segunda-feira, 5 de julho de 2021

RESPOSTA FINAL A UM LEITOR POUCO ATENTO DO MEU TEXTO: “AS FALSAS CONDICIONANTES DO VALOR

Texto de Eugénio Lisboa:
 
O Sr. Ildefonso Dias parece ter uma verdadeira obsessão com os textos que eu escrevo, mostrando uma vontade um pouco estranha de ressuscitar polémicas há muito soterradas em naftalina. Por que não escreve os seus próprios textos sem andar sempre à boleia dos meus? E, depois, o Sr. Ildefonso Dias parece ter dificuldade em ler com atenção os textos dos outros, dando respostas que nada têm a ver com aquilo que se escreveu. 

De aí, ter publicado agora, à laia de resposta a um texto meu, uma carta escrita por Bento de Jesus Caraça a George Duhamel, que em nada, mas em nada, contraria o que eu escrevi. Eu citei Duhamel, como um grande escritor capaz de ter horrorosos preconceitos em relação ao cinema: uma coisa não impedia a outra. Caraça escreve uma carta ao mesmo Duhamel, de quem se confessa antigo admirador, mas estranhando a insensibilidade deste relativamente ao sofrimento dos portugueses subjugados pelo Estado Novo. A antiga admiração não impede a actual estranheza e vice-versa. Se eu tivesse nessa altura idade para isso, teria escrito a Duhamel uma carta muito semelhante à de Caraça, no que tocasse ao comportamento cívico dele e não ao talento de escritor dele.

E, já agora, permita-me que diga, com alguma vaidade, que escreveria essa carta com bem mais autoridade moral para o fazer do que o estimável Bento de Jesus Caraça (que, nada de apaparicar mitos, foi um notável Professor de Matemática, mas nunca foi um matemático). E porquê? Porque Bento de Jesus Caraça, como muitos da sua geração, enquanto combatia justamente a opressão inqualificável do Estado Novo e o capitalismo desenfreado, apoiava, por outro lado, o “paraíso” soviético, cem vezes mais opressivo, assassino e mesmo genocida, sob o jugo dementado de Estaline. Nesse regime mortífero, grandes compositores eram ameaçados de morte, como, entre outros, Shostakhovich, por escrever música modernista, que o Fuehrer soviético não apreciava. E este mesmo grande compositor sofreu a humilhação inacreditável de ter de fazer, numa ida aos Estados Unidos, uma crítica demolidora a Stravinsky, colega que ele tanto admirava.

Caraça escreveu um texto notável sobre o sofrimento de Galileu, às mãos da Inquisição. Esta não merece contemplações de espécie alguma, mas, pelo menos, não matou o grande cientista. Já na Rússia, o Grande Inquisidor Estaline mandou para a prisão e, nalguns casos, executou barbaramente notáveis cientistas que, sendo mendelianos, se opunham ao lamarckismo do charlatão Lysenko, que nem cientista era, mas que Estaline protegia. Como consequência, milhões morreram à fome, na União Soviética e muitos mais morreram na China, para onde Estaline exportou o “saber” de Lysenko.

Ao contrário de Caraça, eu sempre combati o Estado Novo e o capitalismo desregulado, mas combati igualmente a União Soviética, com o seu obscurantismo arrogante e assassino. O apoio dado a este regime por homens como Caraça e muitos outros fora de Portugal, pode compreender-se mas não pode aprovar-se. Homens como Sartre, que confessou saber do Gulag mas tê-lo escondido para não ferir a imagem da União Soviética, serão severamente julgados pela História: aliás, já começaram a sê-lo. Bento Caraça, ao juntar-se a Cunhal, neste apoio cego ao País do Gulag, não mostrou um dos melhores rostos do seu talento e da sua coragem. A adoração um tanto beócia de alguns por figuras estimáveis mas muito mitificadas, como Caraça e Abel Salazar, só mostram o nosso provincianismo e a nossa pequenez. 

Já agora, para prevenir nova investida colérica do Sr. Ildefonso Dias, peço-lhe que não se zangue por eu ter dito que Bento Caraça não foi um matemático: quem o diz são pessoas como Sebastião e Silva, entre outros matemáticos que tive o cuidado de consultar. Garanto ao Sr. Ildefonso Dias e ao De Rerum Natura, que não voltarei a isto. 

E peço ao mesmo Sr. Ildefonso Dias que escreva os seus próprios textos e me deixe em paz. É que não há sofrimento maior do que ser treslido!
Eugénio Lisboa

2 comentários:

  1. “O grande matemático Mira Fernandes era um homem cultíssimo, como o era Bento de Jesus Caraça, fundador da legendária Biblioteca Cosmos,...”[Vamos Ler – Eugénio Lisboa; Ed. Guerra e Paz]

    “Mas, poderá dizer-se, Mira Fernandes fez pelo menos um discípulo: Bento Caraça. Sim, é verdade...” [Bento Caraça e o Ensino da Matemática em Portugal, por J. Sebastião e Silva, entrevista ao Diário de Lisboa, de 25 de Junho de 1968]

    “Tal como Mira Fernandes, ele foi um matemático humanista. Mas, enquanto o primeiro era humanista no sentido clássico do termo (cultivava o latim, com vagares e requintes de artista isolado aristocráticamente do mundo), o segundo foi humanista no sentido moderno.” [Bento Caraça e o Ensino da Matemática em Portugal, por J. Sebastião e Silva, entrevista ao Diário de Lisboa, de 25 de Junho de 1968]

    Está assim esclarecida a posição de Sebastião e Silva acerca do matemático Bento de Jesus Caraça.

    Agora é a lealdade do Sr. Eugénio Lisboa para com os leitores do De Rerum Natura, que lhe impõe o dever de apresentar os depoimentos desses matemáticos que diz ter consultado, em que eles declaram que Bento de Jesus Caraça não foi um matemático.

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  2. Eugénio Lisboa, capaz de ser também contra o capitalismo, mas só se for "selvagem" e/ou "desregulado" não é capaz de compreender ou saber, que o capitalismo provocou e continua a provocar vítimas em todo o nosso mundo, através de crimes contra a humanidade que vão desde a exploração de muitos milhões de homens, mulheres e crianças, como outros crimes de cumplicidade e apoio direto a ditadores fascistas em todo o mundo. Um dos apoiados pelos EUA e restante ocidente foi o fascista Salazar abrigado na democrática NATO. Os crimes do estalinismo são uma criança à beira dos crimes do capitalismo. Mas destes o senhor Eugénio Lisboa não conseguirá fazer as contas. Talvez precise de pedir ajuda ao não Matemático Bento de Jesus Caraça.

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