terça-feira, 27 de novembro de 2018

Controlar os alunos e os professores sem os controlar!?

No ano passado um leitor do De Rerum Natura mandou-me, em comentário, notícia do franco desenvolvimento e uso de tecnologia de reconhecimento facial para identificar o nível de atenção dos alunos em sala de aula (aqui). Transcrevo o argumento que percebi ser usado em defesa dessa tecnologia e o que, na altura, escrevi,
Argumento: o professor deve perceber a variação da atenção e do interesse dos alunos ao longo da aula para reajustar procedimentos, que devem ser diferenciados. 
Este argumento, estando certo, não justifica o meio. Espera-se que o professor, sempre que detecte um aspecto relevante no funcionamento da aula, procure superá-lo, mas no quadro da relação pedagógica, nunca usando um meio invasivo, no caso, do corpo do aluno. Um meio que desrespeita a pessoa que é e que, além disso, não lhe ensina o que significa ser-se humano. 
Em Portugal, numa universidade, no âmbito de um projecto científico-tecnológico desenvolve-se "uma aplicação sobre o sistema operativo Android para apoio à aprendizagem". Uma equipa especializada em sistemas inteligentes, apoiada em investigação realizada na Alemanha e nos EUA, está a aperfeiçoar um sistema "destinado monitorizar o foco [não a atenção] de cada um dos estudantes ao longo de uma aula". Para tanto, “calcula a pose da cabeça de cada pessoa utilizando um conjunto de características retiradas da face [movimentos da cabeça, detecção do olhar], previamente detetada na imagem, por forma a estimar para onde estão a olhar” (aqui).

No jornal online dessa universidade diz-se o seguinte:
"O trabalho permitirá ao professor, por exemplo, perceber em que partes da aula não conseguiu prender o olhar dos alunos e corrigir, na aula seguinte, a prestação (...). Em relação aos alunos, podem perceber em que partes da aula estiveram mais distraídos e que matérias lecionadas terão de estudar mais. [É] uma ferramenta para melhorar a performance de estudantes e professores.
O sistema engloba uma câmara instalada na sala que transmite para um servidor descritores de imagem, ou seja, números extraídos das imagens, como é o caso, por exemplo, dos ângulos de orientação do tronco e da cabeça. 
É de salientar que as imagens da plateia são eliminadas logo depois desse processamento, que dura milésimos de segundo. A natureza dos dados torna impossível estabelecer uma ligação entre um qualquer descritor e uma determinada pessoa presente na plateia, salvaguardando a privacidade e garantindo o anonimato. No final, tudo o que o sistema faculta é informação puramente estatística. 
Para além das aulas, [o sistema poderá ser usado em] congressos, palestras ou em qualquer outro tipo de acontecimento com público e oradores. 
Um dos responsável pelo projecto explicou à jornalista Clara Viana do Público (aqui) que a solicitação foi feita pela universidade e que não se pretende de modo algum controlar os estudantes.

É uma explicação desconcertante: uma universidade fazer tal pedido e nela ser concebido um sistema de controlo que se afirma não servir para controlar.

Fez notar também a sua apreensão em relação à viabilidade de aplicação do sistema em virtude das normas e lei de protecção de dados, o que implica sempre o consentimento informado dos estudantes, dado tratar-se de dados do foro biométrico, categorizados como dados sensíveis.

Esperemos que em situações como esta tais normas e leis prevaleçam e que a educação ética dos estudantes se manifeste.

2 comentários:

  1. Antigamente, ensaios experimentais como os descritos neste artigo eram feitos com porquinhos-da-índia!
    Quando um estudante aprende na escola está a realizar trabalho intelectual voluntário. Se a pessoa não quer aprender não adianta pôr-lhe palas nos olhos com luzinhas a piscar durante a aula, porque se, aparentemente, o aluno pode estar muito focalizado no professor, a sua cabeça pode estar, realmente, na lua! A mim impressiona-me ver indivíduos com 17 ou 18 anos executarem trabalhos forçados na escola!

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