sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Centros escolares para o século XXI

Quando em Setembro de 2007 publiquei, neste blogue, o texto Quem abre uma escola fecha uma prisão estava longe de imaginar que as nossas escolas continuariam a fechar às dezenas, às centenas: neste ano são 701 e, tanto quanto me é dado perceber, o número aumentará no próximo ou próximos anos.

Só nestes dias tive conhecimento de que a reorganização da rede escolar a que temos assistido foi traçada há já cinco anos. Nessa altura, a discussão pública entre os parceiros directamente implicados – ministério da educação, pais e encarregados de educação, autarquias, professores e outros educadores, especialistas em ensino… – a ter sido feita, aconteceu em círculos restritos e dela pouco transpareceu, de modo que o país tem sido mais ou menos apanhado de surpresa.

O momento é de apreensão: autarcas que não sabem como resolver a questão dos transportes, pais e mães que mostram receios de mandar os filhos muito pequenos para longe de casa, especialistas que advertem para os múltiplos problemas que as escolas grandes levantam…

Atitude que contrasta com o imperturbável entusiasmo da tutela. Nada de positivo a salientar no funcionamento das escolas que tínhamos – algumas das quais haviam sido qualificadas como excelentes –, tudo a elogiar nos novíssimos centros e grandes escolares, como se neles estivesse a salvação para a educação nacional.

O discurso repetido até à exaustão assenta em dois argumentos:

Um argumento, mais geral, é que esses centros estão mais de acordo com as exigências da aprendizagem do século XXI. É uma grande frase, reconheço, mas só faria sentido se fossem explicadas clara e inequivocamente quais são, afinal, essas exigências.

Outro argumento, que parece concretizar o anterior mas que, em rigor, não o faz, é que tais centros garantem mais e melhores condições de sucesso aos alunos, uma vez que proporcionam uma socialização alargada, a inclusão social e vivência de cidadania, alimentação, transporte, biblioteca escolar, salas de informática, espaços para o ensino do inglês, da música e da prática desportiva.

Ainda que cada um destes aspectos mereça ser analisado em pormenor, detenho-me no seu conjunto para fazer notar que nele falta o que para alguns é essencial numa escola: assegurar, antes de mais, através da qualidade das orientações curriculares e programáticas e do ensino veiculado pelos seus professores, a aquisição de conhecimentos fundamentais, e que, nessa aquisição, se estimule a inteligência dos alunos.

Na imagem: Novo Centro Escolar de Seia

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

É natural…

Toda a gente sabe que o negócio dos trabalhos académicos existe e prospera: sabem os professores, que não podem deixar de se confrontar com ele; sabem-no os alunos, pois a informação corre; sabem os jornalistas, que de vez em quando voltam ao assunto; sabem os investigadores que lhe têm dado atenção; devem saber as famílias, que pagam a factura; também não me parece que as instituições de ensino superior o desconheçam, nem as suas mais altas instâncias.

Algumas empresas e pessoas particulares fazem publicidade na internet, outras têm um contacto mais discreto. Há “produtos” de toda a espécie e feitio, prontos ou por encomenda. Uns são mais caros – as dissertações de final de licenciatura, mestrado e doutoramento -, outros mais baratos – relatórios e tarefas avulsas para as unidades curriculares.

Os estudantes que quiserem e tiverem como pagar, escusam, pois, de perder o seu precioso tempo em consultas bibliográficas aborrecidas, em pesquisas de campo fastidiosas, na redacção de um texto que teima em não sair inteligível à primeira…

Ora, se o negócio tem dado tão bons resultados neste nível de ensino, porque não estendê-lo a outros níveis, onde a procura é tão grande ou maior? Afinal, os negócios têm de estar abertos a novas oportunidades…

E... foi exactamente nas Novas Oportunidades, que muitos viram... novas oportunidades! Mais: viram isso logo que elas surgiram.

Sem sequer procurar, soube logo na altura que tinha emergido uma nova profissão: os Fazedores de Portfólios Reflexivos de Aprendizagem. Sim, eu sei, também há os amigos que "apoiam" a composição deste "instrumento-acima-de-qualquer-suspeita", sem cobrarem nada, apenas para ajudar a obter um diplomazinho… coisa de nada…

Esta conversa vem a propósito duma notícia publicada no jornal i, de hoje. Apurou a jornalista Filipa Matins que se desembolsam 400 euros (que antes eram 500, mas a crise...) e o certificado do 12.º ano é garantido.

Eu diria que é um preço razoável! Até porque é reembolsável: a seguir vende-se a outra pessoa que precise dele. Com um bocado de sorte, vende-se a mais do que uma… Havendo tantas centenas de Centros Novas Oportunidades, um fica aqui, outro ali… e ninguém detecta!

Mas, o mais interessante na notícia do jornal são as declarações do presidente da Agência Nacional para a Qualificação, Luís Capucha, que confirma... "a situação". Diz o referido senhor (os sublinhados são meus):

"É natural que haja parte desses portefólios - que têm centenas de páginas - que seja transcrita da internet." "Porém", adianta, "as pessoas devem ser encorajadas a trabalhar essa informação em vez de a transcreverem", acrescentando que "não compete à ANQ fazer qualquer avaliação do trabalho dos centros". "Uma avaliação implica um juízo, ora o que encontra nos documentos são orientações técnicas", conclui.

Porém, o universo é suficientemente vasto para ter justificado o envio da nota de orientação aos Centros Novas Oportunidades. Nesta é manifestada a necessidade de "reforçar que a inclusão de textos retirados da internet não configura, de forma alguma, uma prática regular, que seja demonstrativa de competências que os candidatos detêm". "Quando muito", lê-se ainda, "esta prática evidencia a capacidade do candidato pesquisar informação".

Filipa Matins, Jornal i de 19 de Agosto de 2010

O SEGREDO DO DISCO ASTRONÓMICO


De férias na Alemanha, leio na imprensa alemã uma interessante notícia sobre o disco de Nebra (já referido neste blogue), cuja descoberta no lugar de Nebra, na província da Saxónia-Anhalt tem levantado grande discussão desde há dez anos.

Investigadores das Universidades de Mainz e de Halle (cidade em cujo museu arqueológico o disco está guardado) pretendem ter encontrado uma explicação para o enterramento do disco, há 3600 anos, em plena Idade do Bronze. Nessa época, as cinzas de um vulcão na ilha de Santorini, no Mediterrâneo, terão causado um obscurecimento dos céus da Europa durante um período de cerca de 20 anos (um fenómeno um pouco parecido com o que se passou recentemente com a erupção de um vulcão islandês). O instrumento foi posto de lado e enterrado no local onde foi descoberto porque a sua utilização como calendário astronómico se tornou assim inútil. A notícia acrescenta que na mesma época terá também cessado a utilização astronómica do sítio de Stonehenge, na Inglaterra?

E porque é que a descoberta do disco foi tão polémica? O achado foi feito por arqueólogos amadores que o tentaram vender no mercado negro, mas a polícia acabou por os apanhar numa operação digna de um filme no Hotel Hilton de Basileia, na Suíça. Alguns arqueólogos duvidaram na altura da autenticidade do disco que representa, além do Sol e da Lua, as Pleiades, mas estas dúvidas dissiparam-se depois de uma cuidadosa análise do disco de 32 centímetros de diâmetro cuja massa é de cerca de dois quilogramas. Trata-se, sem dúvida, do mais antigo instrumento astronómico conhecido até hoje.

Progresso e religião

Como aqui temos abordado as relações entre ciência e religião, republicamos aqui, com autorização do autor, um texto do físico Nicolás Lori, que é investigador na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, saído no "Público" em 12 de Maio passado (na foto Jürgen Habermas):

Num artigo recente de opinião no New York Times faz-se uma afirmação que a muitos promotores do "progresso" em Portugal pareceria chocante: diz-se que o que falta à cultura secular é a religião. A afirmação não é feita por uma pessoa religiosa, mas por um ateu secular e proeminente filósofo, Jürgen Habermas.

Nos seus trabalhos iniciais, Habermas deu-nos conta da sua convicção de que o papel estruturante que a religião tinha desempenhado na sociedade seria no futuro feito através de uma ética discursiva, onde a melhor resposta seria obtida através do consenso. Mas para o actual Habermas, o racionalismo falha no sentido em que não tem nenhum mecanismo para tomar consciência dos "interesses" que estão sempre presentes, com as suas implicações, mas que não são reconhecidos. Esta situação causa um problema: os Estados seculares não conseguem que os seus cidadãos se afastem do egocentrismo em direcção a comportamentos mais virtuosos.

Quando se fala do diálogo entre a fé e a razão, começa-se muitas vezes mal, quando se diz que o seu sentido é extremamente vago. O que tipicamente se está a fazer é a assumir que a fé é um estado de enamoramento com o transcendente, entendendo-se por fé o "amor que inclui o transcendente". Esta visão da fé, que penso ser a definição que as pessoas comummente usam, não é o que introduz a falta de claridade na discussão. A expressão é pouco clara, porque não explica se o diálogo é entre o amor e a razão e/ou entre o transcendente e a razão. Entendemos por razão o pensamento que tenta interpretar o universo através da dinâmica causa-efeito, sendo as causas as razões que a razão utiliza. Penso também que esta é a definição tipicamente utilizada. Uma outra definição de razão, que é menos comum mas que é muito utilizada na economia, considera não uma dinâmica causa-efeito mas uma dinâmica de efeito-causa, onde a razão tenta encontrar a causa que proporciona o efeito pretendido, sendo esse efeito a real razão da acção. A utilização destas duas definições divergentes para representar dois fenómenos muito diferentes é um defeito da linguagem comummente utilizada, porque, na prática, apenas a segunda deveria ser chamada racional (algo com o correcto balanço/ratio económico), sendo a primeira chamada "razoável" (algo que tem uma razão). Discriminando estes dois termos, podemos dizer que a razão é razoável, mas também que o amor que baseia a sua esperança no que vai acontecer e não no que aconteceu é fundamentalmente racional. O bem que o amor busca não é o dinheiro, como acontece na economia. O transcendente confronta-se com o racional no sentido de que é infinito e, por isso, não é passível de ser considerado uma utilidade. O transcendente confronta-se com o razoável no sentido de que é espontaneamente não causado, e por isso não razoável. O confronto dá-se pois entre os três elementos do triângulo: razão, amor, transcendente.

Kant considerou o conflito entre a razão e o desejo humano como a possibilidade da realização do amor e considerou-o intransponível para a prática, uma vez que tal realização necessita da existência da possibilidade de liberdade de acção, o que para ele seria incompreensível. Para que o transcendente liberte o ser humano das algemas de um futuro completamente determinado pelo passado onde o espírito humano não tem lugar ou importância, é necessário que esse transcendente limite a razoabilidade do universo e eleve a sua racionalidade. Ou, em outras palavras, que esse transcendente seja poderoso e bom. O poder do transcendente apareceria para um observador como sendo a aleatoriedade não controlável através de processos causais, e a sua bondade apareceria como uma tendência da evolução a trazer mundos cada vez melhores. Mas para que essa liberdade trazida por um transcendente poderoso e bom possa ser considerada compatível com a livre vontade é necessário, e suficiente, que essa liberdade que ocorre numa pessoa seja aquilo que constitui a individualidade dessa pessoa. Ou seja, que se considere que é o transcendente que possibilita a individualidade da pessoa. A função da religião na sociedade é pois não a busca da fé mas a religação de cada um de nós à importância do transcendente na nossa vida, e mesmo depois. Consiste em religarmo-nos, que assim aparece como a fonte da possibilidade de um equilíbrio entre a razão e o amor que é o transcendente. Para que tal aconteça, torna-se necessário um enorme esforço para que nos tornemos indiferentes às causas da razão e aos objectivos do amor. Esta busca da indiferença é, apesar das diferenças entre elas, comum a todas as grandes religiões da Terra (e.g. cristianismo, islão, hinduísmo e budismo). É este religar, segundo Habermas, que a razão secular não consegue realizar, porque essa razão é cega à sua própria necessidade de ter razões que não podem ser alcançadas por observações do passado. Esta foi a cegueira vista por Saramago, mas o que Habermas afirma é que a cegueira não é causada pela religião mas pela sua ausência.

Nicolás Lori

HUMOR: O CÍRCULO NO SHOPPING

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Para evitar problemas...

No jornal i de hoje aparece, pela mão da jornalista Kátia Catulo, a seguinte notícia, que é, no mínimo, inquietante: uma professora duma universidade pública do nosso país terá sido afastada da regência das unidades curriculares que leccionava porque… os critérios de avaliação que usa se traduzem num número pouco simpático de aprovações.

Bem… se isto tivesse acontecido no Ensino Básico ou, vá lá, no Ensino Secundário, não seria, no presente, propriamente notícia, pois já entrou no nosso modo de pensar, como se depreende dos documentos da tutela: que todos os alunos têm direito ao sucesso (claro que, por princípio, têm) e que a retenção é uma medida de excepção (claro, por princípio, é), só devendo ser aplicada depois de todas as outras medidas falharem (dando a ideia de que, se forem tomadas medidas acertadas, os problemas na aprendizagem são superados).

Este discurso é corroborado quando se fala com professores destes níveis de ensino, que dizem, de modo mais ou menos sigiloso, sentir pressões várias, ainda que muitas vezes dissimuladas, para não reterem os alunos, nem mesmo quando é evidente que eles não fizeram as aprendizagens mínimas estabelecidas para o seu nível de escolaridade.

Mas a notícia em que me detive não se reporta ao ensino obrigatório: reporta-se ao Ensino Superior. Mesmo nos documentos relativos à Reforma de Bolonha (vista por muitos como um prejuízo para a qualidade da formação superior) se reconhece que a acessibilidade universal e o sucesso académico neste patamar educativo não podem deixar de ser confrontadas com a restrição baseada no mérito e na capacidade reveladas pelos estudantes.

Não posso deixar de conjecturar que também para os professores universitários, mesmo para aqueles que têm um currículo científico e pedagógico segundo as exigências actuais, como é o caso da referida professora, começa a "pairar no ar" uma desconfortável auto-censura no momento da fazer as pautas, acompanhada de uma revisão das classificações dos alunos para, enfim, evitar problemas...

"Why does the sun shine?"

Sugestão recebida de uma leitora, que muito agradecemos.

Ao ouvir a canção astrofísica Why does the sun shine?, pelos They Might Be Giants, lembrei-me dos posts publicados no De Rerum Natura sobre a falta de cultura científica generalizada dos portugueses (e não só) e pensei que outros a poderiam apreciar.

Encontrei um vídeo bem divertido no Youtube, já muito antigo mas que talvez muitos não conheçam. Espero que gostem.

Carla Graça

Nota: Tomámos a liberdade de alterar ligeiramente o texto, passando-o de um registo de mensagem para um registo de post.

Medalha Fields e outros prémios

Informação de grande interesse recebida do leitor Américo Tavares.

Amanhã serão conhecidos os matemáticos agraciados com a Medalha Fields, no Congresso Internacional dos Matemáticos, que se realiza este ano na cidade indiana de Hyderbad.

Para além desta Medalha, serão atribuídos os Prémios Rolf Nevanlinna, Gauss e Chern.

A cerimónia é difundida via Internet aqui.

Ensino a distância para a itinerância

Em texto anterior, referimos a extinção da Escola Móvel. As razões do Ministério da Educação, escreveu-se em vários jornais, eram sobretudo de natureza económica. Sucederam-se manifestações de desagradado contra tal medida, sobretudo por parte daqueles que beneficiavam da dita "escola pública" e de vários partidos políticos.

Em meados deste mês de Agosto, foi afixada no Portal da Educação a informação de que a Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular tem (ou já tinha à altura) uma alternativa, designada por Ensino a distância para a itinerância.

Neste novo projecto (apresenta-se, de facto, como um projecto), os antigos e novos alunos terão de ligar-se a escolas de referência onde poderão (ou deverão?) frequentar aulas (são assinaladas as aulas de Educação Física e de Educação Musical) e fazer os exames, sendo que nesses "momentos presenciais" desenvolverão "a sua socialização e integração". Salienta-se também a possibilidade de "acompanhamento dos seus percursos de aprendizagem".

Autocarro do futuro? Made in China!

Proposta chinesa para resolver o problema do transporte de pessoas e do tráfego citadino. Muito interessante.


A solução apresentada pela empresa chinesa Huashi Future Parking é parcialmente movida por energia solar e não precisa de vias próprias, podendo partilhar a via com os outros automóveis.

Vídeo de simulação:

Primeira tempestade solar do ciclo solar 24



Imagens de 14 de Agosto de 2010 - nasa.gov

terça-feira, 17 de agosto de 2010

ENSAIOS NO TOPO DE VENDAS

Informação recebida da Fundação Francisco Manuel dos Santos:

Colecção Ensaios da Fundação - um sucesso de vendas!

Lançados durante a segunda quinzena de Junho, os três primeiros livros da colecção Ensaios da Fundação já estão disponíveis nas principais livrarias, nas cadeias Pingo Doce, Continente e El Corte Inglés e, mais recentemente, em vários cafés do país.

A facilidade de acesso aos livros, que é possível através desta variedade de canais de distribuição, coloca-nos mais perto do objectivo de informar e promover o debate na sociedade portuguesa, sendo os primeiros resultados de vendas muito positivos.

Com a coordenação editorial da Relógio d´Água, esta colecção atingiu rapidamente os tops de vendas em diversas livrarias e no Pingo Doce. O primeiro ensaio, “O ensino do Português” de Maria do Carmo Vieira, com pré-lançamento na Visão, está próximo dos 20.000 exemplares vendidos, enquanto a “Economia Portuguesa: as últimas décadas”, de Luciano Amaral e “Portugal: os números” , de Maria João Valente Rosa e Paulo Chitas já ultrapassaram os 6.000 exemplares.

O próximo lançamento será no final de Setembro com o ensaio do Professor José Luís Saldanha Sanches, “Justiça Fiscal”.

SUPER-RESISTENTES


Crónica do bioquímico António Piedade saída no "Diário de Coimbra":

As bactérias, formas de vidas unicelulares procariótas, existem no planeta Terra há pelo menos 3 biliões de anos. Foram pela primeira vez identificadas pelo Homem através do microscópio de Leeuwenhoek em 1676, apesar de o nosso organismo sempre ter convivido com elas e depender de algumas delas para o bom estado de saúde. Devemos a Louis Pasteur e Robert Koch as primeiras provas de que estes microrganismos podem causar doenças nos organismos que as “hospedam” (hospedeiro) e causar-lhes paradoxalmente a morte. Isto é válido para vermes, insectos, animais selvagens e domésticos e, naturalmente, para o homem. As bactérias encontram nestes organismos as condições apropriadas para a sua sobrevivência e propagação. Mas o que para elas é um “paraíso”, para nós pode tornar-se um inferno com temperaturas elevadas, chagas e outras maleitas que ainda hoje termina na morte.

Ao longo da evolução inúmeras espécies de bactérias desenvolveram um arsenal químico de substâncias e estruturas biomoleculares com o objectivo de ganharem vantagens na luta pela sobrevivência. Muitas dessas substâncias, designadas genericamente por Antibióticos, “matam” bactérias de outras espécies, diminuindo assim a competição por alimentos moleculares como a glicose.

A nossa luta científica contra as bactérias iniciou-se com a compreensão destes mecanismos naturais de guerra química bacteriana de que resultou o desenvolvimento do primeiro antibiótico por Paul Ehrlich, em 1910.

Foi o início de uma luta permanente contra as bactérias. Permanente, porque as bactérias têm a habilidade “inata” em contornar os obstáculos moleculares à sua sobrevivência, ao fim de algumas gerações que, caso geral, duram entre horas a alguns dias. Daqui a importância em fazer a terapia antibiótica até ao fim, para minimizar que uma eventual geração encontre a forma de resistir ao antibiótico agressor.

Mas a resistência bacteriana aos antibióticos desenvolvidos pelo Homem é impressionante e muitas vezes estirpes resistentes são identificadas. Ou então, são identificadas novas estirpes de bactérias que emergem do mar bacteriano como se estivessem estado a fazer estágio contra os antibióticos e apresentam resistências insuspeitas. É o caso de bactérias do género das enterobacteriaceae, que causam infecções no aparelho gastrointestinal entre outros órgãos, identificadas recentemente no Reino Unido, mas com epicentro localizado em Nova Deli (Índia) e no Paquistão. A espionagem bacteriana genética desenvolveu uma “nova” enzima, a NDM-1 (de New Delhi metallo-β-lactamase 1) que confere a estas estirpes uma “super-resistência” aos antibióticos que actuam pela “destruição” da parede externa feita de peptidoglicano protecção essencial das bactérias classificadas por gram-negativas.

O estudo descrevendo a sua identificação e alertando para um possível problema mundial na luta contra as super-resistentes bactérias acaba de ser publicado na revista “The Lancet” (aqui).

António Piedade

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A EDUCAÇÃO ESTÁ SEMPRE MAL?


Novo texto recebido de António Piedade:

Numa tarde de Julho, há 25 anos atrás, eu e o escritor António Vilhena tivemos a oportunidade rara de conversar com o Professor Rómulo de Carvalho, na casa deste.

Eu ia com a curiosidade científica debruada pela expectativa de conversar com quem tinha escrito os Cadernos de Iniciação Científica (reeditados pela Relógio D’ Água em 2004), por onde aprendi e alicercei fundamentos de boa ciência, e que ainda hoje me são úteis. O António Vilhena, então aluno de Química, levava a sua sensibilidade poética atenta para ouvir o António Gedeão, a sua Pedra Filosofal e explorar os seus Poemas Póstumos, nessa altura recém-publicados.

Fomos recebidos com a cortesia, humildade e respeito que os grandes mestres pedagogos concedem a quem quer aprender, a quem não tem medo de fazer perguntas, oriundas da curiosidade, da atitude crítica mais genuína porque à procura de conhecimento e de verdade. Mesmo que a verdade seja o não ter certezas absolutas, porque é na precisa medida da incerteza estabelecida que o conhecimento científico se robustece com honestidade e probidade intelectual.

Entre versos e medidas científicas, a tarde deslumbrava com o falar do professor/poeta. Concedeu-nos uma entrevista solta, ainda inédita, mais em jeito de conversa sem rumo previsto mas com pontos cardiais, tantas eram as perguntas para tantas outras respostas ou comentários que ainda hoje nos acompanham, apesar de insuspeitos da perenidade da nossa vida.

A páginas tantas, o Professor Rómulo de Carvalho disse-nos que tinha estudado a Educação em Portugal, desde o início da nacionalidade portuguesa até ao fim do regime Salazar-Caetano, e que dessa investigação iria a Fundação Calouste Gulbenkian publicar (o que aconteceu em 1986 - ) uma obra inédita em múltiplos sentidos: nunca ninguém antes, quer fosse ou não historiador, tinha levado a cabo tamanha tarefa; nunca ninguém antes, quer fosse ou não especialista em educação, tinha ousado analisar criticamente e com o distanciamento necessário ao bom juízo, “o conhecimento histórico sobre o modo como o ensino foi ministrado e os respectivos resultados da educação”; nunca ninguém antes em Portugal tinha ido à procura da razão histórica dos seus próprios alicerces educativos, no sentido de traçar denominadores comuns e específicos ao contexto do país em cada época. Era estranho, disse-nos ele, que os reformadores não tivessem uma mínima curiosidade sobre as lições que estavam por retirar dos diversos modelos de educação aplicados ao longo da história Lusa.

Rómulo de Carvalho fez-nos então nessa tarde de Verão refrescada com limonada caseira, um comentário que ainda hoje recordo: ao longo da história da educação em Portugal encontramos uma constante referência à queixa de que a educação nunca estivera tão mal como então. Em cada época, repetia-se a sensação de insatisfação com o estado da Educação.

Independentemente de outras mais didácticas interpretações, e não sendo eu um especialista em artes educativas, o que o professor Rómulo de Carvalho nos estava a dizer correspondia, no contexto da educação das ciências, à realidade primeira de existir sempre e em cada momento, um desfasamento entre o avanço do conhecimento científico e o que é possível transpor para os necessários conteúdos programáticos, com as instruções pedagógicas e didácticas ajustadas a essa mesma altura. Desta não sobreposição resultaria um descontentamento nucleante. E, segundo ele, haveria sempre um desfasamento de cerca de uma década, entre o reconhecimento de um dado conhecimento e da utilidade social da sua transmissão às novas gerações através da escola: tempo para o compreender e encontrar a forma de o transmitir; tempo para o ensinar aos que o iriam ensinar; tempo para formar os que no terreno cumpriam o papel mais nobre da Escola que é o de assegurar a minimização de erros na sociedade.

Agora, se a este desfasamento adicionarmos mais experimentações de novos modelos de ensino e de avaliação do saber supostamente transmitido e adquirido, sem o seguro conhecimento das especificidades e das necessidades de um País alfabeticamente empobrecido, então talvez o atraso no estabelecimento de uma cultura científica democrática, necessária a todos os cidadãos, sem excepção, numa sociedade de base tecnológica como é a nossa, não se medirá em décadas e a medida padrão de atraso mais adequada tenda para o “quartel”.

Mas afinal, será próprio da Educação este estar sempre mal?

António Piedade

domingo, 15 de agosto de 2010

Porque não há Prémio Nobel da Matemática?


Tony Rothman, no livro "Tudo é relativo", acabado de sair na Gradiva, tenta responder a esta questão:

"(...) os matemáticos não têm par na aceitação sem sentido crítico da sua própria mitologia. A melhor demonstração disso deverá ser a velha história do motivo por que não existe um Nobel da Matemática61. Pergunte-se a qualquer matemático ou cientista e a explicação será provavelmente (a menos que a desmontagem continuada da questão lhe tenha posto fim) que Gösta Mittag-Leffler, o principal matemático sueco da altura, quinze anos mais novo que Nobel, tinha tido um caso amoroso com a mulher de Nobel. Furioso, Nobel recusou-se a financiar um prémio da matemática, de modo a garantir que Mittag-Leffler nunca o ganharia. O problema com esta versão da história é que Nobel era uma «pessoa reservada e discreta, que detestava todas as formas de publicidade». E um solteiro inveterado. Por outro lado, um matemático finlandês meu conhecido afirmou uma vez que tinha visitado a casa de Mittag Leffler em Estocolmo e no jardim das traseiras havia um busto da irmã de Nobel... Curiosamente, a historiadora do Prémio Nobel Elisabeth Crawford chega a dar alguma credibilidade a toda a história, conjecturando que Mittag-Leffler, como vingança pela ausência de um prémio de matemática, terá ele próprio espalhado o boato; Nobel fora derrotado na guerra pelo amor de uma mulher e por isso recusara-se a criar o prémio. Talvez. Mittag-Leffler era um bisbilhoteiro malicioso e era óbvio que os dois homens se odiavam."

Tony Rothman

Onde estão os ET?


A esta pergunta, colocada originalmente pelo físico Enrico Fermi, responde outro físico, Robert Park, na sua coluna "What's New" de 6 de Agosto: Estão em, casa deles, pois não dispõem de fonte de energia que lhes permita acelerar uma nave que vença as distâncias intergalácticas.

"FERMI PARADOX: WHERE ARE ALL THE SPACE ALIENS?

The question of whether we are alone gnaws at us. In 1950, in a discussion of whether advanced civilizations might exist elsewhere in the Milky Way galaxy, Enrico Fermi famously asked, "Where are they?" This has come to be known as the Fermi paradox. If planets are a common feature of stars, the naturalistic assumption would be that life exists throughout the Milky Way galaxy. Sentient beings with the capacity to develop advanced technologies would be expected to evolve. Implicit in Fermi’s question was an assumption that advanced technologies would be capable of interstellar travel. Where are they? At home, as we are. Interstellar distances are too great. Travel time is not the principal obstacle. The barrier is the energy it would take to accelerate a spacecraft to a reasonable fraction of the speed of light. I hope that's the end of the Fermi paradox, and the Dyson sphere, and all that science fiction crap."

Robert Park

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Se não se passa em Lisboa então não aconteceu!

Considero este "artigo" do Expresso INACEITÁVEL (foi publicado na página 22 do Expresso de 7 de Agosto, estando agora também no Expresso online). Lamento que um jornal como o Expresso fique pela "espuma dos dias" e não vá ao fundo das questões. E faça um "artigo" assim, na altura das candidaturas ao ensino superior, sobre inovação, em que só ouve o presidente do IST, como se não houvesse mais mundo. Muito mais mundo: para a jornalista autora deste "artigo" não há o Porto, nem o Minho, nem Coimbra, nem Aveiro, nem Algarve, nem Bragança, nem Vila Real, nem Leiria, nem Castelo-Branco, ... não, o país é só Lisboa, e uma certa Lisboa. Ainda, segundo a jornalista que assina este artigo, "Muitas outras escolas estão determinadas em seguir o exemplo do Técnico (IST)". Isto seria cómico se não fosse trágico e não revelasse uma mentalidade tacanha de um país que insiste na ideia: só existe Lisboa, se não se passa em Lisboa então não existe ou não aconteceu.

Não é aceitável. É parcial. Não presta um bom serviço a Portugal, porque esquece as boas iniciativas que por aí vão em todo o país. Confundir Portugal com Lisboa, sem sequer ver o que se passa no resto do país, é um sinal de um país doente, sem chama, que insiste no suicídio colectivo.

Para além disso, confunde inovação e capacidade de realização, com registo de patentes nacionais. Não seria melhor, digo eu, ver quantas dessas patentes foram vendidas, passaram a patentes internacionais, deram origem a novas empresas, novos negócios, novos produtos, criaram emprego, etc.?? É que registar patentes nacionais pode ser só uma forma de "mostrar" indices para as estatísticas. Até é barato!

Este "artigo" não presta um bom serviço porque é um exemplo de MAU JORNALISMO, em que a pessoa que o escreve se limita a transmitir aquilo que, provavelmente, lhe enviaram, sem fazer investigação, sem cruzar dados, sem perguntar a outros, em suma, sem levantar a cabeça e olhar à volta.

E claro, nem verifica que existem outros locais no país que têm resultados bem mais interessantes. Aqueles que de facto contam, porque têm impacto na economia e na vida das pessoas. Esquece tudo o resto. Por exemplo, que foi a Universidade do Porto (uma universidade que nem é mencionada no "artigo") que ganhou o concurso da COTEC sobre "Fomento do Empreendedorismo nos Alunos do Ensino Superior Português" no valor de 100 mil Euros. Ou que a melhor incubadora de empresas do País (considerada também a 2ª melhor do mundo) é de Coimbra (Instituto Pedro Nunes). Melhor porque tem mais empresas, e muito melhores taxas de sobrevivência, isto é, excelentes resultados na criação e sobrevivência de empresas criadas em ambiente universitário. Etc., etc.

Mas mais importante do que isso, esquece que, se calhar, o que devemos querer saber das universidades é:

1. Quantas empresas foram criadas pelos seus alunos.
2. Quantos empregos foram criados por essas empresas.
3. Qual o volume de negócios dessas empresas.
4. Quanto representam do PIB nacional.
5. Dos seus docentes e investigadores quantas patentes resultaram.
6. Quantas foram vendidas e deram lucro.
7. Quantas deram origem a spin-offs.
8. Qual o impacto da universidade nas exportações portuguesas.
9. Qual o valor acrescentado de um aluno da universidade/politécnico: custa quanto e vale quanto.
10. Qual o impacto da universidade/politécnico no cenário internacional de I&D: docentes e investigadores.
11. Quantos projectos europeus tem a universidade/politécnico.
12. Quanto valem os projectos europeus em percentagem do orçamento da Universidade.

Pois, mas obter esta informação dá muito trabalho.
E se calhar não permite obter o resultado pretendido com o "artigo"!
O melhor, como dizia recentemente Mário Soares sobre o actual jornalismo, é ficar pelos fait-divers, pela "espuma dos dias".

J. Norberto Pires

COMO EVITAR OS ERROS

Há erros que são absolutamente intoleráveis. Ocorre o exemplo recente dos erros médicos na clínica oftalmológica I-Q Med de Lagoa, no Algarve, que levaram vários pacientes à cegueira em casos que eram, aparentemente, de rotina. Como evitar esses e outros erros semelhantes?

Os erros numa prática profissional como a médica podem acontecer por desconhecimento das boas práticas ou porque as práticas não são boas, apesar de haver conhecimento delas. No primeiro caso, pouco há a fazer a não ser retirar a licença profissional aos responsáveis (nunca a deveriam ter obtido!). No segundo caso, deve-se melhorar as práticas de modo a evitar os erros que se sabe acontecerem mais frequentemente do que seria desejável. São mesmo inevitáveis, pois como diziam os antigos “errare humanum est". Porém, um erro significa sempre uma oportunidade de aprendizagem no sentido da sua correcção.

Acaba de ser publicado, pela editora Lua de Papel, do grupo Leya, um livro que ensina como evitar erros médicos ou outros. O título é elucidativo - “O Efeito Checklist” - assim como o subtítulo - “Como aumentar a eficácia”. Quer dizer, para evitar erros em situações de alguma complexidade não há nada como seguir uma lista de verificação ou de controlo e colocar um V item após item. Se acaso acontecer um erro novo, correspondente a uma violação de uma regra que não estava na lista, a solução é simples: tem de se aumentar a lista, para que o mesmo erro possa ser prevenido.

O autor de “O Efeito Checklist” é um medico norte-americano bastante mediático, de seu nome Atul Gawande. Ocupa um lugar de professor catedrático de Medicina na Universidade de Harvard, em Boston, escola onde ele também se formou e que costuma aparecer no topo dos “rankings” mundiais de universidades. Com uma extensa experiência em cirurgia geral, a sua especialidade é a remoção de glândulas endócrinas cancerosas, como, por exemplo, a tiróide. Para além da sua experiência clínica, o Doutor Gawande tem também experiência de escrita pois eé autor convidado na revista cultural “New Yorker” e tem uma coluna na prestigiada revista médica “New England Journal of Medicine”. Em português já é o terceiro título dele que sai do prelo da mesma editora: os outros títulos são “A mão que nos opera” e “Ser bom não chega”.

A tese do autor defendida no novo livro resume-se de uma forma muito simples. Em situações complexas, melhor do que confiar na memória, é seguir escrupulosamente as indicações de uma lista. Ele próprio introduziu esse procedimento na rotina cirúrgica de vários hospitais espalhados pelo mundo.

O Doutor Gawande é tão bom com a pena com é como com o bisturi. E os seus comentários escritos são tão afiados como o instrumento cirúrgico a ponto de o livro vir recomendado por nomes sonantes da prosa jornalística como Steven Levitt, autor de “Freaknomics”, e Malcolm Gladwell, autor de “Blink”.

Os exemplos médicos são talvez os mais pormenorizados, havendo casos impressionantes como o da recuperação de uma criança austríaca que se afogou num lago dos Alpes para ser recuperada quase milagrosamente no hospital local, quando a sua vida parecia perdida. Valeram os bons conhecimentos e a boa prática de uma equipa médica a funcionar em perfeita coordenação. O autor esclarece que isso mesmo é o que tem de ocorrer noutras situação que não a medicina, como a construção de arranha-céus (hoje em dia um operário pode mandar logo uma foto digital da afixação de uma viga a um grupo de técnicos ligados a ele por redes sem fios se tiver dúvidas), em economia (os melhores financiadores de projectos inovadores avaliam onde devem efectuar os seus investimentos, a próxima Google digamos, por uma “checklist” baseada na evidência e não por mera intuição ou improviso) ou na aviação comercial (quando algo corre mal como aconteceu com o acidente do avião que aterrou no meio do rio Hudson, em Nova Iorque, a calma do piloto e restante tripulação no pleno cumprimento de um conjunto de regras de segurança indicadas para situações de emergência são factores decisivos).

A comparação entre uma crise inesperada numa cirurgia e num voo de avião é particularmente reveladora da necessidade imperiosa do cumprimento de um conjunto de regras, reunidas numa lista que deve ser escrita e não mental. Tanto num caso como noutro pisa-se o estreito risco entre a vida e a morte. E o inesperado, por sua própria natureza, acaba, por muito raro que seja, por acontecer, seja uma hemorragia num vaso vital seja a entrada de aves num reactor. O autor revela com exemplos convincentes como o seguimento de uma “checklist” permite salvar vidas. Até mesmo ele, médico experiente, conta como outras pessoas, como uma enfermeira, lhe lembraram passos da lista que ele teria saltado, por serem de necessidade improvável, mas que se vieram a revelar importantes.

Para quem pouco sabe de medicina como o autor destas linhas (que só uma vez se sujeitou a um bisturi de um cirurgião, depois de ter assinado que compreendia e aceitava os riscos da operação – o que fiz prontamente pois o médico me informou que naquele sítio e para aquele tipo de intervenção não tinha havido fatalidades), a leitura do livro foi recompensadora. Aumentou a minha admiração por aquelas pessoas que não podem errar e percebi melhor como conseguem afastar o erro para mais longe possível. E percebi também como é que certas práticas afastadoras do erro podem resultar não só em medicina como noutras actividades humanas.

Um trecho elucidativo do estilo do autor aparece no final do livro quando ele conta o rompimento ocasional que provocou na veia cava durante uma operação a um seu paciente:

“Consequentemente, quando fiz aquele rasgão e pus toda a equipa numa situação catastrófica, toda a gente manteve o sangue-frio. O enfermeiro circulante pediu mais pessoal e conseguiu o sangue do banco quase imediatamente. O anestesista começou a administrar uma unidade a seguir à outra ao paciente. Foram, recrutadas forças adicionais para trazer o equipamento complementar que eu pedira, para ajudar o anestesista a encontrar mais acesso intravenoso, para manter o banco de sangue a postos. E, em conjunto, a equipa deu-me – e ao paciente – um tempo precioso. Acabaram por fazer a transfusão de mais de trinta unidades de sangue no paciente - para começar tinha perdido três vezes mais sangue do que tinha no corpo. E com os olhos no monitor a rastrear-lhe a tensão arterial e a minha mão a comprimir-lhe o coração, conseguimos manter o sangue a circular. O cirurgião vascular e eu tivemos tempo para descobrir uma maneira eficaz de agrafar o rasgão da meia cava. Conseguiu sentir o coração do paciente a bater sozinho outra vez. Fomos capazes de suturar e fechar o orifício. E o senhor Hagerman sobreviveu”.

Houve aqui um erro reparado a tempo. E aprendeu-se com ele, de modo a não o repetir. Errar pode ser humano, mas afastar o erro para bem longe também o é. Ou melhor, isso é que é verdadeiramente humano.

- Atul Gawande, “O Efeito Checklist – Como aumentar a eficácia”, Lua de Papel, 2010.

A FÍSICA DO FOGO


Minha crónica no "Sol" de hoje:

Para o filósofo grego Heráclito de Éfeso, que viveu nos séculos VI e V antes de Cristo, tudo provinha do fogo e tudo seria consumido pelo fogo. Mas o que é o fogo? Na Antiguidade era um dos quatro elementos. O conceito só ficou, porém, claro quando emergiram a física e a química. A meio do século XVIII, a Academia de Ciências de Paris anunciou um prémio para a melhor memória sobre a natureza do fogo. Embora o primeiro lugar tenha sido ganho pelo maior matemático da época, o suíço Leonhard Euler, aconteceu algo inédito: um escrito da autoria de uma mulher foi pela primeira vez galardoado pela Academia com a respectiva publicação. A autora de “Dissertação sobre a Natureza e a Propagação do Som” era a francesa Madame de Châtelet, amante do filósofo Voltaire, o qual, tendo também concorrido, viu o seu trabalho ser igualmente distinguido.

Para se perceber o que era uma combustão foi preciso, no entanto, esperar pelos trabalhos do químico francês Antoine-Laurent Lavoisier (muito ajudado por sua mulher, Marie-Anne), que identificou o oxigénio, quase ao mesmo tempo que dois outros cientistas. O oxigénio, esse sim, é que é um elemento químico, sem o qual o fogo não pode existir. Quando uma árvore arde, compostos de carbono das fibras da madeira combinam-se com o oxigénio da atmosfera, produzindo dióxido de carbono e água, numa reacção que liberta energia, manifesta pela emissão de calor e de luz. No século XIX, de posse dessa explicação, o inglês Michael Faraday já podia descrever “a história química de uma vela”, em conferências populares que procuravam tornar simples o que é um fenómeno extremamente complexo.

Um fogo é, portanto, química. Mas, mostrando que química e física andam juntam como duas irmãs siamesas, a propagação de um fogo só se consegue explicar com a ajuda da física. Tomemos um fogo florestal, esse mal infelizmente tão comum no nosso país em tempo de Verão. Para explicar o modo como progride um desses fogos, já temos de falar de fenómenos físicos como difusão, convecção, radiação, etc. Ora, se uma chamazinha de uma vela já é uma coisa muito complicada, o que dizer de um imenso e demorado braseiro como o que há poucos dias alastrou nas encostas da Serra da Gralheira, em S. Pedro do Sul? Os físicos são, porém, engenhosos: criaram modelos cujo objectivo é captar o essencial dos muitos e variados processos que ocorrem num grande incêndio. Curiosamente, esses modelos, que são explorados em simulações computacionais, servem não só para descrever fogos florestais mas também o espalhamento do petróleo derramado no mar ou ainda o avanço de uma epidemia como a gripe. Tudo males que podem ser mais bem atacados se se fizer melhor ideia do modo como avançam. Como já alguém disse: “Prever é prover!”

O processo disciplinar levantado pela Federação Portuguesa de Futebol a Carlos Queiroz


“O soberaníssimo bom senso” (Antero de Quental, 1842-1891).

Encontra-se Carlos Queiroz, licenciado pelo ISEF, da Universidade Técnica de Lisboa, e antigo docente de José Mourinho, no epicentro de uma polémica que se consubstancia num processo disciplinar, que lhe foi levantado pelo Conselho Disciplinar da Federação Portuguesa de Futebol, em que a nota de culpa incide sobre possíveis obstáculos levantados a um controlo anti-doping e a um insulto à progenitora do presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal, o médico Luís Horta.

Apresentou Carlos Queiroz como testemunha de defesa Sir Alex Ferguson que disse aos jornalistas, depois de ter prestado o seu depoimento, que considerava este caso lamentável, que compreendia a reacção de Carlos Queiroz a um controlo feito de manhã muito cedo numa altura em que os jogadores se encontravam recolhidos nos quartos, tendo acrescentado: “Conheço bem Carlos Queiroz. Trabalhei com ele seis anos, é um excelente treinador e professor, Tem uma grande reputação e isso é muito importante no futebol”.

Por seu turno, nas suas declarações aos jornalistas depois de ter prestado o seu depoimento em defesa de Carlos Queiroz,Jorge Nuno Pinto da Costa,presidente do Futebol Clube do Porto, foi muito contundente quando declarou: "Se é um envolvimento político, não me compete julgar, agora qual a razão porque veio falar [referindo-se a Laurentino Dias], pois... Se calhar, nos próximos 15 dias, não se vai falar do caso Freeport nem do Casa Pia, só se vai falar de uma frase horrorosa que Queiroz disse”.

Todo este imbróglio tem raízes bem profundas que não cabem na opinião de Jean-Paul Sartre: “No futebol tudo fica mais complicado através da presença da equipa adversária”. Passado mais de meio século, o desporto profissional, com os seus intérpretes, criou uma espécie de mundo cão em que se movimentam milhões e em que o desporto-rei como escola de virtudes pertence a uma utopia em que ninguém se respeita e em que a queda de um treinador é a possibilidade dada a um outro que aguarda a sua oportunidade. E tanto assim é, que se perfilam já no horizonte dos media nomes para substituir Carlos Queiroz mesmo antes do desfecho deste “muito ridículo processo”, nas palavras de Pinto da Costa.

Aquando do seu regresso a Portugal para tomar posse do cargo de seleccionador nacional, antevi as dificuldades com que se iria deparar na sua difícil caminhada. Escrevi, então, um post neste blogue, em 19 de Julho de 2008, intitulado “O regresso de Carlos Queiroz”,de que transcrevo alguns excertos:

“Em Portugal é tradição passar-se do oito ao oitenta, do mais negro pessimismo à mais cor-de-rosa esperança, do acorde dorido da guitarra portuguesa à alegria contagiante do Bailinho da Madeira. Seja como for, o messianismo é carga demasiado pesada para os frágeis ombros humanos, ainda que fortalecidos por valioso diploma académico e escorados em provas dadas entre as quatro linhas de dois campeonatos mundiais de futebol de sub-vinte e ao serviço do reputado Manchester United.

Razão teve Otto Glória a quem se atribui a frase (há quem a atribua a Cândido de Oliveira): 'O treinador de futebol quando ganha é bestial, quando perde é uma besta!'. Não é a bola redonda e o futebol sujeito à sorte ou aos azares da fortuna? Seja como for, Carlos Queirós merece bem um voto de confiança a longo prazo pelo seu passado de grandeza”.


Passados dois anos, em 4 de Julho de 2010, agora no rescaldo deste campeonato mundial, publiquei um novo post, intitulado” Seleccionador nacional de futebol e jogadores; culpados ou vítimas?”. Aqui deixo excertos:

“Seja como for, entendo que os campeonatos mundiais de futebol se tornaram numa feira de vaidades em que são sentados no banco dos réus apenas os seleccionadores nacionais. Haja em vista todos aqueles que foram despedidos, ou se despediram de motu proprio, depois das derrotas das respectivas equipas na África do Sul.

Mas serão eles os únicos e verdadeiros culpados? Porventura, estarão isentos de culpa os jogadores, estrelas de um firmamento futebolístico que nem sempre cintila, que fazem deste tipo de campeonato uma feira de venda de si próprios atingindo os seus passes cifras astronómicas e, ipso facto, mandando às urtigas o jogo de equipa? Salvaguardando-se as honrosas excepções, por exemplo, de Fábio Coentrão, quem sabe se por ainda não ser uma superstar, ou o caso de Ricardo Carvalho, feito de uma argamassa ética diferente.

Com tenho escrito outras vezes, o desporto profissional corre o risco de se tornar num verdadeiro circo romano sem ter conhecido sequer o apogeu de uma educação integral helénica. A assistir, nas bancadas VIP, verdadeiros Neros que se escondem à sombra das suas responsabilidades, enquanto na arena seleccionadores e jogadores se tornam pasto de verdadeiras feras que enchem as bancadas e tudo exigem deles, passando das palmas aos assobios, num abrir e fechar de olhos, já que não podem exigir o sacrifício das suas vidas, em desforço de uma nação humilhada.

E, desta forma, são esquecidos os aumentos de impostos, um serviço nacional de saúde deficiente e deficitário, um ensino que não ensina, uma economia que decresce e, principalmente, o aumento de desemprego - o maior flagelo de qualquer sociedade. Ironicamente, são, por vezes, estas as bandeiras de solidariedade e êxito governativo agitadas em mãos de uma sociedade, em que os pobres deste mundo de Cristo estão cada vez mais pobres, a classe média passou a pobre e os ricos estão cada vez mais ricos, por aqueles que mandam apertar o cinto por usarem suspensórios. Poderia a nossa selecção de futebol fazer melhor?”

Sobre os palavrões usados no mundo do futebol onde se não pode exigir punhos de renda, transcrevo um comentário de João Boaventura, inserido no blogue “Colectividade Desportiva” (05/08/2010), que faz jus ao aforismo romano "nil novi sub sole":

“1970 - Lourenço Marques

Jogo: 1.º de Maio - Desportivo de L.M.

1.ª parte - O Antero, poveiro dos sete costados, dá um soco no defesa do Desportivo

Apito. Cartão vermelho. Antero expulso.

O sr Guerreiro, treinador: - Então para que foi aquilo ?

Antero explica: - Chamou-me filha da p...!

Intervalo. Tudo para o balneário. O treinador do 1.º de Maio, vai falar no caso Antero e chama a atenção de todos os jogadores:

- Quero que vocês todos saibam de uma vez por todas, para que o caso Antero não se repita. Todos temos duas mães, uma a verdadeira que está em casa, e outra para ser usada nos campos de futebol.

Antero voltou para a Póvoa de Varzim, de onde era natural, e o sr. Guerreiro vive hoje no Algarve.

O João Boaventura era dirigente do 1.º de Maio e preparador físico gratuito da equipa, e assistiu a este caso, e ficou a saber que também tem duas mães, uma virtual e outra real, para se precaver”.


Só quem não frequenta os campos de futebol pode viver no “ledo e doce engano” de que gente ilustre da nossa sociedade se comporta como meninos do coro incapaz de um insulto aos árbitros e seus familiares. Despidos dos salamaleques e dos tratamentos por vossas excelências dignos de gentis-homens são palavrões gritados para dentro do campo e que fariam corar de vergonha o carroceiro mais empedernido. São insultos públicos testemunhados por gente em redor. E quem lhes levanta processos disciplinares? Ou há moralidade…

A EDUCAÇÃO DURANTE O ESTADO NOVO (2)

Segundo texto de uma série de doze, retirados do livro Antes dos Cravos  doo Professor António Galopim de Carvalho (em continuação do anter...