sábado, 19 de setembro de 2015

ÁCIDAS, NEUTRAS E BÁSICAS.

Novo texto de Galopim de Carvalho (na figura Beaumont):


Enquanto aluno, na universidade aprendi que as rochas magmáticas ou ígneas se podem arrumar sistematicamente em ácidas, intermédias ou neutras e básicas, mas ninguém me explicou o porquê destas adjectivações. Julgo, porém, ter encontrado, na História da Química, a explicação para o qualificativo “ácidas”. Se assim não for, que me corrija quem souber.

É curioso assinalar que, se uma rocha magmática dita ácida, caso por exemplo do granito, for esmagada e mergulhada em água destilada, o pH dessa água fica ligeiramente superior a 7 e, portanto, alcalino ou básico. Isto devido à presença de iões K+ e/ou Na+ que se libertam dos feldspatos alcalinos (ortoclase, microclina ou albite)

No que se refere aos qualificativos “intermédias” ou “neutras” e “básicas”, seria interessante que um petrólogo, um geoquímico ou um químico pudesse facultar-nos a respectiva explicação.

Eis, pois, os elementos que reuni:

A descoberta do oxigénio e o seu reconhecimento como o elemento mais abundante da crosta terrestre, anunciados em 1774, pelo clérigo inglês Joseph Priestley (1733-1804), associada à evolução da química analítica, na sequência dos trabalhos do francês Antoine Lavoisier (1743-1794) e dos suecos Carl Wilhelm Scheele (1741-1786) e Torbern Bergman (1749-1817) e outros notáveis químicos da época, conduziram a que a composição química das rochas (com destaque para as magmáticas ou ígneas) passasse a ser expressa em óxidos. Tais análises forneciam as percentagens ponderais de ”terra siliciosa” (sílica, SiO2), “terra argilosa” (alumina, Al2O3), “ocres” (óxidos de ferro ferroso e férrico (FeO e Fe2O3), “cal” (CaO), “soda” ou “alcali fixo mineral” (Na2O), “potassa” ou “alcali fixo vegetal” (K2O), “magnésia” (MgO), “titânia” (TiO2), óxido de manganês (MnO), “anidrido fosfórico” (P2O5), água (H2O), “ar ácido” ou “ácido aéreo” (CO2). Este modo de caracterizar a composição química das rochas, a par da microscopia, foi decisivo no avanço da petrologia e, consequentemente, da geologia. Desde logo se constatou que o teor em sílica era um bom parâmetro na organização sistemática das rochas ígneas.

Com base nesta valiosa contribuição da química, o francês Jean-Baptiste Élie de Beaumont (1798-1874), professor de Geologia na École des Mines de Paris, cuja obra teve larga difusão e aceitação entre ingleses e alemães, foi sensível à variação do teor de sílica nas rochas magmáticas, critério que utilizou na classificação que então propôs:

rochas ácidas” com mais de 65% de sílica;
rochas neutras” ou “intermédias”, com 65 a 52% de sílica; e
rochas básicas”, com 52 a 49% de sílica.

A qualificação de uma rocha como ácida resultou da convicção, ao tempo, de que a sílica (SiO2) era um “óxido acídico”, à semelhança do dióxido de carbono (CO2) que, juntamente com a água, formaria uma série de ácidos, uma ideia que vinha do século XVIII, na sequência do trabalho de Torbern Bergman e de outros químicos do seu tempo, em que se falava de “ácido quartzoso” imaginado com base na sílica.

O excesso de sílica evidenciado no granito pela presença de quartzo significava, para estes autores, excesso do “princípio acídico”, não obstante a incorrecção desta ideia. A expressão rocha ácida, manteve-se até os dias de hoje.

Galopim de Carvalho:


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