segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O castelo de areia que é a educação

Texto que nos foi enviado pelo nosso leitor César Rodrigues a propósito de um artigo recente do jornal Público: Um nível de literacia elevado pode valer mais 60% de salário (08/10/2013)

Estudo desenvolvido pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), com uma amostra de 160 mil adultos, avaliou as competências de literacia, numeracia e da área digital da população activa de 23 países. Avaliou ainda os efetivos em termos de ganhos das referidas competências. 

Eis alguns resultados:
- A baixa literacia duplica a probabilidade de desemprego;
- Os mais competentes podem auferir quase mais 2/3 em relação aos menos competentes;
- Na Europa do Sul (Espanha e Itália), 30% da população não ultrapassa o nível mais básico de literacia e numeracia. No extremo oposto aparece o Japão e a Finlândia;
- Na área digital, a lista é encabeçada pela Suécia e Finlândia e na base encontra-se a França e a Itália; 

Podemos inferir, portanto, que bons níveis de literacia e numeracia potenciam as capacidades de trabalho, tornando os indivíduos mais aptos a nível profissional.
- Quem tem níveis mais baixos de literacia avalia mais negativamente a sua saúde, e releva-se menos “competente”, mais desconfiado – quer numa perspetiva relacional, quer institucional. E como alerta a OCDE: “Sem confiança nos governos, nas instituições públicas e em mercados bem regulados, é difícil mobilizar o apoio público para políticas ambiciosas e inovadoras, nomeadamente quando se pedem sacrifícios a curto-prazo e quando os benefícios a longo prazo não são evidentes.”
 - Os “jovens japoneses e holandeses entre os 25 e os 34 anos que só completaram o ensino secundário facilmente superam os níveis de literacia e numeracia dos seus congéneres espanhóis ou italianos que têm o ensino superior”. Podemos inferir, ainda, que bons níveis de literacia e numeracia estarão mais associados ao grau de exigência, compromisso, autonomia e responsabilidade, do que do grau académico propriamente dito (pelo menos se cotejarmos os processos educativos dos países em confronto).

Este tipo de estudos poderá servir como uma ferramenta de trabalho para os Estados-Nação desenvolverem estratégias educativas adaptadas à sua realidade específica, sendo uma forma de essas mesmas políticas educativas se revelarem adequadas. Depois sim, poder-se-ão conseguir ganhos num enquadramento mais geral, em articulação com a “aldeia global”.

Por outro lado, o aproveitamento, por parte dos países, do investimento educativo não é igual.
- Na Noruega, 9% das pessoas que apresentam maiores níveis de literacia declararam estar desempregadas. Já na República Checa, Itália, Japão e Polónia, pelo menos 20% dos adultos mais competentes estão fora do mercado de trabalho. “As implicações económicas para os países desta inatividade podem ser significativas. (…) na Itália, menos de 5% da população empregada apresenta um” elevado nível de literacia, porém “30% dos italianos com esse nível de literacia estão inativos ou desempregados.”

Outras conclusões:
- As competências não se aprendem só na escola e podem, inclusive, atrofiar se não forem treinadas.
- Referência ainda para “o investimento feito por muitos países na educação de adultos, ao longo da vida — a participação dos adultos em ações de educação e formação excede os 60% na Dinamarca, Finlândia, Holanda, Noruega e Suécia (precisamente, alguns dos países que lideram os rankings da literacia, numeracia e competências digitais)”.

E Portugal? Portugal, depois de ter investido 1,2 milhões de euros numa primeira fase do Programa Internacional para a Avaliação das Competências dos Adultos (PIAAC) da OCDE, abdicou do mesmo. E assim se perdeu mais uma ocasião de se projetarem, em Portugal, políticas educativas adaptadas à realidade do país e não apenas sustentadas na “espuma dos dias”, nas marés governativas de que todas as anteriores ondas são frágeis e desligadas, sem tempo para avaliar verdadeiramente os seus ganhos, recusando readaptações e/ou reformulações.

Com opções desta natureza, a educação torna-se um castelo de areia demasiado próximo da costa, constantemente engolido por um mar revirado pela profusão legislativa, onde falta a estabilidade necessária para o compromisso de ensinar.

César Rodrigues  

5 comentários:

  1. Confesso que este país está a cansar-me e logo eu que não sou nada dada a desistências!

    Ivone Melo

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  2. É sempre reconfortante ler textos de gente que pensa bem e que se exprime bem, sobretudo quando essa "gente" nos é próxima. Parabéns, César!
    A propósito, apetece-me dizer que, mais do que "um castelo de areia (...) engolido por um mar revirado pela profusão legislativa", a educação é um castelo cujo castelão é um mercenário capaz de escravizar os seus criados, vender o ouro e a prata da casa, pôr-lhe fogo e depois afastar-se das ruínas, assobiando para o lado, na certeza de que os senhores a quem vendeu a alma (se é que a tem) lhe assegurarão a prometida recompensa.
    E, com castelões destes, nada feito!...

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  3. As boas reflexões ajudam a clarificar, ajudam a perceber o alcance do problema. Mesmo que muitos se recusem a pensar sobre ele e, como bem referes, se aguantem por entre a "espuma dos dias"...Obrigada César por esta cuidada exposição e por este diagnóstico, como é do teu timbre, sempre ancorado na realidade.
    Gostaria de ver, depois de todos já sabermos o "porquê" e se calhar o "como" por onde passa a resolução, porquê não se a tua?
    Porque continuamos a ser este povo com este conformismo tatuado na pele?
    O estudo da Inquisição a que me dedico, aponta algumas das razões..Nomeadamente esta "formatação" e condicionamento para a obediência e para o "acomodamento" à hierarquia, independentemente da sua qualidade..Só não percebo porque ainda não nos livramos delas...Questões...
    Perenes?
    Abraço para ti
    Marta Ribas

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