domingo, 28 de maio de 2017

A biometria em sala de aula

Imagem encontrada aqui
Agradeço a um leitor Anónimo o comentário que fez ao meu texto Pedagogias alternativas à escala global pelo facto de nele apontar uma questão e facultar uma informação.

A questão, que eu também tenho colocado mas que não discuti no mencionado texto nem noutros que o precederam, é a seguinte: porque é que o conceito de "pedagogias alternativas" se espalha tão rapidamente pelo mundo e é acolhido, com tanto empenho, pelos mais diversos agentes educativos? Porque é que têm sido abertas tantas escolas baseadas nesse conceito e conseguem, ao que se diz, captar cada vez mais alunos? Porque é que muitos pais (em geral, pessoas informadas) as escolhem para os seus filhos e dizem o melhor delas?

Dada a complexidade desta questão deixo-a para outra ocasião. Detenho-me, pois, na informação que o leitor facultou: uso do reconhecimento facial, por via da tecnologia, para identificar o nível de atenção dos alunos.

Devo dizer que a minha surpresa foi igual às muitas que tive quando soube do uso de drones em sala de aula para vigiar os alunos em situação de exame, da instalação de câmaras de filmar nesse e noutros espaço interiores e exteriores para controlar os seus comportamentos, da colocação de chips em uniformes e mochilas para sua segurança, etc. (por exemplo, aqui e aqui).

Sempre que tomo conhecimento de um novo modo de vigilância em contexto escolar, mediado por meios tecnológicos, penso que ele é a derradeira fronteira. Fronteira que, pelo facto de nunca dever ter sido alcançada, acabará por cair pela força da razão.

Fácil é de se perceber que, até ao momento, me enganei sempre: as formas de vigilância consolidam-se e banalizam-se. A pouca discussão ética que se faz sobre o assunto fica retida algures em publicações inacessíveis, mas mesmo que estivesse acessível não colheria junto de ninguém, a começar pelas empresas de tecnologias e os seus engenheiros, passando pelos políticos e outros que decidem os rumos da educação formal, acabando nas próprias escolas, nos directores, professores e encarregados de educação.

Valores supremos como o da dignidade humana e alguns dos que a concretizam, como sejam a privacidade, são uma risada para os pragmáticos. E são os pragmáticos que levam a melhor.

Nesta questão da leitura da expressão facial dos alunos com recurso a meios tecnológicos é mesmo este modo de abordar os problemas que está em causa.

Na pesquisa que fiz sobressai o seguinte argumento: o professor deve perceber a variação da atenção e do interesse dos alunos ao longo da aula para reajustar procedimentos, que devem ser diferenciados. De acordo, é isso que, na verdade, se espera de um professor: detectado um aspecto crítico, espera-se que, na medida das suas possibilidades, em simultâneo, mantenha a turma a funcionar e responda a cada aluno.

Este argumento, que está certo, não justifica, no entanto, este meio biométrico. Nunca em circunstância alguma o pode justificar.

E isto porque o meio é invasivo do espaço do aluno, do seu corpo, do seu pensamento... abeira-se da sua alma, seja lá isso o que for. É um meio desumano porque não respeita a pessoa que o aluno é; mais, concorre para que ele não aprenda o que significa ser-se humano.

Enfim, é triste perceber que certos meios tecnológicos, podendo beneficiar a nossa vida, são usados precisamente para a desgraçar!

2 comentários:

  1. Pensar e discutir alternativas é desejável em qualquer situação, seja de saúde, de educação, de justiça, etc.. É ao pensar em alternativas que se constata, não raro, que elas não são supostas, ou suportadas pelo sistema vigente, por exemplo, de ensino. Alternativas, propriamente ditas, mais do que alternativas a práticas e pedagogias, seriam alternativas ao sistema de ensino, ou, mais ainda, alternativas ao ensino. Ou seja, que alternativas tem a criança e os pais? Escola, sim ou não? Igreja, sim ou não? Brincar...Desportos...Etc...
    Do modo como tudo está "configurado" e formatado e institucionalizado, as possíveis "alternativas" não passam de pequenas variações, dentro do mesmo.
    Então, supõe-se, ou, pelo menos, aposta-se em que todos têm ou devem gostar muito de aprender e de ser muito felizes na escola, porque é isso que interessa ou devia interessar.

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  2. A verdade está mesmo por debaixo do nosso nariz:

    « We must now face the harsh truth (...) because many of us do not recognize the means used to advance them. (...) The individual is handicapped by coming face to face with a Conspiracy so monstrous he cannot believe it exists. The (...) mind simply has not come to a realization of the evil which has been introduced into our midst." -- J. Edgar Hoover (Elks Magazine, August 1956.)

    Conferência Ciberdefesa: O Desafio do Século XXI
    http://www.canal.parlamento.pt/?cid=2008&title=conferencia-ciberdefesa-o-desafio-do-seculo-xxi

    Vem aí a NSA europeia, cuja harmonização legal em breve começará a ser tratado no Parlamento, os tópicos foram suprimidos da gravação (1:36:00'' suprimido durante 1 minuto), mas tem a ver com o 5G, a Internet das Coisas e os contadores inteligentes. A militarização do quotidiano com alvo sobre o activismo civil e cujo o campo de batalha é o interior da nossa asa e, Às vezes o interior do nosso corpo.

    A lei vai ser criada para gerir o domínio sombra entre a Ciberdefesa (militar) e a Ciber-Segurança (civil), com a criação do Conselho Nacional de Ciber-Segurança. Com unificação do acesso cibernético a todas as partes da nossa vida, a população é eleita como o inimigo do Estado. Se a liberdade é por definição, o reter do controlo sobre a nossa própria vida, então aguardem pela CLEAN IT < http://www.cleanitproject.eu/ > uma instituição da UE de repressão sobre o activismo e a dissidência.

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