Mais um post convidado de J. Norberto Pires:
O CB2 é um robô criado por cientistas japoneses com o objectivo de estudar o processo de aprendizagem nos humanos. É um projecto muito interessante onde se mistura robótica com psicologia, estudo sistemático do processo de aprendizagem, etc., e que abre um vasto campo de debate sobre o futuro e sobre a nossa relação com máquinas.
O "nascimento" do CB2 - um nome pouco inspirado que corresponde à sigla inglês para "Bebé- -robô com corpo biométrico" - é sobretudo um passo em frente na robótica, uma área em que o Japão tem dado cartas nos últimos anos.
Aliás, a primeira versão do CB2 foi apresentada ao mundo em 2007, mas desde então o bebé cresceu e aprendeu a andar graças aos seus 51 músculos mecânicos, ainda que só com ajuda dos seus "pais humanos".
O CB2, que mede 130 centímetros e pesa 33 quilogramas, também já capaz de "sentir" o contacto humano graças aos seus sensores e reconhecer expressões faciais com os seus olhos, duas sofisticadas câmaras. Esse era aliás um dos objectivos da equipa da Universidade de Osaka, que inclui engenheiros, neurologistas, psicólogos e outros especialistas: que ele aprendesse a ler as expressões faciais e identificá-las como resultado de emoções como a alegria ou tristeza.
"O nosso objectivo é estudar o desenvolvimento humano para compreender melhor como uma criança aprende a falar, reconhecer os objectos e comunicar com os pais", explicou Minoru Asada, o líder da equipa, citado pela AFP.
"Os bebés e as crianças têm programas muito, muito limitados. Mas têm capacidade para aprender mais", salienta. Ou seja, os cientistas esperam que o pequeno robô seja capaz de aprender como um bebé.
Minoru Asada acredita que os progressos conseguidos com CB2 deixam-nos um passo mais perto da existência de robôs humanóides com a capacidade de pensarem por si próprios. Um cenário que é considerado um sonho por uns e uma ameaça por outros.
Tecnicamente muito interessante, e um excelente desafio científico, o CB2 coloca de facto um debate importante que é necessário saber fazer. As máquinas inteligentes, com capacidades cognitívas, são cada vez mais uma realidade que temos de ser capazes de integrar no nosso dia-a-dia. A ciência, aliada à nossa inesgotável vontade e capacidade de desvendar os segredos da natureza, permite-nos estas realizações que de alguma forma colocam em causa muitas coisas que tinhamos como seguras e imutáveis.
J. Norberto Pires
sexta-feira, 8 de maio de 2009
AS DUAS CULTURAS
No dia 7 de Maio de 1959, fez ontem 50 anos, Charles Percy Snow deu a sua histórica palestra Rede na Universidade de Cambridge. Com esta intervenção, cunhou a expressão "As duas culturas", passando-a ao domínio público. Uma cultura era a ciência, representada pelos cientistas e a outra, as humanidades, representada pelos "intelectuais das letras". Snow diagnosticou uma total impossibilidade de estas duas culturas se compreenderem, por não serem capazes de cruzar essa fenda profunda que, culturalmente, as separava.Este diagnóstico cultural tornava-se extremamente claro, segundo Snow, depois do seguinte desafio: "Uma ou duas vezes fui provocado e perguntei [aos intelectuais das letras] quantos deles poderiam descrever a Segunda Lei da Termodinâmica. A resposta foi fria; também foi negativa. No entanto, eu perguntava algo que equivaleria em termos científicos a 'já leu uma obra de Shakespeare'?"
Nessa mesma palestra de há já 50 anos, Snow argumentava que esta falta de convergência entre as duas culturas e a inexistência de cientistas em posições de poder, teria consequências desastrosas para a sociedade moderna.
Passado meio século, e com a crescente tendência para a especialização do conhecimento, não estaremos cada vez mais a aumentar a profundidade desta fissura?
(ver também Literacia científica: à procura do arco-íris)
A MATANÇA DOS PORCOS

Minha crónica no "Público" de hoje:
A matança do porco é, em muitas aldeias portuguesas, uma festa popular. Realiza-se tradicionalmente nos meses mais frios do ano (“No dia de Santo André, pega o porco pelo pé”) uma vez que nessa época a conservação das vitualhas é mais fácil. E quase tudo se aproveita, seja para a salgadeira seja para o fumeiro. Pode o porco estar associado ao sujo (entre nós ainda há quem diga “com licença” quando profere a palavra “porco”), que ele não deixa, seja em costeleta ou em farinheira, de ser uma iguaria bastante apreciada.
No entanto, essa festa de tão grande tradição em terras cristãs é simplesmente inimaginável em Israel e nos países árabes, que nisso não se distinguem. A origem da interdição da carne suína parece residir no terceiro livro da Bíblia, o Levítico, supostamente escrito por Mosés: “Também o porco, porque tem unhas fendidas, e a fenda das unhas se divide em duas, mas não remói, vos será imundo.” Passagens semelhantes encontram-se no Alcorão, sendo obedecidas de modo tão estrito que, em países islâmicos, como o Irão ou o Qatar, o comércio de carne de porco é severamente restringido.
Com a recente erupção da gripe A H1N1, que começou impropriamente por ser designada por gripe suína, o consumo da carne de porco tem diminuído consideravelmente nos países onde era comum. Trata-se de um comportamento irracional pois, tal como a Organização Mundial de Saúde e a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação têm esclarecido, a ingestão de carne de porco devidamente cozinhada não acarreta quaisquer perigos para a saúde humana (os eventuais vírus são destruídos a temperaturas superiores a 70 graus Celsius). As mesmas organizações internacionais não se esquecem de acrescentar que comer carne de animais doentes ou de animais encontrados mortos é um risco para a saúde. Mas esta medida de elementar precaução é válida obviamente para qualquer tipo de carne e não apenas para o porco e para todas as ocasiões e não apenas a de uma epidemia de gripe.
No Egipto, porém, o consumo de carne de porco corre o risco de diminuir para zero, não por escolha das populações, que são maioritariamente árabes, mas por determinação do governo. Este mandou há dias exterminar a totalidade dos porcos do país, em número estimado de cerca de 350 000. Que haja comportamentos irracionais dos indivíduos é um facto conhecido e ao qual já nos habituámos, mas que a irracionalidade ganhe foros de decisão governamental e cause prejuízos graves é algo a que não nos podemos habituar. No Egipto não há até agora um único caso de infecção pela nova gripe e a decretada matança dos porcos parece ser mais um acto de discriminação sócio-religiosa contra a minoria dos cristãos coptas, os descendentes dos egípcios do tempo dos faraós, que perfazem mais de dez por cento da população. Como os coptas, além de comerem com frequência carne de porco, são os proprietários das explorações porcinas, a medida pode visar, em última análise, a sua aniquilação económica, somando-se como “solução final” a toda uma série de perseguições iníquas de que têm sido vítimas. No passado fim de semana os agentes do Ministério da Saúde que tentaram iniciar a grande matança foram recebidos à pedrada nos subúrbios pobres do Cairo, tendo os confrontos degenerado em batalhas campais com a polícia. A guerra terá sido exacerbada pela afirmação inaudita do Ministro da Saúde de que não haveria lugar a indemnizações, pois a carne poderia ser consumida pelos próprios... Brigitte Bardot já escreveu ao presidente Mubarak a interceder pelos animais e seria bom que não estivesse sozinha: não se trata só de defender os porcos, mas também e principalmente de defender os humanos.
Ocasiões como a actual de iminência de uma pandemia são propícias ao espalhamento, para além do vírus, que já de si é perigoso, do medo irracional do vírus, que lhe amplia o perigo. O medo pode gerar monstros, pode acordar os monstros que, em nós, estão adormecidos. E é bom, por isso, que o nosso Ministério da Saúde tenha aqui conseguido conter o medo.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Violência verbal de novo
Eis uma ideia curiosa acerca da boa educação e do cuidado epistémico: estas são virtudes que só são efectivamente usadas ou só podem ser efectivamente usadas em assuntos que nada nos dizem. Se estivemos a falar da composição química dos vinhos ou do que aconteceu no Egipto Antigo, podemos ser imparciais e cuidadosos, bem-educados e pacientes; mas se estivermos a falar do realmente nos diz respeito, desatamos aos berros.
Esta ideia é curiosa por duas razões.
Primeiro, porque revela uma mentalidade provinciana comum, segundo a qual só as trivialidades podem realmente dizer-nos respeito, e por isso só com elas nos ferve o sangue. Este ponto de vista é uma falência da imaginação, uma incapacidade para ver o mundo excepto como cópias de nós mesmos: a ideia é que se a mim só me interessa realmente a cor das cuecas da Britney Spears, é porque quem diz interessar-se por astronomia ou arqueologia é um mentiroso.
Segundo, porque não vê que quanto mais um assunto nos faz ferver o sangue mais a ponderação, a paciência e o cuidado se fazem imprescindíveis — porque sem estas atitudes, a probabilidade de descobrir como as coisas são é diminuta, pois passaremos a vida a pseudoconfirmar o que já pensávamos antes e a bloquear brutalmente as vozes discordantes.
A virtude epistémica consiste em cultivar as atitudes que uma pessoa genuinamente considera serem conducentes à descoberta da verdade das coisas, por oposição à pseudoconfirmação das nossas ideias prévias. Ou seja, é uma mentira afirmar qualquer tipo de genuína curiosidade sobre seja que tema for — das cuecas de Britney Spears à constituição última da matéria passando pela existência de vida inteligente extraterrestre — se ao mesmo tempo não cultivarmos qualquer tipo de virtude epistémica no que respeita a isso que afirmamos interessar-nos. Pois ninguém realmente pode defender que uma boa maneira de descobrir seja o que for acerca de seja o que for é a brutalização do discurso, a atoarda fácil, o latir e fugir.
Finalmente, outro fenómeno curioso é a inveja. Compare-se uma pessoa que se interessa por futebol mas não natação e outra por natação mas não futebol. Nenhuma sente algo de especial pela outra, reconhecendo que têm apenas gostos diferentes. Mas se a segunda preferir antes astronomia, história da Babilónia ou lógica, a primeira tem logo vontade de a destruir, para mostrar que no fundo, no fundo, está tudo ao mesmo nível. Mas se ela pensasse realmente que tudo está ao mesmo nível, esta atitude não seria necessária, pois quando realmente pensa que está tudo ao mesmo nível, como acontece com o interesse por natação, não tem impulsos destrutivos.
O problema é social: as pessoas associam hierarquias sociais a diferentes tipos de interesses. Não há receitas mágicas para melhorar a vida da humanidade, mas uma ideia que iria nessa direcção seria parar de associar a cultura — biologia ou literatura, lógica ou astronomia — a hierarquias sociais. Um matemático não é hierarquicamente superior a um padeiro que só se interessa por gajas boas, cerveja e futebol. Ambos, como pessoas, são iguais. Acontece apenas que um se interessa por aspectos mais sofisticados, mas não superiores, mais subtis, mas não superiores, mais complexos, mas não superiores. E nem valeria a pena dizer que tem o mesmo direito aos seus interesses não fosse o actual clima de falsa igualdade que na verdade é apenas inveja de hooligans ignorantes que por alguma razão não querem assumir que são ignorantes. Mas qual é o problema de ser ignorante? Eu ignoro tudo o que respeita a futebol e a Britney Spears, e não me ofendo se mo disserem na cara.
Finalmente, nos blogs o problema da violência verbal nada tem a ver com distinções subtis relativos ao insulto — casos em que o insulto é bem-vindo, ou artístico ou interessante; nem a violência verbal é defensável só porque também é praticada por este ou aquele académico — afinal o roubo não se torna aceitável, mesmo que seja praticado por um juíz. Isto é apenas tapar o Sol com a peneira, pois a violência verbal das caixas de comentários dos blogs inibe as pessoas mais ponderadas e genuinamente interessadas de comentar, e não desempenha qualquer papel cognitivo relevante: não faz avançar a discussão, não é iluminante, não apresenta contra-exemplos relevantes ou objecções cuidadosamente pensadas. Ou seja, fica-se numa situação hobbesiana de guerra verbal, destruindo-se a possibilidade do debate genuíno sob a mentira da informalidade e da falsa igualdade — pois nem uma nem outra podem existir quando quem berra mais alto bloqueia a participação dos leitores mais informados, ponderados e bem-educados.
VESALIUS: A REDESCOBERTA DA ANATOMIA

Informação recebida do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa:
O Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa convida-o para o workshop internacional «Vesalius: a redescoberta da Anatomia», que integra o projecto de investigação «A Imagem na Ciência e na Arte» no dia 12 de Maio de 2009 no Grande Auditório do Edifício Egas Moniz da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
O projecto «A Imagem na Ciência e na Arte», financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, é promovido pelo Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa, e tem como participantes, além da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e a Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.
PROGRAMA
10h00 | Abertura: Manuel Valente Alves
10h10 | Manuel Valente Alves - “Olhar e conhecer ‐ a imagem do corpo em Leonardo, Vesálio, Dürer e Paracelso”.
10h40 | Joana Mesquita - “O espólio de desenhos anatómicos do Museu de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa”
11h00 | António Barros Veloso - “Andrea Vesalius e a descoberta da Anatomia”
11h30 | Intervalo
12h00 | Adelino Cardoso - "A fábrica do corpo como inteligibilidade do mundo"
Intervalo para almoço
15h00 | Lucy Lions - “Dignity: drawing relationships with the body”
15h30 | Sebastião Resende - “Altercorpus”
16h00 | Silvia Di Marco - “Naked to the flesh. Notes on use of medical imaging in contemporary art”
16h30 | Teresa Levy - “Uma vida sem vida, uma morte sem morte”
17h00 | Intervalo
17h30 | Jacquie Pigeaud - “Vésale. Notes sur l'évolution de l'anatomie artistique”
A carestia dos estudos superiores em Portugal

Novo post sobre educação da autoria de Rui Baptista:
“Os homens são sempre sinceros, apenas mudam de sinceridade” (Tristan Bernard)
A informação que nos chega todos os dias cria em nós um ruído de fundo que faz com que, por vezes, nos percamos sobre a origem das respectivas fontes. Vem ao caso, apenas, o título que retive de uma notícia recente, que não localizo de momento, sobre os custos que impendem sobre o ensino superior nacional só superiorizados pelos que ocorrem na Inglaterra.
Não posso deixar de aproveitar o mote para abordar uma questão que me baila na cabeça há bastante tempo: a carestia do ensino em geral. Ocupando-me do ensino anterior ao ensino superior , não posso deixar de falar do primeiro ciclo do ensino básico onde se requer a aquisição de dispendiosos livros escolares, onde os lápis de cor são substituídos por material de pintura mais adequado a um candidato ao ensino das belas-artes, onde os mais abastados têm máquinas de calcular que fazem a inveja de quem se dedica a estudos superiores de engenharia, onde as explicações se fazem a torto e a direito, onde à simples consulta de livros na sala de aula ou na biblioteca se dá o nome pomposo de “investigação”, etc.
Dando um salto rápido para o ensino secundário, para não tornar muito extensa esta análise, o panorama amplia-se na razão directa da idade dos alunos. Encontramos compêndios que mudam de ano para ano, não possibilitando a sua passagem de um aluno que tenha transitado de ano para um seu irmão que inicie esse mesmo ano. Vemos, na disciplina de Geografia, por exemplo, que se muda de livro apenas por ter mudado o nome da capital de um determinado país, ou por ter havido a sua deslocação para outra cidade, como se não bastasse anotar no próprio livro essa informação. Deparamos com uma correria louca à reprografia da escola para encher a mochila de papéis que atentam contra o alinhamento das vértebras juvenis e que podem originar dores nas costas, atitudes corporais viciosas ou mesmo cifoses. E o que dizer de trabalhos de grupo em que a simples aparência do trabalho contribui para a respectiva valorização? Para não maçar quem me lê, só acrescento que, se o curso pretendido for o de Medicina, os pais ver-se-ão obrigados a pagar um verdadeiro rol das antigas lavadeiras com lençóis de explicações.
Chega enfim o dia jubiloso da entrada na universidade ou no ensino politécnico. Quem não se posicionou no pelotão das melhores classificações, obrigando os que queriam ir para Medicina (até há pouco com emprego garantido à partida e um futuro risonho de um exercício clínico bem remunerado) a desviar a rota dos seus sonhos para a enfermagem, por vezes apenas por uma escassa décima de valor... Mas rapidamente o sonho se torna em verdadeiro pesadelo se não encontra resposta suficiente no sacrifício de um agregado familiar que tendo residência, por exemplo, no Algarve se veja obrigado a mandar o filho estudar para Coimbra onde foi colocado. Começa no ensino superior uma outra saga, com o aluguer de quartos a estudantes que consomem uma parte substancial do vencimento mensal do agregado familiar. E a alimentação? E as propinas? E os livros? E o dispêndio com os trabalhos de licenciatura agora concluídos no 3.º ano de estudos bolonheses, um caminho seguro para o espectro do desemprego? E a necessária continuação de estudos para o mestrado, com vista a obter um trabalho, ainda que preso por arames, correspondente a um total de anos de estudo das antigas licenciaturas com a duração de cinco anos? E a compra da capa e batina tradicional das margens do Mondego e que se fez tradicional noutras paragens académicas em que também se festeja a “Queima das Fitas”?
Mas tudo bem, alguns conseguem. Com este “statu quo” colhem-se dados estatísticos que aumentam a percentagem de estudantes do ensino superior quando comparada a tempos anteriores a 25 de Abril, ainda que à custa impiedosa do extraordinário aumento das despesas familiares, havendo já estudantes universitários que segundo as notícias dos jornais, estão em risco de desistir dos seus estudos, com a provável desculpa governamental de que a culpa foi motivada pela crise económica internacional. Que diabo! Não se pode ter tudo neste mundo... Valha-nos a consolação de ocuparmos o pódio à direita da Velha Albion no campeonato europeu dos países onde a frequência do ensino superior fica mais dispendiosa!
Rui Baptista
Crise moral e sociedade débil
Um texto de João Boavida, antes publicado no jornal As Beiras, sobre a necessidade de se (voltar a) encarar a educação/ensino da moral, tal como se encara a educação/ensino de outras áreas de saber.
“Duas coisas inspiram à mente uma admiração e um temor tanto maiores quanto mais vezes e mais detidamente reflectimos sobre elas: o céu estrelado por cima de nós e a lei moral dentro de nós”.
“Duas coisas inspiram à mente uma admiração e um temor tanto maiores quanto mais vezes e mais detidamente reflectimos sobre elas: o céu estrelado por cima de nós e a lei moral dentro de nós”.Immanuel Kant (1724-1804).
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Já foi dito, mas não é de mais repetir: a crise actual, mais do que económica e financeira, é moral. Pode falar-se de crise moral em muitos sentidos, mas há um que em geral não reconhecemos hoje como um perigo. Mas é. Refiro-me à tendência para um excessivo subjectivismo moral. Ou seja, a ideia hoje dominante de que as questões morais são exclusivamente subjectivas e pessoais. O que conta é o que cada um sente em relação a situações e problemas, e as boas atitudes são as que cada um entende como tal. E como também muitos consideram que os valores dependem da aceitação ou rejeição individual, cada um acha-se com direito a ter os seus, ou até a não ter nenhuns. São assim, consideradas, como legítimas, quase todas as atitudes, desde que, com justificações pessoais, as achemos correctas.
Esta tendência é uma evolução dos filósofos iluministas do século XVIII, sobretudo Kant, que promoveram a autonomia dos cidadãos relativamente às tradicionais tutelas de natureza religiosa e política. Fizeram-no em nome da Razão, e na suposição de que todos os homens tinham uma capacidade racional que era suficiente para captar, no seu intelecto, a lei moral. A razão era capaz de descobrir, em cada um, a lei e a norma. E como a Razão era universal e idêntica em todos, os seres humanos tinham, através da Razão, acesso a essa lei. E a que obedeceriam pela vontade de serem justos e não pelo medo do Inferno ou a esperança do Paraíso. Foi um movimento ideológico e filosófico da maior importância, que tornou o mundo anterior incompreensível para os novos, e o posterior irreconhecível pelos os velhos. Mas originou um enorme progresso humanístico e científico, porque proporcionou, a cada indivíduo, com o estatuto de pessoa moral autónoma, o direito de decidir pela sua consciência, podendo assim ser pessoalmente responsabilizado. As consequências, a nível jurídico, foram também enormes.
Esta evolução, condição da vida moral autónoma, caiu, porém, numa subjectividade e individualização que desvalorizou a dimensão cultural e social da moral. A qual determinou, durante milénios, leis e normas e, portanto, a avaliação dos comportamentos individuais. O nosso tempo tem vindo a desprezar esta dimensão da vida moral e a referida mentalidade já ataca o domínio penal e jurídico.
Mas desprezá-la tem graves consequências. As comunidades são, e sempre foram, condição para uma vida sociável e sustentável do ser humano. E o facto de ter havido nelas, sempre, normas a respeitar, devia levar-nos a pensar que é uma dimensão não desprezível, porque é a condição do funcionamento social e, em última análise, da nossa própria vida. O facto de muitas vezes serem injustas não altera a sua indispensabilidade.
Por razões de dialéctica sociocultural e psicológica, o nosso tempo abomina a educação como socialização, as morais de base social e a regras que os costumes nos impõem. É compreensível que estejamos ainda na fase de reagir a este domínio, porque durou milénios e foi quase sempre excessivo. Mas a dimensão social nos comportamentos, e estes em função das normas sociais, não pode suspender-se nem desaparecer. Pode e deve melhorar-se para mais justiça e igualdade, mas nunca desprezar-se, porque não podemos viver sem ela.
Face à desvalorização que se sente nas conversas e nas atitudes, e à crise mundial que é o resultado da individualismo levado ao extremo, e do desprezo pelo comum, e pelo comunitário como valor; face à moleza das leis sociais e das sanções, consequência já dessa mentalidade, é necessário revalorizar a dimensão social das normas morais. Mesmo que não seja por ora um discurso politicamente correcto, é bom começar a pensar nisso.
Esta tendência é uma evolução dos filósofos iluministas do século XVIII, sobretudo Kant, que promoveram a autonomia dos cidadãos relativamente às tradicionais tutelas de natureza religiosa e política. Fizeram-no em nome da Razão, e na suposição de que todos os homens tinham uma capacidade racional que era suficiente para captar, no seu intelecto, a lei moral. A razão era capaz de descobrir, em cada um, a lei e a norma. E como a Razão era universal e idêntica em todos, os seres humanos tinham, através da Razão, acesso a essa lei. E a que obedeceriam pela vontade de serem justos e não pelo medo do Inferno ou a esperança do Paraíso. Foi um movimento ideológico e filosófico da maior importância, que tornou o mundo anterior incompreensível para os novos, e o posterior irreconhecível pelos os velhos. Mas originou um enorme progresso humanístico e científico, porque proporcionou, a cada indivíduo, com o estatuto de pessoa moral autónoma, o direito de decidir pela sua consciência, podendo assim ser pessoalmente responsabilizado. As consequências, a nível jurídico, foram também enormes.
Esta evolução, condição da vida moral autónoma, caiu, porém, numa subjectividade e individualização que desvalorizou a dimensão cultural e social da moral. A qual determinou, durante milénios, leis e normas e, portanto, a avaliação dos comportamentos individuais. O nosso tempo tem vindo a desprezar esta dimensão da vida moral e a referida mentalidade já ataca o domínio penal e jurídico.
Mas desprezá-la tem graves consequências. As comunidades são, e sempre foram, condição para uma vida sociável e sustentável do ser humano. E o facto de ter havido nelas, sempre, normas a respeitar, devia levar-nos a pensar que é uma dimensão não desprezível, porque é a condição do funcionamento social e, em última análise, da nossa própria vida. O facto de muitas vezes serem injustas não altera a sua indispensabilidade.
Por razões de dialéctica sociocultural e psicológica, o nosso tempo abomina a educação como socialização, as morais de base social e a regras que os costumes nos impõem. É compreensível que estejamos ainda na fase de reagir a este domínio, porque durou milénios e foi quase sempre excessivo. Mas a dimensão social nos comportamentos, e estes em função das normas sociais, não pode suspender-se nem desaparecer. Pode e deve melhorar-se para mais justiça e igualdade, mas nunca desprezar-se, porque não podemos viver sem ela.
Face à desvalorização que se sente nas conversas e nas atitudes, e à crise mundial que é o resultado da individualismo levado ao extremo, e do desprezo pelo comum, e pelo comunitário como valor; face à moleza das leis sociais e das sanções, consequência já dessa mentalidade, é necessário revalorizar a dimensão social das normas morais. Mesmo que não seja por ora um discurso politicamente correcto, é bom começar a pensar nisso.
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João Boavida
BOCAGE E O CAPITÃO LUNARDI

Mais um relato de uma ascensão em balão, esta em verso, pela pena de Manuel Maria Barbosa do Bocage (1765-1805) que ficou extasiado com a proeza do capitão italiano Vicente Lunardi (1759-1806) nos céus de Lisboa em 1794. Foi a primeira ascensão tripulada em solo português. Lunardi, que já tinha protagonizado experiências semelhantes noutros países europeus (foi até o primeiro a subir em Inglaterra a bordo de um balão), ficou tão satisfeito com o acolhimento que teve em Lisboa que fixou aqui residência vindo a falecer em Lisboa. A grafia do poema foi actualizada pelo poeta Alberto Pimenta a partir da primeira edição, mas mantendo as maiúsculas originais (ver o seu prefácio a "O Balão aos Habitantes da Lua", de José Daniel Rodrigues da Costa, Edições 70, 1978). (Na imagem, "Bocage e as Ninfas", um quadro de Fernando Santos no Museu de Setúbal).
Elogio poético à admirável intrepidez, com que, em Domingo 24 de Agosto de 1794, subiu o Capitão Lunardi no Balão Aerostático
Que brilhante Espectáculo pomposo
A meus olhos atónitos se oferece!
Da alta Ulisseia o Vulgo numeroso
Já no amplo Foro de tropel recresce:
Soa o Márcio Concerto estrepitoso,
Que o sangue agita, os ânimos aquece;
Assoma aos ares, neste alegre dia,
Raro prodígio de arte e de ousadia.
O Tejo as ondas cérulas aplana,
Das ledas filhas cândidas cercado.
Vibra o tridente azul com a dextra ufana,
E rebate a braveza ao Norte irado:
Contemplar em silêncio a audácia humana
Quer, ainda que a portentos costumado;
Quer, encostando a face à urna de oiro,
Ver brilhar, ó Ciência, o teu tesoiro.
Lá surge ao vasto, ao fluido Elemento
O Globo voador, lá se arrebata
Sobre as asas diáfanas do vento,
B pelo imenso vácuo se dilata.
O pássaro feroz, voraz, cruento,
Quando rápido voo aos Céus desata,
Quando as nuvens transcende e Febo aí afronta,
Da terra mais veloz se não remonta.
Portentoso Mortal, que à suma altura
Vás no etéreo Baixel subindo ousado,
Que ilusão, que prestígio, que loucura
Te arrisca a fim tremendo e desastrado?
Teu espírito insano, ah! que procura
Pela estrada do Olimpo alcantilado?
Não temes, despenhando-te dos ares,
Qual Ícaro infeliz, dar nome aos mares?
Não temes (quando evites o espumoso
Campo, que é dos tufões Teatro à guerra)
Não temes que num baque pavoroso
Teu sangue purpureie a dura Terra?
Tentas, qual Prometeu, roubar vaidoso
O sacro lume, que nos Céus se encerra?
Ah! Não faças tão medonho ensaio:
Ou teme o precipício, ou teme o raio.
Mas para que pasmado e delirante,
Brados e brados pelos ares lanço.
Se apenas do Fenómeno volante
Com a vista perspicaz o voo alcanço?
Em quanto grito, o aéreo Navegante
Seu rumo segue em plácido descanso,
Munido de ciência, e de constância,
Surdo à voz do terror e da ignorância.
Gamas, Colombos, Magalhães famosos.
Eternos no áureo Templo da Memória,
Sirtes domando os Mares espantosos.
De assombros mil e mil dourais a História;
Mas ir dar leis aos ares espaçosos
É triunfo maior, e até mais glória.
Porque não traz à louca, à cega Gente
Os males de que sois causa inocente.
Lá onde a feia Inveja desgrenhada
Ao Mérito não move horrível guerra,
Tem sobre Chusma inerte, e desprezada
Cospe o veneno, as víboras aferra;
Lá na ditosa e lúcida Morada,
Defesa aos vícios, de que abunda a Terra
Guardai da Glória no imortal Tesoiro
O nome de Lunardi em letras de oiro.
Que importa que no centro de Ulisseia
A luz, claro Varão, não fosses dado?
De um frívolo acidente a louca ideia
Tenha embora poder no Vulgo errado:
Que eu te consagro a dádiva Febeia
Qual se berço comum nos desse o Fado;
Longe, vãs prevenções do Homem grosseiro;
O Sábio é Cidadão do Mundo inteiro.
Mas tu, Cantor de Augusto, e de Mecenas,
Roga a Jove te anime as Cinzas frias,
E, de alvo Cisne renovando as penas,
Desperta o sacro fogo em que fervias;
Desce às Montanhas floridas e amenas,
Onde revivem de Saturno os dias:
D'ali canoro entoa o nobre metro,
E em honra de Lunardi exerce o plectro.
De tornar-lho perene a digna fama
Só tu, só tu convéns à grande empresa;
Vem vê-lo ardendo em gloriosa chama,
Subir ao poder da Natureza!
Para novos prodígios punge, inflama
Seu ânimo e, com a voz em estro acesa,
Sopre-lhe, ó Vate, os bronzes e alabastros:
Depois com ele voltarás aos Astros.
Intrépidos Mortais, oh quantos Mundos
Até agora escondidos e honrados,
Ireis pisar, afoitos e jucundos.
Pelos etéreos Campos azulados!
Não fraquejeis, Espíritos profundos,
E na pasmosa Máquina elevados,
Ide incensar entre os sidéreos lumes
O Congresso imortal dos altos Numes.
É pouco para vós o Mar e a Terra!
Sim, a mais vos conduz o Instinto, a sorte,
Ilustrados Varões, em quanto a Guerra
Rouba, estraga, horroriza o Sul e o Norte;
Em quanto as negras fúrias desencerra
Do tenebroso Inferno a torva Morte,
Vinde à soberba Fundação de Ulisses,
Entre o Povo feliz viver felizes.
Renovai-lhe espectáculos gostosos,
Exulte a curiosa Humanidade
Sobre os Campos de Lísia venturosos,
Vestidos de serena amenidade;
Fugi, fugi aos Climas desditosos
Onde, exposta à voraz ferocidade
De Monstros de ímpia garra, aguda presa,
Estremece, desmaia a Natureza.
E tu, que da loquaz Maledicência
Tens açaimado a boca venenosa,
Tu, que de Racionais só na aparência,
Domaste a mente incrédula e teimosa:
Das fadigas, que exige árdua Ciência,
Em vivas perenais o prémio goza,
E admira em teu louvor estranho e novo
Unida à voz do Sábio a voz do Povo.
Manuel Maria Barbosa do Bocage
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Violência verbal
Uma das características de blogs muito visitados, como este, é a violência verbal de alguns comentadores. Seria um erro, contudo, pensar que isto se deve apenas à psicologia dessas pessoas — pessoas desagradáveis, irritáveis, invejosas, verbalmente violentas e semelhantes a hooligans, tendo prazer em tudo destruir à sua meteórica passagem. Com certeza que alguns destes factores terão o seu peso, mas o fenómeno é mais profundo e poderá estar inscrito na natureza humana.
Os blogs são cada vez mais encarados como tabernas; lugares onde se conversa frivolamente sobre seja o que for, sem nada realmente se procurar saber. Mas há uma diferença que tem consequências drásticas: nos blogs não estamos a ver o rosto das pessoas. Isso torna o insulto mais tentador porque quando se ouve uma ideia com a qual discordamos, mas vemos o rosto da pessoa que a defende, somos mais comedidos em troca.
O aspecto mais profundo de que quero falar contudo, não é este. Afinal, já existia coisas como tabernas muito antes de as pessoas terem desatado a estudar a realidade com atenção. Heródoto, por exemplo, inaugurou a história — mas antes dele já havia muitas histórias, mitos e lendas sobre o passado. O que ele inaugurou foi a tentativa sistemática de descobrir a verdade acerca do passado, com cuidado e calma. O que ele inaugurou foi uma atitude contranatura. Inaugurou a atitude crítica, na história, como os filósofos o fizeram na física, na biologia e na própria filosofia.
Nunca precisámos realmente desta atitude crítica, ao longo da maior parte da nossa história como espécie. Mitos e lendas, disse que disse, boatos, ideias mal amanhadas, impressões superficiais — tudo isto é suficiente para sobreviver. De nada adianta saber matemática profundamente — ou biologia ou filosofia ou história — para a vida brutal de um animal que nasce, luta para sobreviver, reproduz-se e depois rebenta. Por isso, a atitude de avaliar cuidadosamente as ideias e argumentos não é algo que possamos fazer naturalmente; ou aprendemos a fazer isso porque temos curiosidade pelas coisas, ou nada irá impor essa atitude.
E isto sempre foi assim. A única coisa que permite a existência de instituições como as universidades ou as escolas é a autoridade que estas representam e fazem os hooligans encolher-se. Quando Carl Sagan se pergunta o que terá tornado possível a destruição da Biblioteca de Alexandria está a fazer a pergunta errada; a pergunta certa é o que terá tornado possível a sua sobrevivência durante tanto tempo. Quando os Nazis queimavam livros em público era essa mesma hubris destrutiva que a alimentava, e não apenas uma ideologia remota. Os seres humanos não gostam de saber que há outros seres humanos que sabem coisas que eles não sabem porque se dedicam pacientemente a descobrir coisas que eles não valorizam. E basta um hooligan no meio de duzentas pessoas normais para todas se tornarem hooligans.
Às vezes gosto de imaginar como seria a universidade, as conferências ou as revistas académicas de física ou de filosofia caso a atitude tão comum nos blogs aí prevalecesse também. Imagine-se o que seria um professor começar a dar trigonometria, por exemplo, e vários alunos começarem a rir e a gozar com a irrelevância das matérias, ou começar a insistir que há triângulos com cinco lados. Imagine-se o que seria nos artigos das revistas académicas mais prestigiadas os cientistas, filósofos e historiadores passarem a vida a insultar-se e a gozar uns com os outros. Imagine-se, finalmente, o que seria alguém tentar fazer uma ponte e os hooligans desatarem todos a gozar dizendo que não é preciso tantos cálculos complexos, o melhor é começar a fazer já — ou melhor, ir a nado — e depois logo se vê. Na verdade, não é preciso imaginar: veja-se a vergonha pública que é o pretenso debate político nacional, com os políticos e os comentadores a insultar-se o tempo todo nos jornais e na televisão, e os parlamentares a comportar-se como crianças mal-educadas da escola primária.
A ilusão é pensar que é preciso explicar estes comportamentos, quando na verdade o que é preciso explicar, pois é isso que é raro e precioso, é o comportamento racional, paciente, epistemicamente virtuoso que só alguns seres humanos exibem. A injustiça cósmica é que todos beneficiam dessas virtudes epistémicas, sob a forma de confortos tecnológicos e médicos, apesar de só alguns as valorizarem e ainda menos as cultivarem.
EXPERIÊNCIAS COM BALÕES
Este ano passam os 300 anos da primeira experiência de ascensão aeronáutica efectuada por Bartolomeu de Gusmão. É um dos eventos que colocaram Portugal e o Brasil nos livros de história da ciência e da técnica e valerá a pena divulgar a esse propósito outras histórias relacionadas com a aeronáutica e passadas nesses países. Começo por transcrever um ensaio de balonismo, algo semelhante ao de Gusmão, embora bastante mais tardio, que teve lugar em Coimbra sob a direcção do professor Domingos Vandelli e que foi realizado por um grupo de estudantes seus, sendo um deles, Vicente Seabra, de origem brasileira. A experiência teve lugar em 1784, em frente ao Laboratório Chimico (sede do actual Museu da Ciência, que aliás evoca a experiência com uma réplica no interior), cerca de um ano depois dos primeiros ensaios dos irmãos Montgolfier em França.
Escreveu a Gazeta de Lisboa, a 17 de Junho de 1784:
«Esta máquina se achava prestes no laboratório químico da Universidade para ser lançada aos ares a 15 de Junho; mas, querendo os autores dela, que são Tomás José de Miranda e Almeida, José Álvares Maciel, Salvador Caetano de Carvalho e Vicente Coelho de Seabra, todos aplicados às ciências naturais, autorizar esta experiência (que lhes fora encarregada no princípio do ano lectivo próximo passado pelo seu mestre, o Dr. Domingos Vandelli) com a assistência do Exmo Reitor da Universidade, por esta razão se demorou até o referido tempo. E efectivamente no dia 27 assistiram à experiência o dito Exmo Reitor com todo o corpo académico, nobreza e povo, por quem os autores dela foram geralmente aplaudidos». Para além da actualização científica das aulas, veja-se, portanto, como muito antes do acordo de Bolonha já havia entre nós projectos com os alunos. E como o Reitor vinha, em pessoa, assistir aos trabalhos de campo...
REFERÊNCIA:
- A trancrição da notícia foi feita não do original mas do livrinho: "Experiências aerostáticas. Gazeta de Lisboa 1784. Memória sobre a máquina aerostática de Félix António Castrioto", Rio de Janeiro: Dantes, 2008 (com notas de Thomás A. S. Haddel, da Universidade de São Paulo).
Escreveu a Gazeta de Lisboa, a 17 de Junho de 1784:
«Esta máquina se achava prestes no laboratório químico da Universidade para ser lançada aos ares a 15 de Junho; mas, querendo os autores dela, que são Tomás José de Miranda e Almeida, José Álvares Maciel, Salvador Caetano de Carvalho e Vicente Coelho de Seabra, todos aplicados às ciências naturais, autorizar esta experiência (que lhes fora encarregada no princípio do ano lectivo próximo passado pelo seu mestre, o Dr. Domingos Vandelli) com a assistência do Exmo Reitor da Universidade, por esta razão se demorou até o referido tempo. E efectivamente no dia 27 assistiram à experiência o dito Exmo Reitor com todo o corpo académico, nobreza e povo, por quem os autores dela foram geralmente aplaudidos». Para além da actualização científica das aulas, veja-se, portanto, como muito antes do acordo de Bolonha já havia entre nós projectos com os alunos. E como o Reitor vinha, em pessoa, assistir aos trabalhos de campo...
REFERÊNCIA:
- A trancrição da notícia foi feita não do original mas do livrinho: "Experiências aerostáticas. Gazeta de Lisboa 1784. Memória sobre a máquina aerostática de Félix António Castrioto", Rio de Janeiro: Dantes, 2008 (com notas de Thomás A. S. Haddel, da Universidade de São Paulo).
terça-feira, 5 de maio de 2009
DARWIN, EÇA E COMPANHIA

Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (clique para ver melhor).
Resumo do tema pelo coordenador da tertúlia:
"Quem diria, vendo nos antigos paraísos afogueados, o macaco balançar-se nos grossos troncos da batata gigante, que aquele felpudo e hirsuto personagem seria um dia barão, camarista, bispo e redactor de gazetas?"
Esta pergunta era feita por Eça de Queiroz, no final do século XIX, numa carta a um seu amigo incluída hoje na obra "Correspondência". Eça, quando era estudante na Universidade de Coimbra de 1861 a 1866, colega de Antero de Quental e de outros nomes da famosa geração de 70, deve ter ouvido falar de Darwin e deve até ter discutido o livro "Origem das Espécies", de Charles Darwin, publicado em 1859 que viria a fazer correr rios de tinta. O mesmo Eça foi contemporâneo da morte de Darwin em 1882, depois de ter descrito nas "Cartas de Inglaterra" a exposição de um macaco que, em Londres, não quis saber de Darwin. Próximo do final da sua vida, no conto "Adão e Eva no Paraíso", Eça glosou o tema da origem humana: "Adão, Pai dos Homens, foi criado no dia 28 de Outubro, às duas horas da tarde..." Um dos primeiros receptores de Darwin entre nós é um membro da geração de 70, grande amigo de Eça e de Antero: Jaime Batalha Reis, o agrónomo, mais tarde diplomata, que submeteu em 1866 uma tese doutoral em Lisboa que referia Darwin, uma referência só batida em prioridade pela de Júlio Henriques, professor de Botânica da Universidade de Coimbra. Por outro lado, as ideias evolucionistas influenciaram a obra poética e filosófica de Antero de Quental, autor do célebre soneto intitulado "Evolução": “Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo / tronco ou ramo na incógnita floresta...” Também o historiador Oliveira Martins foi um divulgador das ideias evolucionistas, preferindo focar os aspectos da evolução humana.
Nesse tempo, as tertúlias eram frequentes e a ciência informava a discussão literária e filosófica. Pode até dizer-se que Darwin entrou mais em Portugal por essa via cultural do que pelo lado da ciência pura e dura Hoje em dia, ao invocarmos a geração de 70, que haveria de originar o grupo dos "vencidos da vida", várias questões se oferecem à discussão: Porque é que "a vida venceu" esses jovens que, na sua juventude, tão esperançados estavam da mudança do país, fazendo-o sair de um atraso ancestral? Que papel teve a ciência ou a falta dela nessa derrota, que não é só deles mas afinal de todos nós? Como é que a ciência continua hoje a informar a literatura, a filosofia e, mais em geral, as nossas vidas? Questões para debater no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, no local muito perto do sítio onde Eça conheceu Antero, e por ocasião de uma exposição que nos mostra a recepção de Darwin no mundo, em Portugal e, em particular, na Universidade de Coimbra.
É a pós-modernidade…

No final do texto Miss Atom, Carlos Fiolhais não deixa de mostrar alguma estranheza pelo facto de as festividades da Queima das Fitas de Coimbra terem incluído neste ano o concurso Miss Queima das Fitas. Essa estranheza assemelha-se à minha quando, há uns meses, ao folhear o semanário As Beiras, vi a notícia dum concurso de miss que tinha acabado de se realizar numa escola secundária.
Mais estranhei quando percebi que as professoras que me acompanhavam num café de final de tarde não estranhavam a notícia, porque, segundo me explicaram, tais concursos são moda e, nessa medida, toda a escola que se preze tem de ter o seu concurso de miss e… de mister.
Qualquer escola? Mesmo as básicas? Sim, claro, mesmo as básicas.
Apesar da confiança que tenho nessas professoras, incrédula, investiguei o caso: indaguei junto de outros professores e de alunos. Também pesquisei na internet… E, como não podia deixar de ser, confirmei o que havia lido no jornal e me haviam dito.
Mais do que a ideia subjacente à “iniciativa”, que me parece claramente peregrina; mais do que a indiferença, ou conformismo dos professores com quem falei; mais do que o entusiasmo acrítico dos alunos, do tipo “porque não?”; mais, até, do que a exposição em palco e em imagens, ao acesso de todos, de alunos acabados de sair do primeiro ciclo; o que me deixou verdadeiramente perplexa foi a associação feita entre alguns desses concursos e “preocupações de índole social”, que supostamente os desencadeiam. “São espectáculos solidários, ou seja, o bilhete de entrada será um bem alimentar (leite, açúcar, enlatado, entre outros) à escolha dos espectadores”, esclarece uma escola.
“É a pós-modernidade”, como lembrava ontem um leitor do De Rerum Natura… Pois… é a pós-modernidade, onde tudo se mistura, onde tudo está certo, ou, pior, onde nada está certo nem errado, está apenas…
Apesar do impacto deste tipo de ambiente intelectual na formação cognitiva, afectiva, relacional e moral das crianças e jovens ainda não estar completamente esclarecido, à partida, não se percebe como poderá contribuir para a estruturação da sua personalidade.
Nessa medida, na sequência do texto que ontem aqui publiquei, e partindo do princípio (questionável, admito, à luz do pós-modernismo) que a escola é a instituição à qual se imputa a missão de ensinar aquilo que se afigura como fundamental para a manutenção dos padrões civilizacionais e para o desenvolvimento dos sujeitos, insisto na necessidade de, como sociedade, procurarmos responder à pergunta: O que é que a escola deve ensinar?
Mais estranhei quando percebi que as professoras que me acompanhavam num café de final de tarde não estranhavam a notícia, porque, segundo me explicaram, tais concursos são moda e, nessa medida, toda a escola que se preze tem de ter o seu concurso de miss e… de mister.
Qualquer escola? Mesmo as básicas? Sim, claro, mesmo as básicas.
Apesar da confiança que tenho nessas professoras, incrédula, investiguei o caso: indaguei junto de outros professores e de alunos. Também pesquisei na internet… E, como não podia deixar de ser, confirmei o que havia lido no jornal e me haviam dito.
Mais do que a ideia subjacente à “iniciativa”, que me parece claramente peregrina; mais do que a indiferença, ou conformismo dos professores com quem falei; mais do que o entusiasmo acrítico dos alunos, do tipo “porque não?”; mais, até, do que a exposição em palco e em imagens, ao acesso de todos, de alunos acabados de sair do primeiro ciclo; o que me deixou verdadeiramente perplexa foi a associação feita entre alguns desses concursos e “preocupações de índole social”, que supostamente os desencadeiam. “São espectáculos solidários, ou seja, o bilhete de entrada será um bem alimentar (leite, açúcar, enlatado, entre outros) à escolha dos espectadores”, esclarece uma escola.
“É a pós-modernidade”, como lembrava ontem um leitor do De Rerum Natura… Pois… é a pós-modernidade, onde tudo se mistura, onde tudo está certo, ou, pior, onde nada está certo nem errado, está apenas…
Apesar do impacto deste tipo de ambiente intelectual na formação cognitiva, afectiva, relacional e moral das crianças e jovens ainda não estar completamente esclarecido, à partida, não se percebe como poderá contribuir para a estruturação da sua personalidade.
Nessa medida, na sequência do texto que ontem aqui publiquei, e partindo do princípio (questionável, admito, à luz do pós-modernismo) que a escola é a instituição à qual se imputa a missão de ensinar aquilo que se afigura como fundamental para a manutenção dos padrões civilizacionais e para o desenvolvimento dos sujeitos, insisto na necessidade de, como sociedade, procurarmos responder à pergunta: O que é que a escola deve ensinar?
Operacionalizando a pergunta, acrescento outras: Que objectivos concretos devem guiar a escola? Que actividades deve a escola promover? Quem deve tomar decisões no que respeita a assuntos escolares? Que lugar deve a escola ter na comunidade e que relações deve estabelecer com ela?
A tentativa de "aproximação" – talvez seja mais apropriado usar o termo "fusão" – que a escola tem feito nos últimos anos à comunidade regional e local, acompanhada da intromissão desta na vida da escola, não tem tido apenas como consequência a substituição, nos manuais de Língua Portuguesa e de Português, de textos dos nossos melhores autores por textos que “naturalmente” interessam aos alunos por se confrontarem com eles na televisão, nem forçarem-se até à exaustão os problemas de Matemática para que eles encaixem no quotidiano dos alunos, nem, sequer, indicar-se no Currículo Nacional do Ensino Básico que, se deve trabalhar pedagogicamente a partir das experiências e vivências sociais, familiares e pessoais dos alunos… tem tido também como consequência o desnorte que podemos constatar em iniciativas como esta dos concursos a que acima aludi.
As escolas admitem-nas, consentem-nas, apadrinham-nas, acolhem-nas, seja o que for… pois julgam estar a agir de acordo com as orientações curriculares (e não estarão?). Por seu lado, as comunidades apreciam, elogiam, louvam… as escolas que assim procedem, pois percebem, triunfantes, que elas se conformam, adaptam, adoptam as suas opções, características, gostos, modos de pensar e de agir…
Por isso, a uma escola, junta-se outra e outra… nenhuma querendo correr o risco de ficar para trás nesta aplaudida tarefa de “ligação da escola à comunidade”… que se traduz, afinal, em deixar-se ir no seu rumo…
A tentativa de "aproximação" – talvez seja mais apropriado usar o termo "fusão" – que a escola tem feito nos últimos anos à comunidade regional e local, acompanhada da intromissão desta na vida da escola, não tem tido apenas como consequência a substituição, nos manuais de Língua Portuguesa e de Português, de textos dos nossos melhores autores por textos que “naturalmente” interessam aos alunos por se confrontarem com eles na televisão, nem forçarem-se até à exaustão os problemas de Matemática para que eles encaixem no quotidiano dos alunos, nem, sequer, indicar-se no Currículo Nacional do Ensino Básico que, se deve trabalhar pedagogicamente a partir das experiências e vivências sociais, familiares e pessoais dos alunos… tem tido também como consequência o desnorte que podemos constatar em iniciativas como esta dos concursos a que acima aludi.
As escolas admitem-nas, consentem-nas, apadrinham-nas, acolhem-nas, seja o que for… pois julgam estar a agir de acordo com as orientações curriculares (e não estarão?). Por seu lado, as comunidades apreciam, elogiam, louvam… as escolas que assim procedem, pois percebem, triunfantes, que elas se conformam, adaptam, adoptam as suas opções, características, gostos, modos de pensar e de agir…
Por isso, a uma escola, junta-se outra e outra… nenhuma querendo correr o risco de ficar para trás nesta aplaudida tarefa de “ligação da escola à comunidade”… que se traduz, afinal, em deixar-se ir no seu rumo…
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segunda-feira, 4 de maio de 2009
Financiar a cultura
Temos assistido neste blog a uma discussão acesa, ou melhor, a uma troca de insultos, motivados pelos meus artigos fictícios (“Mudanças na Universidade Portuguesa”, “Microsoft Anuncia Reestruturação Radical” e “Wikiversidade dá que falar”). O simples facto de uma pequeníssima parte das pessoas que seguem este blog ficarem tão irritadas mostra que é necessário quebrar alguns tabus e algumas ideias que se tornaram únicas e óbvias. O pensamento único e óbvio esconde muitas vezes falta de reflexão.
Sublinho o que está em causa: a desejabilidade ou indesejabilidade de um dado modelo económico do financiamento da cultura, que me parece errado e que não é discutido, mas meramente objecto de activismo pelos seus acólitos, que se limitam a pressupor que o seu modelo é melhor do que outros, restando agora impô-lo através do pior tipo de luta política irracional: sem discussão genuína, sem reflexão aturada, sem qualquer desejo de imparcialidade ou de objectividade, gritando palavras de ordem e apoiando-se apenas na força bruta do número de convertidos. O que se lê na internet é encómios retóricos ao novo modelo económico, sem reflexão cuidadosa, imparcial, objectiva. Daí ser plausível pensar que o interesse destas pessoas não é a verdade, mas apenas 1) empurrar o mundo na direcção que, sem reflexão cuidadosa, pensam ser a melhor e 2) legitimar a sua prática de anos de usar software, jogos e músicas sem pagar aos criadores.
Tudo o que quero é chamar a atenção das pessoas que ainda não decidiram que já sabem qual é o melhor modelo económico de financiamento da cultura, sublinhando que é preciso pagar aos criadores. E que a maneira mais simples de o fazer é pagar quando usufruímos dos seus trabalhos. Uso um dado software, então pago-o. Leio um livro, pago-o. Oiço uma música, pago-a. Evidentemente, o criador pode querer dar o produto do seu trabalho, por vários motivos, entre os quais o desejo de autopromoção; nesse caso, nada há de errado em não lhe pagar. Mas o que conta é que também não é errado pedir dinheiro pelo trabalho que se teve a fazer um jogo, a compor e gravar uma música ou a escrever um livro — e nesse caso, quem quer usufruir dos produtos desse criador deve pagar.
E pagar a quem? Apenas ao criador?
Não. À rede económica que o apoia. Pode parecer injusto, por exemplo, que de um livro só cerca de 10% reverta a favor do autor. Mas não é necessariamente injusto, pois o autor precisa do editor, que lhe fornece revisores, lhe compõe o livro e o imprime e o distribui, e precisa das livrarias para expor o seu livro, e os livreiros e editores têm de pagar os ordenados a quem nelas trabalha, e tudo o resto. Se o livro for digital, o autor precisa do apoio do editor que faz o mesmíssimo trabalho editorial e precisa depois do trabalho de formatação electrónica e da divulgação em livrarias virtuais de grande exposição, que por sua vez terão de pagar a engenheiros informáticos e a servidores. De modo que o dinheiro que pagamos não alimenta apenas o criador, e seria injusto que isso fosse assim porque o criador precisa da rede económica que o apoia.
Isto é análogo ao que acontece numa universidade. Eu preciso dos serviços das pessoas que limpam e lavam as salas onde trabalho, dos seguranças, dos informáticos, dos bibliotecários. E agradeço-lhes esse trabalho e não quereria que eles trabalhassem de graça para eu poder dar aulas mais baratas. Mas no mundo cultural há hoje a mentalidade de que se podemos pagar algo mais barato — ou nada pagar — que se baseia em trabalho voluntário, então devemos alargar este modelo a tudo. E é esta ideia que é desavisada.
Esta é uma das realidades mais infelizes da mentalidade do gratuito na internet. Sem essa mentalidade, eu, como músico, poderia pôr a minha música de graça na internet, mas as pessoas que a puxassem e gostassem teriam a consciência de me pagar uma fracção do preço de um CD — e eu poderia ser um músico profissional, mas independente. Contudo, isso não é possível porque a generalidade das pessoas vão lá, puxam, ouvem, gostam — e não pagam. O que defendo não é que quem faz isso deva ser preso, mas apenas que se deve explicar às pessoas a necessidade e importância de pagar aos criadores, para procurar baixar a percentagem de pessoas que usufruem do trabalho dos criadores sem pagar.
Contudo, do ponto de vista de quem defende o gratuito, é imoral pagar à cópia; só é moral pagar por um produto cultural antes de o autor o ter feito, porque devemos pagar apenas directamente e previamente o seu trabalho. (É um pouco como argumentar que só é moral pagar à entrada do cinema, porque ainda não vimos o filme, mas não à saída do supermercado, porque já temos o que queremos na mão.) Não ocorre a quem defende esta mentalidade que tanto faz pagar antes de o trabalho estar feito como depois: o que conta é pagar, porque o que conta é tornar economicamente viável o criador. E uma das maneiras óbvias de o fazer é haver uma mentalidade em que as pessoas se sentem obrigadas a pagar o trabalho dos criadores desde que usufruam desse trabalho, sendo irrelevante se o pagam antes ou depois, à cópia ou por atacado, digitalmente ou em papel ou em pedra ou em fumo. O que interessa é tornar economicamente viável o criador e à pergunta “quem deve pagar?” a resposta óbvia é “na medida do possível, todos os que usufruem do seu trabalho”. Isto é perfeitamente compatível com o financiamento público, por exemplo, para que as pessoas mais carenciadas possam ter acesso à cultura (daí o qualificativo “na medida do possível”). Mas não se confunde com a ideia de que é bonito usufruir do trabalho dos outros sem pagar, só porque é fácil fazer cópias.
Duas últimas notas. Se alguém defender que todas as pessoas são louras e eu defender o contrário, não estou comprometido com a ideia de que ninguém é louro. Estou apenas comprometido com a ideia de que nem todas as pessoas são louras. Quando alguém se opõe a quem defende que toda a cultura deve ser gratuita e que tudo na internet deve ser gratuito, essa pessoa não está comprometida com a ideia de que nenhuma cultura deve ser gratuita e que nada na internet deve ser gratuito. Essa pessoa está apenas comprometida com a ideia de que nem toda a cultura deve ser gratuita e que nem tudo na internet deve ser gratuito. Isto devia ser óbvio. Nada tenho contra a ideia de haver livros gratuitos, ou seja o que for, desde que isso não ponha em causa a viabilidade económica dos criadores — e em muitos casos não põe. Há muitos casos em que podemos usufruir gratuitamente de livros, música, ou enciclopédias — quando os criadores respectivos já morreram, ou quando não querem o nosso dinheiro porque são ricos, ou porque vivem de outra coisa. Mas noutros casos põe. O caso mais óbvio é o dos navegadores, como o Firefox: ninguém hoje pode montar uma empresa de software e vender um navegador bom, fiável e seguro precisamente porque os outros navegadores são gratuitos. Tudo o que se pode fazer é aliar-se ao Google, pois o navegador terá de ser financiado através da publicidade. Aplaudir este estado de coisas é pura e simplesmente ridículo, pois nós já sabemos bem o que é um mundo financiado pela publicidade: é a televisão aberta — que, ao que consta, não é propriamente um paraíso cultural.
Finalmente, imagine-se que sou compositor. Um quarteto de cordas começa a interpretar as minha peças ao vivo e é um sucesso. Ganham imenso dinheiro. E nada me pagam, apesar de tanto eles como o público estarem claramente a usufruir do meu trabalho. Sim, eu poderia integrar o quarteto. Mas acontece que sou compositor, e ainda por cima paralítico, e não posso ou não quero fazer espectáculos — do que gosto é de compor e é nisso que sou bom. A mais elementar boa educação, ainda que não a lei — essa é outra questão que é falacioso antecipar a esta — manda que o quarteto partilhe comigo as suas receitas. Desse modo, em vez de andar a pintar paredes ou a fazer pão, posso dedicar-me à composição que tanta gente valoriza. A questão é: o que poderá haver de errado neste modelo? Nada. Mas torna óbvio que é falta de educação alguém puxar a música que ponho na internet gratuitamente, ouvir, gostar, voltar a ouvir, e nada me pagar por isso. E devia também ser evidente que se eu sou Bach e porque Bach está morto, ninguém tem de me pagar coisa alguma para compor — mas temos de pagar aos intérpretes, maestros e engenheiros de som que fizeram as gravações que nos permitem ouvir Bach repetidamente, e sem sair de casa. Portanto, uma vez mais: não se trata de defender a tese radical de que devemos pagar sempre, mas de refutar a tese radical de que nunca devemos pagar.
Sublinho o que está em causa: a desejabilidade ou indesejabilidade de um dado modelo económico do financiamento da cultura, que me parece errado e que não é discutido, mas meramente objecto de activismo pelos seus acólitos, que se limitam a pressupor que o seu modelo é melhor do que outros, restando agora impô-lo através do pior tipo de luta política irracional: sem discussão genuína, sem reflexão aturada, sem qualquer desejo de imparcialidade ou de objectividade, gritando palavras de ordem e apoiando-se apenas na força bruta do número de convertidos. O que se lê na internet é encómios retóricos ao novo modelo económico, sem reflexão cuidadosa, imparcial, objectiva. Daí ser plausível pensar que o interesse destas pessoas não é a verdade, mas apenas 1) empurrar o mundo na direcção que, sem reflexão cuidadosa, pensam ser a melhor e 2) legitimar a sua prática de anos de usar software, jogos e músicas sem pagar aos criadores.
Tudo o que quero é chamar a atenção das pessoas que ainda não decidiram que já sabem qual é o melhor modelo económico de financiamento da cultura, sublinhando que é preciso pagar aos criadores. E que a maneira mais simples de o fazer é pagar quando usufruímos dos seus trabalhos. Uso um dado software, então pago-o. Leio um livro, pago-o. Oiço uma música, pago-a. Evidentemente, o criador pode querer dar o produto do seu trabalho, por vários motivos, entre os quais o desejo de autopromoção; nesse caso, nada há de errado em não lhe pagar. Mas o que conta é que também não é errado pedir dinheiro pelo trabalho que se teve a fazer um jogo, a compor e gravar uma música ou a escrever um livro — e nesse caso, quem quer usufruir dos produtos desse criador deve pagar.
E pagar a quem? Apenas ao criador?
Não. À rede económica que o apoia. Pode parecer injusto, por exemplo, que de um livro só cerca de 10% reverta a favor do autor. Mas não é necessariamente injusto, pois o autor precisa do editor, que lhe fornece revisores, lhe compõe o livro e o imprime e o distribui, e precisa das livrarias para expor o seu livro, e os livreiros e editores têm de pagar os ordenados a quem nelas trabalha, e tudo o resto. Se o livro for digital, o autor precisa do apoio do editor que faz o mesmíssimo trabalho editorial e precisa depois do trabalho de formatação electrónica e da divulgação em livrarias virtuais de grande exposição, que por sua vez terão de pagar a engenheiros informáticos e a servidores. De modo que o dinheiro que pagamos não alimenta apenas o criador, e seria injusto que isso fosse assim porque o criador precisa da rede económica que o apoia.
Isto é análogo ao que acontece numa universidade. Eu preciso dos serviços das pessoas que limpam e lavam as salas onde trabalho, dos seguranças, dos informáticos, dos bibliotecários. E agradeço-lhes esse trabalho e não quereria que eles trabalhassem de graça para eu poder dar aulas mais baratas. Mas no mundo cultural há hoje a mentalidade de que se podemos pagar algo mais barato — ou nada pagar — que se baseia em trabalho voluntário, então devemos alargar este modelo a tudo. E é esta ideia que é desavisada.
Esta é uma das realidades mais infelizes da mentalidade do gratuito na internet. Sem essa mentalidade, eu, como músico, poderia pôr a minha música de graça na internet, mas as pessoas que a puxassem e gostassem teriam a consciência de me pagar uma fracção do preço de um CD — e eu poderia ser um músico profissional, mas independente. Contudo, isso não é possível porque a generalidade das pessoas vão lá, puxam, ouvem, gostam — e não pagam. O que defendo não é que quem faz isso deva ser preso, mas apenas que se deve explicar às pessoas a necessidade e importância de pagar aos criadores, para procurar baixar a percentagem de pessoas que usufruem do trabalho dos criadores sem pagar.
Contudo, do ponto de vista de quem defende o gratuito, é imoral pagar à cópia; só é moral pagar por um produto cultural antes de o autor o ter feito, porque devemos pagar apenas directamente e previamente o seu trabalho. (É um pouco como argumentar que só é moral pagar à entrada do cinema, porque ainda não vimos o filme, mas não à saída do supermercado, porque já temos o que queremos na mão.) Não ocorre a quem defende esta mentalidade que tanto faz pagar antes de o trabalho estar feito como depois: o que conta é pagar, porque o que conta é tornar economicamente viável o criador. E uma das maneiras óbvias de o fazer é haver uma mentalidade em que as pessoas se sentem obrigadas a pagar o trabalho dos criadores desde que usufruam desse trabalho, sendo irrelevante se o pagam antes ou depois, à cópia ou por atacado, digitalmente ou em papel ou em pedra ou em fumo. O que interessa é tornar economicamente viável o criador e à pergunta “quem deve pagar?” a resposta óbvia é “na medida do possível, todos os que usufruem do seu trabalho”. Isto é perfeitamente compatível com o financiamento público, por exemplo, para que as pessoas mais carenciadas possam ter acesso à cultura (daí o qualificativo “na medida do possível”). Mas não se confunde com a ideia de que é bonito usufruir do trabalho dos outros sem pagar, só porque é fácil fazer cópias.
Duas últimas notas. Se alguém defender que todas as pessoas são louras e eu defender o contrário, não estou comprometido com a ideia de que ninguém é louro. Estou apenas comprometido com a ideia de que nem todas as pessoas são louras. Quando alguém se opõe a quem defende que toda a cultura deve ser gratuita e que tudo na internet deve ser gratuito, essa pessoa não está comprometida com a ideia de que nenhuma cultura deve ser gratuita e que nada na internet deve ser gratuito. Essa pessoa está apenas comprometida com a ideia de que nem toda a cultura deve ser gratuita e que nem tudo na internet deve ser gratuito. Isto devia ser óbvio. Nada tenho contra a ideia de haver livros gratuitos, ou seja o que for, desde que isso não ponha em causa a viabilidade económica dos criadores — e em muitos casos não põe. Há muitos casos em que podemos usufruir gratuitamente de livros, música, ou enciclopédias — quando os criadores respectivos já morreram, ou quando não querem o nosso dinheiro porque são ricos, ou porque vivem de outra coisa. Mas noutros casos põe. O caso mais óbvio é o dos navegadores, como o Firefox: ninguém hoje pode montar uma empresa de software e vender um navegador bom, fiável e seguro precisamente porque os outros navegadores são gratuitos. Tudo o que se pode fazer é aliar-se ao Google, pois o navegador terá de ser financiado através da publicidade. Aplaudir este estado de coisas é pura e simplesmente ridículo, pois nós já sabemos bem o que é um mundo financiado pela publicidade: é a televisão aberta — que, ao que consta, não é propriamente um paraíso cultural.
Finalmente, imagine-se que sou compositor. Um quarteto de cordas começa a interpretar as minha peças ao vivo e é um sucesso. Ganham imenso dinheiro. E nada me pagam, apesar de tanto eles como o público estarem claramente a usufruir do meu trabalho. Sim, eu poderia integrar o quarteto. Mas acontece que sou compositor, e ainda por cima paralítico, e não posso ou não quero fazer espectáculos — do que gosto é de compor e é nisso que sou bom. A mais elementar boa educação, ainda que não a lei — essa é outra questão que é falacioso antecipar a esta — manda que o quarteto partilhe comigo as suas receitas. Desse modo, em vez de andar a pintar paredes ou a fazer pão, posso dedicar-me à composição que tanta gente valoriza. A questão é: o que poderá haver de errado neste modelo? Nada. Mas torna óbvio que é falta de educação alguém puxar a música que ponho na internet gratuitamente, ouvir, gostar, voltar a ouvir, e nada me pagar por isso. E devia também ser evidente que se eu sou Bach e porque Bach está morto, ninguém tem de me pagar coisa alguma para compor — mas temos de pagar aos intérpretes, maestros e engenheiros de som que fizeram as gravações que nos permitem ouvir Bach repetidamente, e sem sair de casa. Portanto, uma vez mais: não se trata de defender a tese radical de que devemos pagar sempre, mas de refutar a tese radical de que nunca devemos pagar.
História da matemática

Informação recebida do Centro de História da Ciência da Universidade de Lisboa (na imagem o matemático, físico e filósofo francês Jean d'Alembert, 1717-1783, que ficou também conhecido como enciclopedista):
Conferências em Lisboa pelo Professor Christian Gilain
Christian Gilain, professor emérito da l’Universidade de Paris 6 (Institut de mathématiques), é investigador em história da análise matemática. As suas publicações incidem especialmente sobre a história das equações diferenciais em Poincaré, Cauchy e Condorcet. Recentemente editou o volume das Obras Completas de d’Alembert intitulado Textes de mathématiques pures (1745-1752).
Introdução às duas conferências
Uma imagem corrente do século XVIII é a de um período em que os cientistas forjaram instrumentos matemáticos em ligação directa com as necessidades das outras ciências, mas em que se terão desinteressado do desenvolvimento específico dos conceitos e teorias matemáticas. Esta representação das matemáticas do século XVIII é frequentemente relacionada com as características atribuídas ao Movimento das Luzes: concepção utilitarista das ciências e ausência de especialização. Nas duas conferências consideraremos casos específicos que nos permitirão debater a validade das teses historiográficas acima referidas.
Dia 5 de Maio, às 16 horas
Anfiteatro do Complexo Interdisciplinar da Universidade de Lisboa
Av. Professor Gama Pinto, 2, Lisboa
« Calcul intégral et algèbre au XVIIIe siècle »
Nous étudierons quelques aspects des rapports qui se sont établis au XVIIIe siècle entre un nouveau domaine des mathématiques, créé à la fin du XVIIe siècle, – le calcul intégral – et l’algèbre. Le développement de ces rapports a eu des effets théoriques importants sur chacun de ces deux domaines : apparition du théorème fondamental de l’algèbre, algébrisation de l’intégration des différentielles irrationnelles, création d’une théorie de l’intégration en termes finis, notamment. Nous aborderons aussi la question corrélative de l’évolution de la classification des sciences mathématiques à cette époque (mathématiques « pures » et mathématiques « mixtes »).
Dia 6 de Maio às 17 horas
Faculdade de Ciências de Lisboa
Departamento de Matemática
Edifício C6, Sala 6.2.53
« Le rôle des systèmes différentiels : de d’Alembert à Cauchy »
Nous étudierons l’apparition et le développement de la théorie des systèmes différentiels linéaires chez d’Alembert, entre les deux éditions de son Traité de dynamique (1743 -1758). Si les interactions entre mécanique et analyse sont fortes autour de ce problème – la formulation mathématique des petits mouvements de systèmes dynamiques par des systèmes différentiels -, d’Alembert marque distinctement la place du domaine propre de l’analyse. De plus, il donne une place centrale dans la théorie aux systèmes d’équations différentielles du 1er ordre, auxquels il ramène l’étude des équations différentielles linéaires d’ordre n. Cette démarche originale à l’époque a été reprise, vers 1820, par Cauchy, qui l’a étendue aux équations non linéaires et lui a donné un rôle central dans l’établissement des fondements de la théorie classique des équations différentielles.
O que é que a escola deve ensinar?
O texto de João Boavida Que pode a escola resolver, remete para um problema do nosso sistema educativo, que não sendo exclusivo dele, tem nele particular importância.
Trata-se, como bem sugere João Boavida, de um problema sem sentido, pois se a sociedade pede (ou exige?) à escola que resolva toda e qualquer dificuldade que ela própria cria e não sabe como lhe fazer face, também lhe pede (ou exige?) que as resolva sem se desligar dela, respeitando as suas escolhas, nunca entrando em ruptura com os modos de pensar e de agir estabelecidos.
Por seu lado, a escola tem aceitado entusiasticamente esse desafio impossível, denotando permeabilidade às mais diferentes influências sociais, respondendo a esta, àquela e à outra imposição da família, da publicidade, do desporto, da saúde, da comunicação social... manifestando-se disponível para incluir, este, aquele e o outro assunto, sempre contextualizando na sociedade, é claro!
O resultado tem sido um evidente esvaziamento curricular de áreas de saber estruturantes, como a Literatura, a Cultura Clássica, a História, a Filosofia... Esvaziamento que a sociedade aplaude, pois, na verdade, para que servem, efectivamente, essas áreas no quotidiano social?
Na mesma lógica do utilitarismo imediato cairam a Matemática, a Física, a Química, a Biologia... A opção curricular ao nível das ciências - por pressão da sociedade, que, lá está, vê em algumas áreas científicas a solução para as suas dificuldades -, não é de as retirar, mas de as pôr ao serviço de qualquer coisa. Aqui o esvaziamento curricular é menos evidente, mas é de outra ordem e igulamente preocupante.
E, talvez pareça estranho que se fale em esvazimento curricular, porquanto, os currículos, afiguram-se recheados. A este propósito escreveu Fernando Savater: "todos os anos se incorporam novas disciplinas na oferta académica, que cresce e se diversifica até à exaustão, pelo menos nos planos ministeriais. É obrigatório incluir música, pintura, escultura, cinema, teatro, informática, segurança rodoviária, noções de primeiros socorros, rudimentos de economia política, expressão corporal, dança, redacção e crítica jornalística, etc. (…)."
E, continua: "é possível argumentar a favor de todas estas aprendizagens e de muitas outras, que podem completar excelentemente a formação dos alunos. Tanta oferta educativa tropeça apenas em dois obstáculos fundamentais: por um lado os limites da capacidade assimiladora dos alunos e o número de horas lectivas diárias que conseguem suportar sem sofrer transtornos mentais sérios, por outro lado, a disponibilidade docente dos professores, a maioria deles formados numa época em que nem sequer existiam as matérias em que, anos mais tarde, se virão a converter em mestres (…)."
Suponho que, mais cedo ou mais tarde, a sociedade - entendendo a escola como uma das suas instituições - e a escola - entendendo-se como uma das instituições da sociedade - terão de voltar a pôr a questão: O que é que a escola deve, efectivamente, ensinar? Ou, de modo mais completo: O que é que a escola deve ensinar para que a sociedade mantenha os padrões civilizacionais que conseguiu construir até ao presente?
Pois, ainda nas palavras do filósofo espanhol, "é a civilização e não meramente a cultura, que a educação deve aspirar a transmitir", e se esta for a linha orientadora de entendimento da sociedade e da escola outro rumo teremos de seguir quanto às opções curriculares.
Obra referida: Savater, F. (1997). O valor de educar. Lisboa. Edições Presença. (Republicada em 2006, pelas Edições Dom Quixote).
Trata-se, como bem sugere João Boavida, de um problema sem sentido, pois se a sociedade pede (ou exige?) à escola que resolva toda e qualquer dificuldade que ela própria cria e não sabe como lhe fazer face, também lhe pede (ou exige?) que as resolva sem se desligar dela, respeitando as suas escolhas, nunca entrando em ruptura com os modos de pensar e de agir estabelecidos.
Por seu lado, a escola tem aceitado entusiasticamente esse desafio impossível, denotando permeabilidade às mais diferentes influências sociais, respondendo a esta, àquela e à outra imposição da família, da publicidade, do desporto, da saúde, da comunicação social... manifestando-se disponível para incluir, este, aquele e o outro assunto, sempre contextualizando na sociedade, é claro!
O resultado tem sido um evidente esvaziamento curricular de áreas de saber estruturantes, como a Literatura, a Cultura Clássica, a História, a Filosofia... Esvaziamento que a sociedade aplaude, pois, na verdade, para que servem, efectivamente, essas áreas no quotidiano social?
Na mesma lógica do utilitarismo imediato cairam a Matemática, a Física, a Química, a Biologia... A opção curricular ao nível das ciências - por pressão da sociedade, que, lá está, vê em algumas áreas científicas a solução para as suas dificuldades -, não é de as retirar, mas de as pôr ao serviço de qualquer coisa. Aqui o esvaziamento curricular é menos evidente, mas é de outra ordem e igulamente preocupante.
E, talvez pareça estranho que se fale em esvazimento curricular, porquanto, os currículos, afiguram-se recheados. A este propósito escreveu Fernando Savater: "todos os anos se incorporam novas disciplinas na oferta académica, que cresce e se diversifica até à exaustão, pelo menos nos planos ministeriais. É obrigatório incluir música, pintura, escultura, cinema, teatro, informática, segurança rodoviária, noções de primeiros socorros, rudimentos de economia política, expressão corporal, dança, redacção e crítica jornalística, etc. (…)."
E, continua: "é possível argumentar a favor de todas estas aprendizagens e de muitas outras, que podem completar excelentemente a formação dos alunos. Tanta oferta educativa tropeça apenas em dois obstáculos fundamentais: por um lado os limites da capacidade assimiladora dos alunos e o número de horas lectivas diárias que conseguem suportar sem sofrer transtornos mentais sérios, por outro lado, a disponibilidade docente dos professores, a maioria deles formados numa época em que nem sequer existiam as matérias em que, anos mais tarde, se virão a converter em mestres (…)."
Suponho que, mais cedo ou mais tarde, a sociedade - entendendo a escola como uma das suas instituições - e a escola - entendendo-se como uma das instituições da sociedade - terão de voltar a pôr a questão: O que é que a escola deve, efectivamente, ensinar? Ou, de modo mais completo: O que é que a escola deve ensinar para que a sociedade mantenha os padrões civilizacionais que conseguiu construir até ao presente?
Pois, ainda nas palavras do filósofo espanhol, "é a civilização e não meramente a cultura, que a educação deve aspirar a transmitir", e se esta for a linha orientadora de entendimento da sociedade e da escola outro rumo teremos de seguir quanto às opções curriculares.
Obra referida: Savater, F. (1997). O valor de educar. Lisboa. Edições Presença. (Republicada em 2006, pelas Edições Dom Quixote).
domingo, 3 de maio de 2009
Vale a pena ler
Free: The Future of a Radical Price, de Chris AndersonHyperion, Julho de 2009, 288 pp.
Chris Anderson é director da Wired, e antes trabalhou no The Economist, Nature e Science. O seu livro anterior, The Long Tail, foi um sucesso de vendas. Apesar de este novo livro ser publicado apenas em Julho, algumas das suas ideias estão já disponíveis no seu artigo "Free! Why $0.00 Is the Future of Business", publicado na sua revista Wired. Do seu ponto de vista, a nova economia da Internet augura um futuro radioso, baseado na disponibilização de produtos e serviços gratuitos. A ideia de que este modelo económico será uma maravilha é uma das teses a que me oponho. Vale a pena ler.
MISS ATOM 2009

A indústria nuclear do leste nunca foi sexy. E é para contrariar essa imagem que se organiza todos os anos um concurso "Miss Atom", em que só podem concorrer func
ionárias da indústria nuclear russa. Em cima, uma das concorrentes, tal e qual foi mostrada pela revista "Wired". Mas não foi ela que ganhou: a Miss Atom 2009 é Jekaterina Bulgakowa, 25 anos, na foto ao lado, que é empregada num reactor de investigação no Volga.A propósito de misses: a Queima das Fitas que está a decorrer em Coimbra inclui este ano o concurso "Miss Queima das Fitas" (ganhou uma estudante de Engenharia de Ambiente). Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Quando eu era estudante era simplesmente inimaginável haver Queima das Fitas, quanto mais Miss Queima das Fitas...
UMA VIAGEM AO INTERIOR

Informação recebida da editora Alma Azul (na imagem, paisagem de Monsanto, de Pedro Martins):
A Alma Azul tem o prazer de o(a) convidar para visitar a Exposição A Natureza das Paisagens – Uma Viagem ao Interior, de Pedro Martins, que inaugurou no dia 1 de Maio, na Livraria Alma Azul, em Alcains.
Pedro Martins é fotógrafo há dez anos e encontrou na Natureza a maior referência para o seu trabalho.São algumas dessas fotografias que apresenta nesta exposição que estará disponível durante todo o mês de Maio na Livraria Alma Azul, inserida no Projecto de Fotografia: Em Nome da Beira.Será esta uma boa oportunidade para apreciar o trabalho de Pedro Martins e trocar algumas impressões sobre a fotografia e a Beira.
Caminhos-de-ferro em Portugal: dos carris ao ciber-espaço
Informação recebida da Hemeroteca de Lisboa:
Material circulante no tempo e da maior relevância para a história dos caminhos-de-ferro em Portugal será colocado brevemente na Internet à disposição do público em geral e dos estudantes e investigadores em particular. Referimo-nos a um fundo documental inédito e único, designado por “Comité de Paris”, referente à criação da Companhia Real dos Caminhos de Ferro, pertencente à Fundação Museu Nacional Ferroviário, e à Gazeta dos Caminhos de Ferro de Portugal e Espanha, da colecção da Hemeroteca Municipal de Lisboa.
O projecto, desenvolvido em parceria pelas duas entidades, beneficia do apoio financeiro da Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito da atribuição de um subsídio para “Projectos de Recuperação, Tratamento e Organização de Acervos Documentais”. Contempla a organização, o tratamento e a digitalização dos dois fundos, tendo em vista a sua disponibilização em linha através do sítio da Hemeroteca Digital, e do futuro sítio da Fundação Museu Nacional Ferroviário, a partir de Outubro de 2009.
Parece muito tempo, mas são cerca de 65.000 documentos reportados a 77 anos de actividade da administração francesa e inglesa da Companhia Real dos Caminhos de Ferro que, de 1853 a 1930, assegurou a gestão da empresa em articulação com a administração portuguesa, bem como as imagens resultantes da digitalização da Gazeta dos Caminhos de Ferro de Portugal e Espanha, quinzenário publicado entre 1888 e 1971, cujo primeiro número disponibilizamos aqui. Um património de grande relevância para a história nacional e europeia e que, através do recurso às novas tecnologias da informação, não só fica mais acessível a todos como fica salvaguardado da acção corrosiva do tempo e do manuseamento.
Entretanto, como as duas entidades integram a recém-formada Rede de Excelência Europeia EuropeanaLocal, perspectiva-se também a inserção dos dois fundos, agora em tratamento, na Biblioteca Digital Europeia, a Europeana.
MAIS UMA MÁQUINA IMPOSSÍVEL
As leis da termodinâmica estão de pé porque têm resistido desde há muitos anos a todo o tipo de inventores que engenham dispositivos para as violar. E é por isso que muitas repartições de patentes já nem aceitam máquinas de movimento perpétuo. Este aquecedor de água, com um anunciado rendimento superior a cem por cento, é apenas mais um desses milhentos casos... É uma crença nas leis da termodinâmica, mas estou convencido que elas vão continuar de pé!
OBAMA E A NECESSIDADE DA CIÊNCIA

Vale a pena ouvir ou ler o discurso do Presidente dos EUA Barack Obama na Academia das Ciência Americanas sobre o papel da ciência no mundo de hoje: aqui.
sábado, 2 de maio de 2009
O HOMO SAPIENS VEIO DE ANGOLA?

Na sua sempre interessante coluna WHAT'S NEW, o físico Bob Park informa sobre a origem do Homo Sapiens:
"Out of Africa: Determinação do ponto de partida.
A descoberta em 2003 por Tim White da Universidade de Califórnia Berkeley de um esqueleto parcial do Homo sapiens de há 160.000 anos na Etiópia foi a prova mais forte até hoje de que, de facto, viemos de África. Uma jovem antropóloga molecular da Universidade de Maryland, Sarah Tishkoff, viu que o mapeamento do genoma humano oferece uma nova ferramenta para monitorizar a migração para fora de África do Homo sapiens: estudou "pegadas" no DNA de seres humanos vivos. A equipa de Tishkoff, agora na Universidade da Pensilvânia, que incluiu linguistas e geneticistas, localizou a origem do homem moderno na inóspita fronteira entre Angola e a Namíbia. O estudo, publicado agora na revista "Science", levou investigadores a regiões remotas de África para recolher amostras de sangue de mais de 100 populações distintas. A saída de África ocorreu no Nordeste desse continente, aproximadamente a meio do Mar Vermelho."
Requiem pela Plataforma Sindical?

Mais um post sobre educação - ainda a posição dos sindicatos dos professores sobre a avaliação dos professores - da pena de Rui Baptista:
“Aquele que luta com monstros deve ter muito cuidado para não se transformar também num monstro” (Friedrich Nietzsche)
No jornal Público (30/04/2007), como que para manter o fogo sagrado de uma santa aliança sindical - a exemplo daqueles casamentos de conveniência que se fazem sabendo-se, de antemão, estarem condenados, mais tarde ou mais cedo, ao divórcio -, o grande timoneiro da Plataforma Sindical, Mário Nogueira, anunciou, urbi et orbi, um plano de acção que tanto pode vir a acontecer como a não acontecer. Aquilo que pode ser tomado por uma acção de marketing para a prospecção de um produto a lançar, ou a não lançar, no mercado, em função da análise dos dados recolhidos junto do público alvo.
Mas que plano é esse que anuncia o óbvio da luta da Fenprof em horizontes de discórdia de natureza política, a exemplo da demissão do Partido Comunista de quatro dirigentes do Sindicato dos Professores do Norte por esta força partidária “se imiscuir na vida interna da estrutura sindical“ (Semanário Sol, 24.Nov.2008)? Esse plano, reporta-se a “um calendário de acções que vão prolongar-se pelo 3.º período e poderão mesmo chegar ao início do próximo ano lectivo, em pleno período de campanha para as legislativas”. Ou seja, “nil novi sub sole”!
Como se leu, tempo atrás, na imprensa “Mário Nogueira reconhece que está a travar ‘um combate político-partidário’” (Jornal de Notícias, 8.Nov.2008). Intenção logo reforçada, na mesma altura e local, por Manuel Grilo, seu “compagnon de route”, em exortação bélica que ecoou pelo país fora: “Vamos para esta guerra para ganhar” . Ambos, certamente sabiam, como soube Eça de Queiroz, que “quando se quer fazer marchar um regimento não se lhe explica com a subtileza de um protocolo os motivos que levam à guerra: desdobra-se uma bandeira, faz-se soar um clarim e o regimento arremete”.
Mas, para estragar a estratégia que antecede os dias das grandes batalhas, a Federação Nacional dos Sindicatos de Educação (FNE), integrada na Plataforma Sindical, parece não comungar de idênticas soluções pelo que se deduz das seguintes declarações: “’Estivemos a analisar vários cenários mas ainda não ficou nada decidido’, diz Lucinda Manuela, dirigente da FNE. Para esta federação é mais importante, em tempo de campanha eleitoral, fazer chegar aos partidos o que cada sindicato pensa e informá-los sobre ‘o que é que os professores não querem’ do que fazer acções conjuntas com os outros sindicatos” .
É uma possível borrasca que se abate sobre uma nau que sempre navegou com terra à vista ou fundeada no porto da indecisão e de conveniências ocasionais agora em colisão de metodologia na rota a prosseguir por parte de uma federação sindical tida como a segundo mais forte e representativa do país e sem conotação política que a tolha de ter ideias próprias que cerceiem a sua liberdade de acção.
“Et pour cause”, uma organização sindical sem necessidade do protagonismo que advém de estar integrada numa Plataforma Sindical norteada pela agulha de uma bússola que gira desnorteada conforme os ditames do respectivo porta-voz, que ora fala em representação da Plataforma Sindical, ora fala em nome da Fenprof. No que respeita aos interesses de outros pequenos sindicatos satélites da Plataforma serve esta para lhes dar “uma pingadeira de glória”, como diria Eça, ainda que, por vezes, em denegação de princípios estatutários aprovados em assembleia de sócios.
Esta é uma opinião pessoal, embora sabendo eu que as opiniões de cada um valem o que valem. Cs analistas políticos, apesar de toda uma ciência e anos de tarimba, também sabem que nem sempre aquilo que é parece e nem sempre aquilo que parece é. Nada mais do que isto!
Rui Baptista
Teatro de tema clássico
Festival Internacional de Teatro de Tema Clássico
XI.ª Edição
De 28 de Abril a 26 de Julho de 2009
"Ultrapassada a barreira psicológica dos dez anos de existência, comemorada em 2008 com um programa reforçado, esta edição contempla 22 espectáculos, repartidos por 8 produções distintas, asseguradas por 5 grupos (3 portugueses e 2 espanhóis). O Festival mantém o forte carácter itinerante que o caracteriza e também a edição do livro-bilhete com o texto representado em cada performance."
Os grupos escolares interessados devem contactar a organização do Festival.
Organização: FESTEA - Tema Clássico (Associação Promotora) Associação Cultural Thíasos.
Contactos: Instituto de Estudos Clássicos, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Largo da Porta Férrea, 3004-530 Coimbra 967685736 / 962565797 / 962565710 / 962565810 / teaclass@ci.uc.pt
Estudar, para variar
Um dos aspectos notórios na Internet, especialmente nos blogs, é a atitude de aversão ao estudo, aos livros e a tudo o que seja mais sistemático e profundo do que atoardas supostamente engraçadas. Felizmente, no caso da filosofia, há cada vez mais pessoas a usar a Internet para qualquer coisa de mais sólido. O último desses casos é o interessante blog Estudar Filosofia, de Jaime Quintas, que relata a experiência de um português que resolveu inscrever-se no programa de estudo à distância da Universidade de Londres.
Celestial
Já conhecia o Stellarium (ou o KStars), que me expande o horizonte a três dimensões mas me limita a uma visão análoga à possível com um telescópio. Agora estou rendida ao Celestia que me liberta da Terra e me permite passear entre as estrelas. Experimentem, vale a pena! (mais software astronómico livre aqui)
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Que pode a escola resolver?
Texto de João Boavida, antes publicado no diário As Beiras, sobre as atribuições da escola no presente.
Hoje toda a gente quer que a escola resolva os problemas da sociedade portuguesa. Mas como é que a escola os pode resolver se, de muitos modos, lhe foram tirando capacidade, enquanto lhe iam passando problemas que a ultrapassam?
Isto é, a escola não consegue resolver os vícios culturais que a sociedade manifesta porque esses vícios são o alimento de uma boa parte do pior da cultura portuguesa. E, sendo assim, não são sentidos como vícios, confundem-se com a nossa habitual e profunda maneira de ser, e com os nossos valores. Os valores tal como os vivemos e não como dizemos viver.
Como é que a escola pode puxar para cima, se a sociedade corre pressurosa a ver problemas de televisão que só degradam e puxam para baixo? E como desenvolver o gosto e o sentido estético se a maioria se deleita com telenovelas portuguesas (e muitas brasileiras) que costumam ter audiência na razão inversa da qualidade? O gosto por essas historietas de plástico, com que enternecem filhos, pais e avós, mina e cria bloqueios a uma boa formação. Que esperar das várias gerações que se revêem nestas personagens de esferovite e nestes sentimentos de papelão? E como não se trata de um ou outro programa mais infeliz, mas de um trabalho continuado, sistemático, persistente, semana após semana, que poderemos esperar? Como pode a escola remar contra este contexto cínico e deseducativo dos senhores dos “media”? Não peçam à escola que cole os cacos que a sociedade anda estouvadamente a partir.
Claro que isto não é uma fatalidade, mas seria necessário um trabalho educativo persistente que ninguém está em condições de fazer, salvo aqueles que mais ganham com a deseducação que provocam. Ninguém tem hoje a força que eles têm, e estes, obviamente, não querem estragar o negócio porque, pela sua própria deseducação profunda, para eles o negócio é tudo. Além disso, estão convencidos de que todos pensam e sentem como eles. É certo que as famílias podem fazer muito, e muitas fazem, mas a maioria faz parte do mesmo problema, aumenta e endurece o problema contra o qual as escolas pouco podem fazer.
Hoje toda a gente quer que a escola resolva os problemas da sociedade portuguesa. Mas como é que a escola os pode resolver se, de muitos modos, lhe foram tirando capacidade, enquanto lhe iam passando problemas que a ultrapassam?.
O drama é que a escola não pode resolver os problemas que a sociedade não quer que lhe resolvam, porque vive muito bem com eles. Para grande parte da sociedade os problemas que se diz que a escola deve resolver não o são. Não são problemas a deseducação sexual, que os filmes americanos e a televisão promovem, quase sempre da pior maneira, nem a poluição ambiental, que muitos praticam ainda impunemente, nem o individualismo exacerbado, que se disfarça de competitividade, nem a corrupção, que vamos praticando ou aceitando, nem a falta de respeito pelos outros, nem a falta de brio profissional, nem a pouca recompensa para o trabalho sério e honesto, nem a inveja, que não conseguimos identificar como mediocridade própria, nem a mesquinhez, que só nos permite voos de galinha, nem o compadrio, que liquida a competição honesta e a justiça, nem a selecção falseada em empregos e concursos, que compromete o nosso desenvolvimento, nem o desinteresse pela qualidade, que nos degrada, nem a incapacidade de reconhecer o mérito dos outros, que nos diminui, nem o afã extraordinário a destruir os bons políticos, que nos suicida, etc.
Isto é, a escola não consegue resolver os vícios culturais que a sociedade manifesta porque esses vícios são o alimento de uma boa parte do pior da cultura portuguesa. E, sendo assim, não são sentidos como vícios, confundem-se com a nossa habitual e profunda maneira de ser, e com os nossos valores. Os valores tal como os vivemos e não como dizemos viver.
Como é que a escola pode puxar para cima, se a sociedade corre pressurosa a ver problemas de televisão que só degradam e puxam para baixo? E como desenvolver o gosto e o sentido estético se a maioria se deleita com telenovelas portuguesas (e muitas brasileiras) que costumam ter audiência na razão inversa da qualidade? O gosto por essas historietas de plástico, com que enternecem filhos, pais e avós, mina e cria bloqueios a uma boa formação. Que esperar das várias gerações que se revêem nestas personagens de esferovite e nestes sentimentos de papelão? E como não se trata de um ou outro programa mais infeliz, mas de um trabalho continuado, sistemático, persistente, semana após semana, que poderemos esperar? Como pode a escola remar contra este contexto cínico e deseducativo dos senhores dos “media”? Não peçam à escola que cole os cacos que a sociedade anda estouvadamente a partir.
Claro que isto não é uma fatalidade, mas seria necessário um trabalho educativo persistente que ninguém está em condições de fazer, salvo aqueles que mais ganham com a deseducação que provocam. Ninguém tem hoje a força que eles têm, e estes, obviamente, não querem estragar o negócio porque, pela sua própria deseducação profunda, para eles o negócio é tudo. Além disso, estão convencidos de que todos pensam e sentem como eles. É certo que as famílias podem fazer muito, e muitas fazem, mas a maioria faz parte do mesmo problema, aumenta e endurece o problema contra o qual as escolas pouco podem fazer.
João Boavida
A AVALIAÇÃO DO MAGALHÃES

O primeiro-ministro e secretário-geral do Partido Socialista pediu recentemente desculpas pelo uso em tempo de antena partidário de imagens de crianças de Castelo de Vide a trabalhar (ou a brincar?) com o computador Magalhães. Seja de quem for a culpa do sucedido, o episódio só veio dar razão às vozes que têm dito que o Magalhães, além de um grande negócio, é simplesmente uma grande operação de propaganda. Tudo indica que há mesmo pessoas dentro do ministério da Educação que não sabem distinguir entre governo e partido. Transcrevo do "Público on Line".
"A presidente do conselho executivo do Agrupamento de Escolas de Castelo de Vide, Ana Paula Travassos, explicou ontem ao PÚBLICO que foi contactada telefonicamente pela equipa de apoio às escolas em Portalegre e pelos próprios serviços centrais do ME informando-a de umas filmagens que iriam ser realizadas no âmbito do projecto e-escolinhas. O objectivo do ministério era perceber o impacto que o computador Magalhães estava a ter em termos pedagógicos e como estava a ser utilizado pelos alunos."
Será que isto é avaliação do Magalhães? Não, quando muito, é avaliaçãozinha, uma avaliação manhosa de quem já sabe, ou julga saber, o resultado.
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