sábado, 6 de agosto de 2011

O CÉU E AS TRADIÇÕES: PRESERVAR O CÉU DOS NOSSOS AVÓS


Mais um artigo sobre observação dos céus, de Guilherme de Almeida.

"Fora dos bastidores da ciência oficial de cada época, os diferentes povos criaram as suas próprias interpretações alternativas do céu nocturno e dos seus fenómenos. Sentiam o firmamento próximo dos seus interesses e das suas vidas: temiam-no e admiravam-no, dando-lhe também uso utilitário através de múltiplas e ricas interpretações. Pastores, viajantes, aventureiros, camponeses, navegadores e sacerdotes reuniram, à sua maneira, conhecimentos empíricos sobre o céu que os ajudavam na sobrevivência dária, nas decisões, viagens e celebrações. Transmitiram-se por tradição oral e chegaram aos nossos tempos: a atestá-lo temos ainda hoje (exemplos referentes a Portugal) designações como "Estrela Boieira", "Sete Estrelo", "Estrela do Pastor", "Cajado", "Cabritos", "Três Marias", etc., que nos trazem recordações distantes.
Como preservar esses saberes milenares, de inegável interesse histórico e documental, capazes de nos transportar aos tempos passados, estando nós numa época em que a maioria das pessoas pensa que tudo é descartável?"

Para aceder a este artigo (em pdf) clique aqui.

LIVROS PARA A PRAIA


Minha crónica que saiu ontem no jornal "Público":

Para a praia só não recomendo livros de capa dura porque são fisicamente mais pesados. Não tenho nenhum pejo em recomendar livros duros porque não penso que os raios solares amoleçam a cabeça a ponto de o cérebro se tornar impermeável a obras mais densas. Falo por mim, que gosto de aproveitar os dias longos das férias para mergulhar, perto da praia, em livros convidativos em que não tive tempo de entrar antes. E gosto de ficar dentro deles, retemporando-me para o novo ano laboral. Nas férias há mais tempo para pensar... Eis, dos últimos livros chegados às livrarias, aqueles que vou levar para as férias (dos livros mais recentes, leio mais ensaio que ficção). A ordem é a alfabética do autor:

- John Banville, Os Infinitos, Asa. Do grande escritor irlandês autor de O Mar (Booker Prize de 2005), uma história de um velho matemático que, cansado de estudar o infinito, se vê confrontado com a sua própria finitude temporal. Os deuses gregos espreitam-no...

- Roger-Pol Droit, Voltar a Ler os Clássicos, Temas e Debates e Círculo de Leitores. Um filósofo francês contemporâneo, professor no Instituto de Estudos Políticos de Paris, revisita as grandes ideias dos clássicos que hoje permanecem actuais. O que podemos lucrar nas nossas vidas conhecendo as vidas e os pensamentos de Sócrates, de Epicuro e de Séneca?

- James Gleick, Isaac Newton, Casa das Letras. Newton disse que se conseguiu ver mais longe foi porque estava aos ombros de gigantes. Mas ele próprio era um gigante e acima dele só outro gigante, Einstein, conseguiu subir. Para saber por que razão Newton é considerado um dos maiores génios de todos os tempos recomendo esta biografia, ganhadora de um Prémio Pulitzer, da autoria do jornalista norte-americano que já nos tinha dado na Gradiva Caos e Feynman, A Natureza do Génio.

- Barry Hatton, Os Portugueses, Clube do Autor. Com o subtítulo “A história moderma de Portugal. O verdadeiro retrato de um povo único, fascinante e contraditório”, o correspondente entre nós da United Press International e da Associated Press diz como nós somos. Como somos? “Os portugueses lembram aquelas velhas oliveiras por que passamos no país – vergadas por forças maiores, marcadas e sofredoras, mas sobrevivendo robustamente e com uma invulgar beleza”.

- Michio Kaku, A Física do Futuro, Bizâncio. De um físico norte-americano de origem japonesa, autor na mesma editora de A Física do Impossível e Visões, chega-nos um outro livro de futurologia bem alicerçada na ciência mais recente. O subtítulo esclarece: Como a ciência moldará o mundo nos próximos cem anos. Muitas dúvidas, mas uma certeza: Se a ciência tem moldado o mundo, vai moldá-lo ainda mais.

- Alberto Manguel, A Cidade das Palavras, Gradiva. Manguel é um grande bibliófilo nascido na Argentina que, na sua nota biográfica, nos conta que leu livros em voz alta ao cego Jorge Luís Borges. Neste livro, relata-nos como os livros que leu em toda a sua vida, em voz alta ou baixa, o ajudam e nos ajudam a entender a nossa sociedade, marcada hoje por violência inusitada como como a que ocorreu na Noruega.

- Maria Filomena Mónica, A Morte, Fundação Francisco Manuel dos Santos. Já alguém disse que a vida é uma doença crónica, com um desenlace invariavelmente fatal. A conhecida socióloga discorre, neste breve ensaio da recente Fundação, sobre esse desenlace.

- Rebecca Skloot, A Vida Imortal de Henrietta Lacks, Casa das Letras. Distinguido como o melhor livro de ciência nos Estados Unidos no ano transacto, uma jornalista de ciência conta-nos a espantosa história de uma descendente de escravos, vítima de um fulminante cancro do colo do útero em 1950, que, sem querer, deixou à ciência células que continuam hoje vivas e a multiplicar-se, salvando muita gente. O triunfo da vida sobre a morte.

Boas leituras e boas férias!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

ETOLAS - O ARQUITECTO MINERAL!


Um outro dos meus doze textos constituintes do “Cordel de Ciência”, ilustrados por Diana Marques, iniciativa promovida e inaugurada no Pavilhão do Conhecimento aquando da comemoração do seu 12º Aniversário, no passado dia 21 de Julho de 2011. Passe por lá e leve-os consigo pela mão! Entretanto…e a pedido de alguns leitores que habitam outras paragens transatlânticas...

"Depois de um dia magnífico, passado entre brincadeiras e gargalhadas, Ricardo descansa o olhar no imenso céu estrelado que vê através da janela do seu quarto.

Enquanto o sono não chega, para viver novas aventuras em sonho, Ricardo colecciona cores e intensidades diferentes nos brilhos das estrelas. Na caderneta estrelar do Ricardo não há cromos repetidos. Aliás, Ricardo tem dificuldade em encontrar duas estrelas iguais na vastidão da abóbada celeste observável através da janela do seu quarto.

Subitamente, a intensidade do brilho de uma estrela aumenta de tal forma que inunda o seu quarto de luz. Surpreendido, Ricardo senta-se na cama e esfrega os olhos. Não podia acreditar: algo muito estranho tinha vindo junto com o brilho.

- Quem és tu? – pergunta Ricardo, estupefacto.
- Sou Etolas, o melhor arquitecto de minérios desta galáxia!
- Arquitecto de minérios?! Que profissão é essa? – questiona Ricardo, cada vez mais intrigado.
- Arquitecto as condições espaciais para que novos minerais possam ser gerados… – Ricardo interrompe Etolas.
- Espaciais? Mas donde é que tu vens? Não me pareces nada com um astronauta!
- Eu venho de um planeta que já não existe neste Universo – responde Etolas, com nostalgia. – Um planeta que orbitava entre Marte e Júpiter, mais precisamente onde hoje existe um belo cinturão interno de asteróides neste sistema solar.
- Não me digas que és um extraterrestre? – pergunta Ricardo, desconfiado.
- Do vosso ponto de vista… Sim, sou um extraterrestre.
- Estranho! Não pareces nada com os extraterrestres dos filmes que vejo: não tens antenas, não tens só um olho, não tens quatro pernas, a tua cabeça parece-me humana… Não me pareces nada com um extraterrestre. – diz Ricardo, com a dúvida a turvar o olhar.
- A imagem que vês de mim é fruto da tua imaginação. Sabes – continua Etolas – é difícil imaginarmos coisas diferentes daquelas que estamos habituados a ver e sentir desde que nascemos. E eu que te diga: não é mesmo nada fácil, mesmo para mim que já por cá viajo há milhões de anos! Por isso, é normal que a imagem que o teu cérebro constrói sobre mim não seja muito diferente da de uma imagem humanóide.
- Curioso… – comenta Ricardo – Aquilo que dizes faz algum sentido, mesmo para mim que colecciono cores e brilhos de estrelas. Apesar de ainda não ter encontrado, com a vista desarmada, duas exactamente iguais, não posso dizer que no geral sejam assim tão estranhas umas das outras. Mas, e para ti, Etolas, como é que eu te apareço? – pergunta Ricardo, desafiante.
- Queres mesmo que te diga? – compassa Etolas.
- Quero. Sou assim tão estranho aos teus olhos? – insiste Ricardo.
- Para mim a tua imagem não é estranha, pela mesma razão que a minha imagem para ti não é muito diferente da de um humano – responde Etolas.
- Mas então, se me disseres como me vês, ficarei com uma ideia de como és! – exclama Ricardo – como é que eu te apareço visualmente?
- Como um minério composto essencialmente por fosfato, cálcio, oxigénio e hidrogénio! Estes elementos, organizados em estruturas tridimensionais a que vocês dão o nome de cristais de hidroxiapatita. É uma estrutura cristalina interessante – continua Etolas – do meu ponto de vista de arquitecto de minérios, e única, posso confirmar-te, por todo o Universo por onde já viajei!
- Pareço-te então um esqueleto?! – boceja Ricardo.
- Lá está a tua incapacidade de escapar ao que te é conhecido – responde Etolas – Para mim és uma estrutura mineral que resultou do crescimento organizado de cristais, cuja regularidade nuclear pode ser descrita pela fórmula química Ca10(PO4)6(OH)2, para falarmos numa mesma linguagem química.
- Curioso não detectares carbono na minha composição! – diz Ricardo, espantado.
- Para mim – responde Etolas – o elemento carbono é superficial na imagem que tenho de ti. Aliás, deixa-me dizer-te que, para mim, as estruturas à base de carbono são muito monótonas…
- Mas é sobre essa monotonia carbónica que a vida neste planeta se edificou… curiosa essa tua visão – remata Ricardo, pensativo, para logo perguntar: – Mas se o teu planeta já não existe, de onde vens tu agora? – Ricardo abre a mão para o céu estrelado.
- Não venho de lado algum – afirma Etolas, categórico – Viajo pelo Universo à procura dos meus minérios, dos meus cristais preciosos e únicos. Já te disse que sou um arquitecto de minérios.
- Não estou a perceber nada! Se calhar estou a sonhar… – diz Ricardo, espreguiçando-se.
- Vou-te explicar com um exemplo concreto: lembras-te do minério que os vossos cientistas baptizaram por Wassonite? – pergunta Etolas, refulgente.
- Vagamente… Aquele encontrado num meteorito, creio que designado por Yamato 691, descoberto na Antártica em 1969, e que se pensa proveniente da cintura interna de asteróides… – intervala Ricardo, atónito, para recomeçar entusiasmado – Não me digas que é um pedaço do teu planeta…
- Não, Ricardo – responde Etolas. – Esse meteorito é o que resta de um dos inúmeros canteiros de minerais que eu arquitectei a partir dos elementos disponíveis. Esse, em particular, até foi uma das minhas últimas arquitecturas minerais, elaborada a partir dos elementos enxofre (S) e titânio (Ti). Consegui um arranjo cristalino estável e singular, na senda de contribuir para a imprescindível diversidade mineral do Universo! – expõe Etolas, com uma pose muito extraterrestre.
- És mesmo inorgânico, Etolas! – conclui Ricardo, piscando um olho.
- Do meu ponto de vista, sou universalmente mineral! – graceja Etolas, imiscuindo-se no seu brilho cristalino.

O galo do tio Alfredo cantou, seguindo a “Partitura de Alvorar”, autoria do “cósmico anónimo”.

Ricardo acorda. Estremunhado, recorda-se de um sonho de outro mundo, com vida muito mineral…

António Piedade

Interpretar um poema de Álvaro de Campos


«Na casa defronte de mim e dos meus sonhos» é o primeiro verso do poema de Álvaro de Campos objecto de questionamento na prova de Exame de Português de 12.º Ano (1.ª Fase de 2011).

Muito se falou e se escreveu sobre a escolha do poema e as perguntas feitas no Exame de Português do 12.º ano - 1.ª fase. Houve quem respigasse um ou outro aspecto de natureza interpretativa sobre o mesmo, mas não terá sido divulgada uma interpretação total do poema. Ora, sendo o poema representativo de Álvaro de Campos e de uma das suas fases indicadas no Programa do Ensino Secundário, aquela em que o vemos irmão de Fernando Pessoa ortónimo na dor de pensar e na nostalgia da infância (tem a data de 16.06.1934, sensivelmente ano e meio antes da morte do poeta), parece pertinente apresentar uma interpretação de todo o poema (e não, apenas, de versos soltos).

A interpretação que se segue (e que, apesar da sua extensão, optámos por apresentar num só post) é da autoria de Maria Regina Rocha, professora de Português.

Como ponto prévio, será de referir que devemos olhar para um poema como um todo coerente: o poeta escreveu 9 estrofes (e não 8 ou 10), porque considerou que elas traduziam um pensamento com uma determinada unidade e, quando lhe colocou uma data e o deu por terminado, é porque algo que para o poeta era coerente ali ficou plasmado. Importa, pois, que nós, os seus leitores, estejamos à altura de o compreender. As palavras do poema, os versos, a pontuação, nada ali está por acaso: são peças de um puzzle coerente. Tentaremos, então, perceber essa coerência de pensamento numa análise estrofe a estrofe e verso a verso. Segue-se a transcrição do poema.

Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Que felicidade há sempre!

Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.
São felizes, porque não são eu.

As crianças, que brincam às sacadas altas,
Vivem entre vasos de flores,
Sem dúvida, eternamente.

As vozes, que sobem do interior do doméstico,
Cantam sempre, sem dúvida.
Sim, devem cantar.

Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.
Assim tem que ser onde tudo se ajusta —
O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza.

Que grande felicidade não ser eu!

Mas os outros não sentirão assim também?
Quais outros? Não há outros.
que os outros sentem é uma casa com a janela fechada,
Ou, quando se abre,
É para as crianças brincarem na varanda de grades,
Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram.

Os outros nunca sentem.
Quem sente somos nós,
Sim, todos nós,
Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada.


Nada! Não sei...
Um nada que dói...

Só é possível obter uma ideia geral precisa do poema no final da sua leitura e da análise verso a verso. No entanto, após uma leitura de todo o poema, apenas leitura, sem ainda se proceder a análise, sobressai a ideia geral de que o sujeito poético se sente diferente de outros que observa e que tal situação lhe causa sofrimento. Passemos, então, à interpretação do poema estrofe a estrofe.

1.ª estrofe - O sujeito poético diz que na casa defronte de si e dos seus sonhos existe felicidade.
A casa não está dentro dos seus sonhos (na sua imaginação), mas «defronte» de si e «defronte» dos seus sonhos. Tal significa que aquela casa está defronte do sujeito poético no momento em que ele sonha, em que ele divaga, em que deixa o pensamento correr. E que nessa casa existe felicidade. A referência a essa felicidade é expressa por um verso exclamativo («que felicidade há sempre!»), sugerindo a admiração do poeta, eventualmente a estranheza, pelo facto de haver felicidade, ou pela dimensão dessa felicidade («que felicidade»), ou pela sua perenidade («há sempre»).

2.ª estrofe - No primeiro verso da estrofe, o sujeito poético especifica quem vive na casa: são pessoas que o poeta já viu, mas que verdadeiramente não conhece («pessoas que desconheço, que já vi mas não vi»). É compreensível: são pessoas para as quais o poeta já olhou, mas que, propriamente, não conhece, não sabe quem são nem o que pensam (viu, mas não viu).No segundo verso da estrofe, retoma a ideia da felicidade referida na primeira estrofe: essas pessoas são felizes. E acrescenta que o são porque não são ele. Começa aqui a expressão da diferença: se as pessoas são felizes porque não são o poeta, tal significa, por um lado, que aquelas pessoas têm uma perspectiva da vida diferente da do poeta (e é porque a têm que conseguem ser felizes: se fossem como o poeta, não seriam felizes), e, por outro lado, que o poeta não é feliz.

3.ª, 4.ª e 5.ª estrofes - Estas três estrofes têm uma unidade: caracterizam a felicidade das pessoas que o poeta observa.
Na 3.ª estrofe são referidas crianças que brincam, sem consciência da passagem do tempo («eternamente»), numa alegria de quem é inconsciente, de quem vive «entre vasos de flores», ou seja, rodeado do que é belo, sem a noção da realidade, do sofrimento.
Na 4.ª estrofe, é referido o cantar que ecoa dentro da casa, também sugestivo da alegria de quem canta fechado no seu mundo, na simplicidade da felicidade doméstica.
Nestas duas estrofes, repete-se a expressão «sem dúvida» (vv. 7 e 9), um comentário do próprio sujeito poético, que dá como certas essas características da vida dos outros: não tem dúvidas de que as crianças usufruem da felicidade e de que as pessoas cantam (isso ele vê, é a sua certeza).
O verso 10 («Sim, devem cantar.») traduz a constatação da lógica daquele tipo de viver: sim, têm de cantar, é lógico que cantem («dever» significa aqui obrigação: é sinónimo de «ter de»)[1]. Essa lógica é explicada na 5.ª estrofe: para aquelas pessoas tudo se ajusta, tudo está certo (a festa que revelam exteriormente é a que sentem interiormente). O verbo «dever» do verso 10 tem correspondência, no verso 12, na expressão «ter que» («Assim tem que ser»).
Então, as pessoas que o sujeito poético observa seguem o que é natural, cumprem a sua função de pertença ao meio em que se inserem, a cidade. O verso «O homem [ajusta-se] à Natureza, porque a cidade é Natureza» poderá interpretar-se como a tradução da harmonia do mundo que o poeta observa: a cidade é, para o homem que nela vive e à qual pertence, a Natureza[2].

6.ª estrofe - significa o seguinte: que felicidade o poeta não ser como aquelas pessoas! Observe-se que o verbo ser não está na 3.ª pessoa do plural, mas no singular. Se o verso fosse «Que grande felicidade não serem eu!», tal significaria que as pessoas eram felizes por não serem o poeta, ou que o poeta se regozijava por elas não serem como ele, mas o que é dito é totalmente diferente: que bom o poeta não ser assim, como essas pessoas!
Campos recusa identificar-se com aqueles embotados ou inconscientes que conseguem ser felizes.

7.ª estrofe - Depois desse verso de afirmação consciente da diferença e da recusa de uma felicidade apenas apanágio dos inconscientes, o sujeito poético como que pára para se interrogar sobre o que acabou de pensar e de escrever: «Mas os outros não sentirão assim também?»[3] (v. 15). Este verso quer dizer o seguinte: Será que os outros não pensam como o sujeito poético? Isto é, será que os outros também não se sentem diferentes?
Esta interrogação retórica leva o poeta a reflectir sobre o facto de, afinal, ninguém saber o que se passa no íntimo dos outros, pois o sentimento de cada um é algo pessoal, não podendo ser vivenciado por mais ninguém (v. 16): existe incomunicabilidade entre os seres no que diz respeito à revelação dos sentimentos (v. 17 – a metáfora da «casa com a janela fechada»: as pessoas não revelam o que sentem).
O poeta acrescenta que, quando há indícios de revelação de sentimentos («quando se abre» a janela – v. 18), ou há um vislumbre da felicidade inerente a quem não tem consciência da vida, a quem não pensa (a metáfora das crianças que brincam na varanda de grades, entre vasos de flores – vv. 18-20) ou de uma felicidade aparente («vasos de flores que nunca vi quais eram» – v. 20).

8.ª estrofe - Nesta estrofe, o poeta conclui o raciocínio desenvolvido na anterior, especificando que desconhecemos o que se passa no íntimo de cada um (v. 21 – «os outros nunca sentem») e que só é possível sentir enquanto primeira pessoa («nós» – v. 22).
Especifica, então, que nesse «nós» se integra o «eu» do sujeito poético (v. 24), mas, em vez de referir o que está a sentir – que era aquilo de que o leitor estaria à espera, pois, se quem sente somos «nós» (vv. 22-23), o «eu» também sentiria –, afirma, inesperadamente, que naquele momento já não está sentindo nada. Neste verso final da penúltima estrofe são, assim, de salientar dois aspectos: o facto de o poeta já ter sentido, já se ter identificado com os que constituem «nós», e de, naquele momento, já não estar sentindo nada. Surge, aqui, subtilmente, a «inépcia congénita para os sentimentos humanos e simples»[4], característica de Álvaro de Campos.

9.ª estrofe - O sujeito poético interroga-se, então, sobre o facto de não estar sentindo nada («Nada?»), considerando não ter a certeza disso («Não sei…») e explicando esse reticente «Não sei…»: é que esse tal «nada», afinal, «dói». O último verso («Um nada que dói») consiste, pois, num oxímoro que pode ser interpretado de duas formas:
– o facto de não estar a sentir nada incomoda o sujeito poético, fá-lo sofrer;
– o sujeito poético não sabe se, realmente, não está a sentir nada, pois esse tal hipotético «nada» «dói», fá-lo sofrer, isto é, fá-lo sentir.
O sujeito poético sugere, na última estrofe, que sente amargura por se aperceber de que não tem a capacidade de sentir felicidade: recusa a hipotética felicidade que os outros parecem deixar transparecer nos raros momentos em que se revelam, mas não encontra alternativa. O sujeito poético opta pela clarividência da impossibilidade de se sentir feliz, mas, simultaneamente, sofre. É que não está na sua natureza ser capaz de ser inconsciente de tal modo que pudesse sentir-se feliz sem se aperceber de que tal sentimento seria revelador da ausência de consciência[5].

Concluindo,

este poema de Álvaro de Campos é característico da sua fase de tédio, estado de alma traduzido num dos textos do Livro do Desassossego[6] de que se podem seleccionar alguns excertos: «O tédio é, sim, o aborrecimento do mundo, o mal-estar de estar vivendo, o cansaço de se ter vivido; o tédio é, deveras, a sensação carnal da vacuidade prolixa das coisas (…) o aborrecimento de outros mundos, quer existam quer não; o mal-estar de ter que viver, ainda que outro, ainda que de outro modo, ainda que noutro mundo (…)

O poema traduz, assim, a angústia existencial de quem está condenado a ver a felicidade dos outros, impossibilitado, pela sua natureza de ser pensante, de nela entrar e de usufruir qualquer bem-estar, dada a lucidez da percepção da inexistência de alternativa.

Poderá, naturalmente, haver outras interpretações do poema. O que importa é ensinar aos alunos que a interpretação tem de incidir na totalidade do poema, na compreensão de todas as peças que dele fazem parte e que se interligam num todo coerente, proporcionando-nos uma determinada revelação do mundo do «eu».

E, quando o «eu» é Fernando Pessoa em vertente de Álvaro de Campos, é sempre um desafio a sua interpretação.
__________________________

[1]No Livro do Desassossego, do heterónimo Bernardo Soares, o assunto é objecto de reflexão (os sublinhados são nossos):
«A monotonia das vidas vulgares é, aparentemente, pavorosa. Estou almoçando neste restaurante vulgar, e olho, para além do balcão, para a figura do cozinheiro, e, aqui ao pé de mim, para o criado já velho que me serve, como há trinta anos, creio, serve nesta casa. Que vidas são as destes homens? Há quarenta anos que aquela figura de homem vive quase todo o dia numa cozinha; tem umas breves folgas; dorme relativamente poucas horas; vai de vez em quando à terra, de onde volta sem hesitação e sem pena; armazena lentamente dinheiro lento, que se não propõe gastar; adoeceria se tivesse que retirar-se da sua cozinha (definitivamente) para os campos que comprou na Galiza; está em Lisboa há quarenta anos e nunca foi sequer à Rotunda, nem a um teatro, e há um só dia de Coliseu — palhaços nos vestígios interiores da sua vida. Casou não sei como nem porquê, tem quatro filhos e uma filha, e o seu sorriso, ao debruçar-se de lá do balcão em direcção a onde eu estou, exprime uma grande, uma solene, uma contente felicidade. E ele não disfarça, nem tem razão para que disfarce. Se a sente é porque verdadeiramente a tem. (…)
Revejo, com um pasmo assustado, o panorama destas vidas, e descubro, ao ir ter horror, pena, revolta delas, que quem não tem nem horror, nem pena, nem revolta, são os próprios que teriam direito a tê-las, são os mesmos que vivem essas vidas. É o erro central da imaginação literária: supor que os outros são nós e que devem sentir como nós. Mas, felizmente para a humanidade, cada homem é só quem é, sendo dado ao génio, apenas, o ser mais alguns outros.
Tudo, afinal, é dado em relação àquilo em que é dado. Um pequeno incidente de rua, que chama à porta o cozinheiro desta casa, entretém-no mais que me entretém a mim a contemplação da ideia mais original, a leitura do melhor livro, o mais grato dos sonhos inúteis. E, se a vida é essencialmente monotonia, o facto é que ele escapou à monotonia mais do que eu. E escapa à monotonia mais facilmente do que eu. A verdade não está com ele nem comigo, porque não está com ninguém; mas a felicidade está com ele deveras.»
[2] Segundo o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de Morais, 10.ª edição, Natureza, substantivo próprio (com letra maiúscula) significa: «Conjunto de todos os seres de que se compõe o Universo e dos fenómenos que nele se produzem»; «O Mundo físico; o conjunto dos fenómenos físicos e das causas que os determinam»; «Conjunto das forças que presidem aos diversos fenómenos de que os seres criados são objecto no espaço e no tempo». Saliente-se esta última acepção.
[3] No poema que tem como verso inicial «Ao volante do Chevrolet, pela Estrada de Sintra», diz o poeta (vv. 19-21):
« À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.»
[4] Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, Verbo, p. 121.
[5]O poeta traz consigo «o espinho essencial de ser consciente», como afirma no poema «Vilegiatura» (versos 12 a 15), escrito na mesma altura (1934):
«Vim para aqui repousar, Mas esqueci-me de me deixar lá em casa, Trouxe comigo o espinho essencial de ser consciente, A vaga náusea, a doença incerta, de me sentir
[6] Bernardo Soares Pessoa, Livro do Desassossego, ed. Richard Zenith (1988), n.º 381, datado de 28.09.1932.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O GENOMA DA BATATA



Crónica publicada no "O Despertar".


Quando comer a próxima batata (cozida, assada, frita, etc) acompanhe-a com o conhecimento íntimo que sobre ela foi recentemente publicado na revista Nature. Ao trincar a próxima batata imagine que está a saborear o genoma deste tubérculo, cujo conjunto de genes que codificam proteínas é agora melhor conhecido.

Publicado no passado dia 10 de Julho naquela revista pelo consórcio internacional (29 grupos de investigação provenientes de 14 países) dedicado à sequenciação do seu genoma desde Janeiro de 2006, sabemos agora que este é constituído, pelo menos, por 39 mil genes que codificam proteínas (quase o dobro dos existentes no genoma humano) distribuídos em 12 cromossomas.

O genoma existente em cada uma das células da batata é estruturado por quatro cópias destes 12 cromossomas (48 cromossomas no total), enquanto o humano só possui uma cópia de 23 cromossomas (46 cromossomas). A relação complexa que se estabelece entre os genes, do tetraplexo cromossómico do genoma da batata, tem tornado a sua compreensão muito difícil.

O consórcio internacional, que sequenciou 840 milhões de bases (o humano possui cerca de 340 milhões) do ADN (ácido desoxirribonucleico) da batata para chegar ao resultado agora publicado, enfrentou inúmeras dificuldades no mapeamento dos genes, entre elas a grande heterozigosidade que existe mesmo numa única das inúmeras variedades da batata. A variabilidade genética, específica e singular a cada indivíduo (o mesmo é válido para nós), apresenta uma elevada frequência na batata.

Da batata são conhecidas actualmente mais de 3000 variedades, que se consubstanciam em cores, tamanhos, formas e valores nutritivos, e é, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a terceira principal fonte de alimento agrícola (depois do trigo e do arroz), tendo em 2009 sido produzidas 330 milhões de toneladas. A batata é, na dieta, uma importante fonte de amido (um carboidrato ou hidrato de carbono polímero de glicose), proteínas, substâncias antioxidantes, vitaminas e sais minerais.

O conhecimento da composição e estrutura do seu genoma pode permitir a redução substancial do tempo, actualmente de 10 a 12 anos, necessário para obter por cultivo novas variedades. Isto é importante, quer para encontrar variedades resistentes a pragas e doenças que afectam o seu cultivo, quer para obter tubérculos mais produtivos e com maior qualidade nutritiva.

A batata, cujo nome científico é Solanum tuberosum L., foi "encontrada" pelos espanhóis no Peru em 1536. Disseminada rapidamente por toda a Europa, foi primeiramente, e durante muito tempo, utilizada como medicamento devido às suas propriedades “energizantes”.

No final do século XVIII, a batata era cultivada por toda a Europa instalando-se progressivamente na alimentação de base europeia. A sua dominância agrícola na Irlanda, por exemplo, era tão grande que a seca nos plantios de batata ocorrida em meados do século XIX, causou a morte de milhões de pessoas e é apontada como um dos principais motivos para a imigração massiva daquele povo para os Estados Unidos da América.

António Piedade

A SEPARAÇÂO ENTRE LETRAS E CIÊNCIAS


Transcrevo o meu artigo de opinião saído no Público de hoje:

Acabo de ler no PÚBLICO o artigo de opinião da professora catedrática da Faculdade de Letras de Lisboa, Helena Carvalhão Buescu, intitulado “Há que deixar de manipular os resultados e os factos” (31/07/2011), tendo como motivo “o ensino do Português e da literatura no ensino básico e secundário e o resultado dos exames".

Pela modéstia dos meus estudos do ensino secundário no âmbito das Letras e continuação de estudos superiores em fronteiras das Ciências, mas com o arrimo de amador constante e interessado (aquele que ama) das Belas-Letras, atrevo-me a pensar que muitas coisas negativas que ainda hoje se passam no âmbito das humanidades têm raízes seculares nesta análise:

“Podemos situar no segundo terço do século XVIII a generalização em França, na opinião esclarecida duma sensibilidade intelectual que opõe as Letras às Ciências, dando às ciências uma prioridade que o ensino lhes recusa. As Letras correspondem a uma perda de tempo e de inteligência. As Ciências, graças às explicações técnicas, permitem melhorar a condição do Homem na Terra” (“Da história da ciência à história do pensamento”, Georges Gusdorf Editores Livreiros Ld.ª, Lisboa 1988. pp. 30-31).

Mas porque a história não é (sob o risco de estar a dizer um disparate) um fluir de acontecimentos sem retorno, ao contrário das águas do rio que não deixam que a pessoa se banhe duas vezes na mesma água, sendo feita de avanços e retrocessos reproduzo um pedaço de um outro texto:

“O domínio da Matemática pressupõe a formação filológica para que o professor possa não só interpretar, mas também corrigir e melhorar Euclides, Arquimedes, Ptolomeu e todos os outros príncipes e heróis da ciência matemática” (Petri Rami actio secunda pro regia mathematicae professionis cathedra, 1566, em P. RAMI e Talaei Collectaneae”, p. 541).

Regressando ao século XXI, reproduzo, sem, de forma alguma, querer desmerecer a sua acção prestimosa no âmbito do desenvolvimento da investigação científica, uma entrevista do então ministro da Ciência e Tecnologia e Ensino Superior Mariano Gago acerca “da criação de cursos curtos de especialização tecnológica no ensino superior (tendo na altura sido aprovados 70) ", através, segundo ele próprio, “de formações curtas e de acesso fácil” sendo para o acesso a estes cursos abolida a prova de Literatura Portuguesa, “um funil social” (PÚBLICO, 07/11/2005).

Ou seja, desta forma ficou-se a saber que a Literatura Portuguesa, leitura e interpretação de obras literárias dos seus maiores vultos, tem impedido o avanço tecnológico nacional por dificultar a entrada de iletrados no ensino superior, sendo esse obstáculo removido com o aparecimento das Novas Oportunidades e Provas de Acesso ao Ensino Superior para maiores de 23 anos.

Os resultados de uma política em que se chegou a defender os erros de ortografia desde que o professor percebesse o que o aluno queria escrever (numa espécie de advinhação ) estão bem patentes numa geração de uns tantos alunos que lê mecanicamente os textos sem saber interpretá-los. Este divórcio entre Letras e Ciências continua a verificar-se entre o Português e a Matemática sem que os seus responsáveis governamentais se tenham apercebido que para resolver problemas matemáticos há que interpretar devidamente os seus enunciados.

Os maus resultados obtidos nos últimos exames nacionais destas duas disciplinas assim o diagnosticam e o provaram, dando razão a Nuno Crato ao receitar uma terapia conjunta para debelar esta verdadeira gangrena do ensino, através do aumento das respectivas cargas curriculares.

É o primeiro, mas seguro passo, a que outros se seguirão, por maiores que sejam os entraves no caminho de um marcar passo, ou mesmo retrocesso, do sistema educativo nacional.

A honra das instituições

As instituições têm a sua honra. Ou deviam ter. Uma instituição de serviço público, ou para o público, às vezes centenária, ou quase, ou mais que centenária, devia ter o seu código de honra.

Um princípio de ação. Digno. Um comportamento responsável. E por isso respeitável, ou seja, merecedor de respeito, e que por isso sentimos desejo e necessidade de respeitar. E um comportamento exemplar. Isto é, que todos podem e devem seguir, que é um modelo de ação e execução, que mostra, na prática, como as coisas se devem fazer, e que os seus modos e métodos são de facto para o bem de todos. E para si mesma, se as coisas forem entendidas como deve ser.

Uma instituição honrada honra-se e honra o público a que serve, e que, em última análise, a justifica. E torna-o mais educado e colaborante. Uma instituição que não se honra a si mesma não honra obviamente ninguém. Mas uma instituição destas, que não tem códigos de honra, é um inimigo público, e com tal devia ser tratada. Uma instituição honrada é uma força que apoia os cidadãos, na qual eles se sentem seguros; uma instituição que não preserva uma nobreza de procedimentos e de atitudes, todos desconfiam dela. E com razão. E na verdade torna-se inútil. Ou pior ainda, transforma-se num parasita.

Felizes os povos que respeitam e têm orgulho nas suas instituições. Felizes os povos que têm instituições em que podem confiar e em que se revêem. Ai dos povos que têm instituições de que desconfiam, porque têm motivos para isso, onde não se revêem, de que não se orgulham ou, pior ainda, que sentem muitas vezes como grupos de irresponsabilidade anónima e às vezes ilimitada.

Instituições financeiras, como algumas que provocaram imensos prejuízos aos portugueses, por ganância sem medida e ausência absoluta de honra de alguns dos seus responsáveis; autarquias que são agências de emprego para familiares e amigos, ou onde os funcionários, sem brio, se sentem donos dos lugares e trabalham o menos que podem; construtoras com equipas de advogados para, servindo-se dos buracos da lei, levarem as obras para o dobro do orçamentado, seguradoras que utilizam estratagemas para que as pessoas desistam dos seus direitos, e subtilezas legais miudinhas para fugir às suas obrigações, órgãos de comunicação social que deseducam sistematicamente criando notícias a partir de não-factos, ou que escolhem um “inimigo” e o perseguem até à destruição, por motivos obscuros, ou mesmo sem motivos, clubes de futebol que criam empresas fictícias em paraísos fiscais para fugirem ao fisco, como ainda agora se viu, são instituições sem honra.

Os exemplos pouco dignos, abundam, infelizmente, entre nós. São instituições sem honra que a todos envergonham. Que se desonram e nos desonram a todos. São cancros sociais que nos desmotivam, deseducam e degradam.

João Boavida

“UMA APRAZÍVEL NAÇÃO” - PORTUGAL VISTO PELO CIENTISTA ALEMÃO HEINRICH FRIEDRICH LINK - 1


Novo texto do ensaista Eugénio Lisboa, este dividido em várias partes dada a sua extensão (na imagem H. F. Link):

Nos séculos XVIII, XIX e XX, Portugal foi visitado por gente estrangeira dos mais variados formatos e orientações. E existem, felizmente , relatos abundantes – e nem sempre edificantes - de como estes visitantes nos viram ou julgaram que somos.

As observações destes transeuntes são sempre úteis por nos darem uma perspectiva diferente, que pode conter um lado justo, ainda que para nós inesperado, e um lado menos justo quando não mesmo ofensivo. A verdade é que o viajante num país de usos e costumes muito diferentes dos do seu próprio país tem muitas vezes tendência a só ver o argueiro no olho do vizinho. Por isso, a escritora Mary Ellen Kelly notava, com mais do que alguma pertinência, que “os nativos que batem tambores para afastarem os espíritos malignos são alvo da galhofa dos americanos espertos que passam a vida a buzinar para se desenrascarem dos engarrafamentos de tráfego.” Na realidade, o efeito é o mesmo: os espíritos não se afastam, até porque não existem, e o tráfego não se resolve, até porque existe prodigiosamente. Por outro lado, nem sempre o visitante possui nem a argúcia nem a cultura nem a sensibilidade que lhe permitam tirar substancial partido das longas viagens que faz. Acumula milhas, colecciona cidades, países, vales, montanhas, museus, mas, no fundo, observa pouco e aprende menos. Por isso notava alguém que “um turista é um cavalheiro que guia durante milhares de milhas só para se poder fazer fotografar encostado ao seu automóvel.” Viajar não chega para uma pessoa se cultivar. Tudo depende de como se viaja ou, por outras palavras, do bom uso que se dê ao viajar. Tudo depende em suma, do que já trazemos dentro de nós. Era por estas e outras que o conhecido filósofo americano Henry David Thoreau avisava: “Não vale a pena dar a volta ao mundo só para se contar o número de gatos que existem no Zanzibar.” A geografia – ou a mudança de uma para outra -, só por si, não torna produtiva a viagem. Há muito que se sabe isto ou que o sabem, pelo menos, os que não vivem à superfície das coisas. Horácio, nas suas Epítolas, cunhou-o em imperecível medalha, quando disse: “Os que se precipitam através dos mares, mudam de clima, mas não mudam de alma.” Um soldado inglês que, em 1917, andava pelo Médio Oriente, achou maneira de escrever aos seus, na distante pátria amada, nos seguintes termos: “Querida gente, eis-me em Belém, onde nasceu Jesus Cristo. Quem me dera estar em Wigan, onde nasci eu.” O nosso soldado mudara de céu e de clima, mas a alma ficara intacta, isto é, pequena e mal alimentada. Como dizia Thomas Fuller, “se um burro vai de viagem, não regressa a casa transformado em cavalo.” Às vezes, quando observamos bem o comportamento de certos viajantes, até suspeitamos de que certas pessoas só viajam para terem o prazer de poderem regressar a casa. Nem sempre se viaja com o apetite bem orientado ou, pior ainda, nem sempre se viaja com apetite. Viaja-se porque o vizinho viaja e fica mal não fazer o mesmo. Que, de faltas de apetite, está o mundo cheio! Se muitos aspirantes a turistas fossem sinceros, subscreveriam com gosto e aplauso um célebre “cartoon” do New Yorker, que dizia assim: “Henry quer que eu faça uma viagem à volta do mundo, mas eu, francamente, preferiria ir a outro lado qualquer.”

Tudo o que acima digo quer apenas servir de aviso para o cuidado que deve ter-se com os tão populares relatos de viagem. Não chega, repito, ter viajado muito e ter visto muito para se produzir um relato inteligente, justo e, se possível, profundo. De relatos incrivelmente grotescos e injustos, porque o relator é o que é e a mais não é obrigado, estão as prateleiras das bibliotecas cheias. Dou-vos só um exemplo, mas é um que vai fazer doer. Em 1780, o capitão do 99.º Regimento de Infantaria inglês, Richard Croker, passando por Lisboa, escrevia para um conterrâneo, em Londres, oferecendo-lhe as suas observações originais sobre os portugueses. Elas iam nestes termos carinhosos: “Os homens portugueses são, sem dúvida, a raça mais feia da Europa. Bem podem eles considerar a denominação de «ombre blanco» - homem branco – como uma distinção. Os portugueses descendem de uma mistura de Judeus, Mouros, Negros e Franceses, [e], pela sua aparência e qualidade, parecem ter reservado para si as piores partes de cada um destes povos.” E acrescentava, como quem deita mais sal numa ferida já assanhada: “Tal como os judeus são mesquinhos, enganadores, cruéis e vingativos. Tal como os povos de cor, são servis, pouco dóceis e falsos e parecem-se com os franceses na vaidade, artifício e gabarolice.” (1) Não há como os nossos mais antigos aliados para terem, sobre nós, estas opiniões mimosas. No entanto, e por uma questão de “fair-play”, não quero deixar de mencionar que, embora Richard Croker pensasse o pior possível dos homens portugueses, tinha, em compensação, uma opinião bem mais lisonjeira da mulher portuguesa. Numa outra carta para a pátria, dizia isto: “As mulheres portuguesas são agradáveis, elegantes no vestir, com lindos olhos e dentes e belo cabelo muito abundante: nos seus penteados misturam fitas e flores com muito bom gosto e isto mesmo mulheres de classes baixas, pois não nos foi dado ver outras. Em resumo, tem que se admitir que há mulheres mais bonitas e melhores mulas em Portugal do que na Andaluzia.”(2)

Mas o viajante que hoje nos traz aqui não pertence a esta categoria antipática a que não raro pertencem representantes acreditados da nossa mais velha aliada. O homem que atravessou a fronteira de Elvas em 11 de Fevereiro de 1798, Heinrich Friedrich Link, alemão, que se lhe vê no nome e na cara, era, para começar, um cientista, isto é, um homem habituado a observar, sem preconceitos e sem se colocar em pedestais por si próprio erigidos. Aquilo que dele vou apresentar-vos, consta do precioso livro Notas de uma Viagem a Portugal e através de França e Espanha, que Fernando Clara traduziu para a Biblioteca Nacional, acrescentando-lhe uma útil e bem informada introdução e juntando-lhe algumas esclarecedoras notas. (3) O que eu fiz foi apenas ler com não pouco gozo o livro todo, dele seleccionando, para vosso não menor gozo – espero eu –algumas capitosas passagens. O livro, como disse, não é nunca antipático, embora nem sempre seja elogioso.

“O autor do relato de viagem”, elucida-nos Fernando Clara – e transcrevo-o simplesmente, de preferência a construir paráfrases – “[o autor], que aqui pela primeira vez se apresenta em tradução portuguesa, nasceu a 2 de Fevereiro de 1767 em Poggenhagen Hildersheim, na casa adjacente à igreja de Santa Ana, onde o seu pai era capelão. Educado juntamente com a sua numerosa família (quatro irmãs e três irmãos mais novos) na fé luterana, Link faz os seus estudo liceais naquela cidade e em 1786, quatro anos depois do falecimento do seu pai, entra na Universidade de Göttingen para estudar Medicina e Ciências Naturais. Em 1790 recebe o título de doutor em Medicina e permanece naquela Universidade durante dois anos mais como docente. Em 1792 é chamado para a Universidade de Rostock na qualidade de professor de Zoologia, Botânica e Química, onde ficará até 1811. Em 1793 casa com a filha mais velha do professor e cirurgião Josephi e em 1797 obtém do duque-reinante de Mecklenburg uma licença de dois anos para acompanhar o conde de Hoffmansegg a Portugal numa viagem que tinha por objectivo o estudo sistemático da flora portuguesa. Regressado a Rostock em 1799, retoma a actividade docente e começa a trabalhar na Flore Portugaise (cujos dois volumes, publicados a expensas do conde de Hoffmansegg, surgirão em fascículos entre 1809 e 1840). Link produz ainda uma série de estudos e artigos sobre Portugal, entre os quais se encontra o presente relato de viagem.”

Fecho aqui a citação, que tem a informação biográfica suficiente, embora a vida de Link se prolongue até ao dia 1 de Janeiro de 1851, data em que viria a falecer, em Berlim, depois de uma vida cheia de obras e títulos de grande prestígio (director do Jardim Botânico de Berlim, director do Jardim da Universidade [Berlim] e do Herbário Imperial, reitor da Universidade de Berlim, membro da Academia de Ciências de Berlim, etc. etc.) Como se pode ver, um senhor ligeiramente mais qualificado do que o capitão de Infantaria Richard Croker que nos mimoseou com os qualificativos que já tive a honra de servir-vos. Não é só agora que o relato do cientista alemão chega até nós – a tradução de Fernando Clara é de 2005 – embora só agora ele nos chegue em português. Mas, como nota o tradutor, na longa e muito bem informada introdução ao seu trabalho, quer em traduções francesas ou inglesas, desde Oliveira Martins, as observações de Link têm sido compulsadas, lidas e meditadas por um leque alargado de criadores e intelectuais lusos: Maria Amália Vaz de Carvalho, Teófilo Braga, Júlio Dantas, Vitorino Nemésio, Agustina Bessa-Luís leram-no e citaram-no. Oliveira Martins, num elogio não mitigado, considera o relato de Link indispensável para um bom conhecimento do século XVIII português. Outros poderão criticar-lhe algumas imprecisões, ou vistas desfocadas, ou alguma dose de simpático paternalismo ou mesmo erros de facto, pura e simplesmente. Mas haverá sempre que ter em conta não haver relatos da natureza deste que não sofram de maior ou menor número de imperfeições. E, se a simpatia com que o autor nos olha não é garante de estrita objectividade, não raro a antipatia e mesmo a hostilidade do viajante distorcem mais o retrato do que o faz a empatia. O protocolo que preside a livros como este induz sempre uma certa dose de impressionismo e, portanto, algum teor de sondagem à vol d’oiseau. Mas, ao contrário de muitos outros viajantes, Link procura ser imparcial e defende a imagem dos portugueses contra distorções e parcialidades. Nas suas próprias palavras, que aqui cito com gosto: “Quando regressei [de Portugal], li todos os relatos de viagens em Portugal que consegui obter. Descobri que nenhum entre todos aqueles viajantes tinha visto tanto do país como nós, encontrei ainda, na maior parte deles, uma profunda ignorância da língua e uma série de notícias falsas, daquelas que só se aplicam aos habitantes da capital, mas que erradamente se haviam generalizado a todo o país. Sobre os portugueses, preguiçosos, beatos e rapaces, encontrei apenas queixas, vi com indignação que ninguém tinha descrito os encantadores vales do Minho, onde a cultura portuguesa rivaliza com a inglesa, vi ainda que ninguém louvava a tolerância das gentes do povo, da qual conheci vários exemplos (não me refiro aos padres, que se assemelham em todo o lado onde quer que um governo os apoie), vi também que ninguém elogiava a segurança num país onde, nas minhas excursões botânicas por regiões desconhecidas e cansado pelo calor, pude despreocupadamente adormecer à beira do caminho. Peguei na pena em defesa dos meus portugueses, queria descrever imparcialmente o carácter dos seus habitantes, o seu modo de vida, a sua agricultura, que em virtude das minhas ocupações eu tão bem conhecia e, sem dar por isso, uma apologia transformou-se num relato de viagem.” Note-se o carinho com que se refere aos “meus portugueses”, mas note-se, sobretudo, a pertinência com que fustiga, na maior parte dos viajantes que a nós se referem, “a profunda ignorância da língua” – mazela que desde logo impede um contacto, em profundidade, com as pessoas e com a sua específica cultura. Era o filósofo americano Ralph Waldo Emerson quem notava, precisamente a este respeito: “Ninguém devia viajar até ter aprendido a língua do país que visita. Caso contrário, fará de si próprio, deliberadamente, um perfeito bébé – desamparado e ridículo.” E note-se, por fim, o que tem validade ainda nos dias de hoje – o cuidado com que distingue “os habitantes da capital”, que lhe não merecem grande carinho, dos habitantes de “todo o país”, tão diferentes dos alfacinhas: cuidado que não tiveram, sublinha Link, os relatores de viagens, cujos depoimentos teve o escrupuloso cuidado de compulsar.

No dia 11 de Fevereiro de 1798, atravessa pois, a fronteira perto de Elvas. E logo, antes de a atravessar, vê o nosso país com evidente apreço: “Deste lado”, nota ele, “Portugal parece extraordinário. Em vez dos vastos descampados, das aldeias afastadas, encontra-se uma terra povoada por casas isoladas e dispersas, cujo aspecto parece indicar uma cultura e uma civilização superiores. À medida que nos aproximamos de Elvas vemos os primeiros laranjais abertos ao longo do caminho, apesar de em Badajoz se ver já uma grande quantidade desses frutos. O traje, mesmo do português vulgar, é melhor: um gibão castanho escuro ou preto e um chapéu são mais frequentes do que os casacos e barretes castanhos dos espanhóis. As mulheres são mais amáveis e comunicativas do que as castelhanas e parecidas com as biscaínhas, trazem geralmente o cabelo solto, apenas ligeiramente apanhado por uma fita ou por um lenço. A cortesia, a maneira de ser fácil, alegre e amável do povo mais humilde fazem com que de imediato se simpatize mais com a nação portuguesa do que com a espanhola. E esta opinião”, sublinha Link e peço, para isto a vossa atenção, “não se altera enquanto neste país se ficar entre as classes mais baixas, experimentando-se porém uma opinião totalmente oposta assim que se conhecem as classes mais altas.” Resumindo, Portugal é encantador, desde que se excluam Lisboa e as classes mais altas – já nessa altura, parece, o nosso problema estava onde supostas são estar as nossas elites... Ainda assim, não deixa de ser consolador vermo-nos deste modo acarinhados, sobretudo quando comparamos depoimentos como este com, por exemplo, o produzido pela neta do grade poeta inglês William Wordsworth, que Fernando Pessoa traduziu como quem recria poesia inglesa em idioma português. De facto, Dorothy Wordsworth, segunda filha do bardo dos Lagos, que foi casada com Edward Quillinan – nascido no Porto e um dos vários tradutores de Os Lusíadas- veio para Portugal com o marido, aqui vindo a falecer em 1847. É dela um Journal of a few months residence in Portugal and glimpses of the South of Spain, do qual se podem extrair várias e saborosas passagens, entre elas, esta, referente a animais domésticos em Portugal: “A propósito,” diz a filha do poeta e mulher do tradutor de poetas, “[a propósito], embora o nosso porco mascote fosse um porco muito bonito – um chinês estranho – os porcos desta região são geralmente terrivelmente feios. São uns animais enormes com grandes orelhas compridas, lombos imensos, erguendo-se no centro como um arco, costados ocos e cobertos de uma espécie de pelos curtos e macios, mas tão ralos, que se vê distintamente a pele preta por baixo. Apesar disso, os aldeões consideram estas criaturas como animais domésticos – que respondem aos nomes que lhes põem e vêm quando os chamam, como os cães, e gostam muito que lhes falem e [os] acariciem.” E acrescentava: “Quase todas as casas têm um cão, e são uma boa maçada estes rafeiros. Na Foz e nos arredores do Porto, vêm ladrar às pernas dos nossos cavalos, saindo de todas as portas, até que se tem uma matilha completa atrás de nós antes de chegar ao fim da rua e, se nos deixarem aí, podemos ter a certeza de encontrar outro bando à nossa espera na próxima rua.” Dorothy terminava o seu relato vingativo, desta maneira: “Há um ano ou dois os magistrados, para reduzir este incómodo, ofereceram um tanto pela cabeça de cada cão que fosse encontrado a vaguear na rua sem dono que se reponsabilizasse por ele. Apareceram inúmeras cabeças de cães para a recompensa na esquadra da polícia e o negócio da decapitação dos cães prosperou durante alguns dias, até que se descobriu que nem uma só cabeça, nem um só pelo de qualquer dos rafeiros contra os quais o edital canino tinha saído tinha sofrido, mas sim todos os cães dos fidalgos que tinham podido ser apanhados e todos os cães de luxo das senhoras...” (4)

Mas deixemos, de vez, os nossos mais antigos aliados e regressemos às notações do alemão. Atravessada a fronteira, surpreende-o, desde logo, o “leve sibilar soprado” da língua portuguesa: “Mal atravessámos o Caia”, diz ele, “chegou-me aos ouvidos o som pouco familiar da língua portuguesa. A maior parte das palavras de ambas as línguas são semelhantes, a pronúncia é extraordinariamente diferente. Ali os sons sonoros, profundos e guturais, aqui um leve sibilar soprado dos lábios, ali longas e graciosas palavras sonantes, aqui um curto palavrear entrecortado. Em Badajoz nunca se ouve falar português, em Elvas nunca se ouve falar espanhol. Quem já tiver o ouvido habituado à pronúncia diferente e souber uma das línguas, compreende facilmente a outra, ainda que não a tenha aprendido.”

Eugénio Lisboa

Continua

O VERDADEIRO EXEMPLO DA FINLÂNDIA


Novo artigo sobre educação de Guilherme Valente saído na segunda-feira no jornal "Público":

1. A educação finlandesa é um exemplo de exigência, de combate ao facilitismo, de responsabilidade, de anti-eduquês, afinal. Um exemplo do que o "milagre" da educação pode realizar.

Essa exigência na educação e, designadamente, o rigor, sem complacência, na aplicação e no uso dos recursos materiais disponíveis, transformaram, em poucos anos, a Finlândia.

Podemos fazer o mesmo em Portugal.

2. Numa entrevista ao jornal Público (1/4/11), Jouni Valijarvi, director do Instituto Finlandês para a Investigação em Educação, como que ilustrando o que tenho escrito, referiu-se às condições que explicam o êxito do sistema educativo finlandês:

"É mais eficaz chumbar um aluno na primária do que depois, porque é quando estão a ser dadas as bases".

E eu acrescento: e é um sinal a dizer aos alunos que vêm para a escola para trabalhar e aprender. Um sinal, também para os professores e os pais, que marcará a atitude e o percurso escolar da criança.

Entre nós passa-se o oposto: os alunos apercebem-se e interiorizam rapidamente que pouco lhes é realmente exigido. Pelo ambiente que encontram na escola, mas mesmo pelo que explicitamente é disseminado: "a sala de aula é o prolongamento do recreio", não é esta uma das ideias veículadas nas escolas de formação de professores do eduquês? O que podem contra isto mesmo docentes, mesmo os mais lúcidos e empenhados?

O que acontece é que, ao invés dos animais, que seleccionam, afinam, na longa duração mecanismos naturais de adaptação ao meio ambiente, o ser humano dispõe de um mecanismo de adaptação rápido, cultural. Assim, quando entra na escola, a criança, mesmo a que chega mais motivada e responsável, apercebe-se, muito rapidamente, ter de se adaptar a essa nova realidade: permissiva, desresponsabilizadora, facilitista, sem desafios, imbecilizante. Adaptar-se para sobreviver.

Poucos resistem a esse clima envolvente. Só os mais dotados ou com pais que acompanham com exigência o seu percurso escolar. Por isso, as vitimas da escola do eduquês são sobretudo os mais desfavorecidos.

Segundo Jouni Valijarvi, o ensino no seu país não está mais centrado no bem-estar da criança do que nos resultados académicos. Embora, naturalmente, haja preocupação com o bem-estar da criança, a razão de ser da escola "reside na área cognitiva", "visando atingir níveis exigentes no campo da escrita, da leitura e da matemática". Matemática "também já importante na pré-primária".

Na Finlândia, "(...) os professores estão motivados e bem preparados e têm autonomia" para trabalharem com eficácia. E o que é um professor bom para os alunos e para o sistema? O professor é bom "quando domina a matéria que deve ensinar".

Algo de óbvio, que só a cegueira ideológica não quer ver. Em vez de preparar os professores no domínio das matérias relevantes a leccionar, as escolas de formação do eduquês encharcam-nos corm "pedagogias" confirmadamente insensatas e nocivas. Dar voz aos docentes que nesses cursos e escolas discordam dessa orientação cujo jugo lhes é imposto é um imperativo de inteligência, progresso e liberdade.

Na Finlândia, o professor acompanha a criança durante seis anos! Sem o absurdo do excesso de "disciplinas" que impede os alunos de estudarem e aprenderem o essencial, aquilo que é culturalmente enriquecedor e socialmente útil, de adquirirem, antes de mais, o domínio dos instrumentos, a informação, o treino de trabalho, que lhes permitirão aprender tudo e cultivar o espírito crítico.

Na Finlândia, além de dominar os programas para ensinar bem, o professor tem ainda tempo "para se interessar pelos alunos e para estar disposto a ter com eles conversas que lhes digam algo", a fim de "os ajudar na escolha do caminho que vão seguir, discutindo o porquê das suas escolhas". Professores libertos das inutilidades e da burocracia com que nas nossas escolas, inundadas por labirintica legislação, se condiciona a função inestimável que deve ser a deles.

"Turmas pequenas, 21 alunos por turma na primária, em media. No secundário, 19", indica Jouni Valijarvi. Não menos, reservando recursos para criar "sempre mais apoios para os alunos que deles necessitam, de acordo com o contexto de cada escola".(Note-se que há escolas na Finlândia com 15% de alunos imigrantes.)

Problema que no nosso país o ME, servindo, afinal, o interesse próprio da nomenclatura que o tem comandado, sempre dificultou que as escolas enfrentassem, não deixando que cada uma avalie e adopte autonomamente as necessidades próprias e respectivas soluções.

Uma vantagem decisiva das escolas privadas.

A Finlândia é um dos países onde os alunos passam menos tempo na escola.

"Quando se está na escola, está-se concentrado na escola. Quando se vai fazer outra coisa são tempos perfeitamente separados" , diz Jouni Valijarvi.

3. Quando estive no Conselho Nacional de Educação, propus, na comissão que integrava, um projecto que mobilizasse a escola e a sociedade para um objectivo tão simples quanto essencial: que nenhuma crianca terminasse o ensino básico sem dominar a leitura, a escrita e as operações matemáticas elementares.

Resposta dos eduqueses que dominam aquele indescritível Conselho: "Queremos muito mais, queremos fazer cidadãos" (!?).

Trinta por cento das crianças saem do ensino básico sem saber ler, nem escrever, nem contar. Cidadãos... analfabetos?

Guilherme Valente

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Não (re)inventemos a roda...

Com o nome de “Manuel”, foi publicado este comentário (31 Julho; 16:02) ao meu post, “A minha posição sobre a avaliação docente” (3o/07/2011).

Com a devida vénia, reproduzo-o na íntegra pela interessante ligação que faz entre os problemas que afectam a economia nacional com reflexos no respectivo sistema educativo e vice-versa. Reza o comentário:

“O Dr. Medina Carreira, a propósito do nosso sistema fiscal, costuma dizer: Temos a complexidade dos alemães (que taxa os rendimentos reais), a máquina dos turcos (mais fraca do que a alemã) e a mentalidade dos marroquinos (bom é não pagar). Resultado: 23% da economia é paralela, com uma fuga que cobria o malfadado défice.

Com a avaliação de professores passa-se coisa semelhante, cada cabeça sua sentença, cada um tenta inventar um sistema (o seu é sempre o melhor), esquecendo-se do mais importante: cada escola deve estar preocupada em primeiro lugar com a aprendizagem dos alunos, ela é, de facto, o mais importante, e faz-se com bons professores e dedicados. Quem pode avaliar se um professor é bom e dedicado é a direcção da escola, pelo conhecimento no dia-a-dia e pelos resultados dos alunos obtidos em exames fiáveis, exigentes q. b., generalizados a mais disciplinas e com um peso mais equilibrado na nota final (depois de uma reforma dos programas, da definição de objectivos claros, exequíveis e verificáveis e da produção de manuais escolares não delirantes). Os professores não podem cair de pára-quedas nas escolas, colocados pelo ministério em Lisboa, antes devem ser contratados por estas.


Tudo o resto é fogo-fátuo que apenas serve para consumir energias e recursos desnecessariamente.

Sistemas simples mas mais eficazes do que o nosso (qual é ele agora?) são praticados há muito por outros países, basta importar e adaptar, não é preciso inventar nada.

Nós temos uma propensão mórbida par criar serviços desnecessários, ou que se repetem nas suas funções, depois temos os resultados: um défice público que não conseguimos controlar e uma burocracia que nos asfixia.

Um exemplo, pense na máquina administrativa para gerir uma população de 10,5 milhões: um PR (16 milhões de euros gastos com a Presidência), um P. M. e um governo de cerca de 50 membros (ministros, secretários e sub-secretários de Estado), várias direcções-gerais desdobradas em direcções-regionais, uma AR com 230 deputados, dois governos regionais com mais de uma dezena de membros, duas Assembleias Regionais com cerca de 30 deputados cada (isto para 2 populações de 245 000 hab. cada), 5 CCR, 18 governos civis, 308 câmaras municipais, 4254 freguesias, Exército (com muitos generais e tanques), Força Aérea (com muitos generais e aviões) e Marinha (com muitos almirantes, navios e 2 submarinos), duas forças de segurança GNR e PSP (com os seus conflitos de competências e a duplicação de comandos), e provavelmente algo mais que me escapa.

Não façamos da avaliação de professores a parafernália burocrática que nos tem destruído e nos envenena o dia-a-dia quando precisamos de recorrer à máquina administrativa do Estado. Não inventemos a roda, já o foi há alguns milhares de anos”.

A PEDRA FILOSOFAL DA FORMAÇÃO DOS PROFESSORES

"O guarda que estava revistando o alquimista encontrou um pequeno frasco de cristal cheio de líquido, e um ovo de vidro amarelado, pouco maior que o ovo de uma galinha. ‘ Que são estas coisas?’ Perguntou o guarda. ‘É a Pedra Filosofal e o Elixir da Longa Vida. É a Grande Obra dos alquimistas. Quem tomar este elixir jamais ficará doente, e uma lasca desta pedra transforma qualquer metal em ouro ‘“ ( “O Alquimista”, Paulo Coelho).

Pelo que é do domínio público, dois factores poderão vir a condicionar o sistema educativo português: contenção de despesas (impostas pela troika, e não só!) e legislação publicada por governos anteriores em verdadeira logorreia saída a tropel da pena de legisladores sem o cuidado de obedecerem aos cânones de uma redacção correcta para que não “chumbassem no exame da 4.ª classe”, em crítica de Almeida Santos.


Não duvido que os portugueses se encontrem altamente receptivos à poupança em coisas inúteis ou gastos sumptuosos por parte do Estado. Mas, pelo contrário, que não estejam dispostos a fazer essa economia em prejuízo da forma do sistema educativo sair do pântano em que o atolaram e que tanto tem atrasado o desenvolvimento do País. Ora esse desenvolvimento passa necessariamente pela formação, a todo o custo e a qualquer preço, de uma juventude bem preparada e quadros qualificados de professores capazes de darem resposta aos desafios do dealbar deste milénio em que um Portugal europeu deve assumir um destino que não deslustre o seu passado histórico, cultural e científico nas sete partidas do mundo.

Só desta forma, a massa cinzenta saída do ensino superior (e não só!) poderá ser melhorada por sua massificação ter contribuído para que “uma esmagadora maioria dos alunos não tenha capacidade para perceberem o que lhe dizem sendo completamente analfabetos em questões culturais”, como escreveu José Miguel Júdice, ao tempo bastonário da Ordem dos Advogados (Diário de Coimbra, 01/12/2004).

«De igual modo, os erros do passado não devem, de forma nenhuma, servir de respaldo, ou simples justificação, a erros futuros detectados no recente comentário de “dis aliter visum”, ao meu último post “Uma questão de honra” ( 31/07/2011) , quando aponta este erro sem perdão na formação dos professores. Comentário que aqui transcrevo:

“A possibilidade da formação dos docentes do 3º ciclo e do secundário passar também para as ESE, defendida por técnicos da 5 de Outubro durante a campanha eleitoral para as eleições legislativas 2011, tinha como objectivo matar dois coelhos numa cajadada: melhorava as estatísticas e desviava clientela do ensino universitário para o politécnico. A perda de qualificações dos alunos e as consequências que teria na já debilitada economia, era algo que não preocupava a subdirectora da DGRHE.”


Nas palavras de Salomão (ECCLESIASTES) nihil novi sub sole. Isto porque houve um parecer provisório do Conselho Nacional de Educação (CNE) que defendia que as ESE pudessem formar professores para o secundário ("Público", 30/01/1997). Catorze anos e sete meses cumpridos, portanto. Acresce que voltou a ser lançado, anos depois, o barro à parede, numa espécie de rebuçado para adoçar os disparates que saem da boca para fora, ou “de pena ao vento”, como diria Eça, sobre a formação dos professores do ensino secundário ficar também a cargo das escolas superiores de educação, sob a alegação, segundo penso, de, mais dia menos dia, a escolaridade obrigatória ser estendida a este grau de ensino. Ora, aquilo que eu tive como um autêntico disparate, ou mesmo crime, que nem sequer podia (ou melhor, devia) passar pelas cabeças dos nossos governantes teve a sua “consagração” em finais da recente agonia do Ministério da Educação do Partido Socialista com a declarada e publicitada intenção da Direcção-Geral dos Recursos Humanos do Ministério da Educação tornar extensiva a formação de professores do ensino secundário às escolas superiores de educação.

Ou seja, aquilo que ambos tivemos como autêntico disparate surgiu como uma medida de alquimia com o objectivo em descobrir a pedra filosofal que teria o poder de transformar os metais imperfeitos em metais nobres. O mesmo vale dizer, uma política educativa paradoxal capaz de aumentar a qualidade do ensino pela diminuição da qualidade posta na formação dos professores.Se assim foi, há que responsabilizar os governantes que andaram a desbaratar os dinheiros públicos com formações docentes mais dispendiosas de professores do ensino secundário com diploma universitário para o ensino em regime de mono docência quando poderiam ter obtido "melhores resultados" com diplomados pelas ESE habilitados em dar duas disciplinas em simultâneo com uma formação académica de menor exigência académica.

Será assim tão difícil compreender, como nos ensina, Stephen Covey, que “se continuarmos a fazer o que estamos a fazer, continuaremos a conseguir o que estamos a conseguir”? Ou seja, continuarmos a hipotecar o futuro da nossa juventude e desgraçar um país já tão desgraçado por erros políticos noutros domínios da vida nacional!

BPN explicado como se tivessemos 6 anos

O BPN tem de ser explicado como se todos tivessemos 6 anos. Fraude? Ja' sabemos. Crime? tambe'm. Queremos e' saber quem, como e quando? E quem vai pagar o monstruoso buraco. Isto de serem todos os Portugueses não e' bem assim. Parece que da' 500 euros por Portugues seja qual for a idade, o que em minha casa da' 2500 euros, e a minha filha de 8 meses tambe'm paga. Nao aceito. No way... o governo tem de explicar tim-tim por tim-tim, chamando os bois pelos nomes. ou ito acaba mal. Muito mal.

Nota: escrevi este post num telefone, pelo que nao  tem acentos, etc.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

TEORIA DE TUDO?




















Minha crónica na "Gazeta de Física" que está a sair (na imagem os físicos Ernest Rutherford e Kammerlingh Onnes):


Há entre os físicos aqueles que preferem confrontar-se com grandes questões fundamentais, como as de saber quais são as partículas últimas do mundo e as suas interacções, e aqueles que optam antes por investigar os fenómenos complexos observados no mundo que resultam de processos de auto-organização sobre as quais as teorias ditas fundamentais nada dizem porque nada podem dizer. O primeiro grupo segue uma linha que se pode chamar reducionista, que procura desmontar o Universo nos seus blocos, ao passo que o segundo grupo se interessa pela estruturação da matéria numa certa extensão e propriedades emergentes, isto é, que se perdem completamente quando os blocos são separados.

As duas visões são complementares. A invocação de duas efemérides recentes da história da Física ajuda a perceber essa complementaridade. Há um século, mais precisamente a 7 de Março de 1911, o britânico (nascido na Nova Zelândia) Ernest Rutherford apresentava à Sociedade Literária e Filosófica de Manchester uma comunicação intitulada A dispersão dos raios alfa e beta e a estrutura do núcleo na qual anunciava a sua descoberta do núcleo atómico partir do embate de partículas alfa numa fina película de ouro:

É considerada a dispersão de partículas electrizadas para um tipo de átomo que consiste de um carga eléctrica central concentrada num ponto e rodeada por uma distribuição esférica uniforme de electricidade oposta igual em grandeza.”

Era mais um passo, e desta vez de gigante, no esforço incessante da humanidade de compreender os constituintes da matéria.

Passados poucos dias, a 8 de Abril de 1911, num laboratório de Leiden, o físico holandês Heike Kamerlingh Onnes escrevia, em má caligrafia, no seu caderno de notas um apontamento sobre a supercondutividade do mercúrio escassos quatro graus acima do zero absoluto:

Temperatura medida com êxito. (Resistividade do) mercúrio praticamente zero”.

Desta vez era matéria que se julgava bem conhecida – o mercúrio já era usado pelos antigos egípcios e chineses e foi manipulado pelos alquimistas com o nome que ainda hoje mantém – que revelava a surpreendente propriedade de anular a resistência eléctrica a uma temperatura bastante baixa.

A descoberta do núcleo atómico lançou a Física Nuclear, que por sua vez lançou a Física de Partículas, trazendo as duas vagas sucessivas de saberes novos, por vezes surpreendentes, sobre a constituição da matéria. Muitos físicos trabalham hoje na esteira de Rutherford bombardeando com violência a matéria para conhecer os seus segredos mais íntimos.

Por seu lado, a descoberta da supercondutividade lançou, durante longos anos, a perplexidade entre os maiores cérebros da Física. Tardou até 1957 para três físicos, os norte-americanos John Bardeen, Leon Cooper e Robert Schrieffer, conseguirem explicar o estranhíssimo fenómeno: Devido à intermediação da rede atómica um electrão aliava-se a outro e os dois podiam fazer coisas que nenhum faria sozinho. Bardeen foi até à presente data o único laureado com dois Prémios Nobel da Física, o primeiro pela invenção do transístor e o segundo pelo esclarecimento da supercondutividade. Em 1986, há um quarto de século, algo inesperado voltou a bater à porta dos físicos da matéria condensada: o alemão Johannes Bednorz e o suíço Karl Alexander Mueller anunciaram a descoberta da supercondutividade a altas temperaturas em materiais cerâmicos, que a teoria de Bardeen, Cooper e Schrieffer (BCS) não conseguia explicar. Ainda hoje, não obstante a publicação de mais de cem mil artigos sobre a supercondutividade a altas temperaturas, nenhuma teoria o consegue fazer de forma satisfatória...

Os exemplos mostram que, quando menos se espera, a experiência se encarrega de trazer grandes novidades aos físicos. E mostram que maneiras diferentes de ver e fazer física têm encontrado novos desafios, que não raro se cruzam e iluminam. Os físicos de partículas discutem actualmente a possibilidade de uma teoria de tudo. Mas os físicos da matéria condensada sabem que não há nem pode haver uma só teoria que dê conta de tudo...

domingo, 31 de julho de 2011

UMA QUESTÃO DE HONRA

“Malditos sejam aqueles que se negam aos seus em horas apertadas” (Miguel Torga, 1907-1995).

Por vezes desanimo por ter a sensação de estar a cruzar ferros numa batalha em que não pode haver desistentes. E desanimo por ver uns tantos docentes tudo fazerem para impedirem o esforço hercúleo necessário para que se façam as necessárias e urgentes reformas do ensino. O que vejo é a obstrução de medíocres que, se tentam mudar o status quo, é para ficar tudo na mesma no que respeita à avaliação docente. Defendem uma descarada facilitação em que todos trepam ao topo da carreira docente em verdadeira afronta para com aqueles professores que se empenham no seu mister em verdadeiro espírito de missão.

Ironicamente, manifesta-se, assim, negativamente, um certo espírito de classe (mas de uma classe que não está titulada e sem personalidade jurídica que lhe atribua o cumprimento de um código deontológico que a responsabilize perante a própria sociedade) destituída da noção de que “há um limite em que a tolerância deixa de ser uma virtude" (Edmund Burke). Mas logo me recupero do meu pessimismo para não me tornar desistente de uma causa que deve ter os dias contados por ter terminado a acção de governantes da 5 de Outubro que contribuíram para a actual e desastrosa situação.

Do que me recordo da minha fraca contribuição para me opor a este panorama, entendo transcrever, numa altura em que o silêncio dos que estiveram calados se faz ouvir em desenfreada vozearia, um meu artigo de opinião intitulado “Uma questão de honra” (Público, 01/02/97). Nele respondi a um professor do ensino politécnico que, em carta do leitor, publicada nesse jornal, com o título “Contra a xenofobia académica: por um ensino básico de qualidade”, me acusava dessa atitude criticando-me, em minha opinião um tanto forçadamente, da seguinte forma:


“Utilizando uma linguagem belicista com o propósito de mobilizar os estudantes universitários, o autor acaba por tornar visível a xenofobia académica que tem vindo a alimentar algumas (repito algumas) posições, através das quais se recusa, liminarmente, às ESE a possibilidade de formarem professores para leccionarem no 3.º ciclo do ensino básico” (Público, 04/12/96).

No direito que me assistia ao contraditório, escrevi aí também:

“Mas como me sinto feliz e orgulhoso pelo reconhecimento público de que tenho sido um esforçado centurião (aliás, desde 97) da recusa em as ESE poderem formar professores para o 3. º ciclo do ensino básico. Nunca me perdoaria a mim próprio deixar que os estudantes universitários pudessem ser apanhados desprevenidos nas teias que à sorrelfa se urdiam nos gabinetes da 5 de Outubro para lhes usurpar um mercado de trabalho já saturado e da sua tradicional pertença".

E acrescentei:

"Referindo-me, respectivamente aos universitários e aos alunos do politécnico, porque ‘uns são os invadidos e outros os invasores' , tenho que aceitar a acusação que me é feita de ‘xenofobia académica, mas que colhe nobre exemplo nos franceses que, durante a II Guerra Mundial, lutaram contra os alemães nas forças da Resistência, enquanto compatriotas seus colaboravam contra os invasores. Nesta perspectiva, portanto, a minha ‘xenofobia académica’, mais do que uma mera opção, deve ser tida como uma questão de honra!” (Público, 01/02/97).


Na hora que passa em que o sistema educativo se encontra numa difícil encruzilhada, pese embora os sinais de esperança de que algo vai mudar, mais do que uma questão de honra, trata-se de uma questão de brio profissional em tirar do atoleiro toda uma geração que frequenta as escolas portuguesas a fim de contrariar o pessimismo de Jorge de Sena: “Cada vez mais penso que Portugal não precisa de ser salvo, porque estará para sempre perdido como merece!”

BEM-ME-QUER?



Um dos meus doze textos participantes no "Cordel de Ciência", iniciativa inaugurada no Pavilhão do Conhecimento aquando da comemoração do seu 12º Aniversário, no passado dia 21 de Julho de 2011. Passe por lá e leve-os consigo pela mão!

Sentada na margem do rio, Helena contempla o reflexo de uma flor no espelho das águas calmas.

A flor que segura na mão é uma espécie de bem-me-quer, ou margarida, nomes vulgares do científico Leucanthemum vulgare.

Mas de vulgar, só a abundância com que cobre os campos. Até porque a sua beleza simples desponta da aparência de ser só uma flor. Numa observação mais íntima, Helena reconhece que tem na mão um exemplo de inflorescência, na qual as folhas marginais, modificadas em pétalas brancas, coroam centenas de pequeníssimas flores amarelas e femininas, concentradas num disco central.

Helena inspira o aroma próprio e intenso das minúsculas flores amarelas. A sensação olfactiva é, simultaneamente, acompanhada por uma imagem floral mental. Ao fechar as pálpebras para abrir a os “olhos” do seu pensamento, o aroma parece associar-se à imagem de uma memória de flor! É como se estas duas sensações estivessem associadas algures no seu cérebro. É como se existisse um bem-me-quer feito de inúmeros neurónios cerebrais!

Helena recorda ter lido algures que precisamos do cérebro para ver! O mesmo deve acontecer para os outros sentidos, pensa, ao mesmo tempo que faz rodar a inflorescência, entre os dedos polegar e indicador da sua mão. Desvia o olhar para a superfície aquosa do rio e concentra-se na sensação táctil, no movimento rotativo da haste floral entre as falangetas digitais oponíveis.

A reconstrução imagética da flor a rodar entre os seus dedos, leva Helena a pensar que deve existir também uma memória do movimento, sediada numa estrutura cerebral específica. Em que parte do cérebro estará funcional?

A percepção visual, do mundo exterior, é transmitida ao cérebro pelos nervos ópticos. A sensação olfactiva, pelos nervos olfactivos. A interiorização do som, através dos nervos auditivos ou nervos vestíbulo-cocleares. As sensações do paladar, através de nervos cranianos do tracto solitário. As sensações tácteis, pelos nervos com o mesmo nome. Todas estas percepções, da nossa interacção com o envolvente, são conduzidas por nervos, mais ou menos periféricos, até ao cérebro, que integra e processa a informação nervosa recebida e lhe dá significado funcional e orgânico, ou conteúdo simbólico.

Mas e o movimento? Será ele o resultado, a reacção, do processamento e integração dos vários sentidos? Ou terá, para além disso, uma estrutura cerebral a ele dedicada para o coordenar, para o modelar com memórias, para desenhar no espaço o gesto suave de uma carícia, para controlar o rodopio bailarino de uma haste florida entre os dedos?

Helena arranca uma pétala branca da inflorescência. Um sussurro de uma lengalenga primaveril instala-se no seu pensamento, o que desencadeia uma sequência gestual familiar: bem-me-quer, malmequer, bem-me-quer, malmequer… Cada pétala solta do disco florido cai, desde o gesto, até à superfície da água do rio, e desencadeia ondas circulares que se propagam também numa lengalenga periódica.

De novo, com as pálpebras cobrindo as íris dos seus olhos, Helena concentra-se na lengalenga gestual. Constata que os seus gestos continuam a remover pétala após pétala com toda a eficácia delicada. De facto, está a ver, “só” com o cérebro, os seus dedos a remover a coroa branca da inflorescência amarela. Sente que a essência do gesto, que a acção de todos os músculos que permitem os movimentos dos seus dedos, mão e braço, reside algures no seu cérebro. Mas aonde?

- No corpo estriado dos gânglios basais do teu cérebro. - Diz Rui, um amigo de Helena que, discretamente, e sem a perturbar, a tinha estado a observar na sua interrogação gestual. - Tanto quanto sabemos hoje – continua Rui - existe um grupo de neurónios do tipo piramidal, “sensíveis” ao neurotransmissor dopamina, que, constituindo uma via neuronal no hipotálamo designada por nigroestriatal, estão envolvidos, quer na aprendizagem, quer na execução de gestos sequenciais como esses que tu estiveste a realizar.

- É fantástico Rui! - Responde Helena. – Tudo parece estar tão sincronizado como as ondas na superfície deste rio.

- É realmente fascinante o funcionamento do nosso universo neuronal - acrescenta Rui. - É espantoso como a interacção de um número astronómico de ondas salinas, propagadas por acção potencial electroquímica, e modeladas por neurotransmissores específicos, conseguem, a partir de uma arquitectura de uma via neuronal, efectivar-se num gesto, simples ou complexo.

- Esta pétala é para ti. – Estende Helena num movimento grato.

- Que belo gesto!

António Piedade

A OPOSIÇÃO COMO CONDIÇÃO DE REGRESSO DA ESPERANÇA

Após ter explorado alguma informação para escrever o texto anterior, que, devo dizer, me impressionou pela linearidade, pela falta de aprofu...