terça-feira, 27 de outubro de 2020

A VELHICE

 Texto de Lobo Antunes, intitulado "A velhice, por mim  dedicado aos "jovens" quase nonagenários do meu tempo,  retratados pela máquina de prosa implacável de Lobo Antunes,  sem "photoshop",  e em momento de dolorosa verdade com a boca  a saber  a papéis de música, como soe dizer-se,  por ele ser fumador inveterado. Só me resta saber se apenas acende um só fósforo quando se levanta de manhã ,  a exemplo de um médico amigo, de Lourenço Marques, fumador inveterado,  que o fazia para manter a chama que lhe permitisse acabar o dia com uma mesma beata a um dos cantos dos lábios. A única diferença que em mim noto, é não fumar, nem nunca ter fumado,  por ter uma mãe que não tolerava o fumo do cigarro de  homens de barba rija  ou de sufragistas de calças que despontavam no horizonte  da modernidade"A VELHIA VELHI
Texto de Lobo Antunes, que festeja hoje 76 anos de idade, intitulado "A velhice", por mim dedicado aos "jovens" quase nonagenários do meu tempo, retratados pela máquina de prosa implacável de Lobo Antunes, sem "photoshop", e em momento de dolorosa verdade com a boca a saber a papéis de música, como soe dizer-se, por ele ser fumador inveterado. Só me resta saber se apenas acende um só fósforo quando se levanta de manhã, a exemplo de um médico amigo, de Lourenço Marques, fumador inveterado, que o fazia para manter a chama que lhe permitisse acabar o dia com uma mesma beata a um dos cantos dos lábios. A única diferença que em mim noto, é eu não fumar, nem nunca ter fumado sequer, por ter uma mãe, não sei se por hipocondria, que não tolerava o fumo do cigarro dos homens ou de sufragistas de calças que despontavam no horizonte da modernidade! Transcrevo o supracitado texto:
 
A VELHICE
Devo estar a ficar velho: as Paulas Cristinas têm mais de 20 anos, os Brunos Miguéis já vão nos 15, as Kátias e as Sónias deram lugar a Martas, Catarinas, Marianas. A maior parte dos polícias são mais velhos do que eu. Comecei a gostar de sopa de Nabiças. A apetecer-me voltar mais cedo para casa. A observar, no espelho matinal, desabamentos, rugas imprevistas, a boca entre parêntesis cada vez mais fundos. A ver os meus retratos de criança como se fosse um estranho. A deixar de me preocupar com o futebol, eu que sabia de cor os nomes de todos os jogadores do Benfica (…). A desinteressar-me dos gelados do Santini que o Dinis Machado, de cigarrilha nas gengivas achava peitorais.
Se calhar, daqui a pouco, uso um sapato num pé e uma pantufa de xadrez no outro e vou, de bengala, contar os pombos do Príncipe Real que circulam, de mãos atrás das costas como os chefes de repartição, em torno do cedro. Ou jogar sueca, com colegas de boina, na Alameda Afonso Henriques de manilha suspensa no ar, numa atitude de Estátua de Liberdade. Quando der por mim, encontro o meu sorriso na mesinha de cabeceira, a troçar-me, num copo de água, com 32 dentes de plástico. Reconhecerei o meu lugar à mesa pelos frasquinhos dos medicamentos sobre a toalha, que me farão lembrar as bandeiras que os exploradores antigos, vestidos de urso como os automobilistas dos tempos heróicos, cravavam nos gelos polares.
Devo estar a ficar velho. E no entanto, sem que me dê conta, ainda me acontece apalpar a algibeira à procura da fisga. Ainda gostava de ter um canivete de madrepérola com sete lâminas, saca-rolhas, tesoura, abre-latas e chave de parafusos. Ainda queria que o meu pai me comprasse na feira de Nelas, um espelhinho com a fotografia da Yvonne de Carlo, em fato de banho, do outro lado. Ainda tenho vontade de escrever o meu nome depois de embaciar o vidro com o hálito.
Pensando bem (e digo isto ao espelho), não sou um senhor de idade que conservou o coração de menino. Sou um menino cujo envelope se gastou".

4 comentários:

  1. O grande problema é quando se está rodeado de Vascos e Beatrizes. Mais de muitos anos... Só vascos e beatrizes... Um deserto de estranhos conhecidos sem nada dentro dos parêntesis, sem sapatinhos de cristal nem vestidos de baile, sem coração nos peitorais, sem passarinhos nos peitoris... Só uma janela cheia de paisagem por fora, que quero lá saber que seja por fora e que seja paisagem porque eu vivo é cá dentro e já não me apetece gastar o hálito na vidraça para escrever o meu nome ou outra mentira qualquer. Devo estar a ficar velha.
    Não gosto de sopa de nabiça, não gosto de sapatos, não gosto de pantufas, não gosto de sorrisos de espelho, não gosto de retratos de plástico, não gosto de mãos atrás das costas, não gosto de casamenteiros e detesto lugares marcados nas mesas com toalhas de xadrez.
    Sou um envelope cuja menina se gastou.

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  2. Atrevo-me, com receio natural, em responder ao seu comentário, dando comigo a tentar não deslustrar o “envelope de uma menina” que se lamentou de um presente em contradição com uma prosa poética cheia de viço que aflora em antítese com um testemunho que adivinho não se perfilar com uma realidade triste e inglória.

    Isto porque por mais que indague na sua prosa, que rescende a poesia, não encontro nela, no dizer do poeta luso-moçambicano, Reinaldo Ferreira, um “voo rumo a nada”, apenas a memória de uma vida saudosa com todas as possíveis alegrias e tristezas vividas em plenitude.

    Nesta minha digressão abusiva por uma vida que não a minha, assumo o receio de me ter feito Ícaro voando mais alto que me era permitido aproximando-me perigosamente do astro-rei que o bom senso me aconselhava a não fazer pelo trambolhão que se ficaria a dever a frágeis asas, as minhas, num assunto em que muitas coisas foram escritas e outras ficaram por escrever.

    Que me seja perdoado o ter querido ser Apeles sem passar de um sapateiro que não devia ter ido além da sovela destoando, portanto, do mistério do seu texto que devia ser lido nas entrelinhas do seu encanto sem qualquer desvirtuamento! Se o houve, juro ter sido involuntário por falta de arte prosadora e mérito interpretativo meus!

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  3. Talvez seja só uma impressão. Esta modelação da matéria expandida de luz. Talvez nem luz seja. Pontos evanescentes que logo se apagam. Formas distorcidas, voltadas para baixo, dessubstanciadas. Porque a noite redobra o tempo para lá de qualquer essência. E tudo é verdadeiramente noite. Uma noite irreversível e continuada que configura e reconfigura espaços e vazios e matéria e luz. Não importa o sentido ou o acaso. Virtualidades, tal como o espírito - uma modelação da matéria expandida de luz que talvez nem luz seja...
    Anjo sem asas. Na cruz. Tornou-se um qualquer por causa da noite infindável e de Deus ser circular na sua pulsão de morte porque morre sempre e, por isso, é a noite. E nós somos como Ele, semelhantes, multidões solitárias, ocupando sonhos de existir.

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