sábado, 12 de setembro de 2020

Isaiah Berlin: uma raposa


Meu artigo no último I:

O poeta grego Arquíloco do século VI a.C., talvez o mais antigo poeta da Antiguidade cuja existência pessoal é conhecida (Homero não passa de uma lenda), escreveu um poema num fragmento que se pode traduzir prosaicamente em português: “A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa muito importante.” Uma tradução mais literal será: “Raposa sabe muitas./ Ouriço uma./ Manha consistente”. Uma outra tradução, mais elaborada: “Raposa sabe/ Enésimas/ Manhas e ainda/ É apanhada: Ouriço sabe/ Uma, mas ela/ Funciona sempre.”

Esta frase teria ficado esquecida, como muitos outros fragmentos do grego antigo, não fora Isaiah Berlin (1909-1997), filósofo, politólogo e historiador das ideias britânico, ter intitulado um dos seus ensaios O Ouriço e a Raposa, com o subtítulo Ensaio sobre a filosofia da história de Tolstói. A expressão tornou-se desde aí proverbial e é citada à exaustão nas ciências sociais e humanas.

Nascido em Riga, na Letónia, que na altura fazia parte do Império Russo, Berlin estava com a sua família judaica em Petrogrado (São Petersburgo), quando estalou a Revolução de Outubro. Mas, aos 12 anos, já estava, exilado com a família, no Reino Unido, tendo estudado em Londres e Oxford. O seu pensamento caracteriza-se pela ideologia liberal, pela apologia do pluralismo e pela oposição ao marxismo e comunismo. Embora não gostasse de escrever, Berlin escrevia muito bem, procurando ser claro e seduzir pelo estilo. A maior parte da sua obra, não muito extensa, é formada por transcrições de palestras que proferiu ou por textos que ditou às secretárias.

O Ouriço e a Raposa, que acaba de ser reeditado entre nós pela editora Guerra e Paz, é um exemplo desse seu modo de trabalhar. Trata-se da transcrição de uma palestra original dada em Oxford em 1951 e cujo texto ficou “sepultado” numa revista obscura sobre cultura eslava. O título inicial era “O cepticismo histórico de Lev Tolstói”. Dois anos depois, por sugestão do editor Weidenfeld (como são importantes os editores, como este que mandou o autor escrever mais!), foi publicado o texto em forma de livro, não só revisto como também acrescentado com a discussão de uma eventual influência em Tolstói de Joseph de Maistre, o pensador católico ultramontano que se opôs à Revolução Francesa. O texto de Berlin tinha sido publicado entre nós noutra tradução, como um capítulo do livro A Apoteose da vontade romântica (Bizâncio, 1999), que saiu na colecção Leviatã - Biblioteca de Ciência Política dirigida por João Carlos Espada. Aí ocupava umas escassas 62 páginas, enquanto agora, dado o seu menor formato,  chega às 124. O resto do recente volume de 180 páginas é preenchido por uma nota inicial do incansável editor de Berlin, Henry Hardy, por uma nota inicial do próprio autor, por um interessante apêndice, que contém correspondência de Berlin a propósito do seu ensaio e algumas recensões críticas – com explicações do autor, e um útil índice. A tradução escorreita é de Maria João Madeira. O volume, muito bem produzido (parabéns Manuel Fonseca, que tem ampliado o seu catálogo da Guerra e Paz de uma forma muito consistente), conta com um apelativo grafismo de capa de Ilídio Vasco, ostentando uma raposa e um ouriço dentro de um círculo que evoca o do homem de Vitrúvio.

Não sendo autor de muitas obras em inglês, Berlin também não pode ter muitas traduzidas em português. Enumero aqui as restantes, por ordem cronológica de publicação, para benefício dos leitores que não conheçam o seu pensamento e que, depois de devorarem o pequeno ensaio com o ouriço e a raposa na capa, queiram embrenhar-se na sua clarividente obra: A busca do ideal : uma antologia de ensaios (Bizâncio, 1998), O poder das ideias (Relógio d'Água, 2006), Karl Marx (Edições 70, 2014), e Rousseau e outros cinco inimigos da liberdade (Gradiva, 2005). 

Qual é a tese de Berlin, que se serve do ouriço e da raposa, neste seu ensaio que o The Guardian considerou um dos cem melhores de sempre? Ele começa por dividir grandes autores da filosofia e da literatura universal em dois grupos, os que são ouriços, e os que são raposas. Ser ouriço é ver o todo, a “manha” mais importante…. E ser raposa é ver as partes, as várias “manhas” avulsas. Nas palavras do autor, “existe um grande abismo entre, por um lado, aqueles que se colam tudo a uma visão única central, um sistema mais ou menos coerente e articulado (…) e, por outro lado, aqueles que perseguem muitas pontas frequentemente não relacionadas e até contraditórias.” Entre os ouriços coloca Dante, Platão, Pascal, Hegel, Dostoiévski, Nietzsche e Proust (há mais, escolhi sete). E, entre as raposas, Aristóteles, Shakespeare, Montaigne, Goethe, Pushkin, Balzac e Joyce (outros sete).

 Dividir os pensadores e criadores em dois únicos grupos não deixa de ser um pouco arriscado. Já alguém comentou ironicamente que se pode dividir a humanidade em dois grupos: os que dividem a humanidade em dois tipos de pessoas e os outros (eu reclamo-me do segundo grupo). Pode muito bem haver situações intermédias. Poder-se-á, tal como o gato de Schrödinger que está meio-vivo meio-morto, ser ao mesmo tempo ouriço e raposa. O ensaio de Berlin analisa essencialmente o romance Guerra e Paz, que ele, Berlin, leu no original russo e que os portugueses podem ler numa excelente tradução do russo de Nina e Filipe Guerra: Presença, 2005, obrigado Francisco Espadinha (e que, diz José Pacheco Pereira, ninguém lê no telemóvel). O romance, publicado em folhetim entre 1865 e 1869, descreve o tempo de Napoleão entre 1805 e 1813 (a campanha da Rússia é de 1812, como lembra uma abertura de Tchaikovsky). A pergunta de Berlin sobre Tolstói é: “Assemelha-se mais a Shakespeare ou Púchkin do que a Dante e Dostoiévski?” A sua resposta, apresentada como hipótese, era: “Tolstói era uma raposa, mas acreditava ser um ouriço.” No fundo, uma raposa que queria ser ouriço. O grande autor russo tinha uma atenção muito desenvolvida para as visões diversas dos indivíduos, mas idealizava alcandorar-se a uma visão coerente da história, uma espécie de “teoria unificada” para usar uma expressão da física moderna. Segundo Berlin, o drama de Tolstói foi não conseguir ligar esses dois aspectos, o micro e o macro: há verdade em qualquer deles, mas não é nada fácil a ligação. Como é que as grandes correntes da história, algumas delas parecendo ter um certo determinismo, emergem da acção aleatória das partes? O problema é um  pouco semelhante, digo eu, ao que se encontra na Segunda Lei da Termodinâmica: como é que do movimento aleatório e reversível das partículas se pode extrair o inexorável aumento da entropia para o sistema global, que exibe uma clara irreversibilidade?

A metáfora de Berlin, como todas, tem as suas fragilidades, como é discutida no apêndice, mas o seu exercício é engraçado.  Será Berlin  uma raposa ou um ouriço? Ele define-se como raposa, mas um crítico diz que há algo de auto-referente e que Berlin se sente como Tolstói, apertado entre  dois modos de ser. O leitor, se pertence ao grupo das pessoas que gostam de dividir o mundo em dois grupos de pessoas, pode dividir os filósofos e escritores da sua predilecção entre ouriços e raposas. Direi que se alinhar mais ouriços, terá tendência para ouriço. Se alinhar mais raposas, terá tendência para raposa. Eu, tal como Berlin, sinto-me mais raposa: confesso que me sinto um pouco constrangido e até intimidado por uma visão única, supostamente  coerente do mundo, a tal “teoria unificada”. Parece-me até algo perigoso. Lembro que entre os inimigos da sociedade aberta de Popper estavam Platão, Hegel e Marx, todos eles ouriços.

 Vejamos num excerto o estilo de Berlin: “A tese central de Tolstói – em determinados aspectos não dissemelhante da inevitável teoria da ‘auto-ilusão’ de Karl Marx. Salvo que Tolstói vê em quase toda a humanidade o que Marx reserva a uma classe –  é que existe uma lei natural de acordo com a qual e num grau não inferior ao da natureza, as vidas dos seres humanos são determinadas; mas que os homens, incapazes de encarar este inexorável processo, procuram representá-lo como uma sucessão de escolhas livres, atribuir a responsabilidade para aquilo que acontece às pessoas por eles dotadas de virtudes heróicas ou vícios heróicos, e a que chamam  ‘grandes homens’.” Tolstói não via Napoleão como um grande homem. Via-o apenas como um carneiro, que engordou, antes de ir para o matadouro, como não podia deixar de ir.

E o que faz o reaccionário Maistre neste ensaio, ao lado de Tolstói? Responde Berlin: “Um dos mais impressionantes elementos comuns ao pensamento destes penseurs distintos, e de facto, antagónicos, é a sua preocupação com o carácter ‘inexorável’ – a ‘marcha´ dos acontecimentos.” Inexorabilidade histórica? Quem sou eu para achar, mas acho que não existe.

1 comentário:

  1. Quando se fala de big bang todos somos ouriços, como quando se falava de Deus no tempo em que não fazia sentido falar de outra coisa. Só havia ouriços. Tudo é racional se o "puzzle" funciona. O ouriço tem um puzzle. A raposa não, tem uma montanha de problemas e uma montanha de soluções, muitas vezes contraditórias, em que umas coisas encaixam muito bem, mas outras não. A raposa, normalmente, tende a comportar-se como um ouriço, mas o ouriço topa-a facilmente. Quando uma raposa, depois de ler Marx e Hegel e Nietzsche, continua a falar como se nunca os tivesse lido, é óbvio que não assimilou e não integrou no "puzzle", pelo menos no do ouriço, aquelas peças.
    Só os loucos não têm problemas com a racionalidade e não têm puzzles para resolver. Os humanos normais são uma espécie de robots mal programados que não cessam de se reprogramarem, na tentativa de encontrarem a chave, que acreditam que exista. Os ouriços tendem a crer mais nisto, em sistema de coerência. As raposas exploram todos os sistemas de coerência disponíveis, conscientes ou não, de que os problemas existem e que existem porque nós existimos. O problema somos nós.

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