terça-feira, 10 de setembro de 2013

Entrevista a João Cruz

João Cruz, tem sido um colaborador regular neste blog. Cientista, empreendedor, iconoclasta e quase sempre polémico, é uma pessoa com ideias próprias e  uma visão muito particular do mundo. Nesta pequena entrevista, vamos tentar connhecer um pouco mais da sua personalidade e das suas ideias.


Armando: João, tu tens um perfil muito sui generis, sobretudo para um país como Portugal pouco habituado a discussões abertas e livres de preconceitos ideológicos. Conhecido pelas posições consideradas por muitos neste blog de radicais, mas sempre provocadoras e estimulantes. És um empresário (de sucesso), que descobriu uma paixão pela física, sobretudo no cruzamento com a área designada “complexidade”, nomeadamente a economia. Sobre ela, tens uma perspectiva muito própria e, arriscar-me-ia a apelidar de desafiadora. Já publicaste alguns artigos sobre o tema para a comunidade científica (ver no Arxiv.org), mas gostaria agora que partilhasses algumas das tuas ideias para um público mais abrangente.
Vamos começar por falar um pouco de ti. O que te trouxe até a Física e porque optaste por não seguir o caminho tradicional: licenciatura, mestrado, doutoramento?

João: Quando comecei a minha vida universitária era muito novo na idade e mais novo ainda na mentalidade. A minha juventude tinha sido passada no pós-25/4, os meus pais não tinham formação superior nem tinha qualquer contacto esclarecido sobre o que isso significava. Desde pequeno que a minha cabeça estava feita para a ciência, para fazer coisas que não tinham sido feitas, mas o quê não fazia ideia. Tinha algum interesse na Geofísica e alguma facilidade na Física (era um estudante muito sofrível com claras dificuldades de motivação e planeamento do trabalho) pelo que optei pela área. Para fazer o quê? Não fazia a mais pequena ideia. Não tinha nenhuma imagem da vida de um físico, tirando a romântica que via no "Cosmos", que sabia não ser para mim. Entrei no advento dos computadores pessoais, descobri a electrónica e o meu foco mudou rapidamente para a área tecnológica.
Na entrada na vida "profissional", num laboratório do estado que penso já não existir, comecei a "pagar" a minha falta de foco e empenho estudantil. Nada daquilo tinha interesse para mim, não era ali que faria as coisas que não tinham sido feitas. Surgiu uma oportunidade na indústria militar passado um ano e começou aí o meu desvio. Fiquei ligado optoelectrónica durante uns anos, numa indústria que, em Portugal, só produziu munições e armas durante décadas. Mas, pelo menos aí, vi a oportunidade de fazer coisas diferentes. Entretanto, duas indústrias estavam a nascer do zero com enormes necessidades de recursos com capacidades analíticas, as tecnologias de informação e a banca de investimento e, com enorme sorte, consegui entrar nas duas simultaneamente. Como estavam a nascer do zero, havia muito pouco conhecimento instalado sobre as duas pelo que todos os desenvolvimentos que fui fazendo tiveram que ser "sem rede". Tinha que resolver o tratamento computacional dos instrumentos financeiros ao mesmo tempo que tinha que resolver todos os aspectos funcionais a eles ligados - estruturação, valorização, contabilização, reporte, etc. Algumas regras de contabilização não existiam e tive que aprender contabilidade bancária toda para as criar.  A valorização dos derivados fez-me aprender e, principalmente entender, o valor económico de algo, a importância do tempo, as razões pelas quais o risco e a rendibilidade se conjugam. E a verdade é que o meu treino na abstracção da física me levou um pouco mais à frente que os meus interlocutores profissionais que eram traders, directores financeiros, reguladores, etc. que foram os meus professores informais. Isto ao mesmo tempo que aquilo que produzia eram soluções informáticas, que também não tinha tido educação formal.
Daqui, e respondendo antecipadamente à pergunta seguinte, passei a ser possuidor de uma conjugação de competências raras aprendidas da pior maneira, a trabalhosa. Aquilo que eram as minhas dificuldades enquanto estudante eram agora as minhas forças. Comecei a seguir os trabalhos da regulação internacional e a oferecer aos clientes o poder da conjugação das competências - a física(com a respectiva carga matemática), a computação e as finanças. Desenvolvia modelos de risco em clientes que hoje são copiados nas principais praças financeiras até que se deu a crise do subprime em 2008.
A crise do subprime é o acontecimento que me faz retornar à física. Pouca gente se preocupa em olhar para a crise do subprime pela lógica. É muito mais atraente fazê-lo pela paixão e pela ideologia porque assim não dá trabalho dizer mal. Mas a lógica diz-nos que não é fácil enganar toda a gente ao mesmo tempo. É fácil vender a ideia de que foi um problema de falta regulação porque a esmagadora maioria das pessoas não sabe que os títulos do subprime estava nos balanços de quase todos os bancos do mundo e que todos os reguladores do mundo olharam pare eles de 3 em 3 meses, no mínimo. Eu estava estatisticamente protegido porque tive a sorte de viver num país que cava uma crise desde 2001, mas o que estava a acontecer minava os fundamentos daquilo que o mercado acredita. Era altura de questionar tudo desde a base e para isso precisava de ir beber novamente à fonte.
Até do ponto de vista financeiro a minha opção de voltar à física depois de velho é interessante. Um mestrado em Física custa 500 euros por ano, um doutoramento 2750, lida-se com pessoas no percentil 95 da inteligência humana e bebe-se das suas ideias. Um curso de Excel de 4 dias custa a mesma coisa...:) Acho que a pergunta deve ser feita a todos os outros: com custos destes, porque é que os meus colegas eram todos miúdos?

Armando: No teu percurso, nota-se um espírito empreendedor. O que te levou a criar a tua própria empresa e como tem sido a experiência?

João: As pessoas têm uma ideia completamente errada do que é ser empreendedor e empresário, muito formada pela sociedade aristocrática portuguesa que impôs um numerus clausus durante o estado novo e castiga qualquer ideia de sucesso depois. É vulgar eu dizer que sou empresário e bombardearem-me com patetices de exploração, fuga aos impostos, como se a iniciativa fosse sinónimo de crime. Também fazem muita confusão entre empresário e gestor. Uma parte relevante das pessoas que conheci na vida científica que são muito mais empreendedores que eu e, na realidade, gerem uma empresa. A diferença são os riscos pessoais que colocam nesse empreendedorismo. Ser empreendedor é "adicionar mãos" ao nosso corpo limitado. É alavancar as nossas capacidades juntando outras pessoas que conseguem que aquilo que conseguíamos fazer com duas mãos, fazemos agora com 50, com 100.
Como não venho de famílias abastadas, tudo o que pude empenhar na criação da minha empresa foi a minha pessoa. O conjunto de activos intangíveis que fui armazenando ao longo da vida profissional. E continuo a acreditar, mesmo agora que se está a internacionalizar para mercados mais evoluídos, que uma empresa é a extensão dos seus criadores e, por isso, a experiência é fantástica porque faço aquilo que quero, apesar da enorme responsabilidade que é ter mais de 100 famílias a depender de nós. Que empresa em Portugal se pode orgulhar de ser (quase de certeza porque não há dados) o maior empregador privado de Físicos? Em que empresa eu decidiria fazer um doutoramento em Física e o patrão concordava? Também, não havendo dados, não é fácil avaliar, mas se olharmos para a quantidade de físicos que formam empresas relativamente ao número total de físicos, não sei se não estamos perante um número substancialmente maior que noutras formações.

Armando: Falemos agora um pouco da economia. Num artigo publicado neste blog intitulado “O que é a economia”, mostravas a dificuldade em responder a uma pergunta tão simples. Será que sabemos mesmo o que é a economia? O que é afinal a economia e porque é afinal a resposta assim tão difícil?

João: Economia é uma paixão relativamente recente para mim e decorreu, como disse, da procura dos fundamentos errados daquilo em que o mercado financeiro acredita. No entanto, se fosse fazer um ranking dos temas por livros "lidos" ("ler" um livro técnico...), Economia (com "E" maísculo, a ciência) ganha de longe. Porquê? Porque, para os padrões de quem teve uma formação em ciências naturais, os economistas não se debruçam por aí além sobre os fundamentos daquilo que deveriam estudar. Mais uma vez, parece que a lógica tem um valor reduzido em muitas vertentes da nossa vida. Muito poucos economistas se debruçam sobre o que é a economia e porque é que existe. Tive conversas com pessoas que muito respeito da área que me respondiam com algum desprezo "ah, aquela coisa teórica...", resposta impensável se falarmos com um físico sobre a natureza das coisas. Existem algumas definições geralmente aceites mas há um factor que julgo fundamental, e que faz parte da minha pesquisa:  aquilo que nós entendemos como economia, o conjunto de mecanismos, tem que ser livre da história. Tem que ser válido para qualquer era da vida do Homo Sapiens, algo que cresceu com a primeira tribo e nos trouxe até hoje. E não existe noutras espécies. Seja qual for a forma pela qual possamos encarar o conjunto de mecanismos a que chamamos economia, ele é sempre o resultado da biologia do ser humano.
A dificuldade deriva de estarmos a olhar para nós, num campo completamente envenenado de crendice, interesses próprios e paixão. Daí a virtude da Física, de reduzirmos um campo complexo a algo limpo de particularidades. Mas a economia não é um sistema físico no sentido tradicional do termo, algumas aproximações podem ser feitas a partir da framework da física estatística e da física de muitos corpos para se obter aquilo que é possível obter, mas com uma diferença muito importante. Toda a física estatística foi construída em torno de uma ideia de equilíbrio. Toda a teoria da probabilidade tem subjacente uma ideia de equilíbrio, embora não de forma explícita, e, do ponto de vista físico, a economia é o contrário, é um sistema permanentemente a crescer. Transformando um pouco a física do equilíbrio para a física do "equilíbrio aparente" conseguimos atingir justificações para os fenómenos económicos que a Economia parece ser incapaz de atingir, mas nem tudo é possível explicar. Numa frase em Física definiria: "Economia é um sistema a N corpos que se atraem mutuamente e injectam energia continuamente no sistema". Em Economia,definiria: "Economia é o estudo dos mecanismos pelos quais a sociedade satisfaz as suas necessidades infinitas recorrendo a recursos finitos". Mais que isto, só com um livro inteiro

Armando: Outra questão que abordas recorrentemente é a noção de dinheiro. O que é afinal o dinheiro e o que ele representa?

João: Os economistas têm a tendência de reduzir o dinheiro a um dos seus papeis na economia actual. O dinheiro serve de meio de pagamento, evita que a nossa troca de trabalho tenha que ser síncrona; serve de padrão de valor, nós reduzimos o valor do nosso trabalho, que é sempre discutível,  a um padrão que é o valor do dinheiro. E finalmente serve de meio de armazenagem de trabalho, poupamos dinheiro para podermos trocar no futuro por trabalho de outrém. Mas olhando de forma "física" dinheiro é trabalho "enlatado". O valor que tem é o valor que o trabalho passado, que foi comprado com esse dinheiro, tem hoje. Por isso quando se "viola" o princípio da impressão de dinheiro para pagar o valor do trabalho, todo o trabalho passado passa a valer menos face ao trabalho actual e dizemos que a moeda desvaloriza.  Tudo na economia é troca de trabalho, dinheiro representa o trabalho do passado. A falta da noção do que é o dinheiro nota-se quando se discute o bitcoin e a forma como é "extraído". O valor do dinheiro não tem nada a ver com a sua raridade, o ouro tinha valor enquanto moeda se o valor do trabalho para o extrair do solo fosse superior ao valor do trabalho passado que iria representar. Por isso valor pode ser confundido com raridade, mas não é a mesma coisa. Hoje moeda é um papel ou ainda menos que isso, desde que seja garantido que aquela quantidade de moeda pagou aquele valor de trabalho. O que é o valor do trabalho? Bem, não se consegue imaginar que ciência pode viver quando o seu conceito fundamental é definido a menos de uma constante aditiva... :)

Armando: Falemos agora dos teus trabalhos. Num deles pões em causa os critérios de Basileia III que estipulam aumento dos rácios de capital próprio dos bancos. Porqua achas que esta ideia, aparentemente razoável, afinal pode ter o efeito oposto daquele para o qual foi proposto: evitar o colapso do sistema bancário?

João: Primeiro devemos entender os objectivos da imposição de um rácio de capital e da regulação bancária no seu todo. Existe regulação bancária, que em última análise é paga pelos clientes dos bancos nas taxas que pagam/recebem, para defender a estabilidade do sistema como um todo. Sistema onde, recorde-se, colocamos o stock do nosso trabalho passado para consumirmos trabalho dos outros no futuro. A ideia que está subjacente ao critérios de Basileia, o comité de reguladores bancários do mundo civilizado que se reúne nessa cidade helvética, é que uma maior almofada de dinheiro no sistema vai absorver o impacto da falência dos bancos, protegendo o sistema no seu todo. Parece intuitivo, mas na realidade é o oposto.
É intuitivo porque imaginamos um enorme gás de agentes económicos aproximadamente iguais que interagem entre si mais ou menos aleatoriamente. A mesma imagem que temos de um gás em equilíbrio termodinâmico. Mas a economia não é um sistema em equilíbrio termodinâmico. É um sistema sempre a crescer em energia, o que gera um tipo de geometria a que se chama de rede livre de escala, onde a probabilidade de se ser muito grande é baixa mas não nula, como se os choques das partículas de gás se fossem agregando as partículas fazendo com que os maiores agregados cresçam mais com o crescimento do sistema. Toda a economia é assim, daí a resiliência das desigualdades sociais, que é um fenómeno decorrente dos mesmos mecanismos que formam os gigantes financeiros. Quando estabeleço um constrangimento como um nível de capital mínimo, a probabilidade de violar esse limite sobe à medida que subimos esse nível. Como capital é o dinheiro mais caro que um banco pode recorrer(se os accionistas recebessem o mesmo que os depositantes, seriam depositantes porque estes têm menos riscos), os bancos mais pequenos desaparecem concentrando o negócio nos bancos maiores que, obviamente, têm os mesmos constrangimentos percentuais. Quando um banco quebra esses limites, os bancos pequenos que deveriam absorver o impacto não existem porque o negócio foi concentrado e a avalanche dá-se com maior intensidade. Na realidade, ao subir os níveis de capital estamos a formar aquilo a que se chama de bancos "too big to fall" (e são-no de facto!) e a aumentar a probabilidade de avalanches catastróficas no sistema financeiro. Exactamente o oposto dos objectivos iniciais. Um fenómeno semelhante ocorreu com as auditoras depois do escândalo da Enron. Na tentativa de salvaguardar a fiabilidade do reporte contabilístico, o lei Sarbanes-Oxley criou tantas exigências às auditoras que estas se concentraram e se uniram àquelas que tinham dado origem ao escândalo.

Armando.O que deveria então ser feito para tornar o sistema bancário mais robusto (ou na linguagem de Nassim Taleb, anti-fragil) e evitar outra crise?

João: Não há forma de evitar crises. Na realidade, o equilíbrio aparente formado por um sistema de N corpos que cresce energeticamente de forma contínua, impõe que as oscilações sejam na escala, ou seja, em potências daquilo que é para nós a medida directa. Isto coincide com a ideia de crise que, na escala é uma mera oscilação, mas para nós é uma avalanche. Agora, quantos mais constrangimentos encontrarmos, maior será a probabilidade de uma crise grande. A regulação bancária interna nos Estados Unidos gera mais de uma centena de falências de bancos por ano e o sistema deles é mais resiliente que o nosso, onde uma possível falência provocará uma crise enorme. A ideia que temos na Europa de que um banco não pode falir é verdadeira, mas fomos nós que pedimos isso impondo aos políticos que elegemos uma maior carga regulatória. Queixamo-nos agora do dinheiro que é colocado nos bancos em tempo de crise, mas deveríamos ter pensado nisso quando os reguladores andaram a fazer um festim administrativo.

Armando.Sei que estudas sistemas fora-do-equilíbrio mas a maioria dos economistas trabalha com sistemas em equilíbrio. O que muda assim tanto de um cenário para outro e porque é que os economistas persistem em usar modelos em equilíbrio?

João: O que os economistas chamam de equilíbrio não é o que os físicos chamam de equilíbrio. O equilíbrio dos economistas é o que os físicos chamam de "mean-field", é isso que produz o preço, por exemplo. O problema nesta abordagem dos economistas é que, ao contrário do que eles reclamam e assumem, este mean-field não traz nenhum adicional de previsibilidade. Então, ao modelarem o sistema como um sistema assumido como em equilíbrio, fazem o fit aos dados empíricos nesse pressuposto e, consequentemente, a asneira está montada. E há dezenas de razões para isto dar asneira, podíamos cingir-nos simplesmente à própria definição de economia e à teoria da probabilidade para o mostrar, nem sequer era necessário entrarmos pela ideia de equilíbrio físico. Mas eu estudo sistemas fora do equilíbrio, transformando-os em sistemas em equilíbrio, senão essa matemática também não é válida( por fora do equilíbrio entendo MESMO FORA, não são oscilações em torno de um ponto de equilíbrio térmico
). É interessante o conjunto alargado de produção científica que se fez recentemente em sistemas fora do equilíbrio que viola as bases matemáticas pelas quais se impõe uma ideia de equilíbrio térmico em Física. Essa imposição tem razões matemáticas profundas para a definição de um espaço de probabilidade na qual se define uma medida de probabilidade, não é um imposição que alguém se lembrou por razões históricas ou algo que se fundamenta num postulado e está feita a festa.

Armando.Tu tens uma larga experiência e uma visão própria do risco e gestão do mesmo. Porque é que ainda hoje não entendemos bem o risco (a avaliar pela crise recente) e como é que a física pode ajudar?

João: Nas respostas anteriores acho que digo o fundamental. Risco é incerteza e gestão de risco é a medida dessa incerteza. Se estamos a medir risco como se a economia que nos envolve fosse um gás de choques inelásticos, não só entendemos mal o risco, como fazemos apenas uma pequena ideia da sua quantificação.  Mas estamos em campo completamente aberto. A razão pela qual as medidas de risco não foram alteradas não foi teimosia. A verdade é que ainda há um caminho para fazer até podermos tornar uma medida de risco credível e praticável perante o mercado. A justificação matemática disto é algo comprida, mas em resumo, qualquer medida que se faça à luz do conhecimento que temos agora é mal feita, pelo que o mercado opta pela mais fácil. Sabemos que não há mitigante de risco como a diversidade, agora quantificá-lo é que é difícil.

Armando.Falemos agora um pouco do nosso país e do Estado, o qual tu muito tens criticado. Qual o principal problema do país e que medidas deviam ser implementadas para corrigir a falta de crescimento económico?

João: Se há coisa que não faço habitualmente é criticar o país, tirando as escolhas que faz no seu colectivo. Acho que temos o melhor país do mundo onde a natureza colocou a melhor gente que, por ser tão boa, é incapaz de encontrar um caminho em comum que respeite a individualidade. A forma como Salazar o fez foi impor a ignorância, com consequências que ainda sofremos mas parece que continuamos sem perceber a razão de existir de um estado democrático. Um estado democrático, como eu o vejo, é uma área de serviços ao país que, por deter o monopólio da violência, deve ser comandada por gente eleita para nos proteger desse poder. O estado português é exactamente o contrário e as pessoas continuam a falar "daqueles que nos governam" como se alguém estivesse no governo do estado para mandar neles. Mandam nos funcionários do estado, não nos cidadãos do país. Continuamos a exigir daqueles que nós elegemos que façam, em vez de mandarem os profissionais fazer. Somos exigentes com um desgraçado que colocámos a mandar nos funcionários públicos e depois somos permissivos com os funcionários por se recusarem a cumprir as ordens decorrentes do mandato que demos aos desgraçado. Continuamos a achar que o pagamento do bem comum deve ser feito pelos outros que têm mais que nós ou, alternativamente, pelo dinheiro que cai das árvores. Na verdade, não sei se a República Portuguesa é uma realidade economicamente viável na Europa, sei que Portugal não vai deixar de existir, mesmo que o estado caia. Acho que o mundo de hoje dá um valor reduzido ao território e um nível de poder que se justifica no território vai tornar-se incomportável. E também é verdade que todos serviços podem ser feitos em Bruxelas ou ao nível das câmaras pelo que, com o tempo, acho que vamos ver questionado o porquê de um estado em Lisboa. O facto é que conseguimos lidar com coisas do tamanho de condomínios com grande capacidade, mas quando chegamos ao município já estragámos tudo...
Eu não acho que tenhamos falta de crescimento económico. Temos falta de economia, porque durante décadas tivemos agentes alocados a recursos que não eram nossos a produzir coisas que ninguém precisa e agora têm que ser alocados a actividades económicas de facto.  Mas a economia que já funcionava e que não era o resultado de um processo administrativo, essa continua a crescer e pujante, a avaliar pelos números do comércio externo. Obviamente, a circulação de dinheiro, aquilo a que a pessoas chamam de PIB, tem que ser reduzida porque o dinheiro não era nosso. E ainda temos uma "conta calada" a resolver, depois de uma década de manobras contabilísticas e truques de honestidade questionável que, por muito menos, levaram vários gestores americanos à cadeia. Sei que com a forma como o estado português está a reagir às iniciativas do país para o salvar, não vejo como possa durar muito mais tempo. As notícias repetidas de rejeição das medidas para tornar o estado viável, por parte do próprio estado, vai tem um final muito previsível. Agora o país, esse, acho que vai muito bem, apesar de ainda termos que resolver o problema das pessoas que dependiam desse dinheiro que não era nosso. Mas acho que o que estamos a resolver estamos a resolver de forma sólida.

Armando: Antes de terminar, e de te agradecer, queria que recomendasses um livro ou outro recurso que consideres importante para perceber estes temas.

João: Somos tão bombardeados com coisas que assumimos como certas, porque "há quem perceba disso", que delegamos a tarefa de pensar nelas. Mesmo quando as coisas nos parecem estranhas, apanhamos com uma explicação parva e não nos damos ao trabalho de pensar nessa explicação. Por isso o facto de me fazeres estas perguntas é, em si mesmo, algo de muito mais raro que o meu perfil.
Um filme que andei muito tempo para ver foi o "Inside Job", sobre a crise financeira de 2008. Depois de vê-lo e à forma como o filme nos manda para a conclusão pensei que poderia fazer um documentário sobre mim. E nesse documentário diria apenas "boa parte das mulheres que vão trabalhar com ele, acabam grávidas!" . O que é verdade. Só omiti que boa parte das mulheres que vêm trabalhar comigo acabaram o curso há menos de 5 anos e, por isso, estão todas em idade de ficar grávidas dos maridos que já tinham antes de virem trabalhar comigo. Mas as conclusões para que atirei o leitor com a primeira frase, são completamente diferentes das conclusões que se tiram se não omitir as informações adicionais. E nunca menti. Portanto, o primeiro recurso é rever o "Inside Job" (estava disponível integralmente no Youtube...) e questionarmo-nos se em todas as conclusões para que somos atirados são de facto aquelas que deveríamos tirar. Vemos um filme diferente.
Acho que, concorde-se ou não com o estilo e com algumas das conclusões, Taleb é sempre um bom alimento para um espírito crítico por nos forçar a questionar mesmo aquilo que damos como certo há anos. Entre os físicos, e com algumas recomendações de prudência devido ao facto da sua produção ser constrangida pelo protocolo da economia dos papers, o José Fernando Mendes, o Jean-Phillipe Bouchaud, o Sorin Solomon e o Johannes Voit. Mas como referi, é um campo aberto, há muita coisa boa, muita coisa má e, principalmente, muita coisa má que já foi boa. A área fora do equilíbrio está ainda muito fora do equilíbrio.
Finalmente, "I only believe in the ultimate equations, the ultimate data run away with my money..."

COMO GOVERNAR UM PAÍS

Introdução ao livro de Cícero, com o título de cima, que acaba de sair na Gradiva:

 «Tenho a impressão de ler a história de todas as épocas e países em cada página — e especialmente a história do nosso país dos passados quarenta anos. Mude-se os nomes e cada episódio ser-nos-á aplicável.» 

 JOHN ADAMS sobre Life of Cicero, de Conyers Middleton Marco

" Túlio Cícero nasceu em 106 a. C., quatrocentos anos depois de Roma ter banido o seu último rei e estabelecido a República. Cícero era natural de Arpinum, uma pequena cidade de província situada nos montes a sudeste de Roma. Era também dali Gaio Mário, que escandalizara a aristocracia do Senado romano com a sua política populista e a sua reorganização do exército numa força voluntária sem qualificações para o serviço. Quando Cícero era ainda criança, Mário salvou Roma de uma invasão de tribos germânicas transalpinas, cimentando assim o seu lugar no poder político.

A família de Cícero era modesta, mas o pai mostrou-se determinado a dar a Marco e a Quinto, seu irmão mais novo, a melhor educação possível. Os jovens estudaram História, Filosofia e Retórica em Roma, com os melhores mestres de então. Na juventude, Marco prestou serviço no exército durante um curto período, sem feitos dignos de nota. Após isso, teve início a sua formação jurídica, em Roma. Um dos seus primeiros casos enquanto advogado foi a defesa de um homem chamado Roscio, injustamente acusado de assassinar o pai. Isto pôs o jovem Cícero em conflito com Sula, ditador romano da altura, e a sua administração corrupta. Foi um acto de coragem e Roscio conseguiu a absolvição, mas, quando o julgamento findou, Cícero entendeu por bem afastar-se de Roma e prosseguir os seus estudos na Grécia e em Rodes. Depois da morte de Sula e do regresso de Roma ao governo republicano, Cícero iniciou a sua ascensão dentro da magistratura, passando de questor a pretor e finalmente, após uma campanha duramente disputada, a cônsul, o cargo mais elevado da República. Contudo, o país que Cícero governou durante o ano que ocupou o cargo não era o mesmo que os seus antepassados haviam conhecido. O pequeno lugar nas margens do rio Tibre agigantara-se e tornara-se um império que se estendia para lá do Mediterrâneo. Os modos simples de heróis como o lendário Cincinato, que regressara à vida agrícola depois de ter sido chamado a chefiar o país em guerra, haviam dado lugar à corrupção e ao abuso, tanto no país como no estrangeiro. Os exércitos de cidadãos do passado tinham-se tornado soldados profissionais mais leais ao seu general do que ao Estado. A marcha de Sula sobre Roma e a subsequente chacina dos seus opositores políticos constituíra um precedente horrendo, que jamais seria esquecido. Os compromissos do governo constitucional esboroavam-se no preciso momento em que Cícero assumia altas responsabilidades no poder romano. Para agravar a situação, as facções políticas de então recusavam ouvir-se mutuamente, a economia tinha estagnado e o desemprego constituía uma ameaça contínua à estabilidade cívica.

Durante o mandato de Cícero como cônsul, Catilina, nobre ressentido, tentou derrubar violentamente o Senado, sendo disso impedido por Cícero e seus aliados. Todavia, três anos mais tarde, Pompeu, Crasso e Júlio César formaram um Triunvirato para governar Roma a partir dos bastidores. Convidaram Cícero a juntar-se-lhes, mas este não quis associar-se a tal combinação inconstitucional. No entanto, devia bastante a Pompeu pelo seu apoio no passado e ficou impressionado com as capacidades de César. Cícero resolveu aguardar por um momento oportuno, tentou manter boas relações com todas as partes e esperou o regresso da sua amada República.

Ostracizado no Senado e sem verdadeiro poder, o frustrado Cícero começou a escrever sobre o modo como um governo deveria ser dirigido. Enquanto César conquistava a Gália e depois atravessava o Rubicão e mergulhava Roma numa guerra civil, Cícero redigiu algumas das melhores obras de filosofia política de todos os tempos. As questões que colocou ainda hoje são pertinentes: Qual é a base de um governo justo? Que tipo de governação é melhor? Como deve um chefe conduzir-se no exercício do seu cargo? Cícero abordou estas e muitas outras questões com frontalidade, não como um teórico académico, mas como alguém que tinha chefiado um país e visto com os seus próprios olhos o colapso do governo republicano. Escreveu para quem o quisesse ouvir, mas a sua influência política era então notoriamente menor. Como escreveu a um amigo: «Já me sentei no convés e dirigi o leme do país; agora mal há espaço para mim no fundo do porão.»

A vitória de César na guerra civil e o início da sua ditadura benevolente pareceram o fim do mundo a Cícero. Mas os Idos de Março, em 44 a. C., fizeram renascer o optimismo e Cícero empenhou-se na restauração do governo republicano. Depositou as suas esperanças no jovem Octávio, sobrinho-neto e herdeiro de César, acreditando que ele poderia elevar Roma à sua antiga glória. Mas a aliança de Octávio com Marco António mostrou- lhe que o poder, uma vez conquistado, não é fácil de abandonar. A derradeira tentativa de Cícero para restaurar a República consistiu em assestar os seus formidáveis dons oratórios à tirania de Marco António—mas a época da liberdade havia findado. Com o assentimento de Octávio, Marco António decretou a morte do rival que não conseguia superar. As últimas palavras de Cícero dirigiram-se aos assassinos que o encontraram: «Pelo menos assegurem-se de que me cortam a cabeça correctamente.»

 Cícero foi um escritor prolífico, autor de muitos ensaios, tratados e epístolas sobre o modo correcto de governar um país. A breve antologia que agora se publica é apenas uma pequena amostra das suas ideias registadas ao longo de vários anos e em diferentes circunstâncias. Espera-se que inspire os leitores e os leve a estudar aprofundadamente as obras do maior estadista de Roma que chegaram até nós."

Philip Freeman

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

PROGRAMA DOUTORAL EM HISTÓRIA DA CIÊNCIA E EDUCAÇÃO CIENTÍFICA


Até ao próximo dia 15 de Setembro estão abertas as candidaturas de 2.ª fase para um novo programa doutoral que ionclui tanto uma componente de História como uma componente de Educação Científica) que está a ser organizado pelas Universidades de Coimbra e de Aveiro e ao qual estou associado:

:: Programa Doutoral de dupla titulação, conferindo o grau de Doutor em História das Ciências e Educação Científica pela Univ. de Coimbra e pela Univ. de Aveiro.

cartaz
   
 O programa Doutoral em História das Ciências e Educação Científica oferece uma formação única e interdisciplinar. É um programa dirigido a candidatos que tenham uma atitude aberta ao conhecimento científico, com interesse na dimensão sociocultural da ciência, incluindo as perspetivas históricas, educativas e de divulgação. Oferece uma via de especialização para quem concluiu Mestrados em: Ensino das Ciências, Comunicação e Educação em Ciência, História e Filosofia das Ciências, História, Ciências da Saúde e Tecnologias, entre outras, que tenham interesse na História das Ciências e Educação Científica.

     Este programa visa a formação de profissionais e investigadores capazes de mediar o papel da história da ciência na compreensão pública da ciência e na educação científica.

     Conduz à formação de investigadores em novas áreas profissionais relacionadas com o estudo da evolução histórica e a função social e cultural da ciência/tecnologia, a articulação com a educação científica, a gestão da informação e património cultural da ciência.

Para mais informações clique AQUI.

MESTRADO EM COMUNICAÇÃO DE CIÊNCIA


Numa altura em que a Comunicação de Ciência está ameaçada pela agência financiadora de ciência, eis notícia da abertura de um mestrado, que me chegou dos organizadores António Granado e Ana Sanchez:

"Está aberta de 9 a 17 de Setembro a segunda fase das inscrições para o Mestrado em Comunicação de Ciência, uma iniciativa da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e do Instituto de Tecnologia Química e Biológica, duas unidades orgânicas da Universidade Nova de Lisboa - http://www.fcsh.unl.pt/media/noticias/destaques/mestrados-2013-candidaturas-abertas-1

O curso tem um cariz essencialmente prático e é direccionado para a aplicação de diferentes ferramentas à comunicação de ciência em três domínios principais: jornalismo, comunicação institucional e educação. O curso é composto de uma parte curricular, distribuída em dois semestres, e de uma parte não-lectiva, no terceiro semestre.

A componente não-lectiva corresponde a um estágio numa instituição onde se faça comunicação de ciência (órgão de comunicação social, museu ou instituição científica), a que seguirá a escrita e defesa de um relatório de estágio. Opcionalmente, os alunos poderão terminar o mestrado elaborando um trabalho de projecto ou uma dissertação na área da comunicação da ciência.

O mestrado aceita licenciados em todas as áreas e as aulas decorrerão durante duas tardes por semana, à segunda e à terça.

Pode obter mais informações em http://www.unl.pt/guia/2013/fcsh/c-4296 ou na página do mestrado no Facebook - http://on.fb.me/mS0q6L

 Os alunos que terminaram as suas licenciaturas no último ano lectivo, com média superior a 16 valores, beneficiam de um desconto de, pelo menos, 50 por cento nas propinas do 1º ano - ver ponto 10. do Regulamento de Propinas da FCSH: http://www.fcsh.unl.pt/futuro-aluno/mestrados/documentos/regulamento-propinas-mestrados-23-14/at_download/file "

JOSÉ MORAIS: “ALFABETIZAR EM DEMOCRACIA”



Apresentação na contracapa do último livro do psicólogo José Morais (na figura), que acaba de sair na Fundação Francisco Manuel dos Santos:


 “ALFABETIZAR EM DEMOCRACIA”

José Morais, professor jubilado da Universidade Livre de Bruxelas e investigador em Psicologia Cognitiva, é um dos maiores especialistas mundiais na aprendizagem da leitura. Os seus artigos têm sido publicados nas melhores revistas internacionais, como a Science.  Os seus livros, como L’Art de Lire com edição original pela Odile Jacob de Paris em 1994, e edições em Portugal, Brasil e Espanha, têm alcançado justa fama internacional. Os seus pareceres sobre o melhor modo de aprender  a ler são pedidos pelos governos de vários países, como a França, Portugal e o Brasil.

Nesta obra, José Morais oferece-nos um magnífico resumo, baseado na sua rica experiência científica e pedagógica, do que é alfabetizar. Mas vai mais além. O autor não é apenas um professor e cientista: é também um cidadão empenhado na res publica.  E, por isso, não se coibe de dar um salto para tratar, de um modo necessariamente pessoal, questões de ordem política. Partindo do princípio de que a democracia e alfabetização estão intimamente ligadas, discute o estado actual da democracia no mundo, revelando a sua enorme insatisfação. José Morais tem não só conhecimento como opinião, gostando de partilhar tanto um como a outra.

A Fundação Francisco Manuel dos Santos, cujos fins são o melhor estudo de Portugal e dos Portugueses assim como o fomento da participação cívica, tem beneficiado muito dos contributos de José Morais, que é membro do seu Conselho de Educação. É com o maior gosto que publica este livro, que junta de forma única conhecimento profundo e opinião livre.

domingo, 8 de setembro de 2013

A DINÂMICA DA ESPIRAL

Com a devida vénia, transcrevemos o início do prefácio de Sebastião Formosinho (químico) e J. Oliveira Branco (filósofo e teólogo) ao seu livro "A Dinâmica da Espiral. Uma aproximação ao mistério de tudo", que acaba de sair na Imprensa da Universidade de Coimbra. É o último volume de uma tetralogia que se iniciou com "O Brotar da Criação" e continuou com "A Pergunta de Job" e "O Deus que não temos". 

"Uma aproximação

«Às vezes pergunto‑me como é que a Terra se criou. E uma pergunta leva sempre a outra pergunta. Mesmo que me respondam, tenho sempre uma pergunta para cada resposta.»

“Beatriz”

Demandar o mistério de tudo, parece ambicioso. Mas ninguém prescinde de o tentar. Amiúde, sem lhe dar pelo nome. O homem não pode deixar de interrogar. E em rigor, nada fica de fora. É uma mais‑valia da consciência intelectiva. Decorre da nossa condição própria, e é sinal dela. No prosseguimento de ensaios anteriores dedicados a vertentes do mesmo perguntar, os autores voltam‑se agora para uma problemática mais englobante. Querer saber não está vedado a ninguém. Felizmente.

Não vamos traçar aqui uma filosofia do homo quaerens: do ‘homem que procura’. Era convidativo ir por aí, mas quisemos olhar mais ao objecto que ao sujeito da procura. Esta opção, além de se tornar acessível a mais leitores, obedece a uma estrutura significante. O verbo ‘querer’ deriva daquele, latino. E é um verbo transitivo (ouvimo‑lo desde a escola primária): o ‘objecto’ é indispensável à acção do sujeito. Uma pergunta leva a outra, mas vão todas em função daquilo a que se tende. Muito antes de se esboçarem as primeiras gramáticas, já a filosofia prática o sabia.

 Mas por outro lado não há demanda que não seja selectiva. Ninguém finito pode indagar com alcance pleno, e em todas as perspectivas. Os autores não têm a menor pretensão de escrever “sobre” tudo. Era ridículo. Assumimos um móbil englobante, e daí o título; mas não é possível considerar senão alguns ângulos. E neles, aspiramos tão‑só a ‘uma aproximação’. A par desta, haverá inúmeras outras. E por serem de homens, todas são finitas. Isto é: nenhuma suficiente. A nossa tomou o rumo que trazemos aos leitores. Mesmo pelo prisma que seguimos, seriam possíveis outros volumes, e por certo diferentes, sobre o tema. Não vamos criar ilusão quanto a isto. Temos alguma noção do muito que fica por visitar. Mas se é assim, para quê então procurar? E será que adianta mais quem se remete à não‑procura? O agnosticismo abandona a liça cedo demais. Veja‑se que nenhum cientista que se preze abdica de procurar. O real não está aí a desencorajar mas a estimular a procura.

É natural que ninguém finito possa chegar a uma resposta à altura do real. Mas não íamos parar por causa disso. Se nem a certeza da morte nos desmotiva da vida, antes concretiza o viver, também aqui o demandar, alguma coisa há‑de descobrir. Este paralelismo permite reforçar a questão. Fazemos por nos situar ante ‘o mistério de tudo’. Decididos a demandar, e a insistir. Não tanto com a mira no que tem de extensão quanto no que revela de intensão: sondando mais dentro. E nesta, ressoa a intensidade. Também isto nos motivou. O ritmo do quotidiano corre demasiado depressa: Não é propício a que se dê por esta força intrínseca. Se a reflexão que fazemos pode ajudar quem se interroga, é nosso dever propô‑la. Não sabemos responder a tudo; mas é sempre lícito − e animador − perguntar mais.

 Não olhamos para a realidade como de fora. Ninguém está fora dela. A existência faz‑nos como somos, porque nós a fazemos como é. E isto já é participação na realidade. Obriga a tomar posição. Perante os desafios do real, o homem não consegue ficar indiferente. Ou se ficar, passa pela vida sem dar por ela. Existir, é ver‑se confrontado com o mistério disto. Tudo. Há realmente um mistério em tudo. E cheio de nódulos. Só os de superfície parecem miúdos. Em profundidade, são de enorme densidade. Não é difícil intuir aí uma compreensão em espiral. Um Grande Mistério envolve e constitui todo o real − a muitos níveis de densidade. E também nos constitui a nós, que podemos ter consciência disto.

É difícil lidar com esta condição do homem? Não, e sim. Toda a gente tem uma noção, vivida, a este respeito. Por mais saberes (tácitos ou explícitos) que se adquiram, o Mistério da realidade está aí. E sempre irá além do que é possível ao homem desvendar. Do Mistério de tudo, no fundo não sabemos quase nada. A antecipação do título, que parecia uma proposta ambiciosa, já confessa a nossa inquietação, interrogações e limites. Como é que o real pode entender‑se? Os autores não têm receitas: ousamos levantar (algumas) perguntas. Tentamos olhar de frente: Sem subterfúgios, nem mitificações. É nossa convicção que na porfia alguma luz pode surgir. Que há‑de trazer novas perguntas. E também elas em espiral. A humanidade tem mostrado − onde haja insatisfação de espírito − que é possível abrir caminhos para avançar.

 A nossa proposta aceita a ponderação de cientistas reconhecidos e de filósofos esforçados. Precisamos de aprender com todos. Mas sem abdicar da nossa procura própria. Não é um aceitar rendido. Continuamos a linha de indagação e de método que presidiu aos temas que abordámos nos volumes que escrevemos antes. De parceria, como este. 1. O brotar da Criação. Um olhar dinâmico pela ciência, a filosofia e a teologia; 2. A Pergunta de Job. O homem e o mistério do mal; 3. O Deus que não temos. Uma história de grandes intuições e mal‑entendidos. Com esta trilogia, tocámos em questões das mais essenciais para o homem. Por considerarmos que a temática nos solicita para voltar à questão, aqui estamos a partilhar com os leitores interrogações que temos debatido para nós mesmos. Desta vez, pelo prisma da Pergunta Radical. Omni‑abarcante. Conota o ‘Mistério de Tudo’.

 Que esta formulação se tenha destacado e apareça como título, não foi veleidade: Resultou do processo de reflexão. Enquanto houver quem pense, haverá quem pergunte. Por isso entendemos que devíamos prosseguir. Vamos chamar‑lhe agora tetralogia? Tem pertinência objectiva. Mas não é o ‘rótulo’ que nos move. O que sobretudo nos importa é a possibilidade de trazer aos leitores/as elementos para uma reflexão fundamentada e clara. Se procuram de espírito aberto, e a nossa indagação pessoal lhes pode sugerir pistas de aprofundamento, não é bem relegá‑la para uma pen esquecida ao canto da gaveta.

Agrada‑nos relacionar esta linha de procura com a atitude curiosa, e animosa, que transparece da epígrafe. Expressão simples da vivacidade e frescura de uma criança: ainda infantil, mas a despertar − ávida de saber e de desafiar o seu entorno. Colhida em entrevista de jornal (“Expresso”, 8.Jan.2011), da boca de uma ‘Beatriz’ de 11 anos, lembra os primeiros ares de primavera. Não há quem não deseje que a promessa se confirme e revele a seu tempo. Não é só pela graciosidade que esboça. É pela regra de vida que anuncia. Significa uma atitude saudável, que se deseja possa crescer pela vida fora. Crescer é inerente a toda a realidade. E a do humano, só o é se desenvolver consciência e criatividade. Sua. No texto em destaque podemos ver esboçado o próprio do espírito filosófico. E da atitude científica. Em suma: um símbolo notável da humanidade. Ou de toda a criação. Estamos cá − para interrogar o que se apresenta com menor clareza. Tudo afinal.

 E é assim que nos representamos o pequeno texto. À maneira de um mote que pode inspirar qualquer leitor/a. Não conhecemos a ‘Beatriz’, mas temos de admirar o gosto e a inquietação (também filosófica) que se deixa traduzir nas suas palavras, e que ela nem sonha. A criança não está ainda tocada pelas acomodações e sedimentações a que a sua resposta reage. Não ficar pelo que se supõe sabido é uma atitude preciosa. E uma virtude prometedora. Oxalá a ajudem a desenvolvê‑la. (...)"

Autores: Sebastião J. Formosinho, J. Oliveira Branco
ISBN:
978-989-26-0550-0
Editora: Imprensa da Universidade de Coimbra
Data:
Maio 2013
Preço:
20 euros
N.º Páginas: 542

UMA APOSTA IMPOSSÍVEL


Trancrevemos uma das apostas do livro de Pierre Berloquin, "50 Apostas Impossíveis e no entanto fáceis de realizar", que acaba de sair na Gradiva com revisão científica de Jorge Buescu. 

O REFLEXO DO POBRE

"Ao longo das vicissitudes da nossa existência, todos nós tentamos acerrimamente manter intactos os nossos reflexos, a par da nossa inteligência. Já que o orgulho existe, caro leitor, não deixe de o explorar. Aqui tudo joga a seu favor: trata-se de usar os seus reflexos simplesmente para agarrar uma nota. É impossível haver qualquer tipo de resistência.

Antes de mais, realize a demonstração sozinho, utilizando as suas duas mãos. Retire uma nota o mais nova e o menos dobrada possível. Agarre
-a por uma das extremidades, com uma das suas mãos, entre o polegar e o indicador. De seguida, coloque o dedo polegar e o indicador da outra mão de um lado e do outro da nota, alguns centímetros mais abaixo, prontos a agarrá -la, sem no entanto o fazer. Largue a nota da primeira mão, agarrando -a com a outra antes de ela se escapar.

Depois de ter repetido esta operação várias vezes, e para demonstrar a facilidade da mesma, peça a um apostador para ser ele a agarrar a nota. Faça-o colocar o seu polegar e indicador um ou dois centímetros abaixo da sua mão, mas não mais do que isso. Aposte que ele será incapaz de conseguir agarrar a nota quando esta passar. Mas explique -lhe bem que ele perderá se tocar na nota antes de você a largar.

Para ganhar esta aposta, não é necessária nenhuma preparação nem nenhuma habilidade especial. O tempo joga a seu favor. Uma vez largada a nota, a informação não tem materialmente tempo de percorrer a cabeça e o sistema nervoso do seu adversário até aos seus dedos antes de a nota ter passado. Pode repetir a experiência indefinidamente, o seu adversário pode praticar, mas o leitor ganhará sempre. O importante é simplesmente nunca o deixar prever o momento em que você vai largar a nota.

Porque consegue o leitor apanhá-la? Simplesmente porque está em boa posição para saber o momento exacto em que a vai largar..."

Ranking de Universidades 2013

Já saiu o (sempre polémico) ranking de universidades da Scimago. Pode ser consultado no site da Scimago e o relatório nacional pode se consultado neste link.

A Universidade do Porto é a que se encontra melhor posicionada, embora numa posição modesta no ranking mundial (242), e apenas 4 instituições estão no top 500. Quanto aos politécnicos, o primeiro da lista, o Politécnico do Porto, está na posição 1895! Pessoalmente, acho estes resultados modestos, para não dizer mediocres. Por muito que se questione a forma como se constroem estes rankings e que eles são tendenciosos de várias formas (o que é verdade), há alguma verdade nos números que eles apresentam.

Portugal teve um crescimento notável na ciência e I&D, em termos de infra-estruturas, de investimento (1.5% do PIB - o que nos coloca perto da média europeia de 2%) e de recursos humanos (temos quase tantos ETI per capita como a Alemanha). É normal, diria mesmo crucial, perguntar quais os resultados deste investimento? Porque não sobe o ranking das nossas instituições universitárias paralelamente aos investimentos que directa e indirectamente nelas foram feitos? Para onde foram (vão) os nosso talentos (triplicamos o número de doutorados em 10 anos)? O que anda o ensino superior a fazer com o dinheiro público?

Nem naturalismo nem pessimismo antropológico


“A educação é a acção consciente e continuada 
sobre a plasticidade humana que se dirige 
à formação do homem.” 
Jonas Cohn

Esta definição de educação citada por J.M.Quintana Cabanas (1988, 51), fixa como elemento fundamental do eidos educativo o seu carácter teleológico. Constituindo uma actividade intencional, a educação não pode exercer-se de forma gratuita nem ser neutra: orienta-se por um projecto perfectivo. Projecto esse que se constitui a partir de finalidades mais ou menos explícitas, mais ou menos concretizáveis, num compromisso entre o ideal e o real. A educação incide sobre a pessoa, tal como é, com os seus determinismos biológicos, psicológicos, culturais, mas tem subjacente um normativo axiológico que subentende uma certa concepção antropológica e um certo modelo utópico de sociedade.

Na reflexão filosófica uma questão que, desde logo, emerge como fundamental é a que se prende com o binómio natureza/cultura.

A tendência naturalista tem marcado várias correntes pedagógicas que, se bem que distintas, comungam no pressuposto de que a natureza humana é radicalmente boa, pelo que a educação deve, antes de mais, garantir a preservação das forças intrínsecas do educando. Na sua forma mais radical, tal como foi propugnado por Jean-Jacques Rousseau, o naturalismo pedagógico torna-se anti-cultural e conduz à não intervenção. É a designada “educação negativa”, defendida pelo autor de "Émile", que afirma: “seria necessário que não fizessem nada na alma da criança enquanto ela não tivesse adquirido todas as suas faculdades (…). Por conseguinte, a primeira educação deve ser puramente negativa. Consiste, não em ensinar a virtude e a verdade, mas em preservar o coração do vício e o espírito do erro (…). Exercitai o seu corpo, os seus orgãos, os seus sentidos, as suas forças, mas conservai a sua alma ociosa tanto tempo quanto puderdes” (Rousseau, 1990, vol I, 84).

Esta concepção denota uma desconfiança radical de toda a intervenção humana na educação. Admitindo que a criança dispõe dos valores certos e justos, nega-se qualquer protagonismo ao educador. Uma versão moderna deste não intervencionismo foi consagrada pela pedagogia libertária de A.S. Neill (1971) na escola de Summerhill. Assumindo como princípio o de que a criança é naturalmente boa e activa e que, deixada em liberdade, longe de toda a imposição coerciva dos adultos, desenvolverá plenamente as suas faculdades, o lema pedagógico de Neill era deixar os alunos optar pelo que queriam aprender.

De modo similar, a orientação não directiva de Carl Rogers comunga no mesmo pressuposto de que a natureza humana é radicalmente positiva e racional e que, só por contingências do meio ou da história do indivíduo, ele se desvia da sua propensão inata para o bem e para o lógico. Deste modo, a acção educativa deve promover no educando aquilo que naturalmente faz parte de si, consagrando os valores de autenticidade na relação empática que estabelece com os professores.

Menos radical do que esta “pedagogia da espontaneidade”, o designado "naturalismo científico" exerceu uma forte influência nas nossas concepções educativas no sentido em que reconhece a necessidade do suporte da Biologia, da Psicologia, da Sociologia para a reflexão pedagógica e para o conhecimento do educando, adaptando o ensino às suas capacidades e interesses.

De modo antinómico aos que preconizam estas variantes pedagógicas, há os que conceptualizam a educação como uma acção directiva, por vezes até coerciva sobre o educando. A cosmovisão judaico-cristã fala de um pecado original em que participa toda a humanidade.

Sigmund Freud (1920), de uma forma laica, teoriza esta dualidade de tendências, falando de Eros e Thanatos. A sua perspectiva é a de que a carga biológica que cada um transporta consigo fazem do indivíduo um ser basicamente afectivo e irracional que só gradualmente, e por imposição externa, aprenderá a controlar os seus impulsos que entram em conflito com as normas sociais e éticas.

Contemporaneamente, o filósofo Lain Entralgo falando deste mal radical que parece habitar o ser humano é obrigado a constatar que “na vida de um ente metafísicamente constituído pelo amor e para o amor existe o ódio. Porquê? Como é que a liberdade humana, tão essencialmente movida pelo amor pode ser odienta e odiosa? Talvez que, de um modo acidental e reparável, haja algo ferido e enfermo na própria natureza do homem. O homem é amor, mas amor de algum modo enfermo” (Laín Entralgo, 1961, 336 citado por J. M. Quintana Cabanas, 1988, 127).

Numa perspectiva que não se identifica propriamente com um pessimismo antropológico mas destaca o carácter incompleto, inacabado do ser humano, a educação surge como essencial para o processo de humanização, tal como Kant o reconhecia já, ao afirmar que “o homem é a única criatura que tem de ser educada” (E. Kant, 1983, 83).

É que o indivíduo nasce como ente biológico, e só pela educação se torna cultural. A educação, fazendo adquirir ao homem uma segunda natureza, desenvolve-lhe capacidades, inculca-lhe valores que são respostas culturais e não propriamente produtos espontâneos de uma evolução natural.

Neste sentido, se a antinomia natureza/cultura que tem atravessado o pensamento pedagógico ocidental se afigura fundamental para a axiologia educativa é porque, como é dado perceber, só é possível falar de uma educação para os valores, se rejeitando a tentação de um pessimismo antropológico que torna o homem inevitavelmente cúmplice e vítima da sua própria desgraça moral, repudiarmos igualmente o radicalismo de uma pedagogia naturalista, não intervencionista, que confia às forças espontâneas da criança a sua própria auto-direcção.

Concebendo, ab initio, a educação como uma necessidade do próprio indivíduo e um valor acrescido ao processo de humanização, poderemos abarcar melhor a extensão da problemática axiológica em pedagogia, reportando-a tanto à questão das finalidades como à das modalidades e conteúdos do processo educativo.

João Boavida

Quintana Cabanas, J. M. (1988). Teoria de la educación. Concepción antinómica de la educación. Madrid :  Dykinson.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Cultura Científica em Portugal – Uma Perspectiva Histórica


Numa altura em que a cultura científica está a ser posta em causa em Portugal, havendo o risco de haver retrocessos nesta importante área, eis que surge um livro que dá uma perspectiva histórica muito boa sobre a cultura científica, juntando cultura e história. Parabéns ao seu autor, Luís Bernardo e à Editora da Universidade do Porto. Oportuníssimo!

Transcrevo a sinopse recebida da editora.

Cultura Científica em Portugal – Uma Perspectiva Histórica 
Luís Miguel Bernardo
Editora da Universidade do Porto, 2013

A obra

Numa perspectiva histórica e em contexto internacional, este livro descreve o estado da cultura científica portuguesa desde o aparecimento da ciência moderna até aos nossos dias. Desde o século XVIII, algumas elites nacionais pugnaram pelo estabelecimento pleno da ciência em Portugal. Porém, a nação portuguesa não acompanhou esse movimento, não prezou a ciência nem reconheceu os seus valores culturais. Os portugueses só recentemente terão compreendido a importância da actividade científica para o progresso nacional. A leitura deste livro revela que a ciência é um meio importante de transformação social e um alicerce indispensável da nossa civilização.

O autor

Luís Miguel Bernardo é professor catedrático aposentado do Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Licenciado em Engenharia Electrotécnica pela Faculdade de Engenharia da mesma universidade, obteve o mestrado e o doutoramento em Física na Universidade Estatal de Virgínia, nos EUA. Regressado a Portugal, realizou trabalhos de investigação em óptica física, tendo-se dedicado nos últimos anos à história da ciência e à divulgação científica. Presentemente exerce o cargo de director do Museu de Ciência da Universidade do Porto.

Stephen Mumford e Rani Lill Anjum em Lisboa

A convite do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa, Stephen Mumford e Rani Lill Anjum farão as seguintes conferências no próximo dia 12, quinta-feira, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, sala 8.2.10.:

11h - "Powers, Causation and Probability"
15h - "Metaphysics, Logic and Science".



Stephen Mumford is Professor of Metaphysics and Dean of the Faculty of Arts at the University of Nottingham and Professor II at the Norwegian University of Life Sciences (UMB). He is the author of Dispositions (Oxford 1998), Laws in Nature (Routledge 2004),David Armstrong (Acumen, 2007), Watching Sport (Routledge 2011), and co-author of Getting Causes From Powers (Oxford 2011) and Metaphysics - A very short introduction (Oxford, 2012), Causation – A very short introduction (Oxford 2013).

Rani Lill Anjum is Researcher of Philosophy and Director of the 4 year research project CauSci – Causation in Science – funded by the Research Council of Norway and hosted by the Norwegian University of Life Sciences (UMB). She is the co-author of Getting Causes from Powers (Oxford 2011) and Causation – A very short introduction (Oxford 2013).

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Não apoiar a comunicação em ciência faz parte de uma estratégia

Segundo o texto de Gonçalo Calado, publicado hoje no público:
As bolsas para divulgação e comunicação da ciência deixaram de existir no último concurso aberto pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. É uma estratégia de distanciamento entre ciência e sociedade, que retira poder negocial aos investigadores. 
Ler o texto integral, aqui.

A petição a propósito deste assunto pode ser assinada aqui.

EM DEFESA DA CULTURA CIENTÍFICA


Minha crónica no "Público" de hoje:

Nas últimas três décadas a ciência cresceu em Portugal de uma forma explosiva, em resultado não só da disponibilidade de recursos vindos da União Europeia como da inteligência na alocação de uma parte deles, uma fatia pequena no bolo total, mas que alimentou um sector quase inexistente. Basta olhar para os números da PORDATA de crescimento da parcela do PIB destinada à investigação e desenvolvimento, do pessoal activo nesse domínio  e do número de publicações reconhecidas internacionalmente. Neste sector, a nossa posição no ranking europeu já não é, neste sector, de inominável vergonha como era: estamos agora a meio de uma tabela encabeçada pelos países mais ricos. Tudo isso não teria sido possível se os cidadãos não tivessem interiorizado a ideia de que a ciência é necessária e que, sem uma forte aposta na ciência e tecnologia, um país não pode ter sucesso económico. Os meios de comunicação social, os livros de divulgação e os museus e centros de ciência desempenharam para isso um papel fundamental.

Infelizmente, nos últimos anos, pairam sombras sobre o sistema português de ciência e tecnologia. A parcela do PIB que lhe é dedicada tem vindo a descer, o que acresce ao facto de o PIB, ele próprio, ter diminuído. O emprego científico, quer nas universidades quer nas empresas, anda pelas ruas da amargura. Os reitores e os presidentes dos politécnicos, com orçamentos cada vez mais depauperados e constrangidos por um quadro legislativo arcaico, não têm nenhuma capacidade de rejuvenescerem um corpo docente envelhecido. Por outro lado, a economia continua encolhida. Sem quaisquer perspectivas de emprego científico, nas escolas ou nas empresas, no público ou no privado, numerosos jovens com amplas provas dadas, cuja formação foi extremamente onerosa, vêem-se assim desaproveitados na sua terra natal e têm de responder a ofertas do estrangeiro. Embora o fenómeno seja difícil de quantificar, encontramos à nossa volta múltiplos sinais da famigerada “fuga de cérebros”. 

Há soluções? Há soluções parciais. Muitos cientistas poderiam encontrar lugares em tarefas de difusão científica de modo não só tornar a população mais culta e informada, consciente das possibilidades da ciência de conhecimento e transformação do mundo, mas também a aliciar mais jovens para a descoberta científica, uma descoberta que tem de ser continuada, aqui como em todo o mundo, com gente nova, dado o número e a relevância dos desafios ainda por resolver. Uma maior concertação da Fundação para a Ciência e Tecnologia – FCT, o “braço armado” da investigação científica em Portugal, com a Ciência Viva – Agência Nacional de Cultura Científica e Tecnológica parece aqui ser necessária. 

 A cultura científica entre nós já conheceu melhores dias. Um sintoma da falta de atenção da FCT a essa cultura é a recente extinção no seu seio, pela calada de Agosto, de duas áreas indispensáveis a compreensão pública da ciência: a Promoção e Administração da Ciência e Tecnologia, que cobre os vários aspectos da comunicação da ciência, e a História da Ciência e Tecnologia, que tem sido das áreas mais produtivas nas nossas ciências sociais. Estes lados de interface do empreendimento científico com a sociedade foram vítimas do desatino dos cortes, esquecendo que o dinheiro público para a ciência e tecnologia vem dos contribuintes, que estão obviamente interessados em saber o que elas produzem, e esquecendo que a ciência tem uma dimensão histórica, que importa estudar e divulgar. Um recente “Diagnóstico do Sistema de Investigação e  Inovação” publicado pela FCT está cheio de tabelas e gráficos de barras, mas ignora por completo a cultura científica, como se a ampliação desta não fosse condição sine qua non do progresso da ciência. Os seus autores parecem desconhecer que não teria havido o boom da ciência nacional sem o crescimento que houve da cultura científica, em particular o esforço do programa Ciência Viva, que apoia uma rede de centros de ciência espalhados por todo o país. O ex-ministro José Mariano Gago tinha estabelecido que a cultura científica devia beneficiar de 5 por cento do budget de ciência; não sabemos qual é o número do ministro Nuno Crato. Mas, curiosamente, este último fez uma carreira não apenas na ciência pura e “dura”, mas também e com enorme sucesso no seu lado mais “mole”, que é a divulgação e a história da ciência.  Os burocratas da FCT não devem conhecer essa faceta brilhante do ministro e ele também não os deve conhecer, ocupado como anda com os cortes na educação que a troika exige. 

 Na gestão da ciência, como aliás na gestão de qualquer coisa, não há apenas a questão da falta de dinheiro, há também e sobretudo a questão da falta de inteligência. A falta de cultura científica pode custar-nos não apenas a ciência, mas também o futuro.

PS) Quem quiser juntar-se ao Manifesto sobre a Comunicação de Ciência em Portugal, bastará clicar aqui e assinar.

Escrever para impressionar ou para comunicar?

Como é que, segundo Karl Popper, se deve comunicar a ciência? De modo claro e compreensível, do modo mais claro e compreensível que for possível.
E se assim não acontecer? A ciência não avança. Porque a crítica, uma das condições do seu progresso, não se pode exercer. Tão simples quanto isso!

“Há muitos anos, costumava prevenir os meus alunos contra a ideia largamente espalhada de que se vai para a faculdade para aprender a falar e a escrever «de modo a impressionar os outros» e de forma incompreensível. Na altura eram muitos os alunos que chegavam à faculdade com esta ideia ridícula, especialmente na Alemanha. E a maioria dos estudante par excellence. Há poucas esperanças de que venham a alguma vez a compreender que estão errados, ou que há outros padrões e valores — valores como a busca da verdade, a aproximação à verdade através da eliminação crítica do erro, e a clareza. Nem virão a descobrir que o padrão de obscuridade «que impressiona» vai, de facto, contra os padrões de verdade e de crítica racional. Pois estes últimos valores dependem da clareza. Não podemos distinguir a verdade da falsidade, não podemos distinguir uma resposta adequada de uma resposta irrelevante para um problema, não podemos distinguir as boas ideias das ideias banais e não podemos avaliar criticamente as ideias (…).”
Karl Popper (1999). O mito do contexto: em defesa da ciência e da racionalidade (Lisboa: Edições 70), p. 97.

«Escrevi na língua coloquial porque é preciso que toda a gente o leia»

Sobre a tradição de divulgação da ciência e os problemas com que se tem confrontado.

"Galileu afrontou ainda mais a tradição académica ao escrever a Dissertação [Sobre os Copos que ficam em Cima da Água] em italiano, em vez de latim, a língua franca que permitia que a comunidade académica europeia comunicasse entre si.
«Escrevi na língua coloquial porque é preciso que toda a gente o leia», explicava Galileu - referindo-se aos contrutores navais que admirava no Arsenal veneziano, os sopradores de vidro de Murano, os esmeriladores de lentes, os fabricantes de instrumentos e todos os compatriotas curiosos que assistiam às suas conferências públicas. «Sou levado a fazê-lo por ver como os jovens são enviados ao acaso para as universidades para deles se fazerem médicos, filósofos e aí por diante; assim muitos entregam-se a profissões para as quais não estão adaptados, ao passo que outros que estariam indicados são afastados pelos cuidados co a família e outras ocupações distantes da literatura... Agora, quero que eles vejam que, assim como a Natureza lhes dá tanto a eles como aos filósofos olhos com os quais vejam as suas obras, também lhes deu cérebros capazes de as penetrar e compreender»".

Dava Sobel, A filha de Galileu (Círculo de Leitores/Temas e Debates), 2012, p´. 49

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Ensinando "Matemática da realidade" com computadores

Um tema que já tinha abordado anteriormente, brilhantemente apresentado por Conrad Wolfram. Até quando o ensino da matemática, sobretudo nas escolas secundárias, vai continuar a ignorar que existem computadores?

 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Tudo se mistura e confunde

A propósito de alguma falta de reconhecimento da divulgação científica, que tem sido objecto de debate neste blogue.

A divulgação da ciência - que, vindo de longe, ganhou um enorme impulso depois da Segunda Grande Guerra, em grande medida, por causa dela - é fundamental em termos de informação e consciencialização das sociedades bem como nas decisões que podem tomar nos seus mais diversos sectores. Isso é ponto assente.

Porém, quando se fala em divulgação da ciência pensa-se, certamente, na divulgação de conhecimento produzido nas ditas "disciplinas duras" - química, física, biologia... - e na matemática - com estatuto epistemológico próprio - e não nas ditas "disciplinas moles" - a sociologia, a antropologia, a pedagogia...

No que respeita à pedagogia, que é a área que conheço melhor, tornou-se comum dissertar-se, opinar-se sobre os assuntos que trata sem que isso tivesse sido acompanhado da preparação que tal tarefa exige.

Exemplifico: ao ler no Público on line um artigo recente - Quando a escola deixar de ser uma fábrica de alunos - dei conta da mistura de temas, factos e conceitos, das imprecisões, da infiltração do senso-comum no texto... Como muitos outros, este em vez de esclarecer confunde; em vez de informar desinforma, em vez de se aprofundar ideias deixa-as pela rama.

Neste artigo são tratados temas como...
a organização do espaço na sala de aula, a relação professor-aluno, a escola tradicional e a nova, a morte, sobrevivência e/ou mudança da instituição que é a escola, a relação da escola com a sociedade e o mercado de trabalho, a integração das tecnologias da informação e da comunicação no processo de ensino-aprendizagem (que muda o lugar do professor, do aluno e do conhecimento), os filmes que se disponibilizam na internet como forma de aprendizagem, a organização didáctica das aulas, a organização do espaço e mobiliário escolar, as competências que os alunos devem adquirir, a relação teoria-prática, os métodos de ensino, a motivação dos alunos, a alteração do currículo, avaliação da aprendizagem, o ambiente de sala de aula, as artes na educação, os estilos de aprendizagem, a tutoria e a home-shooling, a equidade, a igualdade de oportunidades, a inclusão social, a inovação pedagógica, casos de países, "pedagogias" e escolas de manifesto sucesso, a formação de professores, a relação entre a tutela e os terrenos educativos, a avaliação internacional, o número de alunos por turma, a aprendizagem colaborativa, o trabalho de grupo, a pesquisa e a discussão dos alunos, a autonomia dos alunos, a inter e multidisciplinaridade...
Podia continuar o meu exercício de cotejamento mas paro-o aqui, até porque ele é bastante para se perceber a ideologia que passa ao leitor e que se traduz em verdades inquestionáveis:
o aluno deve ser activo, é preciso mudar a escola porque a sociedade muda, os alunos de hoje são diferentes dos de épocas passadas, é fundamental reforçar a aprendizagem prática, os alunos devem integra-se em comunidades profissionais, a aprendizagem não é "decorar", a mais valia, em termos de aprendizagem do contacto com "vivências reais", deve preferir-se o brincar como forma de aprendizagem, a importância de se trabalhar a auto-estima dos alunos, é preciso que a avaliação se apresente despercebidamente aos alunos e não bem como avaliação, os alunos pode ser espontaneamente imaginativos e a criativos, a arte tem um poder libertador, a diferenciação pedagógica é uma mais-valia, é fundamental respeitar as necessidades individuais de cada aluno...
É possível identificar, nesse artigo, outras concepções de educação, mas também fico por aqui, apenas assinalo que nenhuma é analisada no sentido de se perceber o que está em jogo, qual o seu sentido histórico, social, filosófico... que investigação científica tem desencadeado e com que resultados.

Reconheço que não me fica muito bem assinar este texto, pois é, em certa medida por omissão dos (pejurativamente nomeados) especialistas em pedagogia que a divulgação científica nesta área está no estado que acima ilustrei. A sua responsabilidade neste particular ainda não se fez soar devidamente, sendo que ela devia fazer-se notar junto de jornais e jornalistas, na escrita artigos e livros que as mais diversas pessoas pudessem compreender e debater.

Há, pois, um trabalho imenso pela frente de divulgação do conhecimento pedagógico, ainda que já possamos contar com iniciativas meritórias (de algumas que tenho conhecimento dei conta aqui e aqui).

Flor de Lótus


No universo literário do escritor japonês Yukio Mishima, temas como a fealdade, a beleza, a tenacidade do espírito, a honra, o chauvinismo e o suicídio são assaz frequentes. Aconselho vivamente a leitura da obra variegada (romance, conto, drama, novela e ensaio) e riquíssima deste escritor.

O Templo Dourado é um dos melhores romances que li; seguir os passos do adolescente e gago Mizoguchí e a reflexão sobre a efemeridade da beleza, desde a sua entrada no mosteiro Kinkakuji até ao incêndio do mesmo, é do melhor que há na literatura universal. Este mosteiro, uma das maravilhas do Japão, fora de facto incendiado e reduzido a cinzas em 1950 e dera a Mishima a chama para escrever o romance.

No conto O Sacerdote do Templo de Shiga e o Seu Amor, o escritor leva, a sedução e o anelo de um sacerdote Buda por uma concubina, quase até à volúpia; nele encontrei esta passagem belíssima, onde a flor de lótus é enleada a uma teoria budista do universo:
«Por meio da observação microscópica e da projecção astronómica, a flor de lótus pode tornar-se o fundamento de toda uma teoria do universo e o agente por meio do qual se pode perceber a Verdade. Mas primeiro é necessário saber que cada pétala tem oitenta e quatro mil veios e que cada veio produz oitenta e quatro mil luzes. Além disso, a menor destas flores tem um diâmetro de duzentos e cinquenta yojana. Assim, admitindo que o yojana de que falam os Livros Sagrados corresponde a cento e vinte quilómetros, podemos concluir que uma flor de lótus com um diâmetro de trinta mil quilómetros será uma flor das pequenas.
Cada uma dessas flores tem oitenta e quatro mil pétalas e entre cada uma dessas pétalas há um milhão de jóias, cada uma delas emitindo mil luzes. Sobre o cálice ricamente enfeitado da flor elevam-se quatro pilares decorados com jóias, e cada um desses pilares é cem milhões de vezes mais alto que o monte Sumeru, que se ergue no centro do universo budista. Dos pilares pendem bandeiras, cada uma das quais está adornada com cinquenta mil milhões de jóias e cada jóia emite oitenta e quatro mil luzes, e cada uma destas cores douradas é, por sua vez, variamente reflectida.
A concentração de tais imagens é conhecida como «pensar na Cadeira de Lótus na qual se senta o Buda»; e o mundo conceptual que forma o pano de fundo da nossa história é um mundo imaginado a esta escala.»
Yukio Mishima após uma tentativa malograda de golpe de estado, em 1970, pusera termo à vida; fizera-o por «hara-kiri», uma prática com origens avoengas, dos samurais, e dentro do código de honra tradicional. Antes concluíra aquela que é para muitos a sua obra maior O Mar da Fertilidade, dividida em quatro partes, quatro rios, segundo a explicação do próprio: Dividi a minha vida em quatro rios: o rio dos livros, o rio do teatro, o rio do corpo e o rio da acção, e esses quatro rios desaguam no mar da Fertilidade.

Resta-me sentar sobre a flor de lótus e continuar a ler o mar de Mishima.

BIODIVERSIDADE E GEODIVERSIDADE

Fala-se hoje muito de biodiversidade e ainda bem que assim é. Os biólogos têm sabido dar o devido relevo aos temas das suas investigações. O mesmo não acontece com a geodiversidade, palavra ausente no discurso oficial que, não é demais lembrar, constitui o suporte da biodiversidade, seja à superfície do planeta, seja nas profundezas oceânicas, onde ecossistemas muito particulares vieram revolucionar as nossas ideias sobre a origem da vida.

Numa primeira aproximação, geodiversidade pode ser entendida como o conjunto de todas as ocorrências de natureza geológica, com destaque para rochas, minerais e fósseis (testemunhos de uma biodiversidade passada), dobras e falhas, grutas naturais e galerias de minas, relevos e depressões terrestres e submarinas, vulcões, etc.

Em terra e em condições favoráveis, agentes físicos, químicos e biológicos alteram a capa externa das rochas, dando origem ao solo, definido como um corpo natural, complexo e dinâmico, constituído por elementos minerais e orgânicos, caracterizado por uma vida vegetal e animal própria, sujeito à circulação do ar e da água e que funciona como receptor e redistribuidor de energia solar.

No topo da capa de alteração da rocha, o solo estabelece a fronteira entre os mundos vivo e não vivo
Entidade presente na imensa maioria das terras emersas, na interface da litosfera com a atmosfera e a biosfera, o solo estabelece, assim, a fronteira entre a geodiversidade e a biodiversidade à superfície da Terra. Sem solos não haveria prados, charnecas, tundras ou florestas, nem hortas, searas, montados ou olivais, nem toda a biodiversidade animal que nos rodeia.

Parte da atmosfera que nos assegura a vida é o resultado de uma interacção constante e contínua que sempre existiu entre os seres vivos e a cobertura gasosa do planeta. Muito diferente da actual, a atmosfera primitiva não tinha oxigénio. Foram organismos muito simples, como cianobactérias e algas marinhas microscópicas, que produziram, por fotossíntese, todo o oxigénio que viria a ser necessário à respiração dos animais.

Trata-se de um processo que continua a ser assegurado por todas as plantas que nos rodeiam. É por isso que dizemos que os parques arborizados, no interior das cidades, são os seus pulmões. E é por isso que lutamos pela defesa das estepes e pradarias, das turfeiras boreais e de todas as florestas, de todas as latitudes e altitudes, das quentes e húmidas, como a amazónica, à taiga canadiana e siberiana, pois são elas que fabricam a parte mais importante do ar que respiramos.

As rochas, a água, o ar e os seres vivos ou, por outras palavras, a litosfera, a hidrosfera, a atmosfera e a biosfera conviveram entre si ao longo da história do “Planeta Azul”. Deste modo, a biodiversidade que hoje nos rodeia é uma consequência dessa interacção e, portanto, absolutamente dependente da geodiversidade.

Os recursos minerais, nomeadamente, os minérios de ferro, alumínio, cobre, zinco, chumbo, ouro e muitos outros, bem como as fontes energéticas, sejam elas os combustíveis fósseis (carvão, petróleo, gás natural), a geotermia ou o nuclear, foram e são determinantes na História da Humanidade. A prospecção e captação de águas subterrâneas e o conhecimento dos terrenos, com vista à construção de barragens, pontes, estradas e outras grandes obras de engenharia são outros suportes fundamentais da civilização.

Todos estes domínios da geodiversidade e, ainda, a defesa do ambiente natural e a preservação do património geológico e paleontológico representam aspectos práticos ao serviço da sociedade em desenvolvimento sustentado, com profundas implicações económicas, sociais e políticas, à escala local, regional e global. Acresce ainda, e é bom não esquecer que, nos seus domínios fundamentais, a geodiversidade sempre teve a maior importância no pensamento filosófico, desde a Antiguidade aos nossos dias.

Com tamanha importância na vida em sociedade, não se compreende a mais do que evidente falta de cultura geológica dos portugueses, dos cidadãos mais humildes e iletrados às elites intelectuais mais iluminadas. É claro que há excepções, o que só confirma esta realidade.

A. Galopim de Carvalho

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

AINDA A DUALIDADE ONDA-PARTÍCULA

A dualidade onda-partícula (da mecânica quântica) tem sido referida neste blog, mas creio poder ainda detectar algumas dúvidas sobre o seu significado. De facto, não há dualidade nenhuma: quando as partículas — algo existe, mas pode ser descrito de muitas maneiras — são detectadas, são-no sempre como partículas (no sentido em que a noção de partícula é usada na gíria). A ideia de que as partículas, nomeadamente, os fotões (as partículas de luz) se propagam como ondas é apenas uma ilusão. Podemos fazer uma experiência muito simples para demonstrar a difracção da luz, com um ponteiro laser apontado a um cartão onde fizemos duas fendas com um x-acto (Fig.1).
Se dirigirmos o feixe para uma parede, veremos facilmente as franjas de interferência.    

Fig.1 Esquema da experiência de interferência da luz de um ponteiro laser que passa por duas fendas num cartão.

Esta experiência não é mais do que a réplica da célebre experiência que Young fez em 1803. O que Young observou foi que a luz dá origem a franjas de interferência quando passa através de duas fendas próximas como acontece com uma onda (ver Fig.2.i), daí concluindo que a luz se propaga como uma onda.

Se, na nossa experiência, usarmos um sistema óptico mais sofisticado (hoje em dia possível), nomeadamente um dispositivo capaz de emitir um feixe de luz extremamente ténue, de modo a que haja apenas um fotão de cada vez, no campo da experiência e, se usarmos um conjunto de detectores capazes de detectar um único fotão, podemos observar que, a princípio, os locais de chegada dos fotões, como partículas, parecem completamente aleatórios, e só ao fim de algum tempo se começa a formar o padrão de interferência. Portanto, os fotões são sempre partículas! E chegam inteiros aos detectores — se assim não fosse teriam cor diferente, pois teriam apenas uma parte da energia original. É a distribuição dos locais de chegada, que constitui o padrão de interferência.

 Para melhor entender esta situação, nada melhor do que recordar a série de experiências imaginárias descritas por Richard Feynman no vol. III de ”The Feynman Lectures on Physics”. Delas adaptei as figuras 2 e 3, que mostro a seguir. A figura 2.i) representa uma experiência em que se gera uma onda numa superfície de água, que vai atingir a parede com duas fendas (ou comportas), as quais, quando abertas, são fontes geradoras de novas ondas. Suponhamos que o detector é um dispositivo que mede a altura das ondas e que está programado para dar o valor do seu quadrado, que é proporcional à energia da onda, ou seja, a sua intensidade I. Se fecharmos uma das fendas (1 ou 2), de cada vez, vamos observar as intensidades I1 ou I2 (Fig.2.i.a). Mas se as duas fendas estiverem abertas, a distribuição da intensidade ao longo de x não é a soma das intensidades das ondas geradas em cada uma das fendas, com a outra fechada. Neste caso, as ondas interferem. Uma onda tem altos e baixos, alturas positivas e negativas. Se as ondas provenientes de cada uma das fendas estiverem em fase, as alturas somam-se, se estiverem em fases opostas, subtraem-se e a altura resultante é nula. Com as duas fendas abertas, a intensidade da onda resultante tem um termo de interferência adicional [1](Fig. 2.i.b).


Fig.2. i) Experiência das duas fendas com ondas numa superfície de água e fenómeno de interferência. ii) Experiência das duas fendas com fotões, com electrões ou com quaisquer outras partículas elementares.

Consideremos agora uma experiência com fotões (ou quaisquer outras partículas) (Fig.2.ii). Imaginemos um dispositivo que emite apenas um pequeno número de fotões por segundo, os quais são dirigidos para uma parede com duas fendas e atingem o alvo onde está instalado um conjunto de detectores. Esses detectores, capazes de detectar um fotão de cada vez, estão ligados a um sistema áudio que produz um click por cada fotão que chega e a um dispositivo que gera um ponto luminoso no local de impacto x. Se as duas fendas estiverem abertas, ouviremos os clicks correspondentes à chegada de cada fotão e, ao mesmo tempo, o aparecimento de pontos luminosos. A princípio, a distribuição de pontos luminosos ao longo de x parecerá aleatória — um aqui, outro ali. Ao fim de algum tempo, começaremos a notar o aparecimento de um padrão de interferência, como no caso da experiência com as ondas de água. Note-se que nesta experiência é bem claro que os fotões chegam um a um, e inteiros, aos detectores. Porque vão distribuir-se segundo um padrão de interferência? Como é que cada fotão sabe onde foram ou vão chegar os outros? A situação é idêntica à da onda de água, com a nuance de que a onda é uma onda de amplitude de probabilidade cujo quadrado é uma probabilidade. As equações são parecidas, bastando substituir I por P, a probabilidade.

Poderemos fazer a afirmação: ”cada fotão passa pela fenda 1 ou passa pela fenda 2”? Se a proposição fosse verdadeira, os fotões que chegam ao alvo poderiam dividir-se em dois grupos: os que passam pela fenda 1 e os que passam pela fenda 2. Essa hipótese pode ser testada fechando uma das fendas e deixando a outra aberta. Seja P1 a probabilidade de o fotão passar pela fenda 1 com a fenda 2 fechada, e P2 a probabilidade de o fotão passar pela fenda 2 com a fenda 1 fechada. Nestas circunstâncias, a probabilidade de um fotão passar pela fenda 1 ou pela fenda 2 é, naturalmente, a soma das duas, ou seja, P = P1 + P2. Ora isso é diferente do que se observa quando as duas fendas estão abertas, em que há o termo de interferência adicional. Portanto, a proposição ”cada fotão passa pela fenda 1 ou passa pela fenda 2” é falsa. A proposição verdadeira será necessariamente: ”cada fotão passa pela fenda 1 e passa pela fenda 2”. Cada fotão passa ao mesmo tempo pelas duas fendas! . . .Como se fosse uma onda!

 Se as partículas devem ser descritas como ondas (no sentido acima), porque não se observa interferência numa experiência com objectos macroscópicos, por exemplo, com balas? A resposta é simples. A separação entre as franjas de interferência é da ordem do comprimento das ondas que interferem e, no caso das balas, a separação entre as franjas de interferência seria tão pequena — os máximos e mínimos estariam tão próximos uns dos outros — que não seria possível vê-los. Basta considerar a relação de de Broglie: o comprimento de onda associado ao movimento de uma partícula é calculado pela constante de Planck a dividir pelo produto da massa pela velocidade. Ora a constante de Planck é tão pequena, relativamente às dimensões das coisas à nossa escala, que só partículas com massas também muito pequenas, como o electrão, dão interferência observável. No caso dos fotões, que não têm massa, o momento linear é dado pela energia a dividir pela velocidade da luz e, portanto, o comprimento de onda é obtido multiplicando a velocidade da luz pela constante de Planck e dividindo pela energia. Na figura 3 mostra-se um esquema de uma experiência de duas fendas com balas com massas muito pequenas, onde ainda se observam franjas de interferência mas muito juntas. Se aumentarmos a massa, as franjas ficarão cada vez mais juntas e, a certa altura, deixam de se distinguir, vendo-se apenas a área delimitada pela curva envolvente (Fig.3.b) — é a situação clássica.

 Fig.3. Experiência das duas fendas com balas muito pequenas. a) Probabilidades de chegada quando uma das fendas está fechada. b) Franjas de interferência muito juntas e respectiva envolvente.

 Inúmeras experiências reais têm sido feitas e os resultados têm sempre confirmado a mecânica quântica, nomeadamente, com moléculas com 60 e 70 átomos de carbono, que difractam, literalmente passando, uma a uma e simultaneamente por várias fendas, e chegando inteiras ao detector. Há também fenómenos de interferência quântica macroscópicos em dispositivos envolvendo materiais supercondutores. E experiências recentes (em 2012) com fotões que podem, ou não, ir ao mesmo tempo, por dois caminhos diferentes, sendo sempre detectados como verdadeiras partículas — chegando inteiras aos detectores. O que é ondulatório é algo a que chamamos amplitude de probabilidade e cujo quadrado é uma probabilidade. Também é claro que cada partícula interfere consigo própria!

 [1] Considerando as alturas das ondas provenientes das fendas 1 e 2 como h1 e h2, a intensidade da onda resultante da soma das duas será I = |h1 + h2|^2 e atendendo a que o quadrado da soma de duas parcelas é o quadrado da primeira, mais o quadrado da segunda, mais duas vezes o produto da primeira pela segunda, e ainda considerando que h1 e h2 têm associados factores de fase, vem I = |h1 + h2|^2 = |h1|^2 + |h2|^2 + 2|h1||h2| cosd , em que d é a diferença de fases entre as duas ondas. O último termo é o termo de interferência.

 Luís Alcácer

A EDUCAÇÃO DURANTE O ESTADO NOVO (2)

Segundo texto de uma série de doze, retirados do livro Antes dos Cravos  doo Professor António Galopim de Carvalho (em continuação do anter...