António Galopim de Carvalho
É com o maior gosto que o De Rerum Natura publica um novo texto do Professor Galopim de Carvalho
A fé é uma das mais antigas e profundas manifestações da experiência humana. Em sentido vulgar, pode entender-se como uma adesão firme a uma ideia, princípio ou verdade, fundada na confiança. No domínio religioso, porém, adquire uma dimensão mais profunda. Não significa apenas aceitar intelectualmente uma determinada verdade, mas confiar, entregar-se e, em muitos casos, orientar a própria existência em função daquilo em que se acredita.
| O Sacrifício de Isaac (1603), de Caravaggio |
Na linguagem corrente, fé e crença confundem-se. As duas palavras pertencem a campos semânticos próximos, mas não são inteiramente sinónimas. Crença, do latim credentia, designa, em termos gerais, o acto de crer, isto é, de aceitar algo como verdadeiro. A fé, do latim fides, pode conter essa crença, mas, sobretudo, em contexto religioso, tende a acrescentar-lhe uma dimensão de confiança, entrega e compromisso.
Uma pessoa pode acreditar numa determinada proposição sem que essa convicção transforme a sua maneira de viver. A fé, quando entendida no seu sentido religioso mais pleno, ultrapassa a simples aceitação mental. Envolve o indivíduo e pode influenciar as suas escolhas, os seus valores, os seus comportamentos e a forma como interpreta a existência.
Algo semelhante acontece com os conceitos de crente e fiel. Embora sejam frequentemente utilizados como sinónimos, não exprimem exactamente a mesma ideia. Crente designa, em sentido lato, aquele que crê ou professa determinada religião; fiel pode acentuar, além da crença, a constância, a lealdade e a pertença a uma comunidade ou tradição religiosa. Esta distinção não deve, contudo, ser entendida de maneira rígida, pois, tanto na linguagem corrente como no próprio discurso religioso, os dois vocábulos sobrepõem-se frequentemente.
Uma das mais conhecidas definições bíblicas da fé encontra-se na Epístola aos Hebreus: «Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem.» (versículo 11:1). Esta formulação exprime uma característica essencial da fé religiosa, manifestada na confiança naquilo que transcende a verificação imediata dos sentidos. Esta fé começa onde a demonstração deixa de ser suficiente, não necessariamente contra a razão, mas para além daquilo que pode ser comprovado empiricamente.
Do ponto de vista religioso, a fé pode compreender a adesão a determinadas verdades, doutrinas ou princípios fundamentais, bem como a confiança numa realidade divina ou outra transcendente. Todavia, a importância atribuída à fé e a própria maneira de a compreender variam consideravelmente entre as diferentes tradições religiosas. Nem todas as religiões assentam numa profissão de fé ou num conjunto de dogmas comparável ao das grandes religiões monoteístas. Nalgumas tradições, a prática, a disciplina espiritual, a meditação, os ritos, a pertença comunitária ou uma determinada forma de viver podem ocupar um lugar tão importante como a aceitação explícita de determinadas proposições acerca do divino.
Nas religiões em que a fé ocupa uma posição central. Normalmente, não se limita à aceitação de uma doutrina. Implica confiança e compromisso e pode tornar-se uma maneira de compreender o mundo, de enfrentar a incerteza, de interpretar o sofrimento e de conferir sentido à própria existência.
Mas o que acontece no cérebro quando uma pessoa crê, reza ou experimenta aquilo que considera uma presença transcendente?
É precisamente aqui que começa a investigação no domínio da neurociência. Esta disciplina pode estudar aquilo que acontece no cérebro quando uma pessoa acredita, reza, medita, contempla, participa num ritual ou vive uma experiência que interpreta como religiosa ou espiritual. Não estuda a transcendência, estuda a experiência humana da transcendência.
Do ponto de vista neurocientífico, não é correcto definir fé como um simples «estado funcional do cérebro». A neurociência da religião, que se ocupa do estudo científico das relações entre cérebro, religião e espiritualidade, prefere estudar os aspectos neurobiológicos das crenças, das práticas e das experiências religiosas e espirituais ou, explicitando, prefere estudar os mecanismos celulares, moleculares, genéticos e anatómicos do sistema nervoso que fundamentam, entre outros, o comportamento, as emoções e o conhecimento.
As experiências religiosas mobilizam diversos sistemas relacionados, por exemplo, com a emoção, a memória, a atenção, a representação do eu e a tomada de decisões. Isto significa que o cérebro religioso não é um cérebro diferente do cérebro não religioso. São os mesmos mecanismos fundamentais da mente humana que participam na amizade, no amor, na memória, na imaginação, na esperança, no medo, na confiança e na relação com os outros, que podem, igualmente, participar na experiência religiosa. Fala-se hoje de neuroteologia para designar um campo mais amplo, situado na intersecção entre a neurociência, a psicologia, a filosofia e a teologia, um campo que nos ultrapassa e que paira entre as elites académicas.
O cérebro humano não funciona como um conjunto de compartimentos independentes. Muitas das suas actividades resultam da cooperação entre diferentes regiões, organizadas em redes cerebrais, entendidas como conjuntos de neurónios interligados em diferentes regiões do cérebro que trabalham juntos para processar informações, emoções e comportamentos.
A investigação tem relacionado diferentes aspectos das experiências religiosas e espirituais com a actividade e interacção de algumas dessas redes, com destaque para as Redes de Modo Padrão, de Saliência e Frontoparietal. São sistemas fundamentais do funcionamento cerebral humano, não se tratando de redes especificamente religiosas
A Rede de Modo Padrão (Default Mode Network) participa em processos relacionados com a autorreflexão, a memória autobiográfica, a construção da identidade pessoal e a representação dos estados mentais dos outros. Alguns destes mecanismos participam na chamada «teoria da mente», isto é, na capacidade de imaginar aquilo que outro ser pensa, deseja ou pretende. Processos semelhantes podem participar na maneira como uma pessoa religiosa representa mentalmente uma entidade divina.
A Rede de Saliência (Salience Network) intervém na identificação daquilo que, entre os inúmeros estímulos internos e externos que recebemos, possui particular relevância para nós. Ajuda, assim, a seleccionar aquilo que merece atenção e a integrar informação emocional, corporal e cognitiva.
A Rede Executiva Central (Central Executive Network) está relacionada com o controlo cognitivo, a atenção, a tomada de decisões e a avaliação e regulação das nossas representações mentais.
A experiência religiosa resulta, pois, pelo menos em parte, da forma particular como estas e outras redes interagem, quando a pessoa reza, medita, contempla, acredita ou atribui significado religioso a determinada experiência.
Uma nossa aptidão, importante para compreender a relação entre uma experiência religiosa, como é a fé, e o cérebro é a neuroplasticidade, ou plasticidade cerebral, entendida como a capacidade do sistema nervoso para modificar aspectos da sua organização estrutural e funcional em consequência da experiência, da aprendizagem, do treino, dos estímulos ambientais ou de determinadas lesões.
O cérebro não é um órgão absolutamente estático. Pelo contrário, conserva ao longo da vida uma apreciável capacidade de adaptação. Tudo aquilo que praticamos repetidamente, como seja, aprender uma língua, tocar um instrumento, adquirir uma competência profissional, praticar um desporto ou treinar a atenção, pode, em diferentes graus, modificar os circuitos neuronais (relativos aos neurónios - as células fundamentais do sistema nervoso) envolvidos nessa actividade.
As práticas religiosas não constituem, portanto, uma excepção. A oração, a meditação, a contemplação ou determinados rituais, quando praticados regularmente, envolvem repetidamente processos de atenção, memória, emoção, linguagem e comportamento. É, portanto, plausível, e em determinados contextos empiricamente observável, que a prática prolongada produza alterações funcionais e eventualmente estruturais nos sistemas neuronais envolvidos. Não está, porém, demonstrado que a repetição da oração ou de pensamentos religiosos «grave» simplesmente uma crença no cérebro ou crie um circuito nervoso exclusivo da fé. O que se pode afirmar é que as práticas religiosas estão sujeitas aos mesmos princípios gerais de aprendizagem e plasticidade que outras actividades humanas.
A experiência religiosa possui, frequentemente, uma intensa dimensão emocional. Pode ser acompanhada por sentimentos de esperança, confiança, pertença, gratidão, temor, consolação, alegria ou profunda serenidade. Não surpreende, por isso, que alguns estudos tenham encontrado, durante determinadas práticas ou experiências religiosas e espirituais, a participação de sistemas neuroquímicos cerebrais relacionados com a recompensa, a motivação, a vinculação social e a regulação emocional.
Entre os sistemas neuroquímicos estudados, encontram-se os relacionados com a dopamina e outros neurotransmissores envolvidos na recompensa, motivação, emoção e sociabilidade. É, contudo, demasiado simplista, afirmar que a fé liberta neurotransmissores, como a dopamina, a serotonina e a oxitocina. A oração silenciosa, uma cerimónia colectiva, uma experiência mística, a meditação contemplativa e a simples adesão intelectual a uma crença são fenómenos muito diferentes e não podem ser reduzidos a uma única reacção neuroquímica.
Quando uma pessoa contempla uma obra de arte, ama alguém ou escuta uma música que a comove, desenvolve processos eléctricos e químicos no seu cérebro. A neurociência pode observar alterações de actividade cerebral durante a oração, estudar os mecanismos cognitivos envolvidos numa crença ou investigar os processos emocionais associados a uma experiência mística. A actividade cerebral associada à experiência de Deus não constitui, por si só, uma prova da existência de Deus. Mas também não constitui uma prova da sua inexistência
O cérebro é o mediador essencial de toda a experiência humana consciente. Vemos através dele, recordamos através dele, amamos através dele e também acreditamos através dele. Descobrir os mecanismos cerebrais de uma experiência não basta, portanto, para decidir sobre a realidade ou irrealidade do seu objecto. É, precisamente neste, ponto que a ciência e a fé devem reconhecer os respectivos limites. A ciência procura compreender, através da observação e da experiência, os mecanismos do mundo natural e do próprio ser humano. A fé interroga-se sobre dimensões da existência que, para o crente, ultrapassam aquilo que pode ser demonstrado empiricamente. A fé situa-se no espaço profundamente humano entre aquilo que podemos demonstrar, que podemos compreender, e aquilo em que escolhemos confiar.
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Queridos amigos, estou a preparar um texto que vou intitular «Uma reflexão sobre a Fé» Só estou à espera do OK da pessoa mais entendida neste tema, a quem o submeti. Entretanto eis o que reuni sobre «A fé no sacrifício de Isaque»
Esse episódio está no Génesis (capítulo 22, versículos 1 a 18) e é conhecido como o Sacrifício de Isaque (ou “Amarração de Isaque”, na tradição judaica).
O que é uma passagem bíblica, nota onde Deus testa a fé de Abraão e pede que ele ofereça o filho amado, em holocausto.
Abraão viaja com Isaque, até um altar, no monte Moriá.
Este seu filho segue-o, carregando a lenha.
No altar, quando Abraão pega na faca para sacrificar o filho, um anjo do Senhor impede-o de o fazer.
Deus vê a obediência de Abraão e faz aparecer um carneiro preso nos arbustos, que é sacrificado, em vez de Isaque. O teste foi extremo porque Isaque era o filho da promessa, através da qual Deus havia garantido que Abraão seria pai de uma grande descendência e de uma grande nação.
Para os leitores que gostam de saber:
Os sacrifícios de animais estavam ligados ao Templo de Jerusalém e deixaram de ser realizados após a destruição do Segundo Templo, em 70 d.C. Esta narrativa bíblica pretende demonstrar a confiança total, ou seja, a fé de Abraão na palavra de Deus e é central no judaísmo (onde é designado por Akedá), no cristianismo e no islamismo.
O local do altar, no Monte Moriá, onde, segundo o ritual bíblico do holocausto (olah), o sacrifício teria lugar, é tradicionalmente associado ao local onde, mais tarde, foi construído o Templo de Salomão. No sacrifício, o animal, habitualmente um cordeiro, era morto e depois queimado.
O simbolismo desta narrativa no Cristianismo, em que Isaque é visto como uma "sombra" de Jesus, sendo o filho amado que caminha para o sacrifício, carregando a própria lenha (assim como Jesus carregou a cruz). Nela, o cordeiro, que substitui Isaque no sacrifício, simboliza Jesus e é representado no Cristianismo, como «o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo».
A Epístola aos Hebreus afirma que Abraão obedeceu porque tinha fé em Deus e acreditava que Ele tinha poder para ressuscitar Isaque dos mortos.
Esta narrativa da Génesis ajuda a perceber um pormenor importante. Abraão leva consigo três elementos necessários ao sacrifício - a lenha, o fogo e a faca. Mas falta precisamente o elemento principal - a vítima. É por isso que Isaac pergunta:
- Aqui estão o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?
A presença da lenha torna a ausência do animal ainda mais evidente e prepara a resposta decisiva de Abraão:
- Deus providenciará o cordeiro»
Na leitura cristã, o facto de Isaac carregar essa mesma lenha, ganha um segundo significado: torna-se uma imagem de Cristo carregando a madeira da cruz.
O local do altar, no Monte Moriá, onde, segundo o ritual bíblico do holocausto (olah), o sacrifício teria lugar, é tradicionalmente associado ao local onde, mais tarde, foi construído o Templo de Salomão. No sacrifício, o animal, habitualmente um cordeiro, era morto e depois queimado.
O simbolismo desta narrativa no Cristianismo, em que Isaque é visto como uma "sombra" de Jesus, sendo o filho amado que caminha para o sacrifício, carregando a própria lenha (assim como Jesus carregou a cruz). Nela, o cordeiro, que substitui Isaque no sacrifício, simboliza Jesus e é representado no Cristianismo, como «o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo».
A Epístola aos Hebreus afirma que Abraão obedeceu porque tinha fé em Deus e acreditava que Ele tinha poder para ressuscitar Isaque dos mortos.
Esta narrativa da Génesis ajuda a perceber um pormenor importante. Abraão leva consigo três elementos necessários ao sacrifício - a lenha, o fogo e a faca. Mas falta precisamente o elemento principal - a vítima. É por isso que Isaac pergunta:
- Aqui estão o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?
A presença da lenha torna a ausência do animal ainda mais evidente e prepara a resposta decisiva de Abraão:
- Deus providenciará o cordeiro»
Na leitura cristã, o facto de Isaac carregar essa mesma lenha, ganha um segundo significado: torna-se uma imagem de Cristo carregando a madeira da cruz.
Nota: Abraão é uma das figuras mais importantes da Bíblia, sendo considerado o pai do povo de Israel e um exemplo de fé e confiança em Deus. A sua história encontra-se principalmente no livro do Génesis, no Antigo Testamento. A Epístola aos Hebreus ensina que Jesus Cristo é superior a tudo e é o nosso Sumo Sacerdote perfeito. Pelo seu sacrifício, temos acesso a Deus. O livro incentiva os cristãos a terem fé, perseverar e não abandonar Cristo, mesmo nas dificuldades.
8 comentários:
Quando se aprecia arte, se ama alguém ou se ouve música, a nossa afectividade, sensibilidade, emotividade é que estão 'no comando', mesmo que a racionalidade lá esteja, subjacente. Sabemos, temos consciência, que não são coisas que se possam argumentar, provar, debater de forma a obter uma certeza universal. Sabemos que a Goldberg de Bach, um Matisse ou a minha Penélope são verdades minhas, só minhas, que não tenho de impingir a ninguém; posso comunicá-las, enaltecê-las, mas não fazer delas dogma ou motivo de combate.
Não se pode confundir isto com a treta da religião e da crença. O verdadeiro problema da existência de Deis, qualquer Deus, é que aqueles que o veneram fazem questão de o impor aos outros, de tratar os outros que não acreditam com desprezo, de fazer dogmas e leis (mandamentos, pecados, confissões, expiações...) . E isso impôs-se ao mundo! Por exemplo, o casamento a dois, o funeral com velório, o baptismo... Deus é não só irracionalidade , e também uma forma orwelliana de controle social. Absurda numa sociedade livre e culta.
Deus não é uma questão de fé da mesma maneira que o amor de Penélope ou a paixão por Bach. Deus é uma bestialidade reptiliana que importa rejeitar com todos os argumentos racionais possíveis. Deus não está em lado nenhum, nem paraíso nem inferno, nem na salvação dos naufragados, nem na igreja nem no 'milagre' do nascimento. Deus é um monstro na selva escura que nos aterroriza nos sonhos. Só existe na nossa cabeça e cada um tem a capacidade de o extirpar de uma vez por todas - acordando. É só querer.
A admirável curiosidade do Professor Galopim de Carvalho, sustentada por uma sede insaciável de conhecimento, merece que teça algumas considerações acerca do texto que aqui nos trouxe. Até porque, este texto é exemplo daquilo que a minha “Teoria Geral das Formas”, recentemente publicada em livro, ao tratar da Forma Religiosa como uma das formas vitais humanas, identifica como a gramática estabilizada da tradição metafísica ocidental. Um compósito de definições herdadas, sedimentadas culturalmente, repetidas durante séculos, que já não pensam nada, apenas reproduzem o que foi pensado antes. É o que designo como “enciclopédia da fé” no sentido mais literal, nãporque não esclarece, limitando-se a fixar um conjunto de categorias que não podem subsistir à luz da TGF. A enciclopédia da fé não pensa a Forma Religiosa, apenas descreve os seus efeitos linguísticos e emocionais. E impede qualquer análise formal porque mistura níveis ontológicos distintos. Na TGF, crença é forma linguística (proposições, doutrinas, conteúdos), fé é operação vital (adesão existencial à ficção religiosa), transcendência é ficção reflexiva, prática é forma social e emoção é forma vital.
A enciclopédia da fé não distingue estes níveis, apenas descreve fenómenos e insiste em categorias como “profundidade, entrega, mistério, transcendência, sentido último, fundamento invisível”, que pertencem à gramática metafísica da profundidade, ficções reflexivas, que tentam nomear aquilo que não aparece.
Não, não há profundidade, o que há são modos de aparição. E não há mistério, há não-aparição. E a transcendência é ficção. Tomar ficções como realidades não permite pensar a Forma Religiosa, apenas reforça as ficções. Tomar Deus como entidade, fé como relação com essa entidade, crença como aceitação de verdades sobre essa entidade, é descrever a narrativa da Forma Religiosa. Mas Deus é ficção reflexiva, fé não é relação com Deus, mas operação vital organizada pela Forma Religiosa.
Por outro lado, a oração, a meditação, os ritos, a pertença comunitária, a disciplina espiritual, são formas sociais, técnicas e linguísticas, não são fé. A prática não é fé, é comportamento. Fé é operação vital. É preciso distinguir comportamento e forma, se quisermos pensar a Forma Religiosa e não apenas descrever os seus comportamentos.
Ainda assim, aceitar verdades, aderir a doutrinas, professar dogmas, é crença, não é fé. A crença é proposicional, mas a fé não, a fé é vital, a crença é linguística. E a fé não é estrutural, nem é universal (a vulnerabilidade é). Nem todos os humanos têm fé e, enquanto a Forma Vital é necessária, a fé é contingente.
A TGF opõe à enciclopédia da fé uma arquitetura formal, que se apresenta como consistente e irrecusável, a saber: fé não é crença (fé é do nível vital e crença é da linguística), não é profundidade (profundidade é do nível ficção), não é relação com Deus ( Deus é ficção reflexiva e fé é reorganização da vulnerabilidade), não é prática ( prática é social), não é proposição ( proposição é linguística), não é universal (universal é a vulnerabilidade, a fé é contingente).
99,99% dos leitores não entende nada disto. Assim se escreve, o que nos aprouver, para ninguém ler.
O anónimo das 19:15 quer dizer que 99,99 % dos leitores estão alienados pelo futebol?!Em face de números tão miserabilistas, só vejo uma solução: estender a escolaridade obrigatória até aos 25 anos de idade.Com uma tal escolaridade, facilitada pelos especialistas que todos conhecemos, a começar pela Professora Doutora ex-Ministra Maria de Lurdes Rodrigues, as novas massas estudantis perderão a razão e saberão explicar tintim por tintim o mistério da vida e da morte!
A crítica do anónimo é bem-vinda, plausível e, infelizmente, talvez ninguém lamente reconhecer isso, quanto eu. Antevejo que esse seja um dos fatores impeditivos da leitura, do conhecimento e da divulgação, da TGF. É pertinente, não como crítica à Teoria Geral das Formas, ou à dificuldade em entender a linguagem, mas como crítica ao estado atual da cultura filosófica. De qualquer modo, a TGF não sendo difícil por ser obscura, tenho a noção de que, por não usar a gramática da ontologia metafísica habitual, impregnada na linguagem corrente, a claridade deixa de depender da simplicidade e passa a depender do novo regime formal, da TGF. E não há tradução perfeita entre os dois regimes. É como tentar explicar, por exemplo, geometria, física, ou anatomia, usando apenas metáforas do senso comum. A claridade não é impossível, mas exige preparação do receptor.
Não ignoro que uma das competências mais valorizadas em quem escreve, ou fala, ou, de algum modo comunica, é ser eficaz, o que passa muitas vezes por "falar a língua" do receptor. E aprendi, desde cedo, a adaptar a fala ao contexto e aos receptores, com alguma percepção de estar ou não a ser escutado e entendido a cada momento, procurando ajustar-me. Aliás, isto é central para a própria Teoria Geral das Formas, porque toca na relação entre forma, aparição, linguagem e comunicação e é, na verdade, uma lei estrutural da comunicação humana, enquanto operação formal que depende do regime do receptor.
Não obstante, Professor Doutor Carlos Ricardo Soares, temos de continuar a educar as massas estudantis ou outras.
Caro Anónimo, far-me-á a justiça de retirar os títulos de Professor Doutor, que me atribuiu, certamente com a melhor das intenções, e que eu não detenho?
Vossa Excelência pode não deter graus académicos tão ilustres, mas tem uma verve mais luminosa do que a estrela que ilumina a Terra inteira.
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