sábado, 10 de novembro de 2018

O processo está em curso e o recado está dado. O caso Joaquim Sousa


Joaquim Sousa, antes de mais, professor, é (ou, melhor, foi) director de uma escola "difícil", que tornou normal ou mais do que isso.
"Estamos a falar de uma freguesia onde 92% dos alunos recebem Acção Social Escolar, onde os níveis de abandono escolar já foram de 50% e onde não era raro encontrar alunos de 18 anos ainda no 9.º ano (aqui).
Essa escola foi, num determinado momento, notícia por aí se ter demonstrado que quando se assume o dever de ensinar, a aprendizagem melhora substancialmente.

Recusando o funcionalismo negligente e desresponsabilizador, fez valer finalidades educativas dignas de assim serem designadas. A igualdade, não apenas como palavra mas como móbil, estava entre elas. E, portanto, em vez de baixar a exigência académica subiu-a (90% das classificações passaram a depender dos resultados disciplinares restando 10% para as ditas atitudes)

"Vi ali um laboratório para aquilo que eu acredito que a escola dever ser: um lugar de igualdade e de oportunidades que permita projectar e elevar as pessoas” (aqui).
“Há mais responsabilização e menos tolerância” (aqui). 
Essa opção justificou o passar ao lado da retórica paternalista que é a "contextualização curricular".
“Estes alunos, pelo contexto social onde vivem, só têm uma oportunidade e precisamos de agarrá-la" (aqui). 
Isto não significa que deixasse de ter atenção ao contexto.
[procedeu a alterações no funcionamento da escola] "os horários foram ajustados, de modo a coincidirem com os dos autocarros".
"à medida que a exigência foi aumentando, foi também sendo feita uma adaptação dos métodos de ensino para cada aluno. “É um erro tratar por igual o que não é igual. Isso não é igualdade, promove, sim, a desigualdade.” Por isso, aqui os alunos têm menos uma hora livre do que os das restantes escolas da Madeira, mas os apoios curriculares são feitos à medida das necessidades e expectativas individuais de cada um. Exemplo: os filhos de emigrantes que ingressam na escola têm aulas extra de Português e depois de História (aqui).
(...) porque o tempo não estica, os tradicionais clubes deram lugar a apoios a Matemática, Português e outras disciplinas nucleares. Foram criadas actividades extracurriculares que promovem a cidadania e o respeito ambiental. Mas a biblioteca – numa terra onde 80% dos lares não têm livros – foi recheada e uma das salas da escola foi transformada em salão de jogos.  
Privilegiou, em suma, conhecimento que abre horizontes:
Anualmente, os finalistas do 9.º ano fazem uma viagem, a Lisboa ou ao Porto (...) os alunos visitam lugares históricos, culturais e simbólicos como Serralves ou o Oceanário. Vão à Assembleia da República, à Presidência e demoram-se na Universidade de Lisboa, com quem a escola tem um protocolo. “Eles têm uma aula lá [o mesmo acontece na Universidade do Porto (...), porque queremos que eles (...) percebam que ali também pode ser o lugar deles” (aqui). 
E percebeu que, para educar, é preciso deixar de pensar a muito curto prazo e que a escola a tempo inteiro não leva a lado algum.
"A subida da exigência não significou uma pressão acrescida sobre os alunos" (...) "Outra mudança foi a abolição dos trabalhos para casa. A lógica é a de que se os alunos cumprirem na escola, não é preciso sobrecarregá-los em casa". “Os miúdos têm de ter vida para além da escola”. "Além disso, não quis passar para os pais a tarefa de co-ensinar" (aqui). 
Em resultado do trabalho desenvolvido, esta escola, quem em 2010 estava no lugar 1207.º, subiu, em cinco anos, 1000 (mil) posições nos resultados obtidos em exames nacionais.

Na altura, li entrevistas que o director deu e artigos de jornal dedicados ao "milagre" que conseguiu, bem como intervenções que fez em programas de televisão. Modestamente, repetia que não havia feito nada de especial, apenas procurava cumprir a sua tarefa: tinha incentivado e criado condições para que os professores ensinassem e para que os alunos aprendessem.


É claro que soube envolver e mobilizar os professores: cada professor por si, por muito bom que seja, não é capaz de fazer a diferença, ainda que tenha essa ilusão.

Joaquim Sousa foi recentemente reeleito como director com uma percentagem aproximada dos 80%. E o que aconteceu de seguida? Eu diria que aconteceu o esperado: a escola foi fundida com outra e ele afastado com uma acusação, feita pela Inspecção da Educação, de quase quatro centenas de irregularidades:
"(...) falhas no preenchimento de formulários de requisição de professores, falhas no sistema de controlo de assiduidade dos professores, falhas no envio dos horários, entregues por email e não em papel carimbado." 
A população, reconhecendo o seu trabalho, procura fazer reverter a situação. Entre as iniciativas que tomou contam-se abaixo-assinados, um deles entregue ao Presidente da República.

Mas que importa isso? O processo está em curso e o recado está dado a quem se atrever a assumir o dever de ensinar, com a seriedade que merece.


Ver mais aqui, aqui, aqui e aqui.


Este texto tem continuação aqui.

3 comentários:

  1. Perante a força da verdade do testemunho do professor Joaquim Sousa, da Escola EB1,2,3 de Curral da Freiras, o silêncio que paira sobre estas caixas de comentários, abertas pela Professora Helena Damião, é ensurdecedor!
    Os mais altos responsáveis e apoiantes das “Aprendizagens Essenciais da Escola Inclusiva” poderiam aproveitar a oportunidade deste fórum prestigiado para apresentarem argumentos a favor da ideia, que se vai propagando entre os professores, de que não querem fazer currículos cheios de vacuidades fáceis, para que o sucesso escolar efetivo dos alunos de Curral das Freiras, baseado no seu laborioso estudo, se estenda artificialmente a todos, e cada um dos aprendizes, quer sejam preguiçosos ou diligentes e, no fim do ano letivo, saibam muito, pouco, ou nada!
    Mesmo com este facilitismo, os ricos preferem percursos ainda mais fáceis: inscrevem-se em colégios particulares onde lhes garantem, à partida, notas elevadíssimas que abrem as portas das medicinas e das engenharias aeroespaciais!
    O Ensino vale mais pelos diplomas que confere do que pelas “aprendizagens” que deveria facultar aos alunos!

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  2. Prezado Leitor Anónimo
    Agradeço e subscrevo o seu comentário. Ainda que anónimo (talvez não seja por acaso que entendeu omitir a sua identificação, o que compreendo) ele tem a força da razão: as políticas educativas (que nem sequer "políticas" são) não estão à discussão (ainda que se afirmem como abertas), são para cumprir e quem se desviar delas sofre as correspondentes consequências.
    Cumprimentos,
    MHDamião

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  3. Do mesmo modo que, aquando dos rankings, Nunca há uma visita por parte de ministros e ofícios correlativos, o que inclui comunicação social e comissões parlamentares, as escolas do fundo do dito ranking....
    Custa mui ver in Loco as carências (e fazer nada), pelo que é visitar as que tem trabalho já feito (?) e ficam todos bonitos na fotografia ...

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