sexta-feira, 9 de maio de 2008

E ELES, PIMBA!


Minha crónica do "Público" de hoje:

A tradição já não é o que era. Pela primeira vez em muitos anos o cortejo dos quartanistas da Queima das Fitas de Coimbra realizou-se num domingo e não numa terça-feira. Para manter a tradição, um grupo de descontentes decidiu desfilar não só no domingo, mas também na terça-feira, depois de terem tentado invadir algumas escolas básicas da cidade.

A quebra de tradição, que segundo o Dux Veteranorum, foi ditada pelo Acordo de Bolonha que agora rege o ensino superior europeu, não se ficou por aí. Está tudo trocado. A serenata monumental foi adiada de um dia e a missa com bênção das pastas passou para o final de tudo. Mas a mudança foi ainda mais radical: na “noite do parque” de domingo, que agora não é no parque mas no “queimódromo”, pela primeira vez em 22 anos, o espectáculo não foi do inefável Quim Barreiros, mas sim de José Malhoa. Apesar de haver descontentes (Queima sem Quim não é Queima), dentro do género pimba, foi troca por troca. Em vez do Chupa Teresa cantou-se e dançou-se o Baile de Verão (A lua estava a sorrir / A tua boca a pedir / E toda a aldeia também / A querer nos ver acertar.) Houve gritos a pedir casamento: Zé dá-me a tua filha. A cerveja é que continua a ser da mesma marca que nos outros anos.

O Porto tem feito tudo para imitar Coimbra. Também tem um Dux Veteranorum, “noites do parque”, um “queimódromo” e um acordo com uma marca de cervejas (a mesma de Coimbra). Mas não a imitou nas mudanças deste ano. No Norte, a tradição ainda é o que era, com a missa antes do cortejo de terça-feira e com Quim Barreiros depois. Em Lisboa, que tem mais escolas superiores, a Semana Académica é talvez menos intensa, tendo sido desterrada para os arredores. E há outras queimas, com esse ou outros nomes, em todas as cidades com universidades ou politécnicos. Eles, nesta altura do ano, pimba!

Por mim, que estudei num tempo em que as praxes estavam interrompidas, confesso que estes festivais de berraria não me dizem muito. Mas, embora incomodado pelos decibéis do Baile de Verão que me entram pela janela (por isso é que sei a letra do baile), acho bem que os jovens se divirtam nesta época do ano, desde que não exagerem nos exageros. Trata-se não só de uma praxe juvenil como de uma festa familiar: os filhos bêbedos e os pais babados (ao contrário seria pior).

Há, todavia, nas praxes académicas coisas que não acho nada bem. Está em tribunal o caso de uma aluna da Escola Agrária de Santarém que foi besuntada com excrementos de suíno e, depois de ter sido vítima de sevícias sexuais, pendurada, de cabeça para baixo, em cima de um penico. Não acho bem que o julgamento, com sentença prevista para fins de Maio, tenha demorado cinco anos. E também não acho bem que o Ministério Público só tenha pedido uma “pena simbólica” para os seis energúmenos. Este é apenas um exemplo, porque há mais. Um caso de outra praxe violenta e sexista em Macedo de Cavaleiros terminou em Março passado com a absolvição. Em Dezembro último um estudante da Escola Agrária de Coimbra ficou paraplégico numa praxe ao escorregar sobre uma vala com bosta (não sei se haverá julgamento). O ministro bem poderia imitar D. João V na morte de um caloiro: Hey por bem e mando que todo e qualquer estudante que por obra ou palavra ofender a outro com o pretexto de novato, ainda que seja levemente, lhe sejam riscados os cursos.

E não posso aprovar – até porque é anticonstitucional – a discriminação de que as mulheres são vítimas nos códigos da praxe. O Dux Veteranorum de Coimbra declarou que elas não podiam usar colete no traje académico, ficando essa peça reservada aos homens. Por seu lado, e na mesma linha, o Dux do Porto defendeu que os fados e as serenatas são coisas de homens. Segundo ele, a interpretação do fado académico pelas mulheres seria inverter os papéis do macho e da fêmea, se as fêmeas fossem fazer serenatas aos homens onde é que íamos chegar? Parece que há mulheres que aceitam este tipo de restrições. Eu, se fosse mulher, revoltava-me. Mas não sou e revolto-me na mesma.

10 comentários:

  1. Revolta-me bastante mais existirem "conselhos de Veteranos" e essas coisas chamadas "Dux Veteranorum".

    Portugal deve ser o único país do mundo onde os Burros têm poder de decisão sobre os bons alunos.

    ResponderEliminar
  2. Como estudante universitário participei activamente nas actividades de praxe. Praxando ou sendo praxado diverti-me imenso e nunca assisti a qualquer situação menos correcta. Mas reconheço o possível viés da minha opinião.

    As actividades de iniciação são uma necessidade de sobrevivência de qualquer grupo social, como provam evidências antropológicas e da psicologia social. A sua "dureza" aumenta o nível de dedicação futura dos iniciados ao grupo. Isso é tanto verdade para os grupos de praxe, como para o exército ou para as tribos africanas.

    Ainda assim, e porque entendo a praxe como sendo "um jogo", apesar de reconhecer o seu carácter de tradição pelo qual tenho enorme respeito e orgulho em ter feito parte do mesmo, não nego que a sua hierarquia propicie situações desagradáveis. Mais do que criticar a tradição, deve-se criticar e punir os imbecis que não têm noção daquilo que fazem. Infelizmente com em tudo na vida existe quem não se saiba comportar condignamente.

    Cabe também a quem é responsável pela supervisão da praxe em cada faculdade, evitar a criação de condições que permitam esse tipo de comportamento. Algo que não se faz em todas as faculdades, infelizmente. Curiosamente, poderão constatar que os casos de abuso sucedem mais frequentemente fora do Porto e de Coimbra onde a tradição praxística está mais enraízada (a questão do colete é uma falsa questão, porque existe um traje feminino claramente diferente do masculino - mas reconheço o carácter sexista da praxe).

    Por cada caso de abuso existem 100 de boa integração dos alunos. Obviamente só os primeiros dão boas manchetes, assim como só os abusos policiais e não as detenções não violentas o fazem. Agora não julguem milhares de alunos, apenas pelo que alguns poucos fazem. Na praxe há bons e maus exemplos, e acreditem que os benefícios que dela advêm superam os problemas que causa (mas não justificam nem desculpam os abusos).

    ResponderEliminar
  3. Estava admirado de ainda não ter visto este assunto num blogue com tanta gente de Coimbra.

    Devo confessar, antes de mais, que, enquanto estudante da UC, não fui praxista. Nunca usei a capa e batina (nem sequer a comprei nem permiti aos meus pais que ma comprassem) e orgulhei-me de ter presidido a Assembleias Magnas da AAC vestido "à futrica". Por outro lado, conheci diversos membros do conselho de veteranos e o actual Dux Veteranorum é até um amigo meu.

    Claro que há que compreender os dois lados da barricada nestas histórias. A praxe de Coimbra (é esta a original, por isso ignoro as outras) tem história, no sentido em que existem raízes para a sua existência. As restrições aos caloiros nas saídas à noite (não podem estar na rua depois da meia noite), por exemplo, serviam para garantir que não se perdessem demasiado cedo. O sentido de integração da praxe, que tanto é invocado pelos seus defensores, teve as suas razões, num país em que os estudantes vinham de um país em que as distâncias efectivas e afectivas (mesmo que não geográficas) eram muito maiores que hoje. A praxe foi um instrumento poderoso na crise académica de 69 e a sua suspensão (tecnicamente, se a memória não me falha, ainda existe luto académico) teve efeitos aglutinadores precisamente pela importância de que se revestia.

    Dito isto, o que me fez na altura rejeitar a praxe (não fui anti-praxista, apenas me coloquei à margem da mesma) foi precisamente a noção que ter mais anos de universidade dava a um aluno o direito de exercer autoridade sobre o outro. Não falo explicitamente de quem reprovava, apenas da idade. Também eu fui, supostamente, um "veterano" (demorei mais que os 5 anos previstos a completar o meu curso) e não me considero exactamente burro (embora compreenda perfeitamente o que o Luís Bonifácio quer dizer). É mesmo o conceito de hierarquia que chocava (e choca) com a minha visão de sociedade.

    Quanto à discriminação e género, não creio que seja problemática no que diz respeito à praxe. As mulheres não podem usar colete ou batina (usam um casaco)? Também os homens não podem usar nem casaco simples nem saia (se assim o desejarem). São as regras da praxe e não tornam ninguém nem mais nem menos na praxe. Não vi ainda ninguém apontar a anticonstitucionalidade de as mulheres no exército poderem ter cabelo longo enquanto que os homens são obrigados a ir à máquina zero. Já a questão do fado é mais complicada. Por uma questão de tradição, compreendo a "proibição" às mulheres de tocar ou cantar fado de Coimbra. Por outro lado, há que compreender que a "proibição" não é real. Aqui há uns anos (creio que em 2001) houve um conjunto de espectáculos e que uma mulher (não me lembro quem) cantou fado de Coimbra e foi acompanhada pela, julgo, Luísa Amaro. Isto deu discussões na academia (o próprio Grupo de Fados da AAC estava dividido) mas não levou a mais que opiniões contrárias.

    Já as praxes violentas são um caso diferente. Na UC não sucedem muito (aliás, não tenho de conhecimentos de praxes violentas que tenham passado de mitos) e tenho que confessar que o conselho de veteranos tem mérito na sua contenção. Essas praxes tendem a suceder em escolas superiores (aparentemente nas agrárias), onde as regras são essencialmente inexistentes. Ainda assim, o aluno que ficou paraplégico no escorrega não poderá assacar a parte do acidente à praxe em si. Seria o mesmo que responsabilizar a universidade por um aluno que caísse pelas escadas monumentais. O conceito em si é que é repugnante, mesmo que os alunos se prestem a tais práticas.

    ResponderEliminar
  4. Ainda há-de chegar o dia em que as praxes para as Universidades em Portugal serão como sa praxes para as fraternidades na América(espero que não):

    http://flyover-omarafado.blogspot.com/2007/11/frat-house.html

    Mas sinceramente acho que há outras formas mais civilizadas de receber e integrar os caloiros.

    ResponderEliminar
  5. Acho muito giro o conceito de semana académica e de vida acedémica em geral. Felizmente acabei a minha e devo dizer que agora tenho uma vida muito melhor do que tinha quando estudava.
    Também acho giro que estas brincadeiras todas calhem numa altura em que, pelo menos eu, tinha que me preparar para os exames.
    Onde estudei não havia grande "tradição" académica, e ainda bem, consegui manter-me à margem de praxes e de todas essas brincadeiras de quem não tem nada para fazer, estudar, acabar o curso, por exemplo... em que os "veteranos" que se encarregam das praxes são alunos de 2º ano cheios de vontade de se vingar da humilhação do ano anterior. Os mais "velhos" certamente tinham mais que fazer.
    Concordo que para os alunos que chegam vindos de todo o lado as praxes sejam pretexto para se conhecerem melhor e para conhecerem quem já está na universidade ha mais tempo, mas o facto de não ter participado não me excluiu. Pena é que isso aconteça noutras universidades onde quem opta por não participar é completamente excluido e tenha que se humilhar para "fazer parte".

    ResponderEliminar
  6. Cara Ana,

    Em primeiro é falso que quem se encarrega das praxes "são alunos de 2º ano cheios de vontade de se vingar da humilhação do ano anterior". Pode ter sido assim onde estudou, mas isso só prova a falta de tradição e conhecimento no que à praxe diz respeito. A praxe aos caloiros só pode ser efectuada por alunos com um mínimo de 3 matrículas, exactamente para evitar esse sentimento de vingança (não quer dizer que não exista por vezes). Os alunos com 2 matrículas, apenas podem ajudar estes sem no entanto praxar os caloiros. Digamos que é uma espécie de moratória para acalmar os ânimos.

    Se tiver provas que os alunos que participam nas praxes "não tenham mais nada que fazer" apresente-as. Eu participei na praxe e sempre tive boas notas, assim como a maior parte dos meus colegas que nela estiveram envolvidas. Existem tantos praxistas que não acabam o curso a tempo como existem pessoas que não aderem à praxe na mesma situação. E caso não saiba, as actividades de praxe são interrompidas por volta de Fevereiro (altura de frequências ou exames de 1º semestre) e terminam em Maio bem antes dos exames de final de ano. Onde estudou pode ser diferente, mas na maioria dos sítios é assim.

    Voltando ao tema da exclusão, há que não confundir exclusão das actividades de praxe de exclusão social. É natural que quem não queira ser praxado não participe nas actividades de praxe posteriores como imposições de insígnias e similares. Acontece que nessa parte todos querem participar e depois queixam-se de não poderem. É também natural que no primeiro ano as pessoas se relacionem mais facilmente com aquelas que com elas participaram nas actividades de praxe e não com as outras, até porque esse é um dos objectivos da praxe.

    ResponderEliminar
  7. Caro Bruno

    Apenas referi como eram as praxes onde estudei, no Instituto Superior Técnico em Lisboa, onde a tradição académica é pouca e atabalhoada e em que, praticamente, anda trajado quem quer, quando quer. Sei que noutros sítios não é assim e a tradição é levada a sério, mas muitas vezes é nesses sítios que surgem os casos de abusos.
    No IST, em praticamente todos os cursos, eram alunos de 2º ano a praxar e de maneira desorganizada. Isto precisamente porque os mais "antigos" chegando a meados de Outubro com um mês e meio de aulas já tinham relatórios, seminários, etc. E, chegando ao segundo semestre, no início de Maio, as datas para entrega de relatórios finais aproximavam-se, havia 2ºs testes nas cadeiras em que os testes podiam substituir exames, e a meio de Junho começavam os exames de 2º semestre.
    Não foi o meu caso ou de colegas na minha situação no IST de serem excluidos, eu recusei-me a participar e ninguem me virou costas ou me tratou pior por isso, mas na altura tive receio, não sabia ao que ia. Até na fila para inscrições quando não deixei que me pintassem a cara tive receio, com 18 aninhos vinda do liceu "ai jesus e agora?"...
    O que me revolta é conhecer exemplos de amigas noutros cursos e noutras faculdades que, com revolta, falavam da maneira como tinham sido praxadas e humilhadas com medo das consequências e perante relatos de pessoas que tinham ficado "marcadas" por se terem recusado a participar na praxe, principalmente fora de Lisboa, onde a tradição é mais vincada.
    Não sou contra as praxes, mas acho que a opção de não participar devia ser aceite. Há muita gente que gostou da experiência que teve quando foi praxado e depois quando pode praxar, tanto no ist, como noutras universidades, ficaram todos a dar-se bem, etc. Mas também há muita gente que o fez contrariado e com medo.

    ResponderEliminar
  8. Frequentei o ensino universitário em Lisboa, vinda da província. Não fui "praxada" (apenas me pintaram um pouco a cara no dia da matrícula), e não foi por causa disso que deixei de me integrar como qualquer outro aluno e fiz amizados tanto na minha turma como nas turmas de outros cursos e outros anos, além de ter um percurso académico perfeitamente normal. Ou seja, a desculpa de que a praxe serve para "integrar" os coitadinhos dos "caloiros" que estão deslocados não passa disso mesmo, é uma desculpa. Depois do meu ano de caloira não deixei de ajudar os novos alunos a orientaram-se pela instituição que os acolheu, sem no entanto precisar de recorrer à praxe.
    Afinal, para que serve a praxe? Existem locais onde tal costume é perfeitamente desconhecido; serão os alunos "caloiros" lá uns coitadinhos que não vão ter sucesso na sua vida académicos porque não passaram pela praxe?
    A praxe não passa de uma desculpa para exercer um autoritarismo despótico para com os que se encontram numa posição mais fragilizada (existem muitos caloiros que têm MEDO das praxes e das consequências da recusa, e acabam por "participar" nas "brincadeiras" que lhes são impostas).

    ResponderEliminar
  9. O problema de fundo da "praxe" é a mistura de: "integração" com "humilhação" e "autoritarismo".
    A praxe pode e deve integradora, o que não quer dizer que seja o único método, no entanto, quando é "humilhadora" e "autoritária" é tudo menos "integradora". Os habituais praticantes destes conceitos menos decentes estão mais preocupados, em vingarem-se.... Dos que os praxaram (mal), dos pais autoritários, do professores autoritários, etc... enfim, praticam aquilo que lhes foi ensinado: a "humilhação" e o "autoritarismo".
    A praxe pode ter outro beneficio que raremente é mencionado: a "identidade". O orgulho por estudar numa determinada universidade e num determinado curso é muitas vezes iniciado na "praxe".
    Eu praxei/integrei num determinado ano.... Assim fiz amizade com muitos dos que praxei, ao contrário de muitos dos que me praxaram, que passados os dias reservados para tal acto, nem "bom dia" ou "boa tarde" me diziam..
    O problema não está da praxe, o problema está nas pessoas que a praticam....

    ResponderEliminar
  10. Convido a ler e comentar o seguinte artigo (e outros relacionados) em:

    http://notasemelodias.blogspot.com/2008/09/notas-sobre-praxes-e-praxe.html

    Com os melhores cumprimentos.

    ResponderEliminar

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.