segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Mais Literatura com Gatos: My Darling Secotine

Do ensaísta Eugénio Lisboa uma crónica que nos desperta a memória para palavras lidas algures no esquecimento do seu autor: “Os animais, precisamente porque estão à nossa mercê, são o grande teste moral da humanidade”.

“Não há gatos vulgares.”
Colette.

“Se formos dignos do seu afecto,
um gato será nosso amigo,
mas nunca nosso escravo.”
Théophile Gautier.

A minha crónica publicada no JL de 15 de Dezembro passado, consagrada à “literatura com gatos”, ia dedicada, entre outros, à minha gatinha e companheira, Secotine, ali dada como “felizmente viva e incrivelmente activa”. Quando escrevi a crónica, a bichinha estava, de facto, viva e saudável; quando foi publicada, ela estava já doente, mas em vias de recuperação, embora em tratamento ambulatório, pós-internamento; já depois do dia 1 de Janeiro, teve uma recaída súbita e, apesar de todos os esforços que fizemos para salvá-la, deixou de viver, no dia 9, às 20.00 horas, numa clínica veterinária em S. Pedro do Estoril. Foi, para nós, que a amávamos, um verdadeiro terramoto emocional. E foi este que veio alterar, por completo, o tom e o conteúdo desta segunda crónica consagrada aos elegantes felinos, e por mim anunciada no final da anterior.

Pensara falar-vos, longamente, em escritores que amenizavam a solidão do seu ofício, chamando para junto de si, enquanto arranhavam o papel com a caneta ou martelavam o teclado, a companhia do gracioso e peludo amigo. Kingsley Amis, por exemplo, sobretudo conhecido pelo celebérrimo romance Lucky Jim, não só escrevia sempre na presença do seu Hertfordshire White”, a que dera o nome de Sarah Snow, como “tinha as maiores reservas acerca de pessoas que não tivessem animais domésticos.” Costumava até dizer, com algum acinte: ”Sou suficientemente amante de gatos para que se me torne suspeita uma casa onde não haja gatos. Associo uma pessoa que tenha um gato com alguém mais afável do que as outras pessoas.” Como todo o verdadeiro cat lover”, não se envergonhava de confessar que conversava assiduamente com o seu bichano. E estava perfeitamente convencido de que a Sarah Snow andava a tentar seriamente aprender inglês. Eu sei que isso é possível, porque a minha Secotine falava fluentemente macedónio, português e inglês, e arranhava umas coisas de espanhol e francês. E posso prová-lo, mas não me darei sequer a esse trabalho, porque considero ultrajante que alguém duvide da minha palavra. Bastaria dizer-vos, a título ilustrativo e não demonstrativo (porque, repito, não desço a fazer demonstrações), que, num dia em que vociferava por todo o lado à procura dos meus óculos, a Secotine veio ter comigo e, numa repetida e ansiosa linguagem de corpo, insistiu comigo para que fosse atrás dela. Impaciente, disse-lhe que não estava com tempo para lhe apaparicar os caprichos, visto que precisava dos óculos. Não desistiu e insistiu no convite para que a seguisse. Desesperado, acabei por fazê-lo, visto que acabava sempre por ceder aos seus pedidos. Fui atrás dela, que se voltava, de vez em quando, para trás, a confirmar que eu a seguia, e acabou por me conduzir a um vaso, no terraço, onde tinha deixado os óculos!, Se isto, caro leitor, não quer, para si, dizer nada, desculpe, mas o meu amigo é completamente obtuso!

Tinha também planeado falar de Théophile Gautier e do seu obsessivo amor por este supremo produto da criação, que é o gato. Desmond Morris definiu este escritor como “um fanático amante de gatos”, que “partilhou a sua vida com uma sucessão de gatos invulgares.” Gautier, o contemporâneo de Hugo e de Flaubert, autor de livros célebres, como Fortunio, Mademoiselle Maupin e Le Capitaine Fracasse, dedicou todo um livro – La Ménagerie Intime – ao sedutor felino. Nele nos diz que um dos seus gatos (aliás, gata) era de cores vermelha e branca, se chamava Madame Théophile e tinha o hábito expedito de lhe roubar bocados de comida “no trajecto entre o prato e a boca”.

Teria muitas outras histórias para contar, sem esquecer nunca a muito bizarra e sinistra narrativa da morte do grande romancista Thomas Hardy e do que sucedeu ao seu coração e ao seu gato, que tanto amara nos últimos dias da sua longa vida. Podia fazer tudo isto e falar de outros grandes escritores e de gatos hoje lembrados por lhes terem pertencido. Mas não vou fazê-lo, hoje, por uma razão: desta vez, o escritor sou eu e a gata será a que foi minha e há pouco faleceu – a inesquecível Secotine. Como sou um escritor modesto, não pretendo que ela seja lembrada por me ter pertencido, mas, pelo contrário, aspiro a ser conhecido por lhe ter pertencido a ela.

Este pequeno milagre de vida, de afecto e de graça entrou na nossa vida, aqui no Estoril, no dia 8 de Julho de 2009. Tendo cessado de existir em 9 de Janeiro deste ano de 2011, esteve connosco, exactamente um ano e seis meses. Vinha da Macedónia, recolhida pela minha filha mais velha, que ali esteve alguns anos e no-la deixou, a caminho de Cuba. Era para ficar seis meses, mas ficou para sempre – um “para sempre” estupidamente curto. Quando os deuses nos dão muito, depressa no-lo tiram.

Chegada do aeroporto, investigada a casa, os quartos, as salas, a cozinha, as casas de banho, o terraço e arredores (para ulteriores minúcias e excursões), a Secotine instalou-se e assumiu o comando. Maltratada nas origens, por quadrúpedes, e sempre acarinhada por bípedes, ela tinha uma confiança ilimitada em tudo que se movesse com duas pernas. Da confiança, passava rapidamente a uma amizade aquecida a alta temperatura, que se manifestava por uma desenvoltura que logo nos conquistava. Surgia abruptamente do nada, saltava-nos para o colo e disparava uma saraivada de marradinhas insistentes, na cara, nos braços, no sovaco, aninhando-se depois ao colo, com grande ênfase de proprietária. Tudo na casa lhe servia de poiso – e passava a sê-lo, caso lhe conviesse. Movia-se com uma elegância fácil, quase mozartiana, pelo meio de tudo quanto há de mais frágil e quebrável, sem lhe tocar e sem nada estragar. Era de um belíssimo e sedoso cinzento prateado e movia-se sempre a grande velocidade. Era como se pressentisse que a vida lhe ia ser curta e tivesse que fazer depressa o que tinha a fazer. Ela era a elegância, a beleza, a surpresa, a confiança, a velocidade personificadas. Chamava-lhe a minha neta peluda e sei agora como é duro perder uma neta.

A Secotine detestava, particularmente, ver-me “perder tempo”, concentrado na escrita ou na leitura: quando isso acontecia, vinha, caminhando sorrateiramente, com uma eleganciazinha coquette, e saltava-me para o colo, se lia, ou para cima dos papéis, se escrevia. Dava-me, então, marradinhas sedutoras e perguntava, aliciando-me: “Não achas a minha conversa mais interessante do que isso?" Eu dava-lhe quase sempre razão, porque uma das características da Secotine (ela própria o dizia) era ter sempre razão.

Gostava de se aninhar à janela que dava para a rua, ficando a “ver a banda passar”. Quando a banda era pouca, a Secotine enfadava-se e vinha-se embora. O mundo às vezes era pequeno e chato. Era petite”, airosa, de uma beleza esquisita e muito viva. Estava sempre a ter ideias, que gostava de partilhar, mas eu, às vezes, não tinha pedalada para tanta criatividade
.
Agora fiquei sem ela e gostava de ser realmente um grande escritor, para me tornar no cronista que a Secotine merecia. Como é que se há-de saber da grandeza dela, se o narrador não for, no mínimo, Fernão Lopes? Seja como for, faço o que posso e dedico-lhe, com amor e saudade, as medalhitas de sete sílabas que a seguir se imprimem.

Estivemos com ela até ao fim. Sofria muito e dirigia-nos apelos insistentes, tão insistentes como os com que, na cozinha, costumava pedir-nos “um petisquinho”. Fazíamos-lhe festas para ela perceber que não éramos nós que lhe causávamos as dores. Agradecia com os olhos, mas suplicava que acabássemos com aquilo. Com a morte na alma, fizemos-lhe a vontade: foi o último petisquinho que lhe demos.

SECOTINE

Tu eras a graça, a vida,
o golpe brusco de afecto,
elegância desmedida,
o súbito e dilecto
gesto de felino airoso.
Eras a velocidade
encarnada, o gostoso
ir à nossa intimidade,
sem pedir, sequer, licença:
como se tudo que há no mundo
fosse teu – tua presença
vinha em nós até ao fundo.
Tu eras a graça, a vida,
elegância desmedida.

Eugénio Lisboa

5 comentários:

  1. Fez-me chorar...
    Lindo! Só quem os ama os sente como seus verdadeiros amigos! Parabéns e obrigada por partilhar. Eu própria tb escrevi uma dedicatória a uma amiga de 4 patas que teve de partir...

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  2. Só uma alma de eleição é capaz de transmitir este final de uma prosa, toda ela, de um sentimento enorme e de uma dor sem fim:

    "Estivemos com ela até ao fim. Sofria muito e dirigia-nos apelos insistentes, tão insistentes como os com que, na cozinha, costumava pedir-nos “um petisquinho”. Fazíamos-lhe festas para ela perceber que não éramos nós que lhe causávamos as dores. Agradecia com os olhos, mas suplicava que acabássemos com aquilo. Com a morte na alma, fizemos-lhe a vontade: foi o último petisquinho que lhe demos".

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  3. "Só o ser humano completo sente todos os tipos de amor" costumo eu dizer em conversa com amigos dos animais...E "nós" temos a felicidade e (e infelicidade...) de o ser...
    Lamento imenso pela sua Secotine, passei pelo mesmo à menos de um ano, mas com um amigo canino...

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  4. Um cumprimento de solidariedade.
    Eu tenho um gato - que se chama Egon - e, desde que li a sua primeira crónica, gosto muito de chamá-lo também como "pequeno tigre de salão".

    Adoro estar parada a observar o meu gato... é a estética em movimento.

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