sábado, 19 de setembro de 2026

A OPOSIÇÃO COMO CONDIÇÃO DE REGRESSO DA ESPERANÇA

Após ter explorado alguma informação para escrever o texto anterior, que, devo dizer, me impressionou pela linearidade, pela falta de aprofundamento e questionamento, li o texto Nada pode ser dado por adquirido, assinado por Rui Bebiano, professor e historiador, e publicado hoje no modesto jornal regional As Beiras. Confesso esta leitura repôs alguma esperança ao meu pensamento pela capacidade de se poder pensar ampla, profunda e criticamente. Na verdade, como conclui o autor, a esperança - a esperança pelo mundo - requer construção contínua e isso exige esforço, determinação, coragem. Esse é o trabalho do professor.
 
"A maior das novidades trazidas, no correr do século XVIII, pela cultura do iluminismo, foi a afirmação triunfante da ideia de progresso. Procurava-se então, com recurso a um saber científico renovado e a uma atividade intelectual arrojada, afirmar que o tempo, como se acreditara até então, não era circular e repetitivo, num eterno processo de retorno a um passado perfeito. Considerava-se agora que ele era, afinal, historicamente progressivo, num percurso linear, apoiado no conhecimento e na razão humana, que se acreditava ser dinâmico e infinito. Pensando-se também que teria pela frente um horizonte otimista de liberdade, solidariedade e bem-estar que era necessário conquistar.

Hoje pode parecer impossível, mas até essa altura da vida da humanidade poucas destas categorias positivas tinham sido valorizadas ou julgadas possíveis, e menos ainda convertidas em programas virados para a ação. A partir dela, e do contributo de figuras nucleares como Voltaire, Rousseau, Thomas Paine e tantos outros, sempre com a ideia de progresso como pano de fundo, foram produzidas as grandes narrativas políticas e filosóficas que nos dois séculos seguintes ajudaram a mudar o mundo de forma profunda e rápida.

Propostas diversas, como as que deram corpo ao liberalismo, ao romantismo e ao marxismo, mesmo ao nacionalismo e a algumas formas de totalitarismo, foram a essa fonte buscar a sua vontade de reconfigurar o mundo, apontando ao futuro.

A partir dessa fase, sucessivas gerações passaram, com diferentes convicções, a encarar o percurso da história sob uma perspetiva construtiva e progressiva, tornando-se dominante a perceção do conhecimento e da luta pela felicidade como combustíveis da mudança, fosse esta a coletiva ou a individual. Até que – o anúncio formal veio em 1989 com a «teoria do fim da história», de Fukuyama – começou a defender-se que a dinâmica capitalista neoliberal representava o termo da evolução da humanidade, passando o futuro a depender apenas da «gestão do possível». Aliás, Gilles Lipovetsky falara pouco antes da chegada de uma «era do vazio» sem saída, pautada pelo retrocesso das ideologias e das tradições coletivas, trocadas pelo individualismo, o narcisismo e o consumo.

Nesta terceira década do século XXI o panorama agravou-se. Àqueles sinais têm-se juntado outros, associados à degradação do valor atribuído ao conhecimento, ao recuo das utopias e à propagação da indiferença, facilitadas pelo avanço do autoritarismo e da manipulação dos cidadãos nos média e nas redes. Sintoma deste processo é, por exemplo, a diminuição do vocabulário usado nas relações interpessoais, resultante da redução da leitura, da banalização do discurso público, da ignorância e da exclusão. Quem perde palavras deixa de comunicar e de conhecer o mundo de forma plena, passa a descrer na ideia de progresso e facilmente cai nas mãos dos líderes-demagogos, dos comentadores oportunistas e da turba de «influenciadores» ancorados no território do digital.

Uma conclusão será fácil de retirar: ao contrário daquilo em que, plenos de otimismo, tantos homens e mulheres foram acreditando nos últimos três séculos, o progresso não se faz de forma contínua, e rigorosamente nada, por perfeito que possa parecer como conquista, pode ser dado como adquirido para sempre.

Vivemos, é a verdade, um tempo negativo de retrocesso do conhecimento, de afirmação da mentira, da descrença no futuro, de desumanidade e de ceticismo em relação à ideia de felicidade, vendo diariamente regredir valores e conquistas que tantos julgaram seguros. O remédio é opormo-nos a esta tendência usando o pensamento crítico e o combate político, cultural e social. E lutando em todas as frentes pelo regresso da esperança."

4 comentários:

Carlos Ricardo Soares disse...

O texto, de Rui Bebiano, debaixo da superfície jornalística, coloca uma questão ontológica profunda, qual seja, o que está verdadeiramente em crise não é o progresso, nem a cultura, nem a linguagem, é a vida enquanto forma vital submetida à tirania das formas artificiais, institucionais e técnicas. As críticas, os temores, a angústia difusa que atravessa o século XXI são, no fundo, respostas vitais à colonização da existência por formas que deixaram de ser humanas. O texto descreve sintomas culturais, mas a raiz é vital. A desvalorização do conhecimento, o definhamento das línguas, a atomização social, a manipulação mediática, o empobrecimento do vocabulário, a regressão das utopias, a indiferença, o retrocesso da esperança, a ascensão de demagogos, tudo isto é real, observável, mensurável, mas não é a causa é o efeito.
O que está a acontecer é que as formas culturais, técnicas, económicas e mediáticas deixaram de ser formas ao serviço da vida e tornaram-se formas que se autopropagam, indiferentes ao humano. A formulação, “a tirania e a colonização da vida pelas formas como chave para compreender o século XXI” está feita no meu livro, Teoria Geral das Formas, já referenciado noutro comentário, e permite abrir portas insuspeitadas.
Quando a vida é comprimida por formas exteriores, sejam técnicas, económicas, mediáticas, burocráticas, a esperança definha. E não é porque falte cultura, mas porque falta vida vivida.
Quando uma sociedade perde vocabulário, perde mundo, perde relação, perde comunidade, perde futuro, perde linguagem interior, o que está a acontecer é uma reação vital à compressão das formas. A vida reage sempre que é reduzida, instrumentalizada, colonizada, tornada meio para fins que não são seus.
A angústia contemporânea não é cultural, é biológica no sentido fenomenológico, é a vida a defender-se. Tememos sempre pela vida. A cultura é apenas o campo onde a vida se exprime. Não tememos pela cultura enquanto tal, tememos porque a vida humana perde espaço para se realizar. A cultura é o meio da vida e quando o meio se degrada, a vida sente ameaça. O medo não é cultural é vital.
O texto, de Rui Bebiano, descreve o fim das grandes narrativas do progresso, mas isso é apenas o sintoma de algo mais profundo. As formas humanas (linguagem, comunidade, narrativa, projeto, utopia) estão a ser substituídas por formas técnicas (algoritmos, fluxos, métricas, estímulos, plataformas). A vida humana, que é lenta, relacional, narrativa, simbólica, está a ser comprimida por formas que são rápidas, automáticas, indiferentes, quantitativas, desprovidas de mundo. Daí o empobrecimento da linguagem. Quem perde palavras perde mundo e quem perde mundo perde vida. As críticas, os temores, a angústia, o mal-estar difuso, tudo isto é a vida a tentar recuperar espaço. E não é pessimismo, é instinto vital.
A vida resiste sempre que é reduzida a função, é convertida em dado, é transformada em fluxo, é instrumentalizada por formas que não reconhece.
A resistência é vital, antes de ser cultural, porque a vida reage primeiro e só depois interpreta. A resistência nasce da vida e só depois se traduz em cultura. A cultura é o modo como a vida resiste.

Mário R. Gonçalves disse...

Muitas coisas são adquiridas para sempre. A roda como suporte de veículos é uma conquista adquirida para sempre, A linguagem escrita é uma conquista adquirida para sempre. A aviação é uma conquista adquirida para sempre. Não quer dizer que sejam um benefício inquestionável; sem roda, não teria havido Império Romano, não iriam além dos Alpes; sem rodas nem aviões, a Alemanha Nazi ficava confinada à sua maldita (na altura) pátria. Sem nuclear , Europa, Rússia, China, não teriam uma rede elétrica estável e nacional, viveriam ainda só de barragens e lamparinas. Sem nuclear nem aviões, não teria havido Hiroshima, nem haveria qualquer perigo da Rússia às nossas portas.

Mas o nuclear também veio para ficar, adquirido, sempre. Quando digo sempre, estou a supor a continuação histórica normal a que chamo progresso. Porque a presunção de que há conquistas adquiridas do progresso que não são 'para sempre' significa apenas uma coisa: voltar à pedra lascada (ou mais atrás !). Posso desejar isso à Rússia, com a antipatia que tenho por aquela gente, mas não à Humanidade.

A Inteligência Artificial é uma ferramenta mais poderosa do que a roda ? a aviação? o nuclear? Podemos recear que sim. Por isso tudo se resume am duas frases:

Avançar, sim, com todas as precauções.
Parar com tudo, não.

E mais uma vez: não me venham com o perigo de a AI se independentizar como forma autónoma de tomar decisões. Todas as decisões serão sempre em última instância humanas. O perigo é a AI em mãos criminosas.

O perigo é a AI em mãos humanas. O perigo, somos nós.

Anónimo disse...

Cito: "Posso desejar isso à Rússia, com a antipatia que tenho por aquela gente, mas não à Humanidade."
Frase lapidar que caracteriza quem a escreve.

Mário R. Gonçalves disse...

'Nome' lapidar que caracteriza quem escreve: cobarde.

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