domingo, 25 de abril de 2010

Praga de cérebros


É hoje publicado no Público um artigo da autoria da jornalista Andrea Cunha Freitas com o título "Portugal está a travar a fuga de cérebros". Ou, se seguirmos a ligação da página principal, o título muda para uma versão mais contida: "Portugal tem novas armas para travar fuga de cérebros".

Quero começar por dizer que este trabalho não é fácil de fazer, por uma razão: faltam muitos dados. Não há nenhuma entidade que tenha por exemplo o número rigoroso de bolseiros de investigação em Portugal. E que até começa bem, sendo motivado pela verificação da afirmação repetida do Ministro Mariano Gago, de que Portugal consegue travar a fuga de cérebros de um modo exemplar.

O meu comentário a algumas passagens do texto:

"O PÚBLICO pediu ao Ministério da Ciência números que permitissem concluir até que ponto temos evitado a "fuga de cérebros". Na resposta, entre outros dados, o ministério referia que, desde 1994 até 2008, a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) concedeu mais de 4500 bolsas de formação avançada no estrangeiro (incluindo bolsas de doutoramento e pós-doutoramento) e ainda mais de 4000 bolsas de doutoramento mistas, que implicam períodos de formação e de investigação em Portugal e no estrangeiro."

O universo aqui definido é restrito aos bolseiros que tiveram bolsas no estrangeiro ou mistas. Deixam de fora os investigadores que nunca tiveram uma bolsa em Portugal (ou seja, que "fugiram" directamente a seguir à licenciatura) e os que tiveram bolsas que não incluem um período de formação no estrangeiro.

"E quantos voltaram? "Os dados disponíveis de inquéritos a ex-bolseiros da FCT mostram que a esmagadora maioria desses ex-bolseiros desenvolve actividades em Portugal", refere apenas o ministério."

Uma evocação vaga acerca de dados disponíveis (serão dados suficientes e adequados ou apenas disponíveis? E já agora quais?) e uma conclusão subjectiva (uma esmagadora maioria são 70%? 98%?). E, mesmo a ser verdade, seria a esmagadora maioria de um universo restrito que de modo algum é o universo a considerar para avaliar a fuga de cérebros.

"Assim, na ausência de números oficiais que mostrem de forma clara a relação entre os investigadores que saíram e os que voltaram, há sinais importantes. Vamos a exemplos."

Ou seja: na ausência de dados objectivos que permitiam tirar a conclusão que é o título deste artigo, vamos a exemplos.

E, no campo dos exemplos, tenho a informar que 2009 foi o ano em que nasceram mais crianças em Portugal desde sempre. Não só eu próprio fui pai, como vejo um sem número de carrinhos de bebés na rua, em que nunca antes tinha reparado, o que me leva a concluir que estamos perante um Big Bang demográfico.

Os exemplos dados são duas fundações privadas, um programa que não conheço (mas que tem um universo de 17 investigadores), o laboratório ibérico de nanotecnologia e um centro de biotecnologia em Cantanhede. Os quatro casos que conheço são sem dúvida bons exemplos, mas bastante atípicos.

Acompanham este artigo, um conjunto de outros que apresentam vários exemplos de investigadores portugueses que optaram por ficar no estrangeiro ou que regressaram a Portugal. Subscrevo interiamente as palavras de António Coutinho, presidente do Instituto Gulbenkian de Ciência:
"Mas, mais do que se são portugueses ou não, interessa-nos que sejam bons e tenham o espírito de construir alguma coisa."

3 comentários:

  1. E os números não contemplam o trabalho "escravo", daqueles que não têm nenhuma bolsa, mas que vão ficando e trabalhando porque "a próxima que eu tiver será para ti". Ou aqueles que ficam presos a um estágio ou mestrado ou doutoramento, porque o senhor orientador acha que o trabalho ainda não é suficiente.

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  2. Referi-o aqui:
    http://a-ciencia-nao-e-neutra.blogspot.com/2010/04/praga-de-cerebros.html

    Cumprimentos

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  3. O artigo está incrivelmente mal escrito. Não só pelas razões apontadas no post mas até pela intenção das autoras em ir procurar as razões que sustentem a afirmação do ministro, como se fossem do gabinete de imprensa do ministério.

    Gosto também da forma como apresentam 450 investigadores em Portugal como resposta à 8500 bolsas para trabalho parcial ou totalmente fora do país. E sobre os grupos que foram para a Fundação Champalimaud, convém dizer que não me parece que tenha sido por mérito do Estado.

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