terça-feira, 12 de novembro de 2013

O CHEIRO DA MADEIRA



Rapazinho em idade escolar, no então chamado ensino doméstico, antes de ir para o liceu, uma parte do tempo em que tinha autorização para sair, sem prejuízo, é claro, das minhas obrigações, passava-o na oficina do mestre Roberto, na Rua do Segeiro, em Évora.

Fazia-o por minha livre vontade e também porque aí a minha mãe me sentia em segurança, ficando, por isso, descansada, como era sua maneira de dizer.

De pronto me iniciei nesse ofício maravilhoso. Primeiro, com toda a liberdade, juntava os pedaços de tábua sem utilidade para os trabalhos mas que eu usava como brinquedos, “transformando-os” ao sabor da imaginação. Mais tarde, ganha alguma confiança, ensaiava construir qualquer coisa com eles.

O mestre Roberto consentia que mexesse no martelo (um pequeno, de estofador) e em pregos. Depois, com o passar do tempo, com a habituação da presença diária e porque “o trabalho de menino é pouco mas quem o despreza é louco”, já arrumava as ferramentas nos seus sítios certos, à medida que lhes aprendia o nome e a utilidade.

Em casa, adorava dirigir ao pai ou aos meus irmãos perguntas e conversas ligadas à minha experiência como aprendiz de carpinteiro.

– Ó pai, sabe para que serve um badame? E uma garlopa sabe o que é? O pai não respondia, absorto na inspecção da minha cópia ou das contas que me passara de véspera; e eu adiantava, importante:
– É o mesmo que um rabote!
– Se tu desses menos erros nestas cópias fazias bem melhor figura! – Dava-me ele por resposta, sem levantar os olhos do caderno.
– Já se viu? Erros numa cópia! Onde é que tens a cabeça, rapaz? Vais escrever cinquenta vezes silvado, que é com um «esse» e não com «»; arrepiado, que leva dois «rês»; e luz, que se escreve com «» no fim! E o abecedário com letras maiúsculas, onde é que está? Ficou no bolso?
– Vais bem, não haja dúvida! Amanhã não sais de casa!

Ou porque o meu pai se esquecia de verificar o cumprimento do castigo, ou porque se fazia esquecido, o certo é que, no outro dia, eu lá estava, de novo, na “minha” oficina.

Que bom era dar ao pedal da pedra de afiar, grande, redonda, vermelha, da cor do barro, meio mergulhada em água. Aí, o então meu “mestre” afiava os badames, os formões e os ferros das plainas e garlopas. Depois, para lhes dar o fio, passava-os lenta e repetidamente numa ardósia muito lisa, untada com azeite. 

Os sons e os cheiros! Cada operação tinha um som e, às vezes, um odor especial. A pedra de afiar tinha um som áspero e cheirava a barro molhado. Na ardósia, o formão a deslizar apagava-se-lhe o som à medida que ganhava fio, libertando o cheiro de azeite já negro do pó da pedra e do aço. Os sons das serras e dos serrotes eram todos diferentes, variando nas suas características consoante o material, o braço e a energia de quem delas ou deles se servisse. Percebia-se pelo som quando estava a chegar ao fim o serrar de uma tábua ou de uma prancha. O cheiro da madeira de pinho impregnada de resina, libertado no ar da oficina era algo que me agradava e me marcou para sempre.

Ainda hoje, entrar numa serração, me dá imenso prazer. Menos agradável era o odor inconfundível do grude, aquecido em banho-maria num caldeiro de cobre, sempre pousado num fogareiro alimentado por restos de tabuinhas a arder, na rua, à porta da oficina, também elas exalando o aroma inconfundível da madeira queimada.

Era musical o silvar das plainas, das garlopas e dos rabotes a deslizarem, leves e cantantes, sobre as longas pranchas e barrotes, lançando no ar caracóis de raspas. Estas lâminas de madeira, finas e enroladas, afogavam o chão da oficina que eu ajudava a varrer, ao fim do dia, levando comigo algumas para que, em casa, se acendesse o lume na manhã seguinte. Os sons das grosas, das limas e das lixas diferiam entre si e eram ainda distintos em função das respectivas rugosidades ou da finura do grão do abrasivo. Também o pregar criava sons de percussão, variáveis na cadência e nas qualidades, à medida que os pregos se afundavam na madeira, terminando por dois ou três estampidos secos a confirmar o fim da operação.

Todos estes ruídos e aromas criaram neste meu pequeno universo, a oficina do mestre Roberto, uma sinfonia de sons e cheiros, a que não faltavam os odores das tintas de óleo e da aguarrás e as sonoras e musicais badaladas de um grande relógio de parede, cuja caixa, em nogueira fina, ele próprio restaurara. Durante estes verdes anos da minha meninice, entre estudante das primeiras letras e aprendiz de carpinteiro, sempre acreditei que viria a ser, como o senhor Roberto, um profissional na arte de trabalhar a madeira, tal o fascínio que esse ofício tinha para mim.

Ficou-me o desejo nunca concretizado de carpinteirar um dia, a sério, e a frustração da pouca perfeição, por falta de escola, do pouco que, ainda assim, tive oportunidade de fazer. Ficou-me o encanto pelas ferramentas. Sempre visitei e me detive nas lojas da especialidade. Quantas comprei, com a plena consciência de as não vir nunca a usar.

Ir a Paris e não passar uma boa manhã na cave do BHV (Bazar de l’Hôtel de Ville), paraíso dos bricoleurs, ainda hoje é impensável que me aconteça, passados que foram setenta anos sobre o tempo em que, perguntando-me o pai, zangado com o meu pouco cuidado nas coisas do estudo:

– Mas afinal o que é que tu queres ser quando fores crescido?
– Ao que eu respondia, sem a mínima hesitação: – Carpinteiro! – E chegava-me à mente o cheiro da madeira.
A. Galopim de Carvalho

In “O CHEIRO DA MADEIRA”, Âncora Editora (3.ª edição), Lisboa, 2002.


3 comentários:

  1. "Exercício de memória, sem a preocupação do relato rigoroso do cronista, O Cheiro da Madeira procura ser um ensaio de reconstituição de um viver colectivo do segundo quartel do século XX, na cidade e nos campos de Évora. Ficcionando ao sabor da sensibilidade de hoje, A. M. Galopim de Carvalho conserva, no entanto, os cheiros, os recortes e os matizes com que os sentidos os gravaram em recantos da memória de onde forma retirados. Lê-lo é estar lá, com os olhos, com as mãos. A cheirar, a rir, a chorar."

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  2. Realmente esse cheiro lembra-nos o trabalho, a indústria, o fazer-o-que-se-tem-de-fazer e também a inovação (cavalo de tróia).

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