domingo, 22 de setembro de 2019

"ESSES OSSOS" EM CONÍMBRIGA


Direcção-Geral do Património Cultural, o Museu Monográfico de Conimbriga - Museu Nacional 
e a In-Libris gostariam de poder contar consigo na apresentação do livro Esses Ossos a ter lugar
no Auditório do dito Museu, em Condeixa-a-Velha.

Contamos com a presença do Prof. Dr. Carlos Fiolhais,
Professor de Física da Universidade de Coimbra, e do Bastonário da Ordem dos Biólogos, 
o Prof. Dr. José Matos, que nos virão falar acerca deste trabalho que concilia o universo
da investigação científica com o da expressão artística.

Esses Ossos é um livro relacionado com a investigação no domínio da Arqueogenética desenvolvida 
por 
Catarina Ginja (CIBIO-InBIO, Universidade do Porto) e reúne 39 imagens fotográficas da autoria de 
Paulo Gaspar Ferreira, 36 poemas seleccionados por Isaque Ferreira
e uma paisagem sonora criada por Brendan Hemsworth.


28 de Setembro (Sábado) 2019
15:30 horas

HÁ BIFE EM CAMBRIDGE?


A política alimentar seguida na Universidade de Cambridge (que data de 2016) trata todos os ruminantes por igual (carneiro/borrego, maior emissor, e vaca) não aboliu completamente (dois dos restaurantes continuam a servir) e, acima de tudo, preparou um estudo, com muitas medidas de preparação e acompanhamento:

https://www.environment.admin.cam.ac.uk/sustainable-food/university-cambridges-sustainable-food-policy#

A MADEIRA NA ROTA DA ANTÁRCTIDA



Como hoje é um dia importante para a Madeira pré-publico aqui uma entrada que preparei para o Dicionário Enciclopédico da Madeira (dirigido por José Eduardo Franco). Pouca gente saberá o papel que a Madeira teve como entreposto na exploração da Antárctida (na foto onorueguês Amundsen e os seus companheiros, na primeira expedição a chegar ao pólo sul): 

Se os séculos XVIII e XIX tinham assistido à concretização de vários projectos de circum-navegação do globo, que se interessaram particularmente pela realização de descobertas no Oceano Pacífico, o início do século XX assistiu à exploração das regiões polares, tanto no norte como no sul do globo terrestre. A 6 de Abril  de 1909 o  engenheiro da Marinha norte-americana e explorador Robert Edwin Peary (1856-1920) terá chegado ao pólo norte (de facto, ficou, de acordo com o nosso conhecimento actual, a  cerca de 100 km desse sítio e os primeiros seres humanos  só atingiram o pólo norte em 1968), mas a  corrida ao pólo sul revelou-se bem mais dramática. Se há fortes dúvidas sobre a primazia de Peary a chegar ao pólo norte, já não as há no que respeita ao pólo sul. Ele foi alcançado em  14 de Dezembro de 1911  pelo norueguês  Roald Amundsen (1872-1928), que bateu por escassos 35 dias o inglês Robert Falcon Scott (1868-1912),  que, com os seus companheiros, morreria de exaustão e frio durante a sua viagem de regresso. Ora, tanto Amundsen como Scott passaram, a caminho do Sul, pelo Funchal. Mais: foi no Funchal, a 9 de Setembro de 1910, que Amundsen, que tinha anunciado a sua partida para as águas do Árctico (dando a volta ao continente americano pelo cabo Horn), decidiu inopinadamente partir em direcção ao pólo sul, tentando bater Scott. Amundsen, que foi mais tarde, em 12 de Maio de 1926, o primeiro a  atingir o pólo norte por meios aéreos (com o capitão italiano Umberto Nobile, 1885-1978, usando o dirigível Norge), teve um fim trágico tal como Scott: pereceu no Árctico em 1928, quando o seu hidroavião desapareceu sem deixar rasto, numa expedição de socorro ao Nobile, capitão do dirigível Italia, que sofreu um acidente numa expedição ao pólo norte. Amundsen foi, portanto, o primeiro homem a estar nos dois pólos da Terra.

Foram várias as viagens de  reconhecimento da Antárctida, antes da corrida final decidida ao sprint entre Amundsen e Scott, tendo algumas delas passado pela ilha da Madeira.  Em Julho de 1902 passou no Funchal o navio Morning, comandado por William Colbec, capitão da Marinha Real Inglesa, que rumava aos gelos antárcticos, com o intuito de ajudar o HMS Discovery, navio de Scott, que na primeira expedição deste à Antárctica tinha ficado aprisionado nos gelos do estreito de McMurdo, que separa a ilha de Ross da Antárctica continental. A expedição Discovery (1901–1904) foi um empreendimento britânico tanto de exploração como científico que teve o patrocínio conjunto da Royal Geographical Society e da Royal Society. A sua meta era o pólo sul, mas a marcha realizada por Scott e outros dois famosos exploradores polares, o irlandês Ernest Shackleton (1874 -1922) e o inglês Edward Wilson (1872-1912), só conseguiu atingir a latitude de 82° 17′ S, a cerca de 850 km do pólo, um recorde na época. A difícil marcha de volta provocaria um colapso a Shackleton, apanhado pelo escorbuto. No final da expedição, foi preciso a ajuda de dois navios de resgate para libertar o Discovery, sendo um deles o referido Morning e o outro o Terra Nova, que haveria de dar o nome à segunda expedição antárctica de Scott.

A 10  de setembro de  1903  passou pelo Funchal o vapor Le Français, tendo a bordo o navegador, médico  e cientista francês Jean-Baptiste Charcot (1867–1936), em viagem para a Antárctica. Charcot, filho do famoso neurologista Jean-Martin Charcot, explorou, no comando da Expedição Antárctica Francesa, a costa oeste da Terra de Graham, parte da Península Antárctica, entre 1904 e 1907. À semelhança de  outros exploradores polares, Charcot teve um fim infeliz: morreu quando o seu navio Pourquoi-Pas? foi destroçado por uma violenta tempestade ao largo da Islândia no ano de 1936.

A segunda expedição de Scott, a Terra Nova, ocorreu  de 1910 a 1913. No seu plano o comandante dizia que o seu "principal objetivo é alcançar o pólo sul, e garantir para o Império Britânico a honra desta conquista." Scott não sabia que iria participar numa corrida até em 12 de Outubro de 1910 ter lido um telegrama, enviado por Amundsen para Melbourne, na Austrália, a 9 de Setembro de 1910. Foi já na sua base na ilha de Ross que Scott soube que Amundsen estava acampado com a sua equipa, e um largo grupo de cães trazidos da Gronelândia, na baía das Baleias, a cerca de 500 km a leste (e mais perto do pólo sul). Scott não fez qualquer desvio dos seus planos, que consistiam em viajar por uma rota conhecida, que já tinha sido experimentada por Shackleton em 1907. A marcha para sul começou a 1 de Novembro de 1911, com a ajuda de um conjunto de vários trenós carregados, puxados por vários meios: a distância total a percorrer seriam 1353 km. No dia 4 de Janeiro de 1912, à latitude 87° 34′ S, Scott anunciou quais seriam os quatro homens que com ele iam tentar alcançar o pólo austral: Edward Wilson (que era médico e tinha estado com Scott na expedição anterior), Lawrence Oates, Henry Bowers e Edgar Evans. Este grupo chegou, de facto, ao pólo sul no dia 17 de Janeiro de 1912, mas, para sua surpresa e desilusão, encontrou a bandeira norueguesa e a tenda que Amundsen tinha erguido 35 dias antes. O regresso, em condições muito difíceis, não chegou a ser consumado: os corpos gelados do grupo final formado por três exploradores (Oates já tinha ficado para trás, desaparecido no gelo) foram encontrados meses depois da data da morte, que deve ter ocorrido a 29 de Março de 1912, a avaliar pelo diário de Scott que estava ao seu lado na tenda que lhe serviu de túmulo

Se a passagem de Scott pela Madeira, foi normal, tendo sido efectuado o necessário reabastecimento para a viagem de longo curso que se seguia, a paragem de Amundsen na Madeira está, como foi dito, associada a uma viragem que se afigurou decisiva na corrida ao pólo sul. Os planos de Amundsen eram no sentido de alcançar o pólo norte. Com a notícia divulgada de que Robert Peary teria chegado a esse pólo (e, pouco antes dele, o explorador norte-americano Frederick Cook, 1865-1940, num feito que, tal como o de Peary, não pôde ser  confirmado), mudou de ideias. No seu navio Fram,  que era famoso por já antes ter participado noutras viagens no Árctico, partiu da Escandinávia em 1910. De facto, o navio de Amundsen tinha sido preparado para ir para norte, e a decisão de ir para sul só foi tomada pelo próprio na ilha da Madeira, tendo sido anunciada primeiro aos tripulantes, que a aceitaram unanimemente, e depois por telegrama lacónico (“Estou a ir para sul”, ) enviado aos seus rivais ingleses. A imprensa deu uma notícia falsa que, com a mudança de planos, se tornou verdadeira. Em 7 de Setembro de 1910, o Diário de Notícias da Madeira, numa breve notícia intitulada “Ao pólo-sul”, informava: "Fundeou ontem no nosso porto [do Funchal], o navio-explorador norueguês Fram, procedente de Christiania [antigo nome de Oslo], em 20 dias de viagem, conduzindo uma expedição scientífica ao pólo-sul." Esta notícia foi verdadeiramente extraordinária, por se ter revelado premonitória dos factos reais: o jornal não podia nessa altura saber que o Fram iria para o pólo sul, tendo dado essa informação por mera confusão. O certo é que nem os correspondentes britânicos na ilha da Madeira se aperceberam da grande novidade, ainda que involuntária, contida na notícia. Houve já quem considerasse esse notícia “a maior ‘cacha’ de sempre da imprensa portuguesa”. Não foi fácil para Amundsen tomar essa decisão pois  consideráveis fundos, em boa parte públicos, tinham-lhe sido concedidos para ir para o Árctico e não para o Antárctico. Em carta ao seu armador, explicou as razões da mudança, pedindo desculpa. Informou, também por carta, o rei norueguês. A notícia foi de início mal recebida no seu país natal. A concorrência aos ingleses não foi, de início, particularmente bem-vista, na Noruega e na Europa em geral, até porque Scott era mundialmente conhecido.

O ambicioso Amundsen foi mais bem sucedido porque se revelou mais pragmático e  profissional do que Scott, como mostram os seus diários: atingiu o pólo sul, num grupo onde também estavam Olav Bjaaland, Helmer Hanssen, Sverre Hassel e Oscar Wisting, usando trenós puxados por cães, uma técnica que ele aprendeu em terras árcticas (este terá sido um dos segredos do seu êxito). Em contraste com Scott, que confiou numa rota conhecida, Amundsen teve que procurar o seu próprio caminho atravessando os difíceis Montes Transantárcticos para penetrar no extenso planalto antárctico e, depois da sua chegada ao extremo sul da Terra, conseguiu retornar ao acampamento-base, após ter percorrido durante três meses, no trajecto de ida e volta, mais de 3000 km em condições meteorológicas bastante adversas.

Shackleton recuperou e voltou ao activo em explorações antárcticas. Para além de ter participado como oficial subalterno na primeira expedição de Scott, Shackleton liderou três expedições britânicas à Antárctida. Regressou aí em 1907 à frente da expedição Antárctica Britânica de 1907-1909 ou expedição Nimrod, do nome do navio. Nesse quadro, ele e três companheiros efectuaram, em Janeiro de 1909, uma marcha para sul que estabeleceu uma nova marca de latitude sul -  88° 23′ S, a apenas 180 km do pólo sul. Depois da corrida ao pólo sul ter terminado, Shackleton dirigiu a sua atenção para o que considerava ser o último objectivo da exploração antárctida: atravessar o continente gelado de mar a mar, passando pelo pólo sul. Preparou então a expedição que foi chamada Transantárctica Imperial (1914–1917). Entre 21 e 25 de Agosto de 1914 o navio Endurance, sob o comando do capitão neozelandês Frank Arthur Worsley (1872-1943), parou na Madeira, na sua rota para o pólo sul, com  o irlandês Ernest Henry Shackleton a bordo.   que não correu bem, por o navio ter ficado aprisionado no gelo, ter sido esmagado e finalmente afundado. O salvamento dos náufragos, depois de algumas aventuras, só foi feito in-extremis, sem terem ocorrido perdas humanas, graças à grande perícia e coragem de Worsley. Shackleton regressaria finalmente em 1921 à Antárctida, com o intento de realizar um programa científico. Os navios Quest, de novo com Worsley a bordo, e Dans pararam  na Madeira a de 16 a 19 de Outubro de 1921. Ainda antes de a expedição ter iniciado os seus trabalhos, Shackleton morreu a 5 de Janeiro de 1922 de ataque cardíaco quando o Quest estava ancorado na Geórgia do Sul, uma ilha no sul do Pacífico descoberta por James Cook, na sua segunda viagem de circum-navegação, tendo sido aí sepultado.

Em resumo: todos os três grandes exploradores do pólo sul - Samuel Amundsen, Robert Scott e Ernest Shackleton - passaram pela Madeira, mais especificamente pelo porto do Funchal, a caminho dos mares do sul. Os três morreram durante o seu trabalho de exploração nas regiões polares. Podemos falar de “idade heróica” da exploração polar e dizer que a Madeira esteve  no caminho da exploração, ainda que apenas como ponto de reabastecimento entre o Norte da Europa e o extremo sul do mundo.

As expedições polares, para além do pioneirismo na exploração, foram empreendimentos científicos. No século XX, houve uma outra famosa expedição científica, que rumou não ao pólo sul, mas sim à linha do equador, e que se destinava a observar um eclipse solar total no arquipélago de  S. Tomé e Príncipe e no Brasil, a fim de estar a teoria da relatividade geral de Albert Einstein (1867-1955). Também esta expedição, realizada no HMS Anselm,  passou a 8 de Março de 1919 pela Madeira, como posto intermédio entre a Inglaterra e a latitude equatorial, dividindo-se aí a expedição numa parte que rumou a Sobral, Brasil, e noutra parte, que rumou, a bordo do paquete Portugal, após algumas semanas de espera, à ilha do Príncipe, então uma colónia portuguesa. O chefe da expedição ao Príncipe era o famoso astrofísico inglês Arthur Eddington  (1882-1944) e o resultado das observações de 27 de Maio de 1919 foi conclusivo: Einstein estava certo pois os raios de estrelas que no campo de visão estavam perto do Sol se dobravam na medida certa ao passar perto do disco solar. Este foi, sem dúvida, um dos maiores eventos científicos do século XX.
Referências
- Amundsen, Roald; Nilsen, Thorvald; Prestrud, Kristian; Chater, A.G. (trad.), (1976) [1912]. “The South Pole: An Account of the Norwegian expedition in the Fram, 1910–12” (Vols. I and II). London: C. Hurst & Company. Original publicado em 1912 por John Murray, Londres.

- Francisco, Luís,  “Diário de dois rivais, Pólo Sul: rivalidade entre Amundsen e Scott através dos seus diários”,  Público, 4 de Janeiro de 2011,


-Mota,  Elsa; Simões, Ana; e Crawford, Paulo, “Eddington’s expedition to Principe and the reaction os the Portugueses astronomers (1917-1925)”, The British Journal of the History of Science 42(2) 245-273 (2009)

- Alberto Vieira, “Viajantes”, in Aprender Madeira. http://aprenderamadeira.net/viajantes/

O QUE É VER NA CIÊNCIA?


Primeira parte de uma entrevista que dei a Margarida Alves, artista plástica e doutoranda em belas Artes na faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa:

Margarida Alves - Gostaria de saber como é que, com recurso a dispositivos tecnológicos (analógicos ou digitais),  podemos descobrir ou inferir a matéria mais ínfima, a matéria infimamente pequena que existe e que é descrita pela física quântica?
Carlos Fiolhais - Vou começar pelo início. Nós somos todos herdeiros de uma grande mudança ocorrida nos séculos XVI e XVII que é chamada “Revolução Científica”. Essa Revolução deu-nos o método científico que, embora seja complicado de enunciar em pormenor, tem alguns elementos essenciais:  a observação, que é uma visão cuidadosa; a experimentação, que é a observação de situações controladas; e o raciocínio lógico, que se baseia na matemática. O método inclui também a crítica, no sentido em que as conclusões da ciência têm de ser comunicadas e validadas, primeiro no interior da comunidade científica e depois a todos. É tudo isto  que faz a ciência,  é isto o que a distingue de outras actividades humanas, como por exemplo a arte. Há outras actividades humanas que têm alguns destes elementos, mas não todos  e não da mesma maneira. Podemos dizer que na arte há observação, que pode até haver num certo sentido  experimentação,  mas o raciocínio lógico não é um imperativo na arte. A  arte, embora dependa da crítica, porventura não depende tanto dela como a ciência. Mas as relações entre arte e ciência são profundas  e merecem uma reflexão mais alongada…
Quando a ciência começou a observação foi muito importante, mesmo quando não se podia experimentar. Percebeu-se imediatamente que se podia ver mais do que aquilo que os nossos  olhos viam ou, melhor, aquilo que os olhos directamente viam. Isso é bem manifesto isso no trabalho de Galileu, em 1609, quando olha para o céu com um instrumento novo, o telescópio, e faz descobertas sensacionais, que anuncia no ano seguinte em O Mensageiro das Estrelas. Não foi ele que inventou o telescópio, mas foi ele o primeiro a olhar para o céu com atenção e a registar o que viu:  descreveu coisas no céu que nunca ninguém tinha visto. O que ele viu era radicalmente novo… A Natureza revelava-se surpreendente ao  fornecer, com a ajuda do instrumento, fenómenos que a vista humana não tinha conseguido alcançar. Havia coisas que estavam antes invisíveis que eram espantosas, como por exemplo manchas no Sol - o Sol não era perfeito;  irregularidades na Lua – o nosso satélite  tinha  montes e vales, isto é, não era uma esfera perfeita; fases de Vénus, antes difíceis de discernir dada a pequenez do astro; e, acima de tudo, quatro satélites de Júpiter, luas que andavam à volta desse planeta, tal como a Lua andava à volta da Terra. Tudo isso mudou o pensamento humano a respeito do mundo.
Havia mais mundos para além da nossa directa percepção. As novidades do invisível passaram a ser uma marca da ciência e  esta passou a partir daí a procurar o mundo invisível. Começou pelo muito grande, que está muito longe (não digo infinitamente longe porque o infinito é uma questão mais matemática e se quisermos metafísica do que física), mas em breve, ainda no século XVII, passou a ver o muito pequeno,  continuando a usar  lentes, ligadas em sistemas ópticos que mudavam o percurso da luz. As lentes de Galileu tinham vindo da Holanda de  fabricantes de óculos. Foram  também holandeses os inventores do primeiro microscópio. A primeira pessoa a usar o microscópio para veres seres vivos foi o holandês Anton van Leeuwenhoek. Aqui há um aspecto importante a realçar: a precedência nessa época da tecnologia sobre a ciência. Por que é que antes ninguém tinha conseguido ver aquilo que o Galileu viu? Porque a indústria de lentes não estava suficientemente desenvolvida. O talhamento do vidro, a escultura do vidro, para usar uma palavra do mundo da arte (estou-me a lembrar das esculturas muito lisas do  Brancusi), atingiu no início do século XVII na Holanda um estado de perfeição que permitia usar as lentes em instrumentos de visão. Foi preciso que os artífices holandeses conseguissem polir muito bem as lentes para que elas pudessem servir em artefactos tecnológicos. Lembro que  Espinosa foi polidor de lentes. Houve, portanto, uma mudança tecnológica que permitiu uma mudança científica. Esse processo passou a repetir-se: quando uma tecnologia avança, a ciência avança também. A diferença para os tempos de hoje é que agora praticamente toda a tecnologia vem da  ciência, o que significa que a ciência se alimenta a si própria ao produzir objectos tecnológicos que por sua vez alavancam o progresso do conhecimento científico. É uma espécie de “pescadinha de rabo na boca”…
 Leeuwenhoek recorreu a um microscópio para ver o muito pequeno. É só uma  questão de escolher as lentes adequadas e colocá-las na posição certa. E conseguiu  ver animais minúsculos, ou pormenores de animais maiores, como a sua estrutura celular. Passou-se, no domínio microscópico, tal como tinha acontecido antes no domínio do macroscópico,  a ver coisas que nunca ninguém tinha visto. Robert Hooke, um físico inglês do tempo de Newton, foi o autor de um livro com  imagens absolutamente impressionantes, Micrographia, publicado em  Londres em 1665. A física, através da óptica, conquistou nessa altura tanto o grande como o pequeno. Podemos ver mais do que os nossos olhos vêem e os instrumentos ópticos são o modo de ampliação da nossa vista. 
Não  é de mais enfatizar o sentido  da visão. Temos outros sentidos, mas a vista é importantíssima. É-o também na arte, nas chamadas  artes visuais em particular. Talvez arrisque dizer que a visão é o nosso sentido mais importante porque as câmaras que são os nossos olhos não só estão colocadas perto do cérebro como efectuam já, na retina, algum processamento da informação. De certo modo a vista é uma parte do cérebro. O sinais vindos da vista têm, no  nervo óptico,  de percorrer uma curta distância para que haja processamento completo.  As câmaras que são os nossos olhos passaram a ser ampliadas por meios artificiais.  O telescópio e  microscópio forneciam uma capacidade acrescida ao olhos: A capacidade da visão humana estendeu-se para os dois lados, o que está perto e é pequeno e o que está longe e é grande. Passámos a ver mais do que aquilo que víamos directamente, passámos a ver mais mundos do que o mundo à nossa escala. A partir do momento em que houve uma apreensão de escalas diferentes  imediatamente o nosso cérebro ampliou-se. Quando a vista se amplia, o cérebro amplia-se também, porque a vista e o cérebro estão ligados intimamente ligados.
A partir de então, estava aberto o caminho para mais transformações desse tipo. Fazem-se telescópios cada vez mais poderosos e continuamos nesse caminho, não está à vista o seu fim. Estamos a construir telescópios cada vez mais poderosos para ver ainda mais longe, usando luz de todo o tipo. A luz pode ser visível como foi usada por Galileu e Leeuwenhoek mas, sabemos hoje, pode ser invisível. Construímos telescópios para recolher luz de todo o género que vem do espaço: a luz infravermelha, a luz ultravioleta, raios X, ondas de rádio, etc. Sabemos muita coisa de objectos do  espaço distante graças aos raios X. Nesse caso, os telescópios têm de estar montados num satélite porque os raios X não chegam à Terra. Felizmente que a atmosfera os absorve  pois são perigosos para a vida. As ondas de rádio, essas sim, chegam à Terra, através da atmosfera, e dispomos de radiotelescópios para as captar. Estamos a instalar novos telescópios que são cada vez maiores, o que significa que cada vez vemos mais, que vemos coisas novas e que vemos coisas que já conhecemos com cada vez mais pormenor.
 A nossa visão no espaço distante tem um limite que tem a ver com o Big Bang que se deu há catorze mil milhões de anos. A luz tem uma velocidade finita, o que significa que não podemos ver mais do que uma esfera de catorze mil milhões de anos-luz. Não sabemos se o Universo é finito ou infinito, mas o nosso Universo observável está dentro de uma esfera de catorze mil milhões de anos-luz.
Para o outro lado, para o lado do muito pequeno, os microscópios desenvolveram-se também extraordinariamente, passámos a ter, no século XX, microscópios electrónicos, o que significa que, em vez de luz, passámos a usar electrões, partículas elementares de carga negativa que interagem com a matéria. Ver pode não ser só com a luz. É sempre  interacção com a matéria, seja de luz seja de partículas, que falamos quando falamos de ver. Num microscópio electrónico, precisamos no final uma tradução em luz da informação recolhida pelos electrões  porque o nosso cérebro é particularmente  sensível à luz.  As imagens começam por ser captadas por electrões e passadas depois para sinais luminosos. Há outros tipos de microscópios, mais poderosos, chamados uns de “efeito túnel” e outros de “força atómica”, que conseguem visualizar os átomos. Os primeiros usam também electrões.  Outrora os átomos eram uma abstracção útil, mas hoje são uma realidade observada. Os átomos existem, não são apenas coisas conceptuais. Não só vemos os átomos como os manipulamos, é esse o objectivo da nanotecnologia.
 Num microscópio de efeito túnel estabelecemos uma grande tensão eléctrica entre a superfície que queremos observar e uma ponta do microscópio e isso faz com que alguns dos electrões que estão no objecto passem para a ponta, que funciona como uma sonda. Regista-se qual é a corrente que está a passar e nós “vemos” qual é a densidade de electrões na superfície: se há mais electrões, a corrente é maior. Não se pode com esta técnica ver o interior da matéria, mas apenas  a superfície. Com as correntes recolhidas fazemos aparecer num ecrã de computador uma modelação tridimensional. E vemos que a superfície é granulada, isto é, que a matéria tem uma estrutura atómica. Quando se trata de cristais, existe regularidade, simetria,  mas há também matéria amorfa e todo o tipo de  possibilidades entre a ordem e a desordem, o que torna a observação do mundo muito interessante. A  relação entre  ordem e  desordem muda conforme a temperatura. À temperatura muito baixa, a ordem impera mas, à medida que a temperatura aumenta, a desordem vai-se instalando. É essa a diferença entre o frio e o quente… Com raios X podemos ver o interior dos objectos e reconhecer também aí a ordem ou a falta dela.
Nos tempos mais recentes, para ver o mais ínfimo da matéria, designadamente os quarks, o que fazemos, de uma maneira ou de outra, é “provocar” a matéria enviando-lhe luz ou partículas para cima. Se os projécteis forem a grande velocidade, o objecto-alvo desfaz-se em mil peças e esperamos, como quem despedaça violentamente um relógio,  perceber de que são feitas as coisas  a partir da recolha das  peças espalhadas. Digamos que  os “relógios” da Natureza  são muito complicados e nós, quando usamos aceleradores de partículas, procuramos descobrir os seus constituintes e perceber o seu funcionamento.. O que é que vemos? O que ficamos a saber? Sabemos hoje que toda a matéria é feita de átomos e que  os átomos são feitos de núcleos e electrões; que os núcleos por sua vez são feitos de protões e neutrões, e que os protões e neutrões são feitos de quarks. Estas são as partículas “últimas” que conhecemos hoje, não quer dizer que sejam as partículas finais. Há muita especulação sobre o que serão as partículas “últimas”, mas uma coisa é certa, toda a matéria que vemos, do muito grande ao muito pequeno, é formada por partículas, quer dizer, toda a matéria  é corpuscular. Todas as formas de matéria que vemos no Universo são feitas a partir de constituintes microscópicos que são na última escala conhecida  partículas. No fundo, o mundo é um conjunto de bonecas russas, com umas peças a encaixar nas outras. Os nossos instrumentos têm de ser os mais adequados para observar as matrioscas maiores e as mais pequenas. Tudo aquilo que conhecemos do mundo é sempre a partir da observação, na maior parte dos casos instrumental.
 Em resumo: A luz interage com a matéria e é isso que faz a observação directa. Por outro lado, a própria matéria interage com a matéria, como ocorre no microscópio electrónico ou no microscópio de efeito túnel, constituindo outras modalidades de observação.
 Recentemente, descobrimos que o mundo chegam sinais que não são nem de luz nem de  matéria. A luz e a matéria existem em dois “cenários”, o espaço e o tempo, que estão interrelacionados. O espaço e o tempo são os “palcos” em que a luz e a matéria existem. Einstein há cerca de cem anos propôs que o espaço e o tempo podiam abanar: são as ondas gravitacionais. Hoje há todo um conjunto de confirmações experimentais destas ondas, pelo que  não se trata de um mero raciocínio teórico. A  observação é muito sofisticada: mas podemos dizer que os detectores de ondas gravitacionais são novos tipos de telescópios. As ondas gravitacionais provêm de choques de buracos negros e de estrelas de neutrões, que são estrelas muito pesadas. Essas ondas  ensinam-nos que os palcos em que a matéria existe são dinâmicos, quer dizer, o espaço e o tempo  são alterados pela presença da matéria e energia. Essa alteração é, segundo Einstein, a própria força da gravidade. Quando um buraco negro, que é uma estrela na fase final da sua vida,  está a circular à volta de outro, e caem em espiral  um sobre o outro, o  choque é tão grande que o espaço e o tempo são abanados a toda a volta chegando a perturbação muito longe. Nós que estamos muito distantes desses objectos (não convém estar próximo, pois o choque de dois buracos negros é dos eventos mais violentas que acontecem no cosmos) a milhões de anos-luz de distância, conseguimos registar o abano no espaço, que aqui chega minúsculo.  Este registo não deixa de ser uma forma de observação, mas não estamos a usar luz.  A luz intervém, mas não há luz directa vinda do espaço,  mas sim outro tipo de ondas.  A observação é nova: estamos a “ouvir” o Universo e não apenas a vê-lo.  Uso a palavra “ouvir” entre aspas, porque pode-se pensar que é som, mas não é, pois chega  através do vazio cósmico. É o próprio espaço que abana, não é como o ar que aqui abana, quando há uma vibração. Está-me a ouvir por causa das moléculas que estão a abanar no ar à minha frente, mas os  emissores de ondas gravitacionais são objectos cósmicos que sofrem profundas alterações e o espaço abana numa agitação que acaba por cá chegar. Usamos espelhos que são vistos a  abanar, o que nós percebemos com a ajuda de luz laser.
Por outras palavras, há muitas formas de observação, usando luz directamente, usando matéria, e modernamente usando ondas de gravidade, que são perturbações do próprio espaço. Nós  tiramos conclusões a partir e tudo o que “vemos” e, quando temos novas janelas de visão proporcionadas por novos instrumentos, ficamos a saber mais. Os instrumento originam nova ciência, e vai continuar a ser assim no futuro. Não é apenas nem sequer principalmente porque uma pessoa, como o Einstein, se lembra de uma ideia nova - as ideias puramente mentais são muito raras- que alcançamos novo conhecimento.  É Conseguimos ver e saber mais principalmente  porque construímos  novos instrumentos. Einstein tinha uma enorme  imaginação. Pessoas menos dotadas do que eles baseiam-se em instrumentos para alcançar a  “imaginação” da Natureza, estou a usar uma metáfora.  Com os instrumentos, nós conseguimos descobrir, desvendar a “imaginação” da Natureza, A Natureza tem uma imaginação muito superior à nossa. Por outras palavras, não está à vista o fim do empreendimento científico. A história da ciência ensina que, quando nós pensámos que o empreendimento científico está acabado, que já vimos tudo, que já sabemos tudo, então surge uma surpresa que nos faz perceber que não  vimos tudo.

 O que eu diria para finalizar  é que já vimos muita coisa de várias maneiras, mas estamos ainda muito longe de ter visto tudo. Há actualmente alguns mistérios, que são indícios de coisas que não estamos a ver, que são manifestações do invisível. Os  físicos chamam a esses fenómenos “matéria escura” e “energia escura”, as duas coisas escuras mas coisas diferentes. É algo que não estamos a ver, mas que gostaríamos de ver e, acima de tudo, de perceber.

FACTOS SOBRE CONSUMO DE CARNE E EMISSÕES DE CO2

Havendo tanta discussão sobre a abolição do bife nas cantinas da Universidade de Coimbra, é bom ter um olhar científico sobre o assunto:

1)  Toda carne consumida no mundo, proveniente da pecuária, contribui com 7100 megatoneladas de CO2 por ano, o que significa 14,5% do total anual de emissões. https://ccafs.cgiar.org/bigfacts/#

2) Por seu lado a carne de vaca não é que causa maior quantidade das referidas  emissões, mas sim a de cordeiro/ carneiro / borrego (39 kg de CO2 por quilograma de carne consumida em vez de 27 kg) http://www.greeneatz.com/foods-carbon-footprint.html  Não vi qualquer estudo da Universidade sobre o assunto, que não dispõe aliás de grandes especialistas em emissões de carbono e, ainda menos, em ciências da nutrição (ainda não há uma Faculdade das Ciências da Nutrição e da Alimentação).

Portanto, a medida agora anunciada - se é que de facto tem alguma efícácia, pois parece que praticamente não há bife de vaca nos menus das cantinas - parece ser uma medida demagógiga e panfletária: se as intenções poderão ser as melhores, seria melhor procurar diminuir as emissões dos autocarros turísticos poluentes a vários títulos (não é só CO2!) que enchem a Rua Larga, para não falar de todo o outro intenso trânsito na Alta e, se o foco for apenas o consumo de proteínas que causa emissões, convém não esquecer o cordeiro  e, ainda que menores a carne de vaca, o queijo, o porco e o salmão.

MAGALHÃES NA NOITE EUROPEIA DOS INVESTIGADORES EM COIMBRA


                                       
      Noite Europeia dos Investigadores 2019

                             Fernão de Magalhães: a primeira volta ao globo
     27 | SETEMBRO | 2019

Na próxima sexta-feira, dia 27 de Setembro, vai decorrer por toda a Europa, a Noite Europeia dos Investigadores (NEI). Esta iniciativa visa aproximar cientistas e público num convívio informal, lúdico e educativo. A troca de ideias e experiências que esta iniciativa proporciona contribui para o esclarecimento do que é ser investigador, do que é a ciência e do papel que descobertas antigas têm na sociedade actual.
Integrado nesta iniciativa internacional, o RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, moderno centro de recursos de divulgação e educação científica da rede Ciência Viva, organiza, tal como nos anos anteriores, das 21h30 às 23h00, um debate  nas suas instalações no rés-do-chão do Departamento de Física da Universidade de Coimbra. O tema deste ano será “Fernão de Magalhães: a primeira volta ao globo”, procurando assinalar os 500 anos da primeira viagem de circum-navegação (a partida de San Lúcar de Barrameda foi a 20 de Setembro de 1519).  Para este debate, o RÓMULO convidou alguns  especialistas  bem conhecidos  da área da História da Ciência. Os convidados são
António Costa Canas (Escola Naval, Lisboa)
Carlota Simões (Universidade de Coimbra, Dep. de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia)
Teresa Nobre Carvalho (Universidade Nova de Lisboa; Centro de Humanidades da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas)

A sessão será moderada por Carlos Fiolhais, físico e director do RÓMULO.

Com entrada livre, e num ambiente único, a sessão é aberta ao público em geral e, em especial, aos mais interessados pela cultura e património que poderão estabelecer diálogo com os convidados, num ambiente informal que já é habitual neste dia. Na Universidade de Coimbra e em toda a Europa será um dia de ciência para toda a gente. Celebraremos, a propósito de Magalhães, a exploração e a descoberta.

BIOGRAFIAS
António Costa Canas é oficial da Marinha, sendo actualmente diretor do Museu de Marinha. Licenciado pela Escola Naval, em 1990, em Ciências Militares Navais, Ramo de Marinha. Licenciado em História, em 1998, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Mestre em História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa, em 2005, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Tem uma pós-graduação em História e Filosofia das Ciências, em 2006, pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Doutor em História, especialidade de Descobrimentos e da Expansão Portuguesa, pela Universidade de Lisboa, em 2012. Membro do Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia, do Centro de Investigação Naval e da Direção do Seminário Nacional de História da Matemática. Secretário do International Committee for the History of Nautical Science. Alguns livros publicados: Naufrágios e longitude, Lisboa, Comissão Cultural de Marinha, 2003. Os Submarinos em Portugal, Lisboa, Prefácio, 2009. A Matemática no tempo de Mestre José Vizinho, Lisboa, Gradiva, 2009.

Carlota Simões é doutorada em Matemática pela Universidade de Twente, nos Países Baixos, é professora no Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. É autora de Descobre a Matemática e de Descobre o Som, obras de divulgação da matemática. Foi também co-autora de História da Ciência Luso-BrasileiraHistória da Ciência na Universidade de Coimbra e Portugueses na Austrália. Foi Directora do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, onde desenvolveu ampla actividade, e fez parte da equipa do projeto História da Ciência na mesma Universidade. Em 2016, no Dia Internacional da Mulher, foi homenageada pelo Ciência Viva.

Teresa Nobre de Carvalho pertence ao Centro de Humanidades da FCSH/UNL. Fez doutoramento em História e Filosofia das Ciências na Universidade de Lisboa sobre “O mundo natural da Ásia aos olhos do Ocidente.”  Deu aulas na Universidade Aberta e no Instituto Superior de Agronomia sobre temas de biologia vegetal.  Algumas publicações: “As flores do Imperador. Do bolbo ao tapete”, (Fundação Gulbenkian, 2018), “Os desafios de Garcia de Orta. Colóquios dos Simples e Drogas da Índia”. (Esfera do Caos, 2015).

Para mais informações:

RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra 
                     Maria Manuela Serra e Silva
                     Telefone – 239 410 699
                     E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com
                     Facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100002912006773

DOCUMENTÁRIO: A Primeira Volta ao Mondo

AD ASTRA Trailer 3 (2019) - Já nos cinemas

sábado, 21 de setembro de 2019

ORDEM DOS ENFERMEIROS E ORDENS PROFISSIONAIS

Para além do instituído em disposições legais recentes, por uma questão  ética, às ordens profissionais não tem sido usual publicitar  as atividades dos seus associados. Assim, não se descortinam na comunicação  social propaganda de médicos, advogados, etc., representados por ordens tradicionais,  ademais paga a peso de ouro, 36 mil euros, como o acontecido com a recente Ordem dos Enfermeiros, segundo  notícia de ontem do "Correio da Manhâ".
 Felizmente, valha-nos ao menos isso ! Ana Rita Cavaco não se propôs, ela própria, interpretar o papel de personagem que coube à actriz Liliana Santos, na telenovela da SIC (Nazaré), com vantagem  estética para os telespectadores! Aliás, Ética e Estética, esta no seu sentido filosófico, têm sido, até agora, princípios norteadores de ordens profissionais e da respectiva dignificação.
Enfim, as modernices de dar nas vistas têm limites que não podem, e muito menos devem,  em desculpa oficial esfarrapada de Ana Rita Cavaco, como bastonária da Ordem dos Enfermeiros,  servir "como forma de valorizar a profissão aos olhos da sociedade" num mundo ficcionado  de faz de conta. A nobre profissão de enfermagem merece ser reconhecida, como é de uma forma geral,  pelo que faz, no seu dia-a-dia e noites insones, à cabeceira dos que sofrem porque, como pontificou Charles Lamb, "a doença amplia as dimensões internas do homem"!

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

DOUTORAMENTO EM ESTUDOS GLOBAIS


PENSAR FUTURO EM S. JOÃO DA MADEIRA


LEONARDO E PORTUGAL


Ontem estive a falar sobre Leonardo da Vinci na Feira do Livro no Porto. Em baixo o meu texto no último "As Artes entre as Letras", precisamente sobre Leonardo (na figura o mapa-múndi atribuído a Leonardo):

Leonardo da Vinci (Anchiano – Vinci, 1452 – Amboise, 1519), o grande génio italiano que celebramos este ano por ocasião dos 500 anos da sua morte, é do tempo das maiores proezas dos Descobrimentos portugueses: foi contemporâneo dos reis D. Afonso V (1.º reinado 1438-1477, 2.º reinado 1477-1481), D. João II (1.º reinado 1477, 2.º reinado 1481-195) e D. Manuel I (reinado 1495-1521). Novos caminhos do globo foram, ao longo dos 67 anos da sua vida, abertos por navegadores lusos: em 1434 Gil Eanes dobrou o cabo Bojador, em 1488 Bartolomeu Dias dobrou o cabo da Boa Esperança, em 1498 Vasco da Gama chegou à Índia, em 1500 Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil quando estava em rota para a Índia, e em 1513 Jorge Álvares chegou à China. No entanto, é em vão que se procuram nos milhares de páginas dos livros de apontamentos de Leonardo, que constituem a sua obra maior, referência aos feitos dos portugueses, sobre os quais ele, em Itália, em Florença, em Milão, em Roma ou nos outros sítios onde esteve, deve ter tido conhecimento. Nem sequer há qualquer outra referência a Portugal.

 Uma aproximação aos Descobrimentos poderá ser a referência que faz a um seu mapa-múndi (“il mio mappamondi…, il libro mio”) no Codex Atlanticus, de 1480-1485, hoje guardado em Milão. Embora não se saiba ao certo a obra a que se refere, é impossível que o autor não tenha reflectido aí as descobertas marítimas dos portugueses, corrigindo assim a antiga cartografia ptolemaica. Em 1470, os navegadores João de Santarém e Pedro Escobar já tinham chegado ao arquipélago de S. Tomé e Príncipe, na costa da Guiné (a ilha do Príncipe foi baptizada em honra do filho de D. João V, que lhe haveria de suceder). Existe hoje guardado na Royal Library britânica, em Windsor, um desenho de um mapa-múndi, datado de ca. 1508, que pode estar relacionado com a referida indicação no Codex. O desenho, que mostra o globo espalmado em octantes, é um dos primeiros a representar a América, descoberta por Cristóvão Colombo, genovês ao serviço de Espanha, em 1492. Não se afasta muito da realidade, incluindo curiosamente tanto uma razoável representação do Árctico como um desenho precoce e imaginativo da Antárctica. Mas erra substancialmente no tamanho da Europa e na localização da América, que ostenta já esse nome. Mostra, embora com pouco rigor, a África, que tem inscrito o nome “Ethiopia” inscrito, e algumas ilhas atlânticas. Mostra a Índia, a China e o Japão, cuja existência era conhecida do Ocidente antes da chegada dos navegadores ocidentais. Manda a verdade dizer que é algo duvidosa a autoria de Leonardo desse mapa-múndi, pensando alguns especialistas que será antes de algum discípulo. Facto é que no referido Codex se encontra um esquisso mostrando o mesmo tipo de projecção em octante que o do mapa-múndi que alguns atribuem a Leonardo. Este terá conhecido Américo Vespúcio (1454-1512), o florentino que fez viagens à América no final do século XV e início do século, algumas sob a bandeira portuguesa, tendo escrito sobre elas (como é sabido, o nome de América refere-se a ele). O primeiro mapa do globo a referir o nome “América” é o chamado mapa de Waldseemueller, do nome do cartógrafo alemão que o publicou em 1507, mapa esse que se encontra hoje na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.

Há outras conexões de Leonardo com Portugal. Nos seus anos de juventude, por volta de 1475, Leonardo pintou um cartão, destinado a fabricar uma tapeçaria da Flandres, por encomenda de um florentino que provavelmente tinha negócios com Portugal relacionados com a Madeira ou África, para ser oferecido ao rei D. Afonso V ou ao príncipe seu herdeiro. Nessa altura Leonardo estava na oficina do seu mestre Verrochio, tratando-se por isso de uma das suas primeiras obras. A tapeçaria, que representava uma cena do paraíso bíblico (que para alguns tinha conexão com as míticas e procuradas terras do Prestes João na África), nunca foi feita, mas o desenho original, ainda que incompleto, foi admirado por vários artistas, incluindo provavelmente Rafael que pintou cena semelhante no Vaticano. Não chegou aos nossos dias. Há uma só obra de Leonardo em Portugal: o pequeno desenho Rapariga lavando os pés de uma criança, que está de posse da Universidade do Porto e deverá ser exibido na grande exposição sobre Leonardo que abrirá no Museu do Louvre, em Paris, a 24 de Outubro em Paris. Não se sabe bem como chegou a Portugal, mas sabe-se que deve ter sido feita em Florença, cerca de 1480. A autoria de Da Vinci ficou estabelecida apenas na década de 60, uma vez que antes se pensava ser de um obscuro maneirista italiano.

 Quando é que pela primeira vez se falou de Leonardo da Vinci em Portugal? Embora tenha havido notícias no reinado de D. Manuel a respeito de máquinas de inspiração leonardiana, o certo é que só no reinado de D. João III o génio italiano aparece referido. O primeiro tratado de pintura escrito em língua portuguesa é Da Pintura Antiga, de Francisco de Holanda (ca.1517-1585), recentemente publicado pelo Círculo de Leitores, na colecção Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa. O manuscrito data de 1548, mas só foi impresso no século XIX depois de ter sido encontrado numa biblioteca de Madrid. Numa secção do Livro II desse tratado intitulada “Tábua dos famosos pintores modernos a que eles chamam ‘Aguias,’ ” Francisco de Holanda, coloca no lugar cimeiro “Miguel Ângelo, florentim”, o famoso rival de Leonardo: “Querem que seja o primeiro, e que a todos leve a palma.” Florentim.” Mas, “a segunda dou a Leonardo da Vinci, que foi o primeiro que fez ousadamente a sombra.” Seguem-se na lista Rafael, Ticiano e Mestre Perino. No Livro I do mesmo tratado, ao falar dos pintores mais recentes, escreve: “Finalmente, no tempo do papa Alexandre, Júlio e Leo, primeiro Leonardo da Vinci, florentino, e Rafael de Urbino abriram os formosos olhos da pintura, alimpando-lhe a terra que dentro tinham, e, ultimamente, mestre Miguel Ângelo, florentino, parece que lhe deu espírito vital e a restituiu quase em seu primeiro ser e prisca animosidade. Mas a Leonardo e Rafael tenho mais inveja que a este famosíssimo pintor toscano, tudo isto segundo o pouco que eu entendo.” Francisco de Holanda possuiu um desenho de Leonardo, representando um velho (Busto de homem grotesco visto de perfil), mas essa obra não está hoje em Portugal, mas sim em Oxford.

Há uma outra ligação portuguesa, O quadro mais caro do mundo, rematado em leilão em 2017 por 450 milhões de dólares, o Salvator Mundi, que alguns atribuem a Leonardo, que não estará na próxima exposição do Louvre por os respectivos curadores duvidarem da verdadeira autoria. Acontece que o quadro pertenceu a um colecionador inglês, Sir Francis Cook (1817-1901), que teve título de nobreza e casa em Montserrat, Sintra, onde esteve parte da sua coleção. A pintura foi vendida ao desbarato, por 45 libras, em 1958 por herdeiros de Cook, por não se lhe conhecer valor na altura…

PENSAR LIVREMENTE: E PORQUE NÃO O ACORDO ORTOGRÁFICO?

Texto de Maria do Carmo Vieira saído no Público

Surpreende-me o facto de a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), que se tem notabilizado pela excelência do seu trabalho, e lembre-se a PORDATA, a edição e a realização de debates públicos sobre variadíssimos temas, que dão a «conhecer» e a «pensar o país», contribuindo «para a identificação e resolução dos problemas nacionais», nunca se ter interessado em debater publicamente ou dar a desenvolver, por escrito, um tema como o do Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90), convidando autores, pró e contra, a analisar a polémica, que se mantém, o que já de si traduz o interesse pelo tema, na sociedade portuguesa.

Um tema relevante para os portugueses, sublinho-o, porquanto a Língua que falamos guarda uma longa história e expressa uma identidade que Vergílio Ferreira tão expressivamente soube descrever, em «Voz do Mar», aquando do Prémio Europália (1991, Bruxelas), evidenciando em simultâneo, e numa atitude humanista, a grandeza da diversidade da História e da Cultura dos povos que não implica «extensão de território», como ele próprio precisa: O orgulho não é um exclusivo dos grandes países, porque ele não tem que ver com a extensão de um território, mas com a extensão da alma que o preencheu. […]

Uma língua é o lugar donde se vê o mundo e de ser nela pensamento e sensibilidade. Da minha língua vê-se o mar. Na minha língua ouve-se o seu rumor como na de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi em nós a da nossa inquietação.

Os apoiantes do AO90, para o justificar, implicam a importância do Brasil no que ao número de falantes diz respeito, um argumento já de si falso, mas que cai por terra à luz do texto de Vergílio Ferreira de que os acordistas, aliás, se servem comummente, dele isolando a frase «Da minha língua vê-se o mar». Situação idêntica, a da descontextualização, acontece com a frase de Fernando Pessoa/Bernardo Soares, Minha pátria é a língua portuguesa («Livro do Desassossego»), o que favorece a manipulação do sentido.

Ousam citar «os nossos maiores», sabendo que estes não têm possibilidade de se defender destas e de outras aleivosias. Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, que ocupou também a 5 de Outubro (2000-2001), preparando-se nessa altura a famigerada Reforma de 2003, que em relação ao ensino do Português inventou TLEBS e etiquetas de roupa juntamente com textos literários, faz parte desse grupo.

Num discurso, relativamente recente, sobre os 130 anos do Jornal de Notícias (5 de Junho de 2018), Augusto Santos Silva expôs a sua arte de bem falar, citando nomes de escritores e frases suas, descontextualizadas, cujo significado se perde e se distorce. Ei-lo, iluminado pelo seu narcisismo: «Se Fernando Pessoa pôde dizer que a língua portuguesa era a sua pátria e se Vergílio Ferreira pôde dizer que da língua portuguesa se via o mar, acho que nós todos – os portugueses, os brasileiros, os angolanos, os guineenses, os são-tomenses, os moçambicanos, os cabo-verdianos e os timorenses – podemos dizer que da língua portuguesa, que é a nossa língua comum, se vê hoje o futuro», acrescentando eu, por um canudo, senhor ministro!

Não posso deixar de o aconselhar, senhor ministro, a reler o texto de Vergílio Ferreira, para se inteirar melhor do seu sentido, e sobretudo o que integra a frase de Fernando Pessoa/Bernardo Soares porque seguramente nunca o leu, caso contrário não citaria a frase cujo sentido profundo colide com o objectivo que o senhor se propôs defender: o AO90.

Surpreender-se-á com o facto de a referida frase ser uma apologia à língua portuguesa, enquanto «território abstracto», marcado por uma herança greco-latina e por uma ortografia, «que também é gente», que não pode andar à deriva de vontades e acordos que a aviltam. Santa ignorância, não é, senhor ministro? Mas ainda está a tempo de corrigir o erro. Nesse mesmo discurso, Augusto Santos Silva reforça a sua indiferença pela História e pela Literatura Portuguesas, orgulhando-se de não pertencer «ao grupo daqueles que dizem que a língua portuguesa é a Língua de Camões», preferindo «dizer que a língua portuguesa é a língua de Mia Couto, de Pepetela, de Germano de Almeida, de Clarice Lispector.»

Na sua óptica, o Dia de Portugal terá sido erroneamente escolhido; Luís de Camões não lhe é figura grata e representativa. Tê-lo-á alguma vez lido, com atenção? Que o poeta se situe no séc. XVI, eivado desse «espírito novo» a que se refere Vergílio Ferreira, no seu texto integral, não tem também qualquer relevo para Augusto Santos Silva. Desconhecerá que a obra, épica e lírica, do poeta constitui «uma das expressões mais completas do homem português»? (Aníbal Pinto de Castro).

No mesmo espírito de ignorância, a Reforma de 2003 aconselhava apenas a leitura de «2 ou 3 dos melhores sonetos» do poeta, limitando também, e drasticamente, o estudo de «Os Lusíadas». Foi assim que um dos episódios emblemáticos da épica, «O Velho do Restelo», desapareceu, situação que, lamentavelmente, se mantém. Na intemporalidade que caracteriza a obra artística de um génio, neste caso, Luís de Camões, é possível que se reveja, senhor ministro, no grupo da gente «surda e endurecida», «metida/no gosto da cobiça e na rudeza/ de uma austera, apagada e vil tristeza», «gente» insensível ao «engenho» e ao «estudo», à «experiência» da língua portuguesa e à «poesia» (Canto X de «Os Lusíadas»).

Não duvido também que os escritores contemporâneos que citou, e de quem sou leitora, e admiradora de alguns, se sentiram envergonhados e insultados pela sua triste visão literária e atitude colonialista. Clarice Lispector já não está fisicamente entre nós, mas seguramente não gostaria de se ver assim referida.

É intolerável numa sociedade democrática, que forçosamente não pode suprimir ideias divergentes, que se tenha vindo a impedir, ao longo dos anos, uma discussão aberta e séria sobre o AO90, seja a nível político seja académico.

É igualmente intolerável que se negue o caos linguístico que existe (escrita e pronúncia), decorrente da obrigatoriedade do cumprimento do AO 90, bem como as nefastas consequências, no Ensino, nomeadamente no ensino da Língua Portuguesa, consequências essas que o Ministério da Educação, em 1991, anteviu, no seu parecer contundente contra o AO 90: Há acordos assináveis, sem grandes problemas e há outros que são de não assinar.

O acordo recentemente assinado tem pontos que merecem séria contestação e é, frequentemente, uma simples consagração de desacordos. Intolerável ainda que uma Câmara Municipal, a do Porto, contrariando a lei, impeça, pela segunda vez, cidadãos do Movimento da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico (ILC-AO) de recolher assinaturas, no recinto onde tem lugar a Feira do Livro.

De sublinhar que os voluntários não desistiram. Não estão dentro do recinto, mas, diariamente, à sua entrada e a adesão faz fila! Lembro-lhe, senhor presidente da Câmara do Porto, uma frase do realizador Youssef Chahine, no seu filme, «O Destino»: As ideias têm asas, nada pode impedi-las de voar.

Acredito que, em nome do lema, «Pensar livremente», honrado pela FFMS, e dos objectivos que a Fundação se propõe, possamos vir a ser leitores ou público assistente de uma ou mais iniciativas sobre o tema, organizadas pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Na verdade, o debate sério é um factor crucial, num tema polémico.
Recusá-lo é não deixar pensar livremente.

Maria do Carmo Vieira
Lisboa, 15 de Setembro de 2019

IN MEMORIA DE ANTÓNIO PAULA BRITO

                                                               (António Paula Brito)

Com grande tristeza acabo de tomar  conhecimento do falecimento ontem de um Colega, António Paula Brito, da minha geração do ISEF, que para além de dois outros colegas e amigos, falecidos tempos atrás, Jorge Teixeira de  Sousa e João Correia Boaventura, foram  personagens académicas em que a Amizade perdurou, no que ela tem de mais nobre, para além da  juventude.

Como derradeira homenagem, menciono do seu riquíssimo currículo que tomo a liberdade de transcrever do Comité Olímpico Português:
"Faleceu António Paula Brito (19/09//2019) professor catedrático aposentado da Faculdade de Motricidade Humana (FMH) e um nome de referência na implantação da Psicologia do Desporto em Portugal. 
Licenciado em Educação Física pelo Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e em Psicologia Industrial pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada, António Paula Brito doutorou-se em Educação Física na especialidade de Psicologia das Atividades Físicas pela Universidade Livre de Bruxelas, onde também se pós-graduou em Psicologia Profissional. 
Criou e dirigiu o Gabinete de Investigação Aplicada no Instituto Nacional de Educação Física, o Gabinete de Estudos da Direção-Geral dos Desportos e o Laboratório de Psicologia do Desporto do ISEF/FMH. Foi o fundador e primeiro presidente da Sociedade Portuguesa de Educação Física e da Sociedade Portuguesa de Psicologia Desportiva, da qual se tornou presidente honorário. 
António Paula Brito foi condecorado pela Féderation Internationale d’Education Physique e recebeu o prémio Pffizer da Sociedade Portuguesa de Ciências  Médicas [ em aditamento meu ,  em  equipa  com outros  licenciados  pelo INEF e respecivo director doutor Andreson Leitão,  1963 ]". 
 Repousa em paz, meu irmão, meu amigo, meu colega.

JL: Amazónia, "onde nasce o perigo, cresce também a salvação?"


[Na edição de 12 de setembro do JL, entre muitas outras coisas, um pequeno dossiê sobre os fogos da Amazónia, de costas, mas não voltadas, com Viriato Soromenho Marques, com quem, aliás, concordo com as teses. Uma visão, apesar de tudo, optimista, baseada na literatura Portuguesa e Brasileira e muito mais]    

A selva, romance autobiográfico de Ferreira de Castro publicado em 1930, descreve o período de 1914/16 que este passou no seringal Paraíso, na Amazónia, no apogeu do ciclo da borracha. Dedica-o a “essa majestade verde, soberba e enigmática, que é a selva amazónica,” pelo que nela sofreu e pela coragem que lhe deu, assim como à gente que “à extracção da borracha entregava a sua fome, a sua liberdade e a sua existência,” numa “epopeia que não ajuíza quem, no resto do Mundo, se deixa conduzir, veloz e comodamente, num automóvel com rodas de borracha … que esses homens, humildemente heróicos, tiram à selva misteriosa e implacável.”

Ferreira de Castro descreve com precisão as duras condições de vida dos seringueiros, a extracção do látex da Hevea brasiliensis e o processo insalúbre de obtenção da borracha, usando o que descreve como fumo ácido e asfixiante. Mais recentemente, em 2008, Milton Hatoum, em Orfãos do Eldorado inventou o bairro “Cegos do Paraíso” onde viviam invisuais vítimas da defumação do látex.  A procura mundial por borracha originou, de 1890 a 1908, no “Estado Livre do Congo” do rei Leopoldo II da Bélgica, um regime de escravatura e atricidades para extrair o látex de um tipo de liana africana. Esta situação foi denunciada por Joseph Conrad em “O coração das trevas”, de 1902, assim como por Mark Twain e Conan Doyle, entre outros. No Brasil não foi tão duro, mas Ferreira de Castro descreve como os trabalhadores ficavam na prática “presos” por terem de pagar as dívidas que se acumulavam. Tudo isso é agora uma memória, mas a recordação do sofrimento ficou.

Monteiro Lobato, em A Geografia de Dona Benta, de 1935, coloca Pedrinho a perguntar por que razão a produção de borracha brasileira foi ultrapassada pelas plantações dos Holandeses e Ingleses que levaram a seringueira para a Ásia. Enquanto no Brasil se explorava a floresta nativa, com umas dez árvores da borracha por hectare, misturadas com muitas outras espécies, na Ásia usava-se o sistema de plantação. Como é também referido por Ferreira de Castro, houve interesse internacional em introduzir esse sistema no Brasil, nomeadamente por Henry Ford, mas tal nunca se concretizou.

O fim do ciclo da borracha, que agonizou até meados do século XX, não foi apenas devido ao aparecimento de outros locais de produção de borracha natural. Foi também causado pelo desenvolvimento da produção de borracha sintética a partir do petróleo. Claro que podemos dizer que subtituímos um problema por outro, mas a necessidade de plantações intensivas, a exploração dos seringueiros e a pressão sobre os ecossistemas, desapareceu.

Mário de Andrade que faz sair Macunaíma – o herói sem nenhum carácter, publicado em 1928, da Amazónia, embora crítico da ideia de progresso de Monteiro Lobato, não a rejeita. Nas suas notas das viagens, realizadas de 1926 a 1929 e publicadas em “O turista aprendiz,” descreve o progresso da Amazónia como algo bom. Está no espírito dos tempos actuais a rejeição filosófica (não na prática) da ideia de progresso. A história da ciência e da técnica mostra-nos que o anacronismo é dificil de evitar e que muitas supostas relações causais ou situações sem saída são ilusões causadas pela nossa falta de conhecimento.

Os incêndios na Amazónia são uma situação grave mas não são uma catástrofe global. Um pico de queimadas, o fumo nas grandes cidades, as imagens de satélite e as redes sociais, chamaram a atenção para um desperdício de energia e recursos ambientais que, infelizmente, acontece há muitos anos. Estes podem – e não é pouco - provocar perturbações nos equilíbrios dos ciclos da água, ameaçar a biodiversidade, aumentar as partículas de fumo na atmosfera, entre outras coisas, mas não vão causar a diminuição do oxigénio no planeta nem originar um grande aumento do dióxido de carbono na atmosfera pois este já havia sido fixado pelas plantas.

O uso do fogo para criar terra livre é referido por Ferreira de Castro, mas usá-lo hoje para criar espaços livres, pastagens e terrenos de cultura na Amazónia não parece fazer sentido. Não é eficiente nem sustentável - em poucos anos esgota os terrenos e acelera a desflorestação - sendo possível manter e até aumentar de outras formas os níveis de produção dos solos já em uso, controlando a erosão, sem ameaçar ecossistemas e aumentar a desflorestação.

Outra fonte de problemas na Amazónia é a mineração. Para além dos receios em relação à possibilidade de serem atribuídas licenças para exploração mineira de grandes dimensões na Amazónia, um grande problema têm sido as muitas minas artesanais ilegais que vão causando desflorestação e contaminando os solos e as pessoas que nelas trabalham ou com elas contactam.

O mapeamento das espécies e o registo das assinaturas genéticas e das composições químicas, são fundamentais para a preservação e valorização da biodiversidade da Amazónia - o conhecimento aberto e público dificultam a apropriação e contribuem para o uso racional. No entanto, a ideia, sustentada pelas estimativas de espécies ainda desconhecidas, de que poderemos encontrar com maior probabilidade novos medicamentos na floresta da Amazónia é uma ilusão. A maior parte dos cerca de quarenta novos medicamentos descobertos anualmente no mundo é sintética. E poderemos igualmente encontrar, tal como no conto de Borges, tesouros no nosso quintal: moléculas de novos medicamentos escondidas nas plantas do nosso jardim. E não tenhamos receio: se descobrirem novos fármacos em plantas amazónicas, a indústria preferirá inventar um processo de síntese a partir de materiais sustentáveis e baratos do que enfrentar o problema do cultivo da planta, ou, o que seria inaceitável, da sua exploração ilegal. 

Como nos mostra a história da borracha e da química medicinal, os problemas vão criando novas soluções que criam novos problemas que, em todo o caso, só se resolvem com mais ciência. Não esqueçamos o verso de Hölderlin que se reinventa em Heidegger, Ulrich Beck e Hubert Reeves: “onde há o perigo, cresce também a salvação.”