior facilidade em encontrar maneiras de se defender dos seus perigos. Assim, passou do abrigo natural e imperfeito que lhe ofereciam as cavernas, à construção das cabanas primitivas e, depois, das casas que lhe oferecem um um modo muito mais seguro de se defender, não só dos outros animais, como ainda dos perigos naturais, como intempéries, etc.

Na alimentação passou também a seleccionar os seus alimentos, procurar conhecer as qualidades de uns e outros para pôr de parte os menos próprios à conservação da vida.

O homem foi assim tornando a sua vida cada vez mais segura e isso só foi possível por virtude do seu conhecimento cada vez maior do mundo em que vive. A experiência mostrou-lhe então que só um caminho havia para assegurar com êxito a sua conservação - o conhecer quanto mais perfeitamente melhor. Isso fez nascer no seu espírito a ideia e a aspiração de investigar e procurar explicar cada vez melhor, isto é, a aspiração de um conhecimento cada vez mais completo.

Mas nem só estas necessidades de ordem material impulsionaram sempre o homem; desde que a sua existência se encontrou suficientemente assegurada para não lhe ser necessário dedicar-lhe todos os seus momentos de atenção, o homem virou-se para a contemplação da natureza e dessa contemplação nasceu no seu espírito o sentido do belo, origem de todas as suas manifestações artísticas.

Por outro lado, ele depressa começou a viver em sociedade com os outros homens e a reconhecer a necessidade da cooperação com os seus semelhantes.

Essa associação teve a princípio como origem certamente um sentimento egoísta - tirar da colaboração com os outros homens o maior proveito possível para si próprio. Mas foi-se introduzindo lentamente nas relações sociais uma outra ideia - a de que cada um não deve utilizar as relações de sociedade unicamente com o objectivo de tirar daí interesse ou proveito próprio, deve também dar aos outros o seu esforço para os auxiliar. É o sentimento do belo introduzido nas relações sociais, dando ao homem objectivos de ordem moral”.

O aperfeiçoamento constante dos meios de satisfação e desenvolvimento das necessidades, ideias e sentimentos, constitui a cultura, que no dizer de Karl Marx «compreende o máximo desenvolvimento das capacidades intelectuais, artísticas e materiais encerradas no homem».

A cultura é assim simultaneamente um meio e um fim.

Encarando agora as sociedades organizadas, tal como actualmente se encontram, pergunta-se - quem deve ser detentor da cultura?, a massa geral da humanidade, ou uma parte dela? Por outras palavras: deve a obra de aperfeiçoamento ser realizada por todos ou apenas por um grupo ou elite que terá por função tornar acessíveis à massa os resultados das conquistas culturais?

Esta questão põe-nos em frente do problema das elites e das castas e a experiência histórica ensina que sempre que um grupo se diferencia da massa geral da humanidade, por qualquer título, estabelecendo um monopólio de qualquer coisa - ideias, força ou dinheiro - fá-lo, não no interesse geral da massa, mas no seu próprio.

Encontram-se provas desta afirmação na formação e existência das castas - religiosas, capitalistas e militaristas.

Quanto às castas religiosas, basta pensar, para encontrar a verdade da afirmação, nos morticínios praticados em todos os tempos e impulsionados e dirigidos por elas. E ainda presentemente, na Índia, os ingleses se servem, para manter o seu jugo sobre o povo indiano, das lutas religiosas habilmente preparadas e desencadeadas que fazem assim desviar as atenções do povo do objectivo que nunca deveria perder de vista - a sua libertação.

Quanto às castas capitalistas, é demasiado flagrante o exemplo para necessitar de ser apontado; que falem a esse respeito os milhões de desempregados dos países capitalistas.

O alemão Otto Lehmann no seu livro recente - «A internacional sangrenta dos armamentos» - fez a esse respeito sensacionais revelações pondo à luz do dia o papel desempenhado pelos fabricantes de armamentos na preparação e seguimento da guerra, bem como fez saber que, enquanto milhões de homens se esfacelavam mutuamente, havia quem continuasse a fazer tranquilamente os seus negócios, vendendo ao inimigo os engenhos de morte que haviam de matar os seus compatriotas.

A união das três castas é de resto coisa frequente.

À pergunta feita deve responder-se portanto condenando a detenção da cultura como monopólio de uma elite.

Mas, na realidade, não é assim, a cultura tem sido e é o monopólio de um grupo - a classe burguesa - que, por virtude da organização social, torna inacessível a sua aquisição à massa geral da humanidade”.

 (CONTINUA)

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A falta das humanidades é um perigo para a democracia


A falta de ensino (entendendo-se, naturalmente, no seu sentido mais edificante) é um perigo para a democracia. A aposta no ensino dumas áreas disciplinares, sejam elas quais forem, e o descuido no ensino doutras áreas disciplinares, sejam elas quais forem, é um perigo para a democracia.

Isto porque o conjunto das áreas científicas, humanísticas, artísticas, desportivas... concorrerá para ampliar o discernimento, para ponderar diversas possibilidades de análise, para seleccionar caminhos...

Este tem sido o caminho mais recente da educação ocidental? Não, propriamente, com prejuízo para as humanísticas, sobretudo para a literatura, a filosofia as clássicas (cultura e línguas).

Sobre a secundarização das clássicas no currículo escolar vale a pena ler uma entrevista deMartha C. Nussbaum, filósofa norte americana que ganhou Premio Príncipe de Asturias de Ciencias Sociales, que se pode ler aqui. Num certo passo pode diz o seguinte;
-¿Se imagina un mundo sin enseñanzas humanísticas ni clásicas?
-Sería una amenaza muy grande para la democracia. Si la gente no aprende a pensar de forma riguosa y analítica, si no sabe construir argumentos filosoficos, serán como los esclavos de los tiempos de Sócrates. Son necesarias enseñanzas como los Diálogos de Platón, porque es necesaria la imaginación y la curiosidad para que las personas amplíen su mente y piensen en algo más que su familia y su círculo. Votarán sin la menor preparación, no entenderán a la gente de otras razas, religiones y clases sociales. Pero no hablo solo del latín, del griego, de la cultura clásica, es necesaria toda la literatura, el arte, la filosofía, la pintura

DOIDIVINO

Na próxima sexta-feira, dia 9 de Novembro, na Biblioteca Municipal de Cantanhede, será apresentado por Carlos Fiolhais o primeiro livro de Ângelo Alves, o livro de poesia "Doidivina" (editora Temas Originais).
 Clicar para ver melhor o convite.

OS SUPERFICIAIS: O QUE A INTERNET ESTÁ A FAZER AOS NOSSOS CÉREBROS

Trancrevemos o Prólogo do livro com o título de cima, da autoria de Nicholas Carra, que acaba de sair na Gradiva, em tradução de Luíza Alves Costa: O CÃO DE GUARDA E O LADRÃO

"Em 1964, exactamente na altura em que os Beatles invadiam as rádios Norte-americanas, Marshall McLuhan publicava Understanding Media: The Extensions of Man (Compreendendo os media: as extensões do Homem) e passava de obscuro académico a estrela. Profético, sentencioso e surpreendente, o livro era um produto perfeito dos anos sessenta, essa década já distante de trips de LSD e da ida à Lua, de viagens interiores e exteriores. Understanding Media era, no fundo, uma profecia, e o que profetizava era a destruição da mente linear.

McLuhan afirmava que os “media eléctricos” do século XX — o telefone, a rádio, o cinema, a televisão — estavam a destruir a tirania exercida pelo texto sobre os nossos pensamentos e sentidos. As nossas almas, isoladas e fragmentadas, encerradas durante séculos na leitura privada de páginas impressas, tornavam-se completas novamente, ao fundirem-se no equivalente global de uma aldeia tribal. Aproximávamo-nos da “simulação tecnológica da consciência, quando o processo criativo do conhecimento se estenderá colectiva e corporativamente a toda a sociedade humana.

Mesmo no auge da fama, Understanding Media era um livro mais falado do que lido. Hoje transformou-se numa relíquia cultural, relegada para os cursos de comunicação nas universidades. Mas McLuhan, que tinha tanto de entertainer como de estudioso, era um mestre a criar frases, e uma delas saltou das páginas do livro e continua a viver como ditado popular: “O meio é a mensagem.”

O que foi esquecido na nossa repetição deste enigmático aforismo é que McLuhan não estava apenas a reconhecer e a celebrar o poder que as novas tecnologias da comunicação têm para provocar transformações. Ele estava também a lançar um aviso sobre a ameaça que esse poder representa — e o risco de não estarmos conscientes dessa ameaça. “A tecnologia eléctrica está dentro de portas,” escreveu, “e nós somos insensíveis, surdos, cegos e mudos perante o seu confronto com a tecnologia de Gutenberg, na qual e através da qual se formou o estilo de vida americano."

McLuhan compreendeu que sempre que surge um novo meio de comunicação, as pessoas ficam naturalmente reféns da informação — do “conteúdo” — que ele transporta. Elas interessam-se pelas notícias do jornal, pela música da rádio, pelos programas da televisão, pelas palavras ditas pela pessoa que está do outro lado da linha telefónica. A tecnologia do meio, por muito admirável que seja, desaparece por detrás do que quer que se transmita através dele — factos, entretenimento, instrução, conversas.

Quando as pessoas debatem (como sempre fazem) sobre os efeitos de um dado meio de comunicação serem bons ou maus, é sobre o conteúdo que discutem. Os entusiastas celebram-no; os cépticos difamam-no. Os argumentos têm sido praticamente os mesmos sempre que surge um novo meio de informação, se retrocedermos pelo menos ao tempo dos livros saídos da prensa de Gutenberg.

Os entusiastas, com razão, elogiam a torrente de novos conteúdos a que a tecnologia deu livre curso, que vêem como um sinal de “democratização” da cultura. Os cépticos, igualmente com razão, condenam a vulgaridade do conteúdo, que vêem com um sinal de “estupidificação” da cultura. O Jardim do Éden de uns é a vasta terra desolada dos outros.

A Internet foi o último meio a levantar esta discussão. O choque entre os entusiastas e os cépticos da Rede, levado a cabo ao longo das duas últimas décadas através de dúzias de livros e artigos e de milhares de artigos em blogues, videoclipes, e podcasts, atingiu o máximo da polarização, com os primeiros anunciando uma nova era dourada de acesso e participação e os segundos ameaçando com uma nova idade das trevas de mediocridade e narcisismo.

A discussão é pertinente — o conteúdo é importante — mas por estar relacionada com opiniões e gostos pessoais, chegou a um beco sem saída. As opiniões extremaram-se, os ataques tornaram-se pessoais. “Luditas!”, acusam os entusiastas com ar de desprezo. “Filisteus!”, respondem os cépticos com ar de troça. “Cassandra!”. “Pollyanna!”.

Aquilo que tanto os entusiastas como os cépticos não vêem, viu McLuhan: que, no fundo, o conteúdo do meio de comunicação é menos importante do que o meio em si, no que diz respeito a influenciar como pensamos e agimos. Como uma janela aberta para o mundo e para nós próprios, um meio de comunicação popular molda o que vemos e como olhamos para isso — e eventualmente, se o usarmos um número de vezes suficiente, modifica-nos, como indivíduos e como sociedade.

“Os efeitos da tecnologia não se fazem sentir a nível das opiniões ou dos conceitos”, escreveu McLuhan. Pelo contrário, eles alteram “padrões de percepção num passo firme e qualquer resistência.”

O autor faz drama para enfatizar os seus argumentos, mas os argumentos são válidos. Os media fazem a sua magia, ou pregam as suas partidas, exactamente aí, no sistema nervoso. A nossa atenção no conteúdo de um meio de comunicação pode tornar-nos cegos a estes efeitos profundos. Estamos muito ocupados a ser deslumbrados ou perturbados pelo espectáculo para nos darmos conta do que vai dentro da nossa cabeça. No fundo, fazemos de conta que a tecnologia só por si não tem importância. É o modo como a usamos que importa, dizemos a nós próprios. E o resultado é um sentimento, reconfortante na sua arrogância, de que temos o controlo. A tecnologia não é mais do que uma ferramenta, inerte enquanto não pegamos nela e que volta a ser inerte quando a largamos.

McLuhan citou uma declaração de David Sarnoff, o magnata dos media que foi pioneiro da rádio na RCA (Radio Corporation of America) e da televisão na NBC (National Broadcasting Company). Qual juiz em causa própria, num discurso na Universidade de Notre Dame em 1955, Sarnoff rejeitou as críticas aos meios de comunicação de massas sobre os quais tinha construído o seu império e a sua fortuna. Ele desviou a culpa de todos efeitos negativos das tecnologias para os ouvintes e espectadores. “Somos muito rápidos a transformar os instrumentos tecnológicos em bodes expiatórios dos pecados daqueles que os utilizam. Os produtos da sociedade moderna não são só por si bons ou maus; é o modo como são usados que determina o seu valor.”

McLuhan troçou da ideia, censurando Sarnoff por falar com “a voz do sonambulismo corrente.” McLuhan entendia que todo o novo meio de comunicação nos muda. “A nossa resposta convencional aos media, nomeadamente, de que é o modo como são usados que conta, é a atitude entorpecida dos idiotas tecnológicos”, escreveu ele. O conteúdo de um meio é apenas “o pedaço de carne suculenta levado pelo ladrão para distrair o cão de guarda da mente.”

Nem mesmo McLuhan podia prever o banquete que a Internet preparou para nós: um prato após outro, cada um mais suculento que o anterior, quase sem um momento para retomar fôlego entre cada garfada. À medida que os computadores encolheram até ao tamanho de iPhones e BlackBerrys, o banquete passou a ser volante, disponível a qualquer hora, em qualquer lugar. Em casa, no trabalho, no carro, na sala de aula, na carteira, no bolso. Mesmo aqueles que estão conscientes da influência sempre crescente da Internet, raramente permitem que as suas preocupações interfiram com o uso que fazem e com o modo como desfrutam da tecnologia.

O crítico de cinema David Thomson afirmou uma vez que “as dúvidas podem-se tornar fracas face à certeza do meio”. Ele estava a falar do cinema e de como ele projecta as suas sensações e sensibilidades não só na tela mas também em nós, a plateia absorta e complacente. A sua afirmação aplica-se com mais força ainda à Internet. O ecrã do computador desfaz as nossas dúvidas com as suas benesses e comodidades. É tão bom como nosso servo que pareceria indelicado sublinhar que é também nosso amo."

NICHOLAS CARR

CONTRIBUTOS DOS TRÊS LIBERAIS - G. CENTAZZI, COR. AMORÓS E D. PEDRO IV - PARA A GINÁSTICA NA CASA PIA

Texto do nosso leitor João Boaventura, que muito agradecemos. Publica-se, de seguida, a primeira de quatro partes.

Todos, na entrada da vida, se ignorantes não são, e o conhecimento enxergam, começam pelo registo de nascimento, o que representa o primeiro passo da parte dos progenitores, perante a incapacidade do nascituro. Ficou assim registado que Guilherme Centazzi, já lá vão dois centenários, nasceu a 20.11.1808, em Faro.

Dos registo escolares de Coimbra de 1800-1866, foi possível verificar, nos três anos lectivos de 1825-1826, 1926-1927, e 1827-1828, quais foram os resultados obtidos pelo estudante Guilherme Centazzi, filho de António Centazzi, natural de Faro, Rua Larga n.º 101 [1], e se indicam no seguinte quadro:


Os preparatórios aos estudos de medicina exigiam Matemática e Filosofia, daqui a razão da frequência do primeiro ano da primeira disciplina, ignorando-se os motivos de não se ter inscrito em Filosofia.

Com efeito, Centazzi revela na sua confissão que aos dezassete partiu para Coimbra [2], o que condiz com a idade atingida em 1825. Como na Relação dos estudantes do ano lectivo 1826-1827, inscrito está nas duas disciplinas, aluno Obrigado no 1.º ano - n.º 61 em Matemática, e n.º 68 em Filosofia – significa ter perdido um ano lectivo, por falta de proveito numa e por não se ter inscrito na outra, factos que omite nas suas confissões, possivelmente contrariado por considerar que os pais o tinham condenado aos estudos de medicina (…), sem saber o que faziam [3], ou por alguém o ter “honrado” com o título dedoidivanas, esquecido da idade que por norma rima com estouvamento e imprudência.

Na relação dos estudantes de 1827-1828, consta a inscrição no 2.º ano como Voluntário,em Matemática, com o n.º 24, e em Filosofia com o n.º 17, dando como morada a rua Arco das Cruzes (hoje Beco das Cruzes), de Coimbra, deduz-se que frequentou o primeiro ano com aproveitamento, porque assevera que no meu segundo ano (1828) fechou-se a Universidade em Maio por causa da guerra entre Dom Pedro e seu irmão Dom Miguel [4].

De facto, as graves perturbações políticas e sociais provocadas com o regresso do Infante D. Miguel, recém chegado de Viena, em 22.02.1828, levou ao encerramento, pelo período de quase um ano, da Universidade de Coimbra, por Carta Régia de 23 de Maio de 1828, tendo sido reaberta por Carta Régia de 27.03.1829.

Entretanto, a morte do pai, sem deixar bens, fê-lo depender do irmão, liberal, tenente do real corpo de engenheiros, nosso único amparo, o que o terá levado a inscrever-se no batalhão académico de Coimbra, de 1828, de que resultou, segundo escreve, dois ferimentos de bala; treze meses de clausura, escondido em casa [5].

Entre ficar e continuar nas guerras liberais ou exilar-se, tomou a decisão – possivelmente em Junho de 1829, fim da clausura – expressa no manuscrito (…) "Parti para Paris, onde comecei os meus trabalhos, vivendo parcamente da resumida mesada que meu extremoso irmão me mandava, coadjuvada, durante alguns meses, pelos 45 francos que o governo francês deu aos emigrados portugueses a título de subsídio (…) e a gratificação que me deu a escola de medicina de Paris pelos meus serviços prestados durante a cólera na vila de Surene" (…) [6].

Se no combate à cólera, em 1832, frequentava Centazzi o 3.º ano de Medicina, o facto de se ter abalançado a editar um manual, edição do autor, Traité sur la manière de placer les os avec promptitude dans leur position respective (ed. Trinquart Libraire, Rue de l´École de Médecine, 91 / Chez l’Auteur, rue de Bussy, n.º 38 / Paris, 1833), quando ainda frequentava o 4.º ano do curso, significava que as ajudas seriam ainda insuficientes, mesmo incluindo as do amigo Bernardo José Fernandes, proprietário de um bergantim e de uma escuna, meios utilizados para importar cereais dos Açores e do Brasil, nos anos do vintismo [7]; e que nos anos 30 exerceu ainda o cargo de tesoureiro da Câmara Municipal de Lisboa, para acudir aos pobres refugiados com os socorros possíveis ou sopa económica [8].

Mesmo assim ainda teve os recursos proporcionados pela rabeca e pelo canto, com que a natureza o dotara, dando espectáculo num teatro de Paris, sem citar qual, o que reforça os altos custos do curso exigidos na inscrição trimestral das respectivas disciplinas: 4 trimestres por ano, ou seja, 16 trimestres até final do curso.

Não foi possível obter todos os dados deste estudante da Faculté de Médecine [9] (mesmo local da actual Université Paris Descartes), sita na Rue de L'École de Médecine n.º 12, durante os 4 anos de estudo, desde Junho ou Julho de 1829, data provável da sua chegada e inscrição no curso, em 1 de Outubro [10] de 1829, ou de 1830 no caso de ter perdido o 1.º ano, como em Coimbra – Centazzi é omisso nesta matéria – até à conclusão do mesmo, em 9 de Agosto de 1834, data em que se licenciou como médico, e, segundo registo seu, “aprovado nemine discrepante”, ou seja, por unanimidade, depois de defender a sua tese n.º 250, porque os dados dos estudantes, conservados nos Archives Nationales-Fontainebleau-Paris-Pierrefitte-sur-Seine, só podem ser utilizados em 2013, data em que a totalidade da transferência dos arquivos para a nova sede ficará concluída e acessível ao público.

Sabe-se que pelo dispositivo normativo de 02.02.1823, a Faculté de Médecine, que tinha sido fechada, reabriu totalmente reorganizada com 36 professores agregados para substituir os professores titulares das respectivas disciplinas teóricas e práticas (orientadas para a clínica), sempre que necessário e justificado, para que não houvesse qualquer interrupção nos estudos, donde Centazzi terá colhido os benefícios da actualização dos estudos e os melhores ensinamentos, nos dois âmbitos.

Na imagem abaixo pode ver-se o anfiteatro onde o Médico terá assistido às aulas da Faculté de Médecine (Fonte: BIU Santé, Paris)


Abaixo, imagem da fachada da Faculté de Médicine, em 1829, ano em que Centazzi terá provavelmente entrado (Fonte: BIU, Santé, Paris).

Abaixo a mesma fachada melhorada, em 1834, ano em que Centazzi defendeu a tese e terminou o curso (Fonte: BIU, Santé, Paris).




NOTAS:
[1] Esta Rua Larga, segundo apurei, se porventura mal, parece já não existir em Faro. O urbanismo altera tudo. Mas este blog chama a atenção para o facto de existir a revista Rua Larga da Reitoria da Universidade de Coimbra, desconhece-se se, por mera casualidade, existirá alguma ligação simbólica com a primeira morada indicada por Guilherme Centazzi quando se inscreveu na referida Universidade. Fique, ao menos, o coincidente e simpático registo.
[2] In Prefácio do I vol. do romance A alma do justo, ed Typographia de F. X. de Souza & Filho, Lisboa, 1861
[3] G. Centazzo, Op. cit.
[4] Id.ib.
[5] Id.ib.
[6] Id.ib. Há aqui, ou um lapso de memória, ou uma gralha tipográfica. Centazzi está a referir-se à Cidade de Suresnes, na margem esquerda, Altos do rio Sena, atingida pela 2.ª pandemia de cólera (1826-1841), mais precisamente em Março de 1832, quando frequentava o 3.º ano de Medicina. De 19 de fevereiro a 1 de Outubro de 1832, esta epidemia matou mais de 18.500 parisienses. Lisboa também foi atingida pela segunda pandemia de cólera em 1833.
[7] Vide “Ordens das Cortes”, de 12.02.1822”, in Diário das Cortes Gerais, Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, 2.º ano da Legislatura, Imprensa Nacional, Lisboa, 1822, p. 166.
[8] In Crónica Constitucional de Lisboa, n.º 44, de 14.09.1833, p. 834.
[9] Até 1808 tinha «le nom bizarre d’École de Santé», segundo o Dictionnaire encyclopédique des sciences médicales Dechambre, Ed. G. Masson, Paris, 1876, Tomo 5, p.645. Mas hoje em dia as Faculdades de Desporto adoptaram a disciplina bizarra da Saúde.
[10] Imposto pelo décret du 17 mars 1808.


João Boaventura

(Continua aqui)

LANÇAMENTO DO LIVRO "PIPOCAS COM TELEMÓVEL E OUTRAS HISTÓRIAS DE FALSA CIÊNCIA"

O lançamento do livro Pipocas com telemóvel e outras histórias de falsa ciência, editado pela Gradiva, será na próxima segunda-feira, dia 5 de Novembro pelas 19 horas na FNAC Colombo, em Lisboa. 


O livro conta histórias de falsa ciência. O menu é muito variado, sendo esta obra uma degustação que Carlos Fiolhais e David Marçal entenderam como representativa deste mundo pseudo-científico. O lançamento conta com a presença de ambos os autores que farão uma diluição homeopática, mostrando que os remédios homeopáticos são só água e açúcar, vendidos a um preço exorbitante!

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Novidades Editoriais da Classica Digitalia

Informação chegada ao De Rerum Natura.

A biblioteca Classica Digitalia tem o gosto de anunciar duas novas publicações, uma das quais em parceria com a Imprensa da Universidade de Coimbra.

- Série “Humanitas Supplementum” (Estudos) - José Ribeiro Ferreira, Delfim F. Leão, & Carlos A. Martins de Jesus (eds.): Nomos, Kosmos & Dike in Plutarch (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2012). 277 p.

- Série “Varia” (Estudos) - Delfim F. Leão, A globalização no mundo antigo. Do polites ao kosmopolites (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra / Classica Digitalia). 158 p.

Apraz-nos também informar que um dos livros editados em 2011 pelos Classica Digitalia acaba de ser publicado em inglês pela editora alemã De Gruyter:
- Gabriele Cornelli, In Search of Pythagoreanism. Pythagoreanism as an Historiographical Category ()

Neste mês de outubro, foram também publicados mais dez volumes nos Classica Digitalia Brasil, em parceria com a Annablume.

Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital. O eBook correspondente encontra-se disponível em acesso livre.

Aprendizagens experienciais

Volto a um texto que escrevi em Julho passado e a que dei o título Uma caixa de Pandora para dizer que, infelizmente, o que eu conjecturava veio a confirmar-se:  o caso do ministro a quem foram reconhecidas competências profissionais capazes de se transformarem numa parte da licenciatura que conseguiu por via aparentemente legal foi apenas e só a parte visível dum iceberg.

De facto muitos, muitíssimos casos estão a vir público. Na notícia que pode ler-se aqui, referem-se oitenta e tal só numa universidade, mas já ouvi falar entre as trezentas e as quatrocentas.

Mas o que é que será legal, certo e moral neste processo?

A avaliar pelos discursos que as próprias universidades - públicas e privadas - adoptam não podemos ter a certeza. A este propósito, consulte-se o programa duma recente conferência internacional intitulada Ensino Superior, Formação ao Longo da Vida e Validação das Aprendizagens Experienciais.

Não será por acaso

Em véspera de feriado, tentando pôr-me a par da realidade, passei por alguns canais de televisão. Comecei pelos especializados em informação, onde as mais variadas vozes, da esquerda à direita, alinhadas e dissidentes, convergiam em afirmar que o estado da economia deste e doutros países não tem solução, é um castelo de cartas que se abate a cada dia, hora, minuto que passa. A miséria misturada com a falta de esperança expandem-se como uma mancha de tinta que engrandece, as populações vão para as rua e gritam. Num debate, dois convidados notavam que nas discussões políticas as pessoas (as pessoas mesmo) não constam nem contam, desapareceram.

Esta nota pode alargar-se ao reality show, que estava no canal que visitei de seguida, pessoas numa montra, a que o mundo tem acesso, a comportarem-se como não-pessoas. E o mundo com o nariz em frente duma televisão ou dum computador a assistir, deliciado, às transgressões do estado humano. Avanço para um telejornal onde se continua a dar cobertura ao caso dum certo jovem que, por tanto querer entrar nesse programa que exige um segredo escabroso de cada concorrente, denunciou a uma jornalista o seu próprio pai por crimes horríveis, que terá ou não cometido. À saída do julgamento, o jovem disse que tudo não passou duma brincadeira combinada com o pai...

O nonsense fez-me avançar e cheguei à RTP Memória, percebi que estava no ar um longo programa de homenagem a Mário Viegas: entrevistas antigas e actuais a quem o conheceu, filmezinhos e filmes que fez e em que entrou, o teatro... o seu mais-que-amado teatro. E (não podia faltar) a poesia. Foi passado o último episódio de Palavras Ditas que revi com o sentimento de, tal como Mário Viegas, já não estar neste mundo.

Ainda carreguei noutro botão do comando e fui dar a uma entrevista sobro o futuro da RTP: irá no arrasto deste sistema, disse o convidado e explicou porquê. Não é de admirar num ambiente (político? económico? ideológico?) onde o sentido de Pessoa se desvanece e a memória de cada uma também. É bem provável que no próximo dia 1 de Novembro, dia de lembrar quem já partiu, não seja possível fazer nada parecido com esse programa da RTP Memória.

Não será por acaso que este dia de feriado passará a vulgar.

NO DIA DAS BRUXAS


Declarações minhas à revista "Time Out" de Lisboa e que esta transcreveu, em parte, no último número:

Os chamados fenómenos paranormais são, em geral, pura charlatanice. O  facto é que há gente pronta a  enganar outros e há ainda mais gente facilmente enganável. Os anúncios de coisas extraordinárias – incluundo fantasmas e assombrações – aramente são acompanhados de provas convincentes. O astrofísico e divulgador de ciência Carl Sagan afirmou um dia que “alegações extraordinárias requerem provas extraordinárias”. Alguém diz que viu? É preciso que mais alguém veja e que a observação se repita até que não subsistam dúvidas. Se não houver dúvidas, haverá decerto uma explicação científica. Claro que há fenómenos físicos novos, mas não são os fantasmas nem as assombrações. A mente humana está sujeita a  erros e a ciência é um grande esforço humano para escapar aos erros. Errar pode ser humano, mas o ser humano desenvolveu a ciência a fim de não errar demasiado. É a resistência permanente ao erro que nos tem permitido não só saber mais como viver melhor.

"POUPAR: UM COMPROMISSO COM O FUTURO" QUE AGREGA A NAÇÃO

Para que não restassem dúvidas de que a dita "educação" financeira ,  inscrita na Estratégia Nacional de Cidadania e Desenvolvimen...