domingo, 14 de maio de 2023

"O TRABALHO DE HISTORIADORES E FILÓSOFOS (...) É APONTAR OS PERIGOS"

Com a reprodução de um quadro de Jan Saenredam que retrata a “Alegoria da Caverna de Platão” (1604), o Expresso desta semana republicou, na tradução de Joana Henriques, um artigo de Yuval Noah Harari, antes saído no The Economist, sobre a (eventual) reconfiguração do ser humano (e da humanidade) em virtude do assombroso desenvolvimento dos mecanismos de Inteligência Artificial.

Independentemente de concordarmos com as interpretações e posições teóricas do historiador, a verdade é que se trata de alguém bem informado na sua disciplina e noutras que lhe são conexas, como a filosofia, a antropologia. Isso deve levar-nos a ler com cuidado o que escreve sobre o assunto. 

Tomo, por isso, a liberdade de transcrever algumas passagens desse artigo.
"O receio em relação à inteligência artificial (IA) tem assombrado a Humanidade desde o início da era dos computadores (...) mas ao longo dos últimos dois anos surgiram novas ferramentas que ameaçam a sobrevivência da civilização humana vindas de onde menos se esperava. A IA ganhou algumas habilidades notáveis para manipular e gerar linguagem, seja com palavras, sons ou imagens. A IA pirateou o sistema operacional da nossa civilização. 
A língua é o material sobre o qual quase toda a cultura humana se baseia (...). O que poderá acontecer quando uma inteligência não humana se torna melhor do que o ser humano médio a contar histórias, compor melodias, desenhar imagens e escrever leis? 
Quando pensamos sobre (...) novas ferramentas de IA, pensamos em exemplos como o dos alunos que usam a IA para escrever os seus trabalhos da escola (...). Mas esse tipo de pergunta não abrange o panorama geral (...). Pensem nas próximas eleições presidenciais americanas, em 2024, e tentem imaginar o impacto das ferramentas de IA, que podem ser criadas para produzir conteúdo político em massa, histórias de notícias falsas e escrituras para novos cultos. 
(...) O culto QAnon une-se em torno de mensagens online anónimas, conhecidas como “q drops”. Os seguidores recolhem, veneram e interpretam estes “q drops” como se fossem um texto sagrado. Até agora, tanto quanto sabemos, todos os “q drops” eram criados por humanos e os bots simplesmente ajudaram a disseminá-los, no futuro podemos assistir aos primeiros cultos da história cujos textos sagrados foram escritos por uma inteligência não humana.
As religiões ao longo da história reivindicaram uma fonte não humana para os seus livros sagrados. Em breve isso pode ser uma realidade. 
Num nível mais prosaico, em pouco tempo podemos estar a manter longas discussões online sobre o aborto, alterações climáticas ou a invasão russa da Ucrânia com entidades que pensamos serem humanos, mas são, na realidade, IA. O problema é que é absolutamente inútil gastarmos o nosso tempo a tentar mudar as opiniões declaradas de um bot uma vez que a IA poderá aprimorar as suas mensagens de forma tão precisa que existe a possibilidade de nos influenciar (...).
Embora não haja nenhuma indicação de que a IA tenha qualquer tipo de consciência ou sentimentos, o promover uma intimidade falsa com os seres humanos é suficiente, se fizer com que se sintam emocionalmente ligados a si (...). Numa batalha política para conquistar mentes e corações, a intimidade é a arma mais eficiente e a IA acaba de ganhar a capacidade de criar, em massa, relações íntimas com milhões de pessoas. 
Todos sabemos que ao longo da última década as redes sociais se tornaram um campo de batalha para controlar a atenção humana. Com a nova geração de IA, a frente de batalha está a passar da atenção para a intimidade. 
O que acontecerá com a sociedade e psicologia humanas à medida que as diferentes IA lutam entre si para conseguir formar falsas relações íntimas connosco, que podem depois ser usadas para nos levar a votar em políticos específicos ou comprar produtos específicos? 
Mesmo sem criar uma “intimidade falsa”, as novas ferramentas de AI teriam uma imensa influência nas nossas opiniões e visões de mundo. As pessoas podem passar a consultar apenas uma IA como um oráculo único e omnisciente. Não admira que a Google esteja apavorada. Para que é que me vou dar ao trabalho de pesquisar, se posso simplesmente perguntar ao oráculo? As empresas de comunicação social e publicidade também devem estar aterrorizadas. Para quê ler um jornal se posso apenas pedir ao oráculo para me contar as últimas notícias? E para que servem os anúncios, se posso simplesmente pedir ao oráculo para me dizer o que comprar? E mesmo estes cenários imaginários não captam verdadeiramente o panorama geral. 
Aquilo de que estamos a falar é, potencialmente, do fim da história da humanidade (...) o fim da sua parte dominada pelo homem. A história é a interação entre biologia e cultura; entre as nossas necessidades biológicas, e desejos por coisas como comida e sexo, e as nossas criações culturais, como religiões e leis (...).
O que acontecerá com o rumo da história quando a IA tomar conta da cultura e começar a produzir histórias, melodias, leis e religiões? Ferramentas anteriores, como a imprensa gráfica e a rádio, ajudaram a espalhar as ideias culturais dos seres humanos, mas nunca criaram novas ideias culturais próprias. A IA é fundamentalmente diferente, pode criar ideias completamente novas, uma cultura completamente nova. 
No início, a IA provavelmente imitará os protótipos humanos em que foi treinada na sua infância. Mas a cada ano que passa (...) vai corajosamente até onde nenhum ser humano já foi. Há milénios que os seres humanos vivem dentro dos sonhos de outros seres humanos. Nas próximas décadas podemos dar por nós a viver dentro dos sonhos de uma inteligência alienígena. 
O medo da IA assombra a humanidade há apenas algumas décadas, mas durante milhares de anos os seres humanos foram assombrados por um medo muito mais profundo (...) desde os tempos antigos, os humanos temeram estar presos num mundo de ilusões (...). Na Grécia antiga, Platão contou a famosa alegoria da Caverna, na qual um grupo de pessoas estão acorrentadas dentro de uma caverna durante toda a sua vida, de frente para uma parede em branco. Um ecrã. Nesse ecrã veem várias sombras projetadas. Os prisioneiros confundem as ilusões que ali veem com a realidade (...). 
Se não tivermos cuidado, podemos ficar presos atrás de uma cortina de ilusões, que não conseguimos rasgar nem mesmo perceber que ali está. Claro que o novo poder da IA também poderia ser usado para o bem. 
Não vou refletir sobre isso, porque as pessoas que desenvolvem a IA já o fizeram que chegue. O trabalho de historiadores e filósofos como eu é apontar os perigos. 
Certamente que a IA pode ajudar-nos de inúmeras maneiras, desde encontrar novas curas para o cancro até descobrir soluções para a crise ecológica. A pergunta que enfrentamos é como garantir que as novas ferramentas de IA são usadas para o bem e não para o mal. 
Para tal, primeiro precisamos compreender as verdadeiras capacidades dessas ferramentas.
Desde 1945 que sabemos que a tecnologia nuclear poderia gerar energia barata para o benefício dos seres humanos, mas também poderia destruir fisicamente a civilização humana. Por conseguinte, reformulámos toda a ordem internacional para proteger a humanidade e para garantir que a tecnologia nuclear fosse utilizada principalmente para o bem (...). 
Ainda vamos a tempo de regular as novas ferramentas de IA, mas temos de agir rapidamente. Enquanto as bombas atómicas não conseguem inventar bombas atómicas mais poderosas, a IA consegue criar uma IA exponencialmente mais poderosa. O primeiro passo essencial é exigir verificações de segurança rigorosas antes das poderosas ferramentas de IA serem lançadas para o domínio público (...). Precisamos de um equivalente da Food and Drug Administration para novas tecnologias e precisamos dele para ontem (...). 
A implementação de IA não regulamentada criaria o caos social, que beneficiaria os autocratas e arruinaria as democracias. A democracia é um diálogo e os diálogos dependem da linguagem. Quando a IA modifica a linguagem, pode destruir a nossa capacidade de ter diálogos importantes, destruindo assim a democracia. 
Acabámos de encontrar uma inteligência alienígena, aqui na Terra (...). Devíamos pôr um travão à [sua] implementação irresponsável (...) antes que seja ela a regulamentar-nos a nós. E o primeiro regulamento que gostaria de sugerir é que seja obrigatório uma IA dizer que é uma IA. Se estou a conversar com alguém e não consigo perceber se é um ser humano ou uma IA, esse é o fim da democracia."

sábado, 13 de maio de 2023

Dizer até à exaustão o amor

Dizer até à exaustão o amor,  

Também com os teus olhos claros.

E deixar o pó distante cobrir a luz

Que descobre o brancor

Das imarcescíveis bocas de jarros.

ÉTICA, EDUCAÇÃO E RELIGIÃO: ESTUDO DE UMA RELAÇÃO CAPAZ DE AJUDAR NA COMPREENSÃO DO HUMANO

Depois de publicar Ética e Educação nos Quatro Evangelhos (ver recensões, por exemplo, aqui e aqui), Carlos Fernandes Maia, investigador experimentado em matéria de filosofia, voltou ao estudo da relação entre religião, ética e educação. O resultado foi um novo livro, na forma de ensaio, a que deu o título: Ética e Educação no Alcorão: quid novi, quid veteris.

Teve Carlos Fernandes Maia a amabilidade de me pedir um texto para integrar as primeiras páginas deste livro. Foi com gosto que o escrevi, reconhecendo, porém, que as palavras que o compõem, e que abaixo reproduzo, estão longe de fazer jus ao imenso, profundo e elaborado trabalho do autor.
"Tanto quanto nos é dado saber, nunca existiu comunidade sem expressão religiosa. Desde os grupos mais remotos, diminutos e rudimentares às sociedades mais actuais, alargadas e sofisticadas, vemo-la ocupar um lugar central nas esferas colectiva e individual. E, não obstante o menor ou maior distanciamento de tudo o que pode ser considerado mundano, nunca se restringe a si própria: influencia outras expressões, sendo influenciada por elas. É o caso da educação. Religião e educação afiguram-se, de resto, duas das mais sólidas revelações do que somos – e do que desejamos ser – como pessoas inquietas, num universo que nos inquieta. 
Esperar-se-ia, pois, que a academia contemporânea privilegiasse o estudo dessa estreita ligação, mas não tem sido assim, ou não o tem sido de modo explícito e com os esquemas racionais adequadas. De facto, do passo civilizacional que foi a secularização do Ocidente, espaço em que situo a presente nota, tem resultado sobretudo uma dissociação. 
Do ponto de vista da educação pública, que aqui adopto, resguardaram-se conhecimentos religiosos da Antiguidade Clássica – que, em tempos mais recentes e por outras razões, tendem a esvanecer-se – e afastaram-se conhecimentos das três religiões do Livro: Cristianismo, Judaísmo e Islamismo. Delas restaram apontamentos na História, na Filosofia e pouco mais. A legítima preocupação de laicismo, assumida pelo Estado Moderno, teve o efeito de confundir o conhecer com o doutrinar. Disse Paul Ricoeur (1993, p.73): 
“Com o objectivo de respeitar todas as religiões, todas as crenças, a escola pública deixou de referir qualquer uma. Existem hoje crianças que nunca ouviram falar dos profetas de Israel, mas que conhecem de cor os deuses do Olimpo. É uma lacuna grave (…). Tanto me oponho ao facto de se imporem escolhas, como sou favorável à apresentação de conteúdos entre os quais é necessário escolher”. 
Acresce que a progressiva entrega da educação à escola fez aligeirar o encargo de outras entidades educativas capazes de se deterem na religião, ainda que restrita à que professem; também o quotidiano se viu progressivamente preenchido por apelativas solicitações mediáticas, direccionadas para o superficial e imediato. Isto, e mais do que isto, deveria obrigar-nos, como educadores, a parar para perguntar, como faz Anselmo Borges (2022): 
“as religiões estão sempre presentes. Mas quem tem delas um conhecimento mínimo?” E, exemplifica, “quantos se lembram que Abraão está na base das três religiões?” 
Não obstante este desconhecimento, muitos milhões de fiéis das religiões monoteístas abraâmicas, e também os agnósticos, unem-se e desunem-se pelas palavras da Tora, da Bíblia e do Alcorão. Que palavras poderosas são as que compõem os três livros, diferentes dos livros comuns por terem a marca do sagrado? E, sobretudo, como podem elas responder ao dever ético de construção do ser humano por via da educação? 
Profundamente empenhado neste problema, Carlos Fernandes Maia, recorrendo à sua extensa e sólida preparação académica, na qual se inclui a educação, a religião e a ética, voltou ao estudo da Bíblia. O escrutínio, guiado por esta tríade, foi apresentado na obra Ética e educação nos quatro evangelhos, publicado em 2019. Terminado esse trabalho, orientou o seu estudo para o Alcorão, o que resultou na obra que agora se vem a lume com o título Ética e Educação no Alcorão: quid novi, quid veteris. 
Não fazendo a exploração do conteúdo das obras, que confio ao leitor, presto atenção ao que, conferindo-lhes unidade, tem uma inequívoca relevância educativa: o desbravamento, em profundidade, do texto, de cada texto, sondando as palavras, de modo que elas digam o que podem dizer, sem perder o discurso, no seu todo, com a preocupação de encontrar sentidos possíveis. Trata-se do exercício essencial que é o conhecer para compreender. 
Em concreto, conhecer a dimensão religiosa do humano para avançar na compreensão do humano. E, tendo em conta o pensamento do autor, presumo que o intento seja delinear possibilidades susceptíveis de concorrer para o fim último da educação, que é o aperfeiçoamento humano. 
Destaco, efectivamente, no esforço hermenêutico empreendido, a procura pouco comum do valor intrínseco que a Bíblia e o Alcorão têm na perseguição deste fim. Na verdade, é o valor instrumental que tende a procurar-se quando se invocam: face à urgência de pacificar o mundo, há que promover o diálogo inter-religioso, requerendo-se, para tanto, o entendimento de cada tradição religiosa. Não menosprezando este valor, e admitindo que o diálogo precisa de ser robustecido, julgo que ele terá de assentar no valor-em-si dos livros. 
É um tal esforço, de procura de valor, que a academia pode e deve fazer. O que, nas palavras de Gouveia Monteiro (2012, p. 79), requer uma “perspectiva interdisciplinar, não confessional”, que preze a objectividade e a liberdade de pensamento, com independência em relação a qualquer tipo de autoridade. Esta é a postura que Carlos Fernandes Maia declara e que, efectivamente, se confirma nas páginas lidas, nas quais se vê vincada uma intransigente afirmação da dignidade humana. Dignidade que faz sobrepor a ética a opções morais que a negam, mesmo se justificadas na religião. 
Voltando ao início, retomando a hipótese do vínculo entre religião e educação, que se deseja pautado pela ética, formulo uma dupla interrogação que, podendo afigurar-se dissonante dela, constitui um desafio ao leitor desta obra: a primeira é de Tomáš Halík (2016, p. 72): “se a religião for expulsa da vida pública, o que é que entrará para o lugar deixado vago?”; a segunda é minha: se a educação escolar pública persistir em manter afastado o conhecimento que investigadores como Carlos Fernandes Maia apuram, a fim de compreender o fenómeno religioso, o que ficará em falta na formação de cada ser humano e na construção da humanidade futura? 

Referências:
Borges, A. (2022). As religiões na escola. Diário de Notícias, 8 de Outubro. https://www.dn.pt/opiniao/as-religioes-na-escola-15232795.html.
 
Gouveia Monteiro, J. (2012). À volta das três religiões do Livro. In A. Borges & J. Gouveia Monteiro. As três religiões do Livro (17-22). Imprensa da Universidade de Coimbra.
Halík, T. (2016). Com a hipótese de Deus ou sem ela. In T. Halík & A. Grün. O abandono de Deus: quando a crença e a descrença se abraçam (67-87). Paulinas Editora.
Maia, C. F. (2019). Ética e educação nos quatro evangelhos: uma antropeugogia inadiável. Chiado.
Ricoeur, P. (1993). É importante manter, desde o início, a dimensão política da educação (entrevista de Anita Kechikian a Paul Ricoeur). In A. Kechikian. Os filósofos e a educação (pp. 69-76). Edições Colibri.

sexta-feira, 12 de maio de 2023

MACBETH NA RÚSSIA

Depois de matar e incendiar, 
depois de constante bombardear,
aquele cadáver frio que procria,
sem sabedoria nem alegria,

Vladimir Putin, feio czar da Rússia,
onde se tortura com arrogância,
e se mata irmão ou filho, que importa,
é preciso é desamparar a porta,

Putin, dizia, vai ver a floresta,
até aí, imóvel, caminhar,
imparável e ameaçadora besta,

como se viu, em Dunsinane, andar
outra floresta, até aí quieta,
em direcção a Macbeth, como seta!

Eugénio Lisboa

A EDUCAÇÃO COMO PROTECÇÃO (QUE SEMPRE FOI E SERÁ) CONTRA A MANIPULAÇÃO

No passado mês, Noam Chomsky, linguista marcante, analista empenhado, co-assinou um artigo sobre os desenvolvimentos mais recentes da IA, que saiu no jornal New York Times, tendo grande divulgação. Em sequência foi entrevistado pelo Ípsilon (ver aqui e aqui). Eis o que disse sobre a importância crucial da educação face a esses desenvolvimentos.

Recorte retirado daqui
"«É impossível travar os sistemas», avisa ele, que não assinou a carta em que especialistas de todo o mundo pediram uma moratória no desenvolvimento de IA. 
Explica por quê: «A única maneira [de controlar a evolução tecnológica] é educar as pessoas para a autodefesa. Levar as pessoas a compreender o que isto é e o que não é.»
«Falta educação, e essa educação, essa proteção, era o que se fazia quando se tinham organizações que representavam as pessoas».
«Este é o mais radical ataque ao pensamento crítico, à inteligência crítica e particularmente à ciência que eu alguma vez vi. A azáfama em torno da IA faz com que as pessoas também comecem a estar dessensibilizadas em relação aos riscos (...)»
«Fazer com que as pessoas compreendam que há mais coisas do mundo além das fantasias na Internet. Há situações cada vez mais preocupantes. Recentemente foi publicado um estudo, aqui nos EUA, sobre a Geração Z, crianças que nasceram depois de 1997, e a forma como encontram informação sobre o mundo. Quase ninguém lê jornais ou vê televisão. Muito poucos vão ao Facebook, porque já é antiquado. Imaginem o que é ter uma geração inteira a criar a sua visão do mundo através do que se vê no TikTok? Estamos falando da possibilidade de perdermos uma geração.»"

quinta-feira, 11 de maio de 2023

A LÍNGUA PORTUGUESA GOSTA DA CONSOANTE

Ao Nuno Pacheco, incansável lidador, na batalha por uma língua portuguesa asseada. Ele é o nosso mais esforçado e incansável lutador contra esse maligno Acordo Ortográfico, que os nossos sucessivos governos, cobardemente, não têm querido desfazer. 

A língua portuguesa gosta da consonante

A língua portuguesa, que um Acordo 
Ortográfico quis assassinar,
deixando a inteligência a estibordo 
e o ouvido muito a desejar,

a língua portuguesa, digo eu, 
com a beleza que lhe deu Camões
e o vigor que, com Vieira, cresceu,
aguentará este e mais safanões!

Os acordos passam e a língua fica,
bela e sonora, cheia de buzinas,
de consoantes de que não abdica,

em palavras muitíssimo ladinas,
tais como concepção e recepção,
que, sem «p», têm ar sensaborão!

Eugénio Lisboa

quarta-feira, 10 de maio de 2023

MÚSICA ERUDITA PARA TODOS NA ESCOLA PÚBLICA

Por Maria Helena Damião e Isaltina Martins

Mão amiga enviou-nos o texto que tomamos a liberdade de reproduzir abaixo, quase na íntegra. Foi publicado no facebook em 20 de Abril com o título Dos milagres recorrentes. Assina-o Inês Thomas Almeida, musicóloga e cantora lírica. Como mãe, levou uma turma de 22 alunos de 9 e 10 anos a um ensaio geral da Sinfonia Fantástica, de Hector Berlioz, interpretada pela Orquestra Gulbenkian. Os sublinhados são nossos, destacando o que, felizmente, no texto concorre para pôr em causa um certo pensamento educativo que parece ser prevalecente. 
(...) Para contextualizar, devo referir que se trata de uma turma da escola pública, com miúdos das mais variadas origens sociais e geográficas e experiências de vida muito díspares. Alguns dizem que antigamente o pai usava uma pulseira [subentenda-se: electrónica], outros sabem que o pai não se pode aproximar da mãe mais do que uma determinada distância, por ordem judicial, e vários ainda não falam bem português.  
No autocarro (...) perguntei à turma se algum já tinha ido à Gulbenkian. Em 22 havia um, que era o meu. Expliquei-lhes, então, o que iam fazer e ouvir. O que é uma orquestra? Para que serve? Que instrumentos tem? O que é um ensaio? 
Expliquei-lhes, isto sempre na viagem de autocarro, a subir a Avenida de Ceuta, o que era uma sinfonia, o que era um andamento, e esbocei em traços largos o que era a Sinfonia Fantástica, porque é que tinha aquele nome - que vem do fantástico sobrenatural, das histórias de fantasmas, monstros e bruxas. Disse-lhes que a sinfonia contava uma história, disse o que acontecia em cada andamento, e no fim ensaiei com eles a melodia da idée fixe - uma ideia musical que percorre toda a peça e que representa a pessoa amada, que o compositor primeiro vê em sonhos, depois num baile, pensa nela quando está num idílio campestre, vê-se de repente na situação insólita de ser condenado à morte e levado para o cadafalso, e vê-a por fim em toda a sua verdadeira natureza, numa arrebatadora festa das bruxas em que ela pula e salta na noite de Sabat. 
Aprendida a música da idée fixe (para se perceber melhor, e sem preocupações de rigor, é aquilo que Wagner mais tarde fará nas suas óperas com o leitmotiv: uma melodia que assim que se ouve, já sabemos de quem se está a falar, e que é transformada consoante o contexto e a necessidade dramática), lá entramos para o Grande Auditório, não sem antes termos admirado a bela parede do Almada (“mas porque é que está aqui também a matemática?” - “porque aqui está tudo o que é Belo”), e fomos recebidos calorosamente pelo Serviço Educativo, que nos acompanhou. 
Começou o ensaio. Ver 22 miúdos sem qualquer contacto prévio com a música clássica, irrequietos, com problemas vários de sociabilidade, concentração, etc, ficar em absoluto silêncio, hora e meia, presos por um fio a cada nota que saía da orquestra, é algo que roça o milagre. Os olhares de todos, de cada vez que se ouvia a melodia da idée fixe (nas suas mais diversas transformações), a virarem todos o pescoço para mim, de olhos arregalados a dizer “é isto!”, não dá para explicar por palavras. 
Ao fim de hora e meia do comportamento mais exemplar que se possa pedir a crianças de 9 e 10 anos, regressámos à escola. No caminho, todos queriam dizer-me o que mais tinham gostado: eu ouvi a música! [a idée fixe]; eu percebi quando estavam a dançar! [2.º andamento, um baile]; o que eu mais gostei foi quando ele foi para a prisão! [4.º andamento, Marcha para o Suplício]; nós gostámos todos foi das bruxas! [5.º andamento, Sonho de Uma Noite de Sabat]; e quase todos em coro: OS SINOS!!!!! 
Houve um miúdo que estava visivelmente com vergonha de dizer o que tinha achado. Nalgum momento lá consegui saber: ele estava a gostar das bruxas [5.º andamento] mas a dada altura sentiu medo, naquela parte assim e assado. Eu expliquei-lhe que ele tinha toda a razão em sentir medo, essa parte era o Dies Irae, uma melodia muito antiga que se usava quando alguém morria, era verdadeiramente assustadora e o compositor quis pô-la ali para acentuar o carácter de tragédia, portanto ele (o rapaz) tinha acertado em cheio e entendido exactamente aquilo que a música dizia, e ali era de facto tenebrosa. O ar de felicidade do rapaz ao ouvir isto, raiando o orgulho do herói (eu entendi, eu ouvi e entendi) foi mais outro milagre. 
No fim, devolvidos à escola, mesmo antes de me ir embora disse-lhes que estava muito orgulhosa de todos, porque tinham feito uma coisa muito difícil que era ouvir, e tínham-no feito com distinção. 
Tenho a certeza absoluta de que naquele grupo, há pelo menos um ou outro que não se vai esquecer desta experiência tão cedo. E lembrei-me de como é possível haver nas escolas (e na sociedade em geral) um desfasamento tão grande com a música clássica. Que sim, exige tempo, escuta, trabalho. 
Que pode ser difícil. E que é maravilhosa. Que nos abre mundos que nos deixam de boca aberta. E que esse trabalho traz uma recompensa e uma enorme felicidade. Explicar a Sinfonia Fantástica demorou uns dez minutos, no autocarro. Ensaiar a melodia da idée fixe para que toda a gente a soubesse reconhecer quando aparecesse, demorou uns três. 
A cara de felicidade dos miúdos, compenetrados a ouvir música e a entendê-la (uma música escrita em 1830 por um compositor francês, que tem zero a ver com a vivência imediata deles) ficará comigo na memória. 
Fica o recado dado a quem (pais, amigos, professores e - infelizmente - também professores de música) acha que música clássica é uma chatice, que é uma estopada sem nome, que tudo o que cheire a dificuldade e a introspecção é para eliminar, ai que os cansamos ou traumatizamos, que os miúdos só se interessarão por música se ela for “cool”, “porreira”, e tiver a forma dos mais diversos kumbayás (...) nada contra outros estilos de música, aliás tudo a favor; mas tudo contra a ideia descabelada que qualquer coisa será boa menos música clássica, essa coisa demodé cheia de malefícios elitistas (...).
Obrigada Inês Thomas Almeida pelo seu belo e esclarecedor texto.

terça-feira, 9 de maio de 2023

CASABLANCA II

Play it, Sam, disse a formosa Ingrid, 
ao tão angustiado pianista, 
vendo que, em Casablanca, coincide 
seu fado com o do egocentrista 

por ela abandonado em Paris.
Em Casablanca, um desolado Rick
e um flic de alevantado nariz,
em aventura de mui alto chic

porém, de elevadíssimo risco,
envolvendo nazi facinoroso,
tecem história digna de obelisco!

Em dia de nevoeiro horroroso.
Rick e flic caminham de braço dado,
pra futuro que não será contado!

Eugénio Lisboa

segunda-feira, 8 de maio de 2023

CASABLANCA UM CLÁSSICO DO CINEMA


Naquela Casablanca, amanhada
e carpinteirada, em Hollywood, 
e de cara toda falsificada 
e habitada por gente sem virtude,

houve um americano sem ilusões,
um polícia cínico, mas porreiro,
um preto tocando lindas canções,
um checo muitíssimo cavalheiro,

um alemão mau como o caraças
e uma linda sueca casada
com o checo, mas fazendo negaças

ao americano, história terminada,
com final triste, porreiro, mas torto,
e com o nazi muitíssimo morto! 

Eugénio Lisboa

Sempre gostei, podendo, de pagar as minhas dívidas. Vi este filme, em Lourenço Marques, durante a II Guerra Mundial, no Scala, na sessão para a Censura, agachado entre duas filas, para o censor não me topar. Como o filme não foi reprovado, vi-o, depois, em matiné normal. E tenho-o-visto vezes sem conta, em casa, porque gosto do filme, gosto da Ingrid, gosto da Marselhesa e acho porreiros o Claude Rains, o Humphrey Bogart, o Paul Henreid e o cantor negro Dooley Wilson. E ninguém me tira da cabeça que ajudei a matar o nazi (Conrad Veidt). Estas coisas ficam connosco e as emoções que vivemos exigem gratidão. De aí, este soneto, em pagamento de uma dívida muito antiga.

APRESENTAÇÃO DE UM LIVRO QUE VIAJA PELOS LIVROS E PELA MEMÓRIA QUE ELES NOS OFERECEM

Por João Boavida

Isaltina Martins, Viajando pelos livros – da leitura à memória, Coimbra, 2023, APLG (Associação do Professores de Latim e Grego).

É um pequeno livro em prol do estudo e da divulgação do Latim e do Grego, editado em 2018, que agora foi reeditado, por ocasião da comemoração dos 35 anos da referida Associação. 

E ainda bem que o foi porque, como é vulgar em Portugal, passou despercebido. Como se sabe, muito do que se publica e merecia ser divulgado, não o é, ou porque não foi editado em Lisboa, ou porque o autor não é conhecido, ou porque a comunicação social minimamente interessada por estes assuntos se distraiu, ou por outras razões, este livro não teve, como acontece a muitos outros, a sorte que merecia. 

E, todavia, é um livro que devia ser lido por todos os professores e por todos os pais que se preocupam com o futuro dos jovens. Pelas implicações educativas, a curto e médio prazo, e pelas consequências sociais a longo prazo, devia ser divulgado, e sobretudo pensado pelos responsáveis políticos que andam deslumbrados com as novas tecnologias educativas e as suas imensas “possibilidades” para dar cabo do que resta da educação. 

Isaltina Martins é uma professora de Latim e Grego, formada nas Clássicas da Faculdade de Letras de Coimbra, e teve mestres de grande qualidade, como Maria Helena da Rocha Pereira, Walter de Medeiros, Costa Ramalho, Louro da Fonseca, e outros; ou, ainda antes, ao nível liceal, com esse grande romancista tardio que foi Fernando Campos. 

Tem, pois uma sólida formação de cultura e línguas clássicas, o que lhe dá uma perspetiva cultural muito longa, e uma formação sólida no que diz respeito às raízes da Língua Portuguesa. A extensão temporal da sua cultura clássica permite ter a visão panorâmica dos muitos séculos de evolução da nossa cultura, e de quase tudo o que em termos culturais e literários fomos, somos e continuaremos a ser, mesmo que não queiramos saber disso ou façamos por esquecê-lo.

A partir do Grego e do Latim, como matriz, Isaltina Martins vai refletindo sobre a importância da leitura para o conhecimento - sem a qual nada somos, para a aprendizagem - indispensável para tudo, para a memória - que é o fundo e a forma da nossa personalidade, para a expressão verbal e escrita - sem a qual não comunicamos, ou fazemo-lo tão mal que reduzimos as nossas possibilidades a níveis mínimos, enfim, chama a atenção para o que devemos aos nossos pais e avôs culturais e linguísticos, que tão levianamente andamos a matar, e seduzidos por futuros imprevisíveis corremos alegremente de olhos vendados à beira de ravinas sem nos apercebermos dos perigos. 

Um aspeto que Isaltina Martins realça é a distinção entre leitura funcional e leitura recreativa. Sem uma, não há aprendizagem correta, nem adequada, nem complexa; sem ela não poderemos desenvolver a capacidade de pensar e de traduzir corretamente pensamentos mais abstratos e exigentes. Sem a outra não há verdadeira fruição, nem se alcança plenamente o prazer de ler, a alegria, a compensação que um belo ou intenso texto em nós deve proporcionar. 

De facto, a leitura não e só conhecimento e aprendizagem, o que é, só por si, imenso, mas é também motivo de fruição.

A literatura, como diz Isaltina Martins, servindo-se de uma citação de Vargas Llosa: 
«torna natural o extraordinário e extraordinário o natural, dissipa o caos, embeleza o feio, eterniza o instante».
Ou, como diz Eduardo Lourenço, noutra citação:
«a literatura é o nosso discurso absoluto. Todas as culturas se definem pela relação com o seu próprio imaginário. A encarnação dele é a literatura».
É como se a realidade se substancializasse ganhando um poder de síntese e um nível estético em que a própria natureza humana se redime e projeta, se reorganiza sem cessar, se transfigura.

E a gente lembra-se do sortilégio dos serões antigos em que alguém lia, para toda a família, o Frei Luís de Sousa, por exemplo, ou torna a visualizar aquele quadro do pintor Abel Manta que retratou uma tertúlia de velhos intelectuais numa sessão de leitura, no consultório do médico Pulido Valente, ou recorda que na Rússia do século XIX eram frequentes as leituras em grupo, de contos, novelas e passagens de romances, publicados ou a publicar, e o mesmo na Inglaterra de Charles Dickens.

Era uma maneira de apreciar e usufruir em conjunto, divulgar e, sobretudo, uma forma de criar padrões de exigência estética e usar a literatura como elemento de informação, prazer e satisfação partilhada. Sabe-se também como uma correta e adequada leitura de um texto o valoriza, lhe dá profundidade, ressonância, ligeireza ou dramatismo, etc. A literatura é também, enquanto usufruição, um extraordinário fator formativo.

Isaltina Martins tem, a este propósito, uma passagem muito esclarecedora:
«O livro entranha-se no leitor, deixa de pertencer ao seu autor e passa a fazer parte daqueles que o leem, torna-se múltiplo e uno em cada um, porque múltiplas são as leituras e única a leitura que cada um faz». 
Todos nós temos experiência de alguns livros que nos marcaram, que foram formativos no mais nobre sentido da palavra, que nos transformaram interiormente, nos tornaram mais maduros e exigentes. Daí podermos dizer que há livros que tiveram sobre a nossa vida uma influência determinante, que ajudaram a definir o gosto, a exigir qualidade, a desenvolver o sentido crítico, e que deram uma dimensão ética e estética à nossa vida que, doutro modo, não alcançaríamos.

Embora não seja um manual, nem um cânone, este pequeno livro está bem pensado, está bem escrito, é compreensível, sem ser simples, é complexo sem ser difícil, é, elegante sem o pretender, e é erudito sem ser pesado, pois a sua erudição vem sempre a propósito e na medida certa. O leque dos autores referidos cobre séculos, outra vantagem da visão panorâmica que a cultura clássica proporciona, e vem até muitos autores contemporâneos, o que indicia uma leitora rica e atualizada.

Que bom seria que todos os pais, que têm filhos que se agarram horas esquecidas aos telemóveis e aos videojogos, lessem este livro e pusessem em prática estratégias de tornar os filhos bons leitores, estariam a fazer muito mais pelo futuro deles do que assim, pensando talvez que o acesso que eles hoje têm a tantos meios tecnológicos lhes dará, só por si, sabedoria e maturidade intelectual e humana.

E até a muitos professores faria bem seguir este roteiro para criar movimentos de opinião fortes, reagir a ideias falsas e pretensiosas que por aí andam, impantes e, sobretudo, usar práticas que levassem muitos jovens a perceber o que perdem quando se desabituam de ler e, mais ainda, quando não percebem o que, com a leitura, se pode alcançar. 

Nos livros está tudo, mas mesmo tudo, quem será capaz de lhes fazer compreender isto? 

 João Boavida

sexta-feira, 5 de maio de 2023

A POESIA DA GEOMETRIA

Uma demonstração de geometria
tem a mesma beleza que um poema.
Ambos exprimem, com sabedoria,
aceitando a mais rigorosa algema

de uma razão que jamais se rende
e o luxo de palavras avaras,
uma descoberta que surpreende
e torna as obscuridades claras.

A geometria bela do poema
e a poesia da geometria
são parte de um misterioso esquema

que altivamente nos desafia.
O percurso de Tales de Mileto
é bem irmão do que faz o soneto.

Eugénio Lisboa

"TERMÓMETRO DA FELICIDADE". EIS UMA APLICAÇÃO DA REVOLUCIONÁRIA IA

A "privacidade", como valor, encontra-se consagrada em múltiplos documentos supranacionais, com destaque para a Declaração Universal dos Direitos Humanos, e nacionais, com destaque para a Constituição da República Portuguesa. Como valor ético, não nasce connosco, depende da educação. A escola tem especial responsabilidade na delimitação do que se convencionou designar por esferas privada (e íntima) e pública. Além da explicitação, o exemplo é fundamental. 

Este articulado cai por terra quando se convocam as já antigas perspectivas contextualistas: alegando a necessidade de adequar a aprendizagem a cada aluno e/ou grupo para a tornar mais "significativa", defendem o apelo a vivências (privadas e íntimas) dos alunos. E, sobretudo, quando a elas se acrescentam desvarios "modernos" como eleger a "felicidade" (individual, hedonista) para fim último da escolaridade. 

Os "projectos pedagógicos inovadores" daí resultantes, que darão uma imagem "pioneira" das escolas, chegam no imediato à comunicação social. Há poucos dias foi noticiado um particularmente eloquente; a sua designação é "Escola Feliz". Segundo a directora da escola básica em que surgiu, “assenta no auto-conhecimento, em processos de empatia, resiliência e auto-regulação” dos alunos (ver aqui):
"(...) incentiva-se os alunos a falar sobre as suas emoções e a querer saber como é que o outro se sente. Através de inteligência artificial medem-se os picos de emoção e os professores têm essa informação em conta ao escolherem a forma de leccionar a matéria. Todos os dias cada aluno (...) passa pelo termómetro da felicidade ao entrar na sala de aula. Num processo de autorregulação avalia os seus pensamentos, sentimentos e comportamentos, e define as emoções que está a sentir. Lá fora, no pátio, a cada segunda-feira, uma turma faz o lançamento do cubo para descobrir que actividade vai trabalhar ao longo dessa semana como, por exemplo, perguntar aos colegas como se sentem (...) 
Este projecto, que coloca a felicidade no centro da aprendizagem dos 240 alunos desta escola, foi implementado no início do presente ano lectivo em parceria com a Câmara de Alcanena e, além de contar com a colaboração de todos os professores e encarregados de educação, envolve inteligência artificial, que monitoriza, através de sensores, as emoções dos alunos. Desta forma os professores conseguem perceber em que alturas do dia, por norma, os alunos estão mais ou menos agitados para poderem ajustar a forma de leccionar a matéria".
Convidado para a dita apresentação, o Ministro da Educação sorri francamente nas fotografias. Poderemos daí inferir que concorda com a solicitação (abusiva) que a escola faz aos alunos para que tragam a público as suas emoções e sentimentos (privados e íntimos)? Mais: que sejam monitorizadas emoções e sentimentos (insisto, privados e íntimos) com um apetrecho de "inteligência artificial"? 

Quando o mais alto representante do sistema escolar público não parece preocupado com uma questão ética de relevo, num contexto (escolar) em que a educação para os valores deveria prevalecer, temos sérias razões para nos preocuparmos... até porque, a avaliar pela notícia, não parece existir na comunidade escolar sombra de inquietação.

quarta-feira, 3 de maio de 2023

SONETO ZANGADO

Há muita gente que não tem um tecto.
Há muito mais gente que não tem pão.
Há quem sobreviva de modo infecto.
Mas há aqueles para quem um milhão

não passa de um troco desprezível.
O quase-tudo está nas mãos de poucos,
que ambicionam o inadmissível,
sem receio de parecerem loucos!

Há uns poucos que espezinham o resto,
o qual é, para eles, invisível.
Ao resto, resta-lhe fraco protesto,

mas só, até onde isso for possível:
a raiva que demais se estrangula
é dinamite que se acumula! 

Eugénio Lisboa

CAPITALISMO, DEMOCRACIA E (NOVA) TECNOLOGIA: A NECESSIDADE DE UM (RE)EQUILÍBRIO

Tive conhecimento de Michael Sandel há pouco tempo, através do seu muito divulgado livro "A tirania do mérito: O que aconteceu ao bem comum?", publicado em 2020. Li-o com o maior interesse e a partir dele escrevi um texto focado na educação (aqui).

No final do mês passado, a convite da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, o filósofo americano, professor em Harvard, fez uma conferência na Fundação Calouste Gulbenkian. Deu entrevistas à televisão e a jornais. Destaco a que saiu no Expresso na qual apresenta ideias que vão além das que apresenta na obra, sendo, porém, compatível com ela.
Reafirma que uma sociedade baseada no mérito é injusta e está condenada ao fracasso. A esta ideia pouco comum junta outra da mesma ordem: imputa aos partidos do centro-esquerda e centro-direita terem "abraçado" a "versão neoliberal da globalização do mercado que gerou ganhos para quem está no topo. Em vez de contestarem tal versão, consolidaram a "era do fundamentalismo de mercado"; "moderaram e suavizaram, até certo ponto, as arestas duras da fé do mercado".

Dessa estratégia faz parte o conselho aos trabalhadores: “'Se querem competir e vencer na economia global, vão para a universidade. O que ganharem vai depender daquilo que aprenderem'. (...) Na verdade, o que lhes estavam a oferecer era mobilidade individual ascendente através do ensino superior. 'Se não tem um diploma universitário e se está a lutar na nova economia, o seu fracasso é culpa sua'. Essa é a conclusão do argumento". 

"A instigação ao individualismo é, como se percebe, uma ameaça à democracia. Se queremos preservar a democracia não podemos deixar, como sociedade, que o poder económico a domine. "Isso está a tornar-se cada vez mais importante numa era de tecnologia, quando empresas tecnológicas muito grandes e poderosas não só estão a dominar a economia, como cada vez mais dominam os modos de comunicação e de troca de informações. E estão, portanto, a dominar os termos do discurso público. 

Então, hoje um dos desafios na regulação ou reintegração do capitalismo e dos mercados é descobrir e debater democraticamente como regular a indústria da tecnologia. Especialmente as vastas e poderosas empresas de media que fornecem as plataformas, para o bem e para o mal (muitas vezes para o pior), do discurso público (...) temos de conceber instituições e regulamentação política para evitar, neste caso, que as poderosas empresas tecnológicas violem a nossa privacidade, mas também distorçam o debate público no discurso público."

"Capitalismo e democracia há muito que convivem numa certa tensão. E nas últimas quatro ou cinco décadas o equilíbrio entre os dois mudou, a favor do capitalismo e do poder económico em larga escala. Especialmente nas finanças e na tecnologia (...) precisamos de reequilibrar os termos, de repensar a relação entre capitalismo e democracia." 

"Eu distinguiria entre otimismo e esperança. É difícil ser otimista (...) Mas ao mesmo tempo tenho esperança. E a base dessa esperança está no facto de que, quando viajo e falo com os jovens, encontro uma fome de um melhor tipo de discurso público. O tipo de discurso público que não consiste em acender fósforos ou na polarização partidária, que cultiva a arte de ouvir, pensando juntos sobre as grandes questões públicas que importam. Isso dá-me esperança".

MINHA ENTREVISTA AO SOL SOBRE FRAUDES ACADÉMICAS

 Divulgo entrevista que dei ao Sol sobre fraudes académicas, da qual só dois breves extractos puderam ser publicados:

SOL – Em Portugal, fala-se da fraude académica cometida por estudantes. No entanto, não é tão abordada naquilo que diz respeito aos professores. Isto acontece porque aqueles que a cometem querem ocultá-la?

CF- Há, em Portugal, como em todo o mundo, fraudes académicas, cometidas tanto por alunos como por professores e investigadores. Naturalmente que, aqui como em todo o mundo, as quebras de integridade são ocultadas por quem as comete. Não há muitos dados quantitativos sobre esses casos, mas o universo dos estudantes é muito maior que o dos professores. Mas  alguns casos  têm vindo a lume. As universidades e institutos de investigação têm feito um caminho no sentido de definir códigos de ética a seguir na academia ou no universo mais lato da investigação, mas muito pode e deve ainda ser feito. Além de medidas de auto-regulação por parte de cada instituição, pode e deve haver regulação elaborada pelo conjunto das universidades, politécnicos e laboratórios associados e colaborativos, para não falar de medidas mais amplas, do foro governamental ou legislativo.

 A ética devia ser um tema de maior preocupação do que é hoje. Parece-me que, entre nós, para além da ocultação, há alguma cultura de permissividade, que é reflexo de uma cultura geral da sociedade portuguesa. Nas melhores universidades estrangeiras uma quebra grave de ética quer por estudantes quer por professores conduz ao afastamento puro e simples. É, por exemplo, impensável que um aluno copie numa prova ou, pior ainda, porque tem mais responsabilidade, que um professor plagie em qualquer um dos seus trabalhos. No caso de plágio, que é um roubo intelectual condenado por lei, têm havido notícias de alguns casos em Portugal. É provável que haja mais, até bastantes mais, e que só se veja a ponta do icebergue. Contudo, as instituições dispõem actualmente de ferramentas informáticas que permitem detectar alguns plágios. Os plágios quer em teses quer em artigos científicos são desonestidades que deviam conduzir à anulação dos trabalhos: em geral, quando devidamente comprovadas têm conduzido. A comunidade científica internacional, que funciona à escala global, tem regras muito estritas para estes e outros casos de má conduta. O mundo académico é humano e encontram-se lá todos os erros e «pecados» dos humanos, mas é também um mundo onde as falhas graves, quando apanhadas, são devidamente castigadas. Em ciência pode-se errar e erra-se muitas vezes involuntariamente – o erro faz parte do próprio processo científico – mas um erro propositado, assim como mais em geral uma má conduta, conduzem, na comunidade científica, ao descrédito e á expulsão da comunidade. A comunidade científica é, ela própria, o melhor guardiã da integridade. Os artigos contendo plágios ou falsidades são retractados pelas revistas sérias que possuem comités de avaliação e editores bem estabelecidos (há algumas que o não são, não passando de comércio).  Há sítios da Internet que contêm listas de artigos retractados (há lá portugueses, por vezes nomes com casos repetidos) e há também listas de discussões sobre artigos publicados, onde se podem fazer denúncias. Uma fraude num artigo científico pode passar despercebida durante algum tempo, mas é raro que sobreviva muito tempo, pois há muitos olhos a ver. Em suma, há casos de fraude em Portugal como no mundo, não sendo grande o número de casos conhecidos. A comunidade académica e  científica, para velar pelo seu bom nome, está organizada, mas pode  e deve estar mais bem organizada.  Devia haver mais vigilância e, claro, menos tolerância para com os malfeitores.

SOL – “O único contributo que certos iluminados dão a um estudo ou a um artigo é um nome e a linha de afiliação profissional”, disse-nos uma fonte que prefere não revelar a identidade. Isto corresponde à realidade?

CF- Essas denúncias podem ter algum fundamento, mas são difíceis de comprovar. O fundamento é a ideia com que se fica perante listas de artigos que algumas pessoas não tiveram tempo de dar um contributo razoável para o artigo que assinam. Este fenómeno acontece no mundo em geral e Portugal não foge à regra. Deriva da cultura instalada na academia à escala mundial de que o mais importante para progredir na carreira, obter financiamentos e aumentar o prestígio é publicar mais e mais («publish or perish» é o dito em inglês para o fenómeno). E deriva ainda de uma cultura, que existe mais numas disciplinas do que noutras e mais nuns lugares do que noutros, de colocar o nome dos dirigentes dos laboratórios ou semelhantes em muitos dos artigos que de lá saem. Não penso que seja uma boa prática quando feita de forma sistemática como é feito nalguns casos, mas é difícil de comprovar a falta de autoria real pois nada impede que uma pessoa muito ocupada com cargos de gestão tenha dado alguma contribuição a um artigo, quanto mais não seja uma ideia numa discussão ou um aperfeiçoamento da redacção do texto. Acontece que os cientistas seniores têm, em geral, uma experiência que lhes permite em pouco tempo fazer aquilo que aos juniores demoraria muito tempo. Mas obviamente não há milagres quanto à dilatação do tempo: tem de dormir, têm de comer…  Sei bem que há «fábricas” montadas de fazer artigos, a maior parte deles irrelevantes pois só servem para fazerem número, justificando novos financiamentos.  A mim um artigo por semana parece-me demasiado, e mais ainda se as pessoas em causam acumulam funções de direcção administrativa ou política. As melhores revistas como a «Science» e a «Nature» solicitam que explicitem a colaboração de cada autor: os autores seniores vêm normalmente no fim, salientando o trabalho dos primeiros autores, muitas vezes juniores.

 O número de artigos não chega de modo nenhum para avaliar a qualidade deles: usa-se normalmente o número de citações, isto é o número de vezes que outros trabalhos citam aquele resultado (é preciso esperar algum tempo para haver impacto). As listas como a da empresa Clarivate de autores com mais impacto são muito mais ilustrativas da qualidade dos investigadores do que o simples número de artigos. Há um factor, chamado factor h, que conjuga o número de artigos com o número de citações. Um bom ranking das universidades, que é o ranking de Xangai, leva em conta essas listas de cientistas com mais impacto (isto é, mais citados) assim como os artigos na “Science” e na “Nature” e os prémios Nobel. Portugal tem muitos poucos cientistas no ranking da Clarivate, o que significa que a ciência portuguesa, medida pelo impacto dos seus artigos, não tem qualidade de topo. Está até muito longe disso! No entanto, publicam-se muitos artigos, mais do que seria de esperar atendendo ao número de habitantes ou ao PIB ou à parcela do PIB devotada à ciência (que, entre nós, é muito baixa: 1,7% em comparação com a média europeia de 2,3%). Embora as citações não sejam tudo (e também aí pode haver fraudes, algumas delas subtis como auto-citações e troca de citações com «amigos»), elas dão uma muito melhor ideia da qualidade do que o número total de artigos. Quase sempre, os autores com muitos artigos têm números de citações baixas na esmagadora maioria deles. É curioso  ver os nomes dos cientistas portugueses de topo na lista do Clarivate e reparar que não são em geral os nomes mais mediatizados.

Estou em crer que, sendo a avaliação quantitativa útil, ela não pode ser tudo. Em particular nas ciências sociais e humanas, que estão mal retratadas nos índices internacionais de revistas, por haver muita produção nas línguas nacionais, que são relevantes para a cultura e  a identidade nacionais. Nas promoções, por exemplo, tem de haver uma avaliação humana que leve em conta capacidades pedagógicas demonstradas, o número de doutorados que formou, os projectos que promoveu, o trabalho de extensão à comunidade, etc. De certo modo já se tenta fazer isso nos concursos académicos, mas desagrada-me que, por causa de reclamações (muitas vezes apresentadas em tribunal), se tenha se exagerar no uso de escalas quantitativas, expressas em folhas Excel. Os júris, devidamente  escolhidos, com maioria de fora da instituição (para evitar a endogamia que entre nós é gritante), deviam ser soberanos nas suas decisões, expressas por cada um de de forma qualitativa. Em todo o mundo começa-se a ter esta preocupação, depois de se ter reparado que os números não são tudo. Não se podem reduzir pessoas a números. Nem uma carreira académica ou científica pode ser vista como uma prova de atletismo. O nosso país chega sempre um pouco atrasado às tendências que se desenham no mundo.

Um dos nossos problemas é a falta de organização da comunidade científica: não há organismos nacionais de investigação como há em Espanha, França, Alemanha ou Estados Unidos, nem há academias de ciências fortes como por exemplo a Royal Society no Reino Unido, ou as Academias Nacionais dos Estados Unidos. Tudo está muito dependente do governo e da conjunctura. A FCT – Fundação para a Ciência e Tecnologia, não só não é independente do governo como não tem suficiente representação da comunidade científica. Os cientistas da mesma disciplina muitas vezes em vez de cooperarem, lutando pela ciência que os une, competem uns com os outros por serem de universidades diferentes. O nosso sistema científico precisava, para além de ser mais financiado, de ser reestruturado dada, entre outras, a necessidade de redefinir a sua relação com universidades e politécnicos. O ministro José Mariano Gago, a quem muito devemos, montou um sistema de ciência largamente à margem do ensino superior e é a altura de o repensar. Não temos visto, com a sucessão de ministros da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, um pensamento estratégico nessa área. Nesse pensamento  deviam estar claros os incentivos para o progresso do sistema. 

SOL – Os estudantes e investigadores submetem-se a certas práticas para não aborrecerem os professores, orientadores, etc. e, assim, tentarem progredir na carreira?

CF- Julgo que pergunta a razão por que os cientistas juniores assinam artigos com a cientistas seniores. Em primeiro lugar, é natural que assim aconteça, pelo menos até certo ponto. A investigação científica aprende-se fazendo em conjunto com aqueles que já sabem fazer: é como na relação aprendiz-mestre dos ofícios. Mas o doutoramento significa a carta de alforria da investigação: a partir daí o investigador pode e deve fazer o seu próprio caminho, devia por exemplo procurar outros lugares e outros mentores. Na prática sabemos que há relações de poder e reverência que se prolongam para lá daquilo que é lícito esperar. Por vezes são os autores seniores que impõem a sua presença, partindo das suas posições de autoridade académica e científica. E por vezes são os autores juniores que querem ter autores seniores, porque isso aumenta a probabilidade de publicação (há até quem acrescente por essa mesma razão nomes de universidades prestigiadas, na esperança de impressionarem os revisores). Eu diria que aquilo que é uma boa prática de início pode vir a tornar-se uma má prática ao fim de algum tempo. Mantêm-se dependências e hierarquias, o que significa que a inovação, essencial na ciência, fica bastante limitada.

SOL – Por outro lado, os “métodos existentes de avaliação de desempenho para o aumento de produção e para o incremento do prestígio profissional”, como referiu uma fonte, levam a que professores e investigadores sustentem a sua investigação no trabalho de estudantes?

CF- . Existe, aqui como no mundo, o fenómeno de «extractivismo científico», que consiste no aproveitamento de mão de obra barata (estudantes de doutoramento, pós-docs, etc) por uma pessoa mais senior sem haver a devida citação ao trabalho alheio. Também é uma má prática, uma prática condenável. No trabalho intelectual a autoria tem de ser sempre devidamente reconhecida. Estamos, ainda que de forma camuflada, na presença de um plágio. Devem existir canais para o próprio se poder queixar e comités de ética que possam fazer a devida averiguação. Mas percebo que a própria pessoa espoliada se sinta limitada dadas as relações de poder instaladas. A sociedade tem relações de poder às quais dificilmente se pode escapar,  mas os abusos de poder devem obviamente ser averiguados e penalizados, no caso de comprovação.

SOL  – O que deve ser feito para que este panorama se altere?

CF- Em primeiro lugar, os académicos e os cientistas deviam reflectir sobre este assunto. Assim como as instituições, sejam elas academias, institutos ou organismos estatais, através das respectivas estruturas. Toda a  sociedade deveria acompanhar a reflexão. Mais do que remediar importa prevenir. É possível, mas não fácil,  mudar a cultura de hipervalorização dos dados numéricos, mas uma das dificuldades é que se trata de uma questão internacional, uma vez que a ciência é internacional. Não se muda todo o statu quo de um dia para outro, mas sim e apenas lentamente. Os casos que têm surgido, como  a «venda» de afiliação de um cientista (de facto, há mais do que um) espanhol, deviam interpelar-nos para não corrermos atrás do prejuízo. Há danos de reputação que são irreparáveis. Devemos aqui em Portugal estar mais atentos à discussão ética que vai pelo mundo. De facto, publicam-se cada vez mais artigos, mas a sua relevância média é cada vez menos. Há um artigo recente da «Nature» que revela isso: a falta de inovação da ciência actual é gritante. A ciência tem de continuar  a ser honesta, valorizando  o seu verdadeiro objectivo -  alcançar novidades sobre o mundo e colocá-las ao serviço da Humanidade - em vez de servir interesses particulares. A ciência tem de ser feita com conciência, com ética, respeitando valores partilhados pela comunidade. Disse François Rabelais no século XVI: «Ciência sem consciência não passa de ruína de alma». E esse dito continua actual.

"É por isso que uma boa educação - ou uma educação para o Bem - faz tanta falta"

Na continuação do texto de Cátia Delgado (ver aqui).

Tenho o jornalista Luís Pedro Nunes por bem pensante. Melhor: informado e criticamente pensante. Digo isto em função do que tenho lido e ouvido dele no respeitante, sobretudo, à educação. E, neste particular, entendo que constitui excepção. No dia 23 do mês passado publicou no semanário Expresso um artigo com o título "A inteligência artificial será Deus", que toca indirectamente a educação, devendo, por isso mesmo, ser lido por todos aqueles que se tenham na conta de educadores. No final deste "post" explico porquê. Antes, tomo a liberdade de reproduzir passagens do mencionado artigo que justificam o que acabo de dizer.
"Se não estivermos atentos, até parece que foi muito barulho para nada. O tal GPT-4, o modelo de inteligência artificial (IA) generativa, está por aí, faz umas brincadeiras com a escrita e imagens (...). Os nada dramáticos dizem que aquilo não é mais do que “autocorretor de texto em esteroides”. Os mais otimistas garantem que é “o momento iPhone da Inteligência Artificial”. Os mais pessimistas equivalem o ChatGPT ao Projeto Manhattan, que levou à criação da bomba atómica. Abriu-se a Caixa de Pandora e os decisores não sabem o que fazer. E estão com medo (...).
[A] União Europeia como um todo (...) quer garantir que a IA generativa não vai provocar um ataque aos “direitos dos cidadãos”. A UNESCO pediu aos governos que implementassem uma ética para a inteligência artificial. Nos EUA, o Congresso quer um “debate robusto” sobre os riscos da IA. No Canadá, há uma “investigação a decorrer” (...). 
Mas esse comboio já partiu. Como gostam de dizer: agora é parar o vento com as mãos. 
Parece um exagero que em quatro meses todo este pânico e deslumbramento se tenha gerado. [E] aquilo de que falamos agora já não é do que falávamos no início do ano (...). Não é uma evolução. É um salto que não se consegue descrever. As aplicações do modelo contam-se à centena por semana, algumas delas com implicações que vão muito além do mero “vais ficar sem emprego”. Isso é o evidente. Já se pode arranjar ferramentas um pouco para tudo (...) se quer ficar aterrorizado aceda ao futurpedia.io, um diretório com todas as ferramentas de IA lançadas diariamente e divididas em 58 categorias. 
É esta a questão: há o Bem e o Mal. O uso ‘devido’ da IA generativa terá em muito pouco tempo consequências na vida, nos empregos, na economia (...). É o uso ‘indevido’ desta tecnologia que somos incapazes de prever. 
Numa conferência de forças de segurança no Dubai, em março, já foi possível ver desde drones com software de reconhecimento facial, que automaticamente acompanham a pessoa e lhe entram no smartphone, a capacetes que analisam as ondas cerebrais e podem assim detetar se um indivíduo está a mentir. Sim, há uma empresa que promete um detetor de mentiras gerado por IA que vai revelar os nossos “pensamentos mais profundos” (...) o regime chinês já utiliza muitas destas aplicações que agora estão a ser melhoradas. 
Queremos acreditar? Não nos apetece. Estão em causa as mais básicas convenções éticas e democráticas. Daqui virá um novo tipo de autocracia, a IAcracia, que dominará os seus cidadãos (...). 
O problema destes apelos é que já foram feitos várias vezes por causa de outras novas tecnologias e é difícil mobilizar e captar a atenção para algo que parece tão pouco aterrorizador como um programa de computador que escreve uns textos surpreendentes, mas que sabemos não ser ‘inteligente’, antes um algoritmo que foi alimentado por milhões de textos, logo, não inteligente. 
Ian Hogarth, especialista de inteligência artificial formado em Cambridge (...) refere estarmos a caminhar para uma IA aparentada a deus (God Like AI): um supercomputador que aprende e se desenvolve autonomamente, compreende o seu ambiente sem necessidade de supervisão e pode transformar o mundo à sua volta. “Ainda não estamos aí. Mas dada a natureza da tecnologia, quando chegarmos lá, uma ‘IA Tipo Deus’ será uma força além do nosso controlo e da nossa compreensão, que pode acelerar a obsolescência ou destruição da raça humana.”
Uma das pessoas que mais prezo em termos académicos e a quem mais recorro quando tenho dúvidas em matéria de educação, Carlos Fernandes Maia, leu este texto e disse-me o seguinte:
Acho que, por enquanto, a IA só fará o que lhe permitirem. Dizia Einstein que a ciência nos diz o que as coisas são, mas não o que elas valem. E valor só os humanos conseguem atribuir, revelar e construir. A energia nuclear, o laser e tantas outras tecnologias derivadas do trabalho científico podem ser usadas para benefício ou malefício. É por isso que uma boa educação - ou uma educação para o Bem - faz tanta falta.

Se a educação - e em particular a educação escolar, com as suas eternas dificuldades, limitações e indecisões - é a única possibilidade de nos tornarmos humanos, estamos num momento em que precisamos de reafirmar o seu valor e os valores que a definem: a dignidade, a verdade, a honestidade são alguns deles. Falo, claro está, da educação que acontece na relação estruturante entre pessoas. 

Não podemos adiar - e muito menos ignorar - essa reafirmação, traduzindo-a em acção, de facto, educativa, que é como quem diz, construtiva do humano; a demora pode significar, como diz Luís Pedro Nunes, "a obsolescência ou destruição da raça humana". A nossa consciência, se a tivermos, há-de conduzir-nos a isso mesmo. Estou, bem sei, a tentar ser optimista... talvez muito pouco realista...

INVENTAR O AMOR

O amor está-se sempre a inventar,
cada amoroso inventa-o de novo.
Ele tem, de cada vez, novo brilhar
e sabe bem melhor do que um ovo!

Pegue-se num rosto inesperado,
banhado por sorriso que promete,
num momento em que se está desarmado,
e faz-se, logo ali, a omelete!

Comparar amor com sabor a ovo
nada, mas nada tem de estranho:
fecundar o ovo, se me comovo, 

é dar, ao amor, fruto que é ganho!
O amor faz-se, quando se não espera,
e fica como terra, se chovera!

Eugénio Lisboa 

On peut toujours badiner avec l’amour, contrairement à ce que disait Alfred de Musset, auteur de la pièce fameuse ON NE BADINE PAS AVEC L’AMOUR.

"Em breve", os 'chatbots' podem ser mais inteligentes do que os humanos

Por Cátia Delgado

O título deste texto traduz o aviso que Geoffrey Hinton, o denominado "padrinho da inteligência artificial", ao afastar-se da gigante tecnológica Google, deixa em entrevista ao The New York Times (cf. ao lado) amplamente divulgada pelos media portugueses. 

Embora acusado de sensacionalismo, não podemos deixar de notar que este alerta vem no seguimento de outros[1] que, procedentes dos que desenvolvem e implementam os sistemas de Inteligência Artificial (IA) e, por isso, em primeira mão os conhecem, deve levantar-nos algumas reservas. De facto, as máquinas têm conseguido alcançar capacidades que nos têm surpreendido pela proximidade e superação de características, até há pouco tempo, exclusivas dos humanos, como conversar em tempo real e até "emocionar-nos" pela escrita de poemas ou outras formas de arte, como demonstrado no programa 60 minutes, pelos dirigentes da Google, acerca do seu recente chatbot e concorrente do ChatGPT, o Bard.

Porém, é esta "humanização" da máquina, a um ritmo avassalador, desenvolvendo-se a ela própria, pela autoinstrução, apenas a partir da observação e sem necessidade de comandos externos, que está a deixar os entusiastas das tecnologias mais cautelosos, pois admitem desconhecer até onde, e quão rápido, estes progressos podem chegar, correndo o risco de não apenas comprometer a (des)informação que nos chega todos os dias, mas ainda, se nas mãos erradas, "minar as bases democráticas de várias sociedades". 

Para uma contextualização verdadeiramente eloquente do estado da arte, sugiro a leitura do bem-humorado Luís Pedro Nunes, em A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL SERÁ DEUS – TODOS OS ALERTAS. TODOS OS AVISOS. TODOS OS FEITIOS. O GÉNIO SAIU DA LÂMPADA, que termina assim:
Ian Hogarth, especialista de inteligência artificial formado em Cambridge, que investiu ao longo dos anos em mais de 50 startups de IA e é coautor do relatório anual "State of IA", refere estarmos a caminhar para uma IA aparentada a deus (God Like AI): um supercomputador que aprende e se desenvolve autonomamente, compreende o seu ambiente sem necessidade de supervisão e pode transformar o mundo à sua volta. "Ainda não estamos aí. Mas dada a natureza da tecnologia, quando chegarmos lá, uma 'IA Tipo Deus' será uma força além do nosso controlo e da nossa compreensão, que pode acelerar a obsolescência ou destruição da raça humana." Isto parece o excerto de um filme de ficção científica apocalíptica série B. Espero que continuem a chamar-me o maluquinho da aldeia daqui a dez anos. É sinal que isto borregou tudo.
[1] Ver, por exemplo: Em 29 de março, mais de mil líderes da área tecnológica, entre eles o empresário Elon Musk, assinaram uma carta conjunta Países do G7 querem que sejam criadas normas para regulamentar a Inteligência Artificial

terça-feira, 2 de maio de 2023

MUSEU DO QUARTZO

O Museu do Quartzo, em Viseu é um dos museus municipais mais visitados. No ano que findou recebeu 7885 visitantes. Nasceu por proposta minha, em 1995, ao então Vereador de Câmara Municipal, Dr. Américo Nunes. A total aceitação desta proposta por parte do autarca, a atenção que lhe dedicou, ao longo dos 17 que se seguiram até à sua inauguração, em 2012, o trabalho que lhe dediquei e continuo a dedicar e toda a colaboração que nos foi oferecida, com destaque para o arquitecto e museólogo Mário Moutinho (autor do projecto do edifício) transformaram um sonho em realidade, era Presidente da autarquia o Dr. Fernando Ruas.

No passado dia 28 o Jornal de Notícias, pela pena de Mariana Rebelo Silva, que falara comigo no dia anterior, escrevia ao alto da página 19, “Fernando Ruas investe no Museu se houver dinheiro”. A uma pergunta da jornalista o autarca, no seu novo mandato, respondeu: “A autarquia tem todo o interesse naquilo porque foi ela que o criou. Se não faz mais é porque não pode”.

Uma outra pergunta da jornalista, dirigida à vereadora da Cultura, Dr.ª Leonor Barata, teve por resposta: “Brevemente vamos apresentar um plano de alterações de funcionamento e de gestão”. Rematando, vincou. “Criámos com muito amor o Museu do Quartzo”. São palavras esperançosas, apesar de tudo.

Galardoado com o Prémio Nacional do Ambiente (Autarquias) em 1997, teve condigna inauguração, presidida pelo então Ministro da Educação, Professor Nuno Crato, a 30 de Abril de 2012, faz hoje 11 anos.

Na versão preliminar do programa museológico que entreguei à Câmara Municipal, em 2004, tive os apoios especializados do Doutor Roberto Irwin Gayt, do Royal Ontario Museum, de Toronto, mineralogista e cristalógrafo de reconhecida projecção mundial na investigação do quartzo, e do internacionalmente reconhecido coleccionador e mineralogista amador Luís Teixeira Leite. No respectivo guião expositivo tive o apoio do meu filho, Rui Galopim de Carvalho, gemólogo com carreira essencialmente internacional, e do Prof. Fernando Barriga que, em 2003, assumiu a direcção do Museu Nacional de História Natural, após a minha aposentação.

O Museu do Quartzo, que nós saibamos, é o único museu do mundo dedicado a uma única espécie mineral e o quartzo é o mineral mais abundante à superfície da Terra. O quartzo é, também, o mineral com o maior número de variedades e modos de ocorrência. Tão grande que, por mais espaço que haja no Museu, há sempre necessidade de o alargar para receber as muitas e muitas que ficam por arrumar. O número de indústrias baseadas no quartzo é grande e muito diversificado, com destaque para: fundição, siderurgia, refractários e isoladores, porcelanas, faianças e azulejaria, óptica e fibra óptica, vidraria, cristalaria, química (com múltiplas derivadas), silicones, plásticos, borrachas, joalharia e bijuteria, electrónica e relojoaria.

As reservas de quartzo, em Portugal, são imensas e suficientes para satisfazer todas as nossas necessidades neste sector da indústria nacional. O quartzo foi a matéria-prima da primeira indústria - o vidro - e a sua variedade microcristalina, conhecida por sílex, foi a primeira matéria-prima dos nossos antepassados pré-históricos. 

O Museu do Quartzo foi concebido para se desenvolver em três fases: 

PRIMEIRA FASE - De âmbito local, esta primeira fase visa servir as escolas da região e divulgar conhecimentos entre o cidadão comum. Para tal, começou por reunir uma representação significativa de exemplares desta espécie mineral (e suas variedades) e das suas múltiplas aplicações industriais e artísticas, a par de oficinas pedagógicas e de um conjunto de equipamentos interactivos adequados. Esta fase está concluída e em curso desde a inauguração, em 2012. 

Presentemente, ainda nesta fase, o Museu do Quartzo, que já serviu milhares de alunos das mais diversas escolas e universidades do país, para além do público anónimo, diz-se que por dificuldades de tesouraria, não está a merecer, a necessária manutenção e, praticamente, todo o equipamento interactivo e outras ofertas pedagógicas deixaram de funcionar, perdendo, por isso, toda a capacidade de exercer a sua função mais básica. 

SEGUNDA FASE - De âmbito nacional, aspira-se a uma colaboração activa com as Universidades e as Empresas interessadas no quartzo como matéria-prima nas mais variadas tecnologias. Aspira-se, ainda, ampliar o seu alcance através da criação de uma plataforma digital e pela geração de conteúdos bilingues. Uma vez criada a citada transformação, importa gizar um plano de acção, que, além de todos os impactos directos na comunidade educativa, cultural e académica em Portugal, abra uma forte vertente de comunicação internacional que, no campo do turismo cultural e científico, colocará Viseu no mapa de locais de interesse a visitar por uma vasta comunidade internacional de profissionais e amadores da mineralogia e das ciências da Terra, em geral, acrescentando valor à já reconhecida oferta turística da região. 

TERCEIRA FASE. – De âmbito internacional. Na eventualidade de previsível sucesso deste embrião de saber, e se as entidades competentes (a Autarquia e/ou o Poder Central) assim o entenderem e apoiarem, o Museu do Quartzo poderá e deverá evoluir para um Centro de Investigação Científica e Tecnológica, a nível internacional, em torno desta temática. Tenha-se em atenção que esta fase, domínio amplamente justificável, é, por si só, susceptível de atrair patrocínios por parte de grandes empresas interessadas na investigação científica e tecnológica do quartzo.

FIDELIDADE A CERTOS AUTORES CORNELL WOOLRICH/ WILLIAM IRISH

Por Eugénio Lisboa

Há escritores que não costumam ser tidos por “grandes escritores”. Chegam mesmo a não ser considerados como escritores respeitáveis. Não fica bem citá-los, a não ser, pedindo embaraçadas desculpas. E, no entanto, trata-se de autores que foram, para nós, importantes, porque nos propiciaram horas de leitura empolgante, nos fizeram boa companhia, quando vimos muitas das suas obras magistralmente adaptadas ao cinema, dirigidas por grandes realizadores e interpretadas por inesquecíveis actores e actrizes, e nos deixaram uma irresistível vontade de os reler, para revisitarmos emoções que nos abalaram.

Considero pois ingratidão e despropositada snobeira, fingir que os não lemos e que eles não têm um nicho muito especial no nosso panteão privado. No meu têm.

Uma das características que sempre admirei no grande escritor brasileiro, Lêdo Ivo, notável como poeta, novelista e, sobretudo, como ensaísta e cronista, foi a sua indefectível lealdade a certas admirações que lhe vinham da infância e adolescência e que, porque lhe tinham feito bem e dado momentos de grande emoção, nunca quis deixar “cair”. 

Não ser snob, nos nossos amores, é a pedra de toque da autenticidade das nossas emoções.

Não me custa nada dizer – e teria vergonha de o esconder – que, um dos livros que mais emocionaram o começo da minha adolescência, foi o romance de Júlio Verne, intitulado FAMÍLIA SEM NOME. Outro foi O CONDE DE MONTECRISTO, que é, aliás, e sem desculpas, um grande romance. E também nunca me esquecerei de OS DRAMAS DA INTERNACIONAL, de Pierre Zaccone.

Vem tudo isto a propósito de um escritor americano, a quem devo muitas horas de leitura empolgante, de autêntico “suspense”, e de quem ando a ler, actualmente, algumas novelas que ainda não conhecia. Trata-se do escritor Cornell Woolrich, que também usou muito o pseudónimo de William Irish e, menos, o de George Hopley. Bicho solitário, automarginalizado, sombrio e maltratado pela vida, fez um casamento desastrado e efémero – era, afinal, homossexual – viveu o resto da vida com uma mãe, matriarca sanguessuga, procurando, na escrita, o único alívio para os seus infernos.

Ficou conhecido, e com razão, como o Edgar Poe do século XX, mas, ao contrário deste, teve grande êxito, na venda da sua vasta obra e nas 42 adaptações ao cinema dos seus livros. Notáveis realizadores como Hitchcock, Truffaut, Siodmak e Fassbinder ocuparam-se de obras suas. Alguns destes filmes ficaram na História de cinema, como A JANELA INDISCRETA (REAR WINDOW), de 1954, de Hitchcock, e os dois de Truffaut: LA MARIÉE ÉTAIT EN NOIR , de 1968, e LA SIRÈNE DU MISSISSIPI, de 1969.

Sempre pensei que estas duas adaptações do realizador francês foram o pagamento de uma dívida. Truffaut teve uma infância e adolescência como o pão que o diabo amassou e os contos e novelas de Irish devem ter-lhe feito boa companhia, nesses momentos amargos. As almas bem feitas costumam ser gratas e gostam de pagar o que devem.

Outro filme notável, baseado num dos mais famosos romances de Irish – PHANTOM LADY – teve, como realizador, Robert Siodmak, que já nos deixara o impressionante THE KILLERS, baseado no célebre conto de Hemingway.

A vida torturada deste notável escafandrista dos infernos da condição humana, vida envolta num espesso negrume sem saída, deixa-nos entrever um único raio de sol: a alegria da escrita, eficaz tintura para uma ferida dolorosa. Mas esta felizmente vastíssima obra não se limitou a servir de consolo para o seu criador: quantos leitores, por esse mundo fora, lhe não devem, se não a cura, pelo menos um decisivo alívio das aflições que os visitaram! 

Eugénio Lisboa

A EDUCAÇÃO DURANTE O ESTADO NOVO (2)

Segundo texto de uma série de doze, retirados do livro Antes dos Cravos  doo Professor António Galopim de Carvalho (em continuação do anter...