domingo, 18 de outubro de 2020

PORTUGAL, PAÍS DE PARADOXOS

 


Fora da observação dos factos e da essência dos fenómenos, o espírito não pode obter nenhuma soma de verdade” (Eça de Queiroz).

Há muitos muitos anos atrás, contava-me um amigo a seguinte estória:

No norte de África estava um desgraçado amarrado a uma árvore com o corpo cheio de sulcos de chicote com as feridas cobertas de moscas que lhe aumentavam o sofrimento. 

Inconformado com esta selvajaria um europeu que por lá ia a passar pegou num ramo de folhas de  árvore para as sacudir. Com voz quase imperceptível roga-lhe o desgraçado: “Não faça isso que  estas estão quase saciedades e outras que venham serão bem piores!”

Em período de eleições, ocorre-me sempre este cenário. Talvez por isso, para determinadas pessoas votar em Marcelo para  as próximas presidenciais é o mesmo que votar em Costa, são eles unha com carne nas medidas que que vão sendo tomadas qual coro de igreja bem afinado. Em consequência pouco me espanta porque, segundo Bergson “não existe cómico fora do que é propriamente humano”, o facto de tanta gente dizer muito mal do Partido Socialista e menos de Marcelo e, paradoxalmente, à boca das urnas votarem paradoxalmente neles!

Proponho, portanto, em nome da coerência e da rotação da governação de um clima democrático,  que continuem a venerar Costa mas não votem no PS. Assim, sim, haverá coerência entre os actos e as palavras, para um governação séria, sem mentiras e sem sofismas, em mãos honradas para que “o dinheiro público não seja o dinheiro que o governo tira aos que não podem escapar e dá aos que escapam sempre”, segundo Milton Friedman.

Outro paradoxo reside em termos um regime republicano desde idos de 1910 e vivermos, em nome da verdade, actualmente numa espécie de regime dinástico em que a governação é repartida por familiares chegados como se a  arte em bem governar estivesse inscrito no código genético em herança de pais para filhos ou por contágio entre marido e mulher, mas tendo  como resultado abortivo, porquanto no dizer de António Aleixo: “Há tanto burro a mandar / Em homens de inteligência / Que, à vezes, chego a pensar / Que a burrice é uma ciência”.

Para não me alongar com casos de corrupção que se assemelham ao rol imenso de peças roupas malcheirosas lavadas no rio por lavadeiras de antanho, só sendo do conhecimento público por serem noticiadas por gente com princípios morais, éticos e de coragem para porem os seus lugares em jogo na SIC, donde são corridos como, por exemplo, o caso mais recente, de José Gomes Ferreira.

E porque, infelizmente,  nadamos desnorteados  no mar imenso, tenebroso,  desconhecido e proceloso do corona vírus, esquecimento imperdoável meu seria não me referir a duas “personas” que esbracejam por se manterem à tona de água, pese embora os alvitres públicos para a sua saída.

Refiro-me, como é óbvio, à ministra da Saúde e à respectiva directora geral, respectivamente Marta Temido e Graça Freitas que se defendem e amparam costas contra costas como no jogo do pau desdobrando-se em justificações injustificáveis, cujos nomes se prestam ao gracejo fácil  de Marta Tremida e Desgraça de Freitas.

Várias  vezes tenho lido proposta a demissão de ambas, de que eu fui um dos proponentes mais antigos, a saída  de Marta Tremido, dias atrás, por David Justino, vice-presidente do PSD, referindo-se a esta pandemia como um pandemónio, também aqui me tenho por padrinho por julgar (dir-me-ão se erradamente ou não) ter sido minha a pia baptismal da cerimónia da denominação de pandemónio a este “status quo”.

Claro que ambas mudaram desde a sua nomeação para cá: Graça Freitas de  indumentária de avozinha de aldeia de carrapito no alto da cabeça  reapareceu com lenços ao pescoço de cores garridas e cabelo tratado com esmero de cabeleireiro profissional de créditos firmado e afirmados. Por seu turno, Marta Temido de ares de defunta surgiu remoçada com um sorriso de orelha a orelha e um corte de cabelo “à garçonete” tendo como possível desculpa que o mal virótico que assola Portugal é mal que se encontra espalhado no mundo inteiro desde a poderosa América a uma China em despique de poder com ela, desde os Montes Urais à Patagónia, desde o rio Tamisa ao Amazonas, desde os os arranha-céus do Dubai às palhotas do continente africano, tentando encontrar lenitivo no mal dos outros com os quais, egoisticamente, como é costume dizer-se,  se pode bem.

Contrariando o dito de mais vale só do que mal acompanhada aparecem elas em conferências de imprensa como que geminadas a dizerem a mesmíssima coisa com o  ámen final em uníssono de ambas.

Solidariedade bem rara  de encontrar no meio feminino em  paradoxo  de um país em que, em chiste triste e previdente do brasileiro Millôr Fernandes, “acabar com a corrupção é objectivo de quem ainda não chegou ao poder!”

Vivemos hoje num mundo frágil e maltratado construído em paredes arquitectónicas de uma civilização em perigo de ruir e em que toda a realidade, para Álvaro Campos “é um excesso, uma alucinação extraordinariamente nítida”.

Compete ao cidadão de hoje ser uma sentinela alerta para esta situação tentando, na medida da possibilidade humana, deixar aos vindouros um horizonte livre de nuvens de borrasca que ameaçam o seu futuro e em que o vento da esperança, como soe dizer-se, é a última a morrer, varrendo bem para longe um pesadelo apenas sonhado.

É nesta capitosa prosa queirosiana que eu me embebedo em críticas políticas e sociais desse tempo hoje revividas por mim numa perspectiva pessoal, como tal discutível, embora apoiada no facto defendido pelo autor de “ Os Maias", de  que “fora da observação dos factos e da essência dos fenómenos” tudo quanto se diga não passa de pura especulação. Ou haverá, quando muito, fundamentos arrevesados que servem de bandeja a interesses do Partido Socialista e/ou  de Marcelo.

Mas isso é outra conversa que tem o nome de partidarite ou paixão por certas figuras públicas qual patologia inflamatória crónica de difícil, ou mesmo impossível tratamento, ainda que com corticóides com efeitos adversos para o organismo, porque contra factos não há argumentos apenas inócuas panaceias como, por exemplo, querer meter o Rocio na Rua da Betesga. Isto é, um último paradoxo de um país a abarrotar de paradoxos!

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