quinta-feira, 12 de setembro de 2019

A PRODIGIOSA AVENTURA DAS PLANTAS


Início do capítulo 0 (sem notas) da "Prodigiosa Aventura das Plantas", de Jean-Marie Pelt e Jean-Pierre Cuny, livro de que acaba de sair a 4.ª edição na colecção Ciência Aberta da Gradiva:

O qual, no entanto, é mais consistente do que um iogurte — este só existindo porque existe a erva — e pretende em particular estabelecer a precedência do grão sobre o borrego

 Porquê a aventura das plantas? Primeiro porque é a nossa. Diz a Bíblia: «Toda a carne é erva.» De facto, sem a gramínea, não havia entrecosto para ninguém. Sem erva, não há vitela; nem à sombra dos salgueiros, nem à mesa dos escritores; e, portanto, acabava a literatura. Imaginem, se tivessem de comer como bons vegetarianos: espigavam com certeza.

Porque o homem depende das saladas.

Na era do nuclear, da qual se faz muita espécie, é tempo de nos lembrarmos de que as plantas conheceram — cem, duzentos, trezentos, quatrocentos, quinhentos milhões de anos antes de nós — civilizações marcadas por grandes invenções, enquanto o sinantropo e o pitecantropo ainda estavam às escuras, para não falar do homosaintropo.

 E todos os anos, pela Primavera, deveríamos celebrar a mais extraordinária, a mais incrível, a mais sumptuosa  invenção jamais realizada: a fotossíntese, de modo que o macaco nu, que ainda não sabe imitá‑la, bem podia ir‑se vestir. Por exemplo, o rabanete. J

á agora, pega‑se pela rama. Que é que se vê? Uma raiz cheia de vitamina B.

O que, para o rabanete — já os estou a ouvir —, é o B‑A = BA. Está‑se mesmo a ver!

Mas para lá chegar foi preciso passar do oceano cinzento ao oceano verde, das algas aos musgos, dos musgos aos fetos, conceber a folha, o caule, a raiz e a semente de madeira de prateleira, enquanto berravam os dinossauros, e inventar a flor: ao todo, uns milhões de anos de «reflexão» vegetal!

 — Claro — diz o cientista que nos está a ler, e que é muito coca‑plantinhas3 —, agora (já estávamos à espera) põe‑se a dizer disparates: está a atribuir poder de reflexão ao rabanete! O seu livro vai‑se vender, de certeza, com aqueles que servem como aperitivo salada de óvni com asteca tártaro; com os que pretendem que o Albinoni não é bom para os chorões, que já choram o suficiente. Enquanto o Marco Paulo é conveniente para o crescimento do nabo, o reggae para o do cânhamo indiano, etc.: o seu livro é bom para ler na casa de banho! Outro, levado pelo desprezo, elogia‑nos:

— Se não é mesmo uma vergonha descrever as plantas dessa maneira! A «reflexão do rabanete»! E a seguir? Parece São Raoul de Chardin!

 Ora, se não se importam, vamos lá a ter calma: não dissemos que o rabanete tem ideias. Dissemos sim —  quem afirmará o contrário? — que há ideias no rabanete. Para mais, é claro que o povo vegetal, esse povo irmão dos homens, persegue essas ideias, com muitos outros, desde há muito, o que é bom de ver, porque as plantas primitivas, que continuam sem folhas, nem raízes, ainda estão à nossa vista, como aborígenes; assim como as inúmeras plantas que, entretanto, e aqui para nós, levaram pancada em todos os continentes, de todas as maneiras, antes mesmo que a separação destes fosse decidida de comum acordo. E não acaba aqui, porque se vai ver, no Capítulo 10, que a planta do futuro já existe.

Ou seja, não é porque as plantas fazem as coisas com tempo que não vivem uma aventura fascinante. E se o rabanete não inventou a pólvora, é porque descobriu muito melhor do que isso.

 E então é de bom‑tom dizer que «isso foi durante a evolução».

 Fórmula admirável, cujo jesuitismo beato lhe diz que a sua filha é muda porque não é dotada de fala e cuja parte mais interessante é a forma passiva: «Isso foi...»; ninguém tem lata para acrescentar «sozinho», mas é mesmo por pouco.

No entanto, foi preciso que o rabanete fosse concebido, ou, se preferirem, que se concebesse.

 O que não justifica que se apele ao Criador. Não vamos cair na armadilha, lá porque ele é crucífero, de proclamar o rabanete católico. Assim como não vamos dizer, lá porque o hábito, antes de comer, é retirar‑lhe um bocado, que ele foi concebido para ser circuncidado.

E muito menos, porque ele é simpático e barrigudo, que ele se entrega a qualquer meditação radical‑budista, ou que foi feito para Confúcio, ou vice‑versa.

Para mais, o rabanete desconfiava, dado que geralmente é oco por dentro.

Portanto, longe de nós a intenção de insinuar que as plantas pensam: «Cresço, logo existo.»

Mas já se pode dizer que as plantas são pensadas6 pela evolução, pelo menos tanto como os animais, e como eles remodeladas, aperfeiçoadas, com uma teimosia e um génio que os botânicos, até agora, só souberam descrever em latim. Teimosia admirável, de certa maneira, graças à qual conseguiram estabelecer entre eles uma linguagem internacional. Se disser a um botânico chinês «balsamina‑selvagem », vai olhar para si com os olhos ainda mais embicados, se possível, sob o efeito da desconfiança e da perplexidade. Se disser: «Impatiens parviflora», o olhar dele, desta vez, vai iluminar‑se. E vai mostrar‑lhe no seu herbário a balsamina, a qual, em chinês, pode perfeitamente chamar‑se balsaming, ou outra coisa qualquer, porque o que interessa é o latim.

Quando percorreram a África, a Ásia e a América, bastou aos repórteres encarregados de filmar as plantas para a nossa série televisiva citar os nomes latinos: os botânicos locais compreendiam‑nos tanto na Tailândia como nas Canárias, tanto na Califórnia como no Var.

 Mas a internacional botânica não salvará o género ignorante. Fecha‑se demasiado na sistemática, para aí melhor cortar os estames ao meio, e veste‑se de uma linguagem de enxotar o zé.

Abro ao acaso uma obra de «vulgarização», a qual certamente não deixa de ter méritos e pretende ensinar‑vos muito mais do que a nossa; na condição  de assimilar, por exemplo, isto à primeira: «Sendo as gramíneas monocotiledóneas, as folhas têm um crescimento basal. Formam bainhas, que suportam o caule oco, protegendo ao mesmo tempo o gomo apical e as regiões de crescimento basal dos entrenós situadas mesmo acima dos nós.»

Se tentarmos lê‑la de novo com cuidado, uma frase como esta é até muito clara; se bem que o termo «monocotiledónea», aqui para nós, me tivesse sempre provocado uma certa dor de cabeça e que essa história de «entrenós situados mesmo acima do nó» me pareça um bocado estranha.

Mas há pior: a frase que atira definitivamente o homem da rua para a sarjeta. Encontro‑a noutra obra, que a encadernação a cores parece dirigir ao grande público. Um, dois, três, aí vai:

«As ulotricales, ordem n.o 1 da 3.a subclasse das septoficídeas, classe das cloroficíneas, divisão das cloroficófitas, possuem células unicleadas e incluem um cloroplasta parietal geralmente perfurado.»

Pois, pois.

Para tentar saber de onde se partiu para chegar a isto, vou duas páginas atrás, com muito cuidadinho para não perder nenhum cruzamento. E o que é que aparece? Adivinhem!... Um grupo muito conhecido da família das ulváceas, caracterizado por um talo cenocítico, e sobre o qual me informam que se trata de algas sifonadas: não admira.

E as ulváceas, sabem o que são? Têm‑nas visto nas praias a flutuar, a flutuar um pouco por todo o lado, verdes e um bocado moles, parecendo‑se tanto com as frágeis alfaces dos supermercados que dão a impressão de estar a sair de algum caixote naufragado. Leiam o que dizemos sobre elas no fim do Capítulo 1. É muito mais simples. Vão saber, só, que são um dos antepassados visíveis de todas as plantas terrestres. O pior é que vão perceber porquê.

Porque é assim que lhes vamos contar as fabulosas atribulações do povo vegetal: sem recear, no fundo, a simplicidade; e mesmo a boa disposição; sem recear as comparações, que se impõem por si, com as aventuras semelhantes do povo dos homens.

Então vão compreender que para chegar a uma simples planta crucífera como o rabanete foi uma cruz, justamente, para esse povo irmão da clorofila, que foi muito mais longe: até ao edelvaisse, que, vê‑lo‑ão no Capítulo 12, é uma Suíça em ponto pequeno; até à orquídea, que é, vão sabê‑lo também, o equivalente ao homem na civilização das flores.

 Porque, quanto mais avançarem neste livro, a menos que já sejam botânicos, mais se admirarão ao descobrir até que ponto o povo vegetal é irmão do nosso.

Irão saber — já era tempo — que as flores mais banais, a que vocês não ligam nenhuma, puseram a funcionar mecanismos espectaculares. Ser‑vos‑á dito, e é verdade, que os órgãos sexuais de certas flores podem reagir, ao primeiro toque, com um vigor perfeitamente animal. Irão verificar que a flor não é essa encantadora palerma entregue aos contactos febris do Casanova borboleta apalpadora, mas que, na maior parte dos casos, é ela que tem o seu diploma de piloto lepidóptero. E, bem entendido, terão, de vez em quando, a página da coluna social. Irão estremecer com as façanhas da flor que assassina os bebés‑moscas; da flor vampira da Indonésia, e nem digo mais.

 Irão saber também que uma flor pode ser roubada, como à esquina da rua, por um insecto que pensava conhecer.

(...)

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