quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Uma polémica científica oitocentista


Uma história da ciência portuguesa do século XIX contada por A. José Leonardo:

Em 6 de Abril de 1886 reunia-se a Academia Real das Ciências, sob a presidência do rei D. Luís, para assistir a uma conferência com o tema Memória sobre os infinitamente pequenos. Era a continuação de um estudo publicado dois anos antes por José Maria da Ponte e Horta (1824-92), oficial do exército, professor da Escola Politécnica de Lisboa e ex-governador de Macau, Cabo Verde e Angola. A julgar pelos méritos do conferencista, um sócio efectivo da Academia e par do reino, e pelo título da palestra estariam reunidas as premissas para que se cumprissem os ditames que presidiram à fundação dessa academia em 1779, por D. Maria I, nomeadamente a promoção da ciência e do ensino como motores do progresso da nação.

Mas, no volume 36 da revista O Instituto, publicação do Instituto de Coimbra (IC) – uma sociedade académica fundada em 1852- , saiu pouco depois o artigo As Conferências na Academia, assinado por Junio de Sousa, onde as “reflexões científicas” de Ponte e Horta eram fortemente contestadas. Junio de Sousa foi o pseudónimo usado pelo lente de Matemática da Universidade de Coimbra e sócio do IC António José Teixeira (1830-1900). Ele foi autor de dezenas de artigos n’O Instituto, que abordaram temas da história da Universidade, a instrução pública e a matemática. Assumiu algum relevo no panorama político nacional, ao desempenhar os cargos de conselheiro, director-geral das Alfândegas, deputado e governador de Braga.

A tese defendida por Horta baseava-se numa perspectiva mecânica do Universo em que toda a evolução universal, que culminou com o surgimento da vida e da civilização humana, poderia ser descrita com base na matéria em circulação, que desde o infinitamente pequeno até ao infinitamente grande estabelece o laço de continuidade entre toda a trama dos phenomenos do mundo. As primeiras palavras de Teixeira revelavam logo a crítica que se seguia, recheada de comentários sarcásticos. O escrito de Horta foi classificado como folhetim desprovido do mérito científico exigido a uma memória apresentada a tão dilecta associação. Foi censurada a forma pouco clara com que se tratavam conceitos como a matéria que, segundo Horta, se compunha de átomos e era infinita e eterna, e a energia, que se compunha de parcelas e era também infinita e eterna, sendo que as duas podiam ser combinadas e consubstanciadas através do movimento. A abordagem, baseada em supostos factos científicos, misturava imagens literárias e metafísica, resultando em trechos como o que se segue:

«E assim como a materia, a energia, quer seja na sua fórma cinética ou apparente, quer na sua fórma potencial ou occulta, terá tanta realidade objectiva, pelo facto do movimento, como a propria materia, a que anda associada. A energia não é um puro ser de razão, metaphysico e abstracto, senão uma realidade palpavel e concreta.»

A hipótese da circulação da matéria era aplicada por Horta à formação do nosso sistema planetário, concluindo este que “vivificada essa matéria primitiva pela attracção universal, lei do amor que prende em eterno laço os destinos da matéria; o cahos originário, como se fora compellido por instinctos de forma, lá se foi dispondo e coordenando em volta de um centro, que devia constituir o nosso futuro sol, em massas mais ou menos poderosas e definidas. Tal é, senhores, a lei genérica e incontrastavel da formação dos mundos.” Em face da clara alusão da teoria de Laplace, seguia-se a crítica de Teixeira à forma dogmática com que esta era apresentada, quando o próprio Laplace a apresentou como mera hipótese que não tinha “por base nem os dados da observação nem os resultados do cálculo”. No seu artigo, Teixeira descrevia a teoria cosmogónica que surgiu com base na observação de nebulosas, relatando também as objecções que foram sendo veiculadas que demonstravam a sua precariedade. Comparou também as semelhanças do discurso de Horta com as modificações propostas por Voizot à teoria de Laplace que, no entanto, previam a estabilidade do sistema planetário. Com efeito, José Horta contradizia esta possibilidade, defendendo o inevitável colapso do sistema solar e apontando como único argumento a impossibilidade de renovação da energia solar, que tem origem na “circulação da matéria entre o interior e o exterior do grande astro.” Assim, “o fogão da machina ir-se-há resfriando com o tempo; porque a sua alimentação não equivale ao seu dispêndio”, tratando-se de um processo “infallivel, e acha-se escrito nas ordens immutaveis da natureza physica”. O comentário de Teixeira a estas palavras foi: “Tenha caridade, sr. José Horta, com os tristes proletários da sciencia: demonstre-nos as suas arrojadas proposições.”

Para a Terra, descrita também como máquina térmica, Horta augurou um final surpreendente: “quando o Sol tiver dispersado, depois de correr immenso tempo, o seu calor e a sua luz na amplidão dos frios espaços, ficando extinctas as plantas e os animaes da Terra deserta, invadida pelas trevas da noite, então sob a influencia de qualquer choque exterior, talvez esse cadáver de um mundo se desagregue, e de seus elementos saia outra nebulosa, contendo em si a ressurreição de novos mundos.” Valeu o uso da palavra "talvez". Horta acertou, pelo menos, quando referiu que “o calor interno do globo podia ainda influir directa e efficazmente na lida evolutiva da sua economia”, considerando que “os deslocamentos a que essas camadas (superficiais) estão sujeitas pelas explosões do interior; a formação de novos e instáveis relevos por virtude d’essa causa”, em referência às ideias de Lyell.

A Lua também não escapou a Horta, despertando-lhe a veia poética, pois lhe chamou “pallida Diana (…) essa formosa deusa que tem feito scismar e enternecer tantas almas sensíveis; que tem estimulado o estro, e provocado o canto de tantos poetas sonhadores e elegiacos; que tem feito vibrar de amor tantos corações apaixonaveis; está a pique de agonisar, victima inconsciente dos fogos em que ardia.” Ao que respondeu Teixeira: “Coitadinha da Lua! Morre queimada!”

A parte seguinte do trabalho de Horta abordou as repercussões da sua teoria na história da arte, deixando de fora a dança, o que não deixou de causar estranheza a Teixeira. Mais ousada foi a aplicação que este fez da sua “lei” ao estudo da vida, comparando o nascimento de uma célula com a formação de um cristal pela justaposição ordenada de átomos, o que suscitou um rol de ironias de Teixeira, como: “que tristíssima agonia orgânica a do pobre cristal!” Teixeira concluiu a sua exposição reiterando a escassez de provas indicadas por Horta que suportassem as suas alegações. Num comentário final da conferência, afirmou que “a ciência verteu lágrimas, a literatura vestiu galas. Nada mais.”

A crítica de Teixeira revela duas perspectivas da ciência ao longo do século XIX. A primeira, preconizada por Horta é a do materialismo romântico, que teve a sua origem ainda no século XVIII mas que já era anacrónica no final do século XIX. Teixeira estava imbuído da visão moderna e positivista de ciência. A julgar por este episódio, o positivismo estaria pouco disseminada, valorizando-se mais os aspectos literários das memórias apresentadas na Academia em prejuízo do rigor científico o que, segundo Teixeira, era “sinal evidente da mais deplorável decadência.” Contudo, quer o trabalho de Horta quer a crítica de Teixeira mostram o conhecimento que havia então em Portugal das novas teorias cosmológicas, nomeadamente sobre a formação do sistema solar e a origem da energia solar.

A. José Leonardo

- SOUSA, Junio (1888). As Conferências da Academia. O Instituto. Vol. 36.º, ps. 17-25, 89-94, 131-136, 196-202, 282-289, 344-350

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