sexta-feira, 23 de julho de 2021

VICTOR GIL: UM QUÍMICO ARRUMA A CASA

 


Meu artigo no I de ontem:

Acaba de sair com a chancela da editora Texto, do grupo Leya, um livro autobiográfico da autoria de Victor Gil (1939-2018), professor de Química da Universidade de Coimbra, que também ensinou na Universidade de Aveiro, da qual foi o primeiro reitor em 1973. Foi investigador pioneiro em Portugal na área da Ressonância Magnética Nuclear, com a instalação do primeiro laboratório em 1967, e um notável pedagogo, não só directamente através das suas aulas universitárias, mas também pela autoria de numerosos livros de Química e Física. Foi ainda pioneiro em Portugal dos centros interactivos de ciência com a criação em 1995 do Exploratório Infante D. Henrique, em Coimbra, com base na sua experiência anterior na organização de exposições de ciência para jovens.  É um legado que, no seu conjunto, não pode deixar de ser considerado extraordinário. Poucos professores terão sido tão eclécticos como ele.

O formato do livro póstumo é muito original, pois trata-se de uma entrevista que o autor fez a si próprio, depois de ter dado uma entrevista ao jornalista João Almeida, da Antena 2, (programa “Quinta Essência”), na qual ele achou que tinha ficado muito por dizer. Aproximando-se dos 80 anos - o título Arrumar a Casa Antes dos 80 é elucidativo, como também o é o subtítulo Viagem ao passado em entrevista do próprio – achou boa ideia deixar por escrito a história da sua vida e o essencial das suas ideias sobre a vida e o mundo. Trata-se de um livro de memórias, um estilo insuficientemente cultivado entre nós, com o formato, um tanto espartilhante, de perguntas e respostas. O livro tem um subsubtítulo; As perguntas que já foram feitas e as outras. Um projecto em que o autor se desdobra naquele que pergunta e naquele que responde, aqui identificados por P e R, respectivamente. Começa com o capítulo «Sentimentos conjugados no pretérito recente» e termina com o capítulo «As outras actividades. Vidas e o futuro condicionado», passando por outros sobre a educação, o amor, a profissão e a “relação com os mistério”. No fim a “casa” fica “arrumada”.

Claro que o próprio só pergunta o que quer e, perante as perguntas colocadas, só responde o que quer. Mas, lido o livro de fio e pavio, não pude deixar de me admirar com algumas das perguntas que coloca e com algumas das respostas que dá. A obra, que tem prefácio de Júlio Pedrosa, ex-reitor da Universidade de Aveiro e ministro da Educação, conta a trajectória de vida do autor, num estilo, em certos passos, bastante intimista (lembrei-me do livro O Bilhete de Identidade, de Maria Filomena Mónica, Alêtheia, 2005). Os cientistas costumam ser bastante reservados relativamente à sua vida pessoal, mas o autor, de quem fui amigo e coautor numa dúzia de manuais e meia dúzia de artigos, desnuda-se amiúde, deixando-nos um testemunho pessoal terminado semanas antes de morrer. Houve um certo pressentimento de um final cuja hora não podia adivinhar: morreu de um ataque cardíaco repentino, durante a noite, sozinho em sua casa.

A obra foi publicada agora com a ajuda dos seus dois filhos, a química (quem sai aos seus…) Ana Gil e o engenheiro electrotécnico João Gil, que assinam a introdução. Os filhos cumpriram, assim, a vontade paterna ao divulgarem o projecto, cuja existência conheciam. Este é o segundo livro póstumo de Victor Gil, pois saiu em 2020 o livro de poesia Poréns e Encantos na Sana Editora de Aveiro. O livro mais recente contém alguns poemas desse livro, cuja qualidade literária será só incipiente. Os filhos ficaram admirados perante a quantidade de poemas que encontraram. Os colegas, como eu próprio, não lhe conheciam esse seu culto das musas.

Victor Gil nasceu de origem modestas na aldeia de Santana, perto da Figueira da Foz: a mãe era costureira que vendia em feiras e o pai agricultor, com uma ou duas vacas leiteiras. A criança cedo percebeu que, se não estudasse, não poderia escapar ao destino pobre que o seu berço lhe traçava. Estudou então com afinco, tendo obtido excelentes notas primeiro na escola primária local e depois no Liceu D. João III em Coimbra (uma escola que eu também frequentei, embora bastante mais tarde). Completou a seguir a licenciatura em Ciências Físico-Químicas na Universidade de Coimbra. Escreve o autor: «Lembro-me de algumas vezes o meu pai ter de pedir emprestados 500 escudos a um vizinho para eu poder pagar os encargos de alojamento e refeições e outras despesas, algumas significativas como a capa e batina». Mas, uma vez que Victor Gil continuava a revelar-se aluno brilhante (teve 18 a Matemática dada pelo Doutor Esparteiro, nota que este só tinha dado uma vez… a uma rapariga bonita!), obteve uma bolsa de estudo e foi convidado para ficar como assistente e ir para o estrangeiro estudar a Ressonância Magnética Nuclear – RMN, uma técnica de análise química então nova entre nós. O RMN consiste em sujeitar núcleos atómicos a um campo magnético, de modo a revelar certas características químicas da substância em análise. Victor Gil completou o doutoramento na Universidade de Sheffield, em Inglaterra, em 1965, na altura já casado e com a filha Ana recém-nascida. O Departamento de Química de Sheffield conta com quatro prémios Nobel, um dos quais Harry Kroto, descobridor dos fulerenos, que aparece numa fotografia do livro ao lado de Victor Gil (os fulerenos incluem o futeboleno, molécula parecida a com uma bola de futebol).

O primeiro laboratório de RMN em Portugal foi criado pelo Doutor Victor Gil logo que regressou. Em 1973, no tempo em que José Veiga Simão, catedrático de Física em Coimbra com o doutoramento também feito em Inglaterra, o designou reitor da então criada Universidade de Aveiro. Cumpriu só um mandato, embora tivesse continuado em Aveiro como catedrático. Voltou a Coimbra em 1982, ano em que eu também voltei à cidade, vindo da Alemanha. Conheci-o por essa altura, tendo verificado interesses convergentes quanto ao ensino e divulgação das ciências.

A obra pedagógica de Victor Gil é impressionante: foi coautor de mais de 40 títulos de manuais escolares e universitários, que foram utilizados por mais de 200 000 estudantes. Desatacam-se os seus vários manuais de Química do 12.º ano, os dois manuais universitários da Fundação Gulbenkian, um deles uma obra de referência sobre o RMN, e Orbitals in Chemistry, publicado em 2000 pela prestigiada Cambridge University Press.

Os centros interactivos de ciência têm uma longa história no mundo. O Palais de la Découverte em Paris é de 1937 e o Exploratorium de São Francisco é de 1969. Pois em Portugal, esses centros começaram a ser ensaiados entre nós apenas em 1991 por Victor Gil. O primeiro centro interactivo de ciência entre nós chamou-se «centro de iniciação à ciência», mas, em 1995, tomou o nome de Exploratório Infante D. Henrique. Lembro-me de, em Coimbra, ter apresentado a Victor Gil o meu amigo, então jovem, José Mariano Gago, físico experimental de partículas, que seria, em 1995, a primeira pessoa a ocupar a pasta da Ciência e Tecnologia em Portugal, no primeiro governo de António Guterres. Gago defendia o valor da experimentação na difusão da cultura científica e Gil, então à frente de uma exposição na Casa da Cultura de Coimbra, tinha ideias e know how para construir módulos interactivos de ciência. O Exploratório haveria de se mudar para Santa Clara, para um edifício que foi crescendo, albergando uma actividade também crescente. Porém, o fundador viu-se inopinadamente afastado da direcção, num processo que muito o magoou pela injustiça cometida. Escreve o autor: «Embora considere a ingratidão um dos piores defeitos, superei à custa de me manter activo». Passou a dedicar-se às artes: à poesia e às artes plásticas. Ainda viveu o suficiente para fazer uma exposição individual de arte na Universidade de Aveiro («Criar… na outra margem»), onde presidiu ao Conselho de Ética e Deontologia. Claro que o Exploratório não melhorou com o afastamento do seu criador, limitando-se a manter uma rotina, longe do fulgor de outrora.

Um bom indicador da criatividade de Victor Gil encontra-se num apêndice devotado ao humor químico no livro aqui em apreço. Eis algumas «piadas secas» aí contidas: «Uma solução que não é concentrada é distraída«, “Os electrões de Valência falam espanhol», e «Os metais são bons condutores porque não bebem quando conduzem».

Da extensa produção bibliográfica do autor, elencada apenas em resumo no final, destaco As Minhas Primeiras Investigações Científicas (Almedina, 1984), em colaboração com o filho, na altura ainda infante, e 33 Casos de Acaso em Ciência (Gradiva, 1996).

Aconselho a leitura de Arrumar a Casa Antes dos 80 a quem queira conhecer, compreender e apreciar o cientista, o pedagogo, o divulgador, o poeta, e, acima de tudo, a pessoa de Victor Gil, uma referência nacional na ciência e um ser humano singular. Para que o leitor se aperceba da obra deixo, como é costume nestas colunas, um excerto. Escolhi, do capítulo em que trata a “relação com os mistérios”, a posição do autor sobre a vida depois da morte: «Agora sou mais categórico: a ideia de uma alma e de uma vida depois da morte há muito que me abandonou. Acho que são meras criações da mente humana para compensar ignorâncias, para garantir justiças (segundo os critérios humanos), para perpetuar o instinto de sobrevivência (…) Não tenho medo de morrer, mas tenho pena, pois estou muito agarrado à vida». Agarrado à vida, viveu uma vida cheia, enchendo a vida dos outros. Que descanse em paz!

 

 

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