Após ter explorado alguma informação para escrever o texto anterior, que, devo dizer, me impressionou pela linearidade, pela falta de aprofundamento e questionamento, li o texto Nada pode ser dado por adquirido, assinado por Rui Bebiano, professor e historiador, e publicado hoje no modesto jornal regional As Beiras. Confesso esta leitura repôs alguma esperança ao meu pensamento pela capacidade de se poder pensar ampla, profunda e criticamente. Na verdade, como conclui o autor, a esperança - a esperança pelo mundo - requer construção contínua e isso exige esforço, determinação, coragem. Esse é o trabalho do professor.
"A maior das novidades trazidas, no correr do século XVIII, pela cultura do iluminismo, foi a afirmação triunfante da ideia de progresso. Procurava-se então, com recurso a um saber científico renovado e a uma atividade intelectual arrojada, afirmar que o tempo, como se acreditara até então, não era circular e repetitivo, num eterno processo de retorno a um passado perfeito. Considerava-se agora que ele era, afinal, historicamente progressivo, num percurso linear, apoiado no conhecimento e na razão humana, que se acreditava ser dinâmico e infinito. Pensando-se também que teria pela frente um horizonte otimista de liberdade, solidariedade e bem-estar que era necessário conquistar.
Hoje pode parecer impossível, mas até essa altura da vida da humanidade poucas destas categorias positivas tinham sido valorizadas ou julgadas possíveis, e menos ainda convertidas em programas virados para a ação. A partir dela, e do contributo de figuras nucleares como Voltaire, Rousseau, Thomas Paine e tantos outros, sempre com a ideia de progresso como pano de fundo, foram produzidas as grandes narrativas políticas e filosóficas que nos dois séculos seguintes ajudaram a mudar o mundo de forma profunda e rápida.
Propostas diversas, como as que deram corpo ao liberalismo, ao romantismo e ao marxismo, mesmo ao nacionalismo e a algumas formas de totalitarismo, foram a essa fonte buscar a sua vontade de reconfigurar o mundo, apontando ao futuro.
A partir dessa fase, sucessivas gerações passaram, com diferentes convicções, a encarar o percurso da história sob uma perspetiva construtiva e progressiva, tornando-se dominante a perceção do conhecimento e da luta pela felicidade como combustíveis da mudança, fosse esta a coletiva ou a individual. Até que – o anúncio formal veio em 1989 com a «teoria do fim da história», de Fukuyama – começou a defender-se que a dinâmica capitalista neoliberal representava o termo da evolução da humanidade, passando o futuro a depender apenas da «gestão do possível». Aliás, Gilles Lipovetsky falara pouco antes da chegada de uma «era do vazio» sem saída, pautada pelo retrocesso das ideologias e das tradições coletivas, trocadas pelo individualismo, o narcisismo e o consumo.
Nesta terceira década do século XXI o panorama agravou-se. Àqueles sinais têm-se juntado outros, associados à degradação do valor atribuído ao conhecimento, ao recuo das utopias e à propagação da indiferença, facilitadas pelo avanço do autoritarismo e da manipulação dos cidadãos nos média e nas redes. Sintoma deste processo é, por exemplo, a diminuição do vocabulário usado nas relações interpessoais, resultante da redução da leitura, da banalização do discurso público, da ignorância e da exclusão. Quem perde palavras deixa de comunicar e de conhecer o mundo de forma plena, passa a descrer na ideia de progresso e facilmente cai nas mãos dos líderes-demagogos, dos comentadores oportunistas e da turba de «influenciadores» ancorados no território do digital.
Uma conclusão será fácil de retirar: ao contrário daquilo em que, plenos de otimismo, tantos homens e mulheres foram acreditando nos últimos três séculos, o progresso não se faz de forma contínua, e rigorosamente nada, por perfeito que possa parecer como conquista, pode ser dado como adquirido para sempre.
Vivemos, é a verdade, um tempo negativo de retrocesso do conhecimento, de afirmação da mentira, da descrença no futuro, de desumanidade e de ceticismo em relação à ideia de felicidade, vendo diariamente regredir valores e conquistas que tantos julgaram seguros. O remédio é opormo-nos a esta tendência usando o pensamento crítico e o combate político, cultural e social. E lutando em todas as frentes pelo regresso da esperança."
Hoje pode parecer impossível, mas até essa altura da vida da humanidade poucas destas categorias positivas tinham sido valorizadas ou julgadas possíveis, e menos ainda convertidas em programas virados para a ação. A partir dela, e do contributo de figuras nucleares como Voltaire, Rousseau, Thomas Paine e tantos outros, sempre com a ideia de progresso como pano de fundo, foram produzidas as grandes narrativas políticas e filosóficas que nos dois séculos seguintes ajudaram a mudar o mundo de forma profunda e rápida.
Propostas diversas, como as que deram corpo ao liberalismo, ao romantismo e ao marxismo, mesmo ao nacionalismo e a algumas formas de totalitarismo, foram a essa fonte buscar a sua vontade de reconfigurar o mundo, apontando ao futuro.
A partir dessa fase, sucessivas gerações passaram, com diferentes convicções, a encarar o percurso da história sob uma perspetiva construtiva e progressiva, tornando-se dominante a perceção do conhecimento e da luta pela felicidade como combustíveis da mudança, fosse esta a coletiva ou a individual. Até que – o anúncio formal veio em 1989 com a «teoria do fim da história», de Fukuyama – começou a defender-se que a dinâmica capitalista neoliberal representava o termo da evolução da humanidade, passando o futuro a depender apenas da «gestão do possível». Aliás, Gilles Lipovetsky falara pouco antes da chegada de uma «era do vazio» sem saída, pautada pelo retrocesso das ideologias e das tradições coletivas, trocadas pelo individualismo, o narcisismo e o consumo.
Nesta terceira década do século XXI o panorama agravou-se. Àqueles sinais têm-se juntado outros, associados à degradação do valor atribuído ao conhecimento, ao recuo das utopias e à propagação da indiferença, facilitadas pelo avanço do autoritarismo e da manipulação dos cidadãos nos média e nas redes. Sintoma deste processo é, por exemplo, a diminuição do vocabulário usado nas relações interpessoais, resultante da redução da leitura, da banalização do discurso público, da ignorância e da exclusão. Quem perde palavras deixa de comunicar e de conhecer o mundo de forma plena, passa a descrer na ideia de progresso e facilmente cai nas mãos dos líderes-demagogos, dos comentadores oportunistas e da turba de «influenciadores» ancorados no território do digital.
Uma conclusão será fácil de retirar: ao contrário daquilo em que, plenos de otimismo, tantos homens e mulheres foram acreditando nos últimos três séculos, o progresso não se faz de forma contínua, e rigorosamente nada, por perfeito que possa parecer como conquista, pode ser dado como adquirido para sempre.
Vivemos, é a verdade, um tempo negativo de retrocesso do conhecimento, de afirmação da mentira, da descrença no futuro, de desumanidade e de ceticismo em relação à ideia de felicidade, vendo diariamente regredir valores e conquistas que tantos julgaram seguros. O remédio é opormo-nos a esta tendência usando o pensamento crítico e o combate político, cultural e social. E lutando em todas as frentes pelo regresso da esperança."
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