quarta-feira, 20 de maio de 2015

“DEIXEM-NOS FICAR”


Minha crónica no Público de hoje:

Agora que se aproximam as eleições legislativas e presidenciais, um sinal muito preocupante sobre o estado da democracia portuguesa acaba de ser publicado no sítio da Presidência da República. Um estudo sobre as situações e atitudes dos jovens portugueses da autoria de investigadores do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa apurou que 70% dos jovens nacionais entre os 15 e os 24 anos consideram a hipótese de emigrar. A razão é compreensível: 38% dos inquiridos nessa faixa etária estão sem emprego há mais de um ano, enquanto na faixa etária entre os 25 e os 34 anos essa percentagem se eleva para 53%.

Não admira, por isso, que os jovens estejam descrentes em relação à nossa democracia. Só 17% dos jovens entre os 15 e os 34 anos consideram que ela funciona bem, cerca de metade dos que diziam o mesmo num estudo semelhante de 2007. Os números são impressionantes: 57% dos jovens entre os 15 e os 24 não se interessam nada por política, cerca do dobro do que acontecia em 2007. Se essa tendência se mantiver, em breve serão 100%! Os números respeitantes à participação cívica dos jovens vão também em triste queda: entre os 15 e os 34 anos, só 4% participam em partidos, 4% em sindicatos e 6% em associações profissionais (em 2007 esses números eram, respectivamente, 14%, 12% e 20%, isto é, o seu envolvimento em grupos de participação cívica caiu para cerca de um terço).

Não são aliás só os jovens que estão insatisfeitos com a política lusitana. Num inquérito europeu de 2013 só 22% da nossa população se encontrava satisfeita com a democracia, figurando Portugal nos últimos lugares, entre o Kosovo e a Rússia (no topo da lista estão a Suíça e a Noruega, com 85% e 84% de cidadãos satisfeitos).

Embora inquéritos deste tipo sejam elucidativos, os seus resultados estão longe de surpreender. Bastava ir às recentes festas da Queima das Fitas para verificar que os estudantes viviam os últimos dias antes da partida para o estrangeiro. No cortejo da Universidade do Minho, a queima chama-se “enterro da gata” e o tema do enterro deste ano era “a gata deu à sola”. Lia-se num carro do cortejo: “Deixem-nos ficar”. Os pais de uma finalista declararam ao Jornal de Notícias: “Espero que Passos não a mande para fora.”

É sintomático este depoimento. De facto, foi Passos Coelho quem incitou à emigração juvenil, propalando umas balelas sobre a universalidade dos portugueses. O primeiro-ministro ainda há pouco elogiou publicamente Dias Loureiro porque ele “viu muitas coisas por esse mundo fora”. O mundo que esse ministro e conselheiro de Estado de Cavaco Silva (entre uma coisa e outra administrador do Banco Português de Negócios) viu é Angola e Cabo Verde.

Com certeza que, para jovens em formação, circular é uma óptima opção. Mas já é muito mau se essa opção for a única. E é pior quando o regresso não tem qualquer hipótese. Nestes tempos sombrios em que metade da ciência nacional foi purgada pela dupla Passos Coelho - Crato, os casos que me chegam de fuga de cérebros são inúmeros. Conheço uma estudante de doutoramento da área da astronomia que não teve bolsa da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, mas foi escolhida pela União Astronómica Internacional para um lugar no Japão. E recebi há dias esta mensagem de alguém que não conheço: “Sou um jovem de 30 anos feitos em Março, que, devido à conjuntura socioeconómica e ao clima de guerra silenciosa em que o Estado se apodera de tudo quanto pode, tive que abandonar o país. Não aguentava mais viver onde não me eram dadas quaisquer oportunidades de emprego. O meu Portugal é governado por pessoas que pensam única e exclusivamente em si. Estou a viver em Inglaterra e acabo de me candidatar ao doutoramento em Psicologia.”

E que diz a isto tudo o Presidente Cavaco Silva, que referiu o estudo do Instituto de Estudos Sociais nos seus últimos Roteiros do Futuro, intitulados Portugal e os Jovens - Novos rumos, Outra esperança? Declarou em bom politiquês que “é fundamental desenvolver uma estratégia vocacionada para a criação de emprego qualificado e para a credibilização das instituições e seus protagonistas”. E sobre a apatia cívica dos jovens: “De uma vez por todas, é imperioso ter consciência da gravidade deste fenómeno e da necessidade premente de agir”. Lê-se e não se acredita. Pois não está ele numa instituição e não é ele protagonista? E não esteve ele em instituições e não foi ele protagonista? Cavaco Silva está na política há mais de 35 anos (foi ministro das Finanças em 1980 e 1981, primeiro-ministro de 1985 a 1995 e Presidente da República de 2006 até hoje), mas só agora vê premência de agir.

O regime caiu no abismo da indiferença, por vezes da aversão, por parte dos cidadãos que nasceram no seu tempo político. Não perceberá que simboliza melhor que ninguém uma democracia em desagregação?

2 comentários:

  1. Culpem o naturalismo racionalista que sabe o que é o melhor para nós. Esta sociedade está podre, especialmente o seu núcleo. Não há cura para isto, vai ter de ir abaixo e crescer de novo.

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  2. Que sentido faz falar da taxa de desemprego entre os 15 e os 24 anos se a escolaridade obrigatória é até aos 18 anos?

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