sábado, 31 de julho de 2021

O MUNDO A PRETO E BRANCO

 Novo texto de Eugénio Lisboa: 

Ainda os julgamentos que por aí campeiam sobre os méritos e deméritos de Otelo Saraiva de Carvalho. Um grande número de portugueses, que incluem personalidades conhecidas, como António Barreto (sempre muito assertivo e a quem a dúvida metódica de Descartes parece não  afligir), persistem em analisar a personalidade humana do estratega do golpe de 25 de Abril, encafuando-se na dicotomia primária do culpado ou inocente, herói ou arruaceiro criminoso. 

Nenhum ser humano, mesmo o mais medíocre, pode ser correctamente avaliado, com tais pressupostos simplistas. Muito menos os grandes homens ou os que não sendo necessariamente grandes, num determinado momento feliz, se excederam a si próprios, realizando uma tarefa de enormes consequências para os seus compatriotas. Foi o caso de Otelo Saraiva de Carvalho. Que ele tenha ulteriormente descarrilado e praticado actos condenáveis, ninguém o nega. São precisamente as personalidades invulgares as mais dadas a tais severas e dolorosas contradições. 

Disse-o, de uma vez por todas, esse grande pensador aforístico francês, La Rochefoucauld, nestes termos de medalha: “Só aos grandes homens cabe terem grandes defeitos”. E não me venham cacarejar graçolas, insinuando que Otelo não era um grande homem: soube sê-lo, repito, num momento privilegiado da sua vida. O mesmo La Rochefoucauld, um dos mais penetrantes analistas da alma humana, disse, falando agora, não apenas dos grandes homens, mas dos homens em geral: “Os vícios entram na composição da virtude, como os venenos entram na composição dos remédios” Uma viagem, mesmo superficial, da História comprovará isso mesmo. Mas, confinando-me, à História do século XX, poderei dar alguns exemplos edificantes.

O general George Patton foi, no norte de África, na Sicília e, depois, na ofensiva europeia a seguir à invasão da Normandia, o mais brilhante general no terreno que os aliados ocidentais tiveram. O seu esforço monumental, ao desmantelar a perigosíssima armadilha das Ardenas ficará como um dos mais extraordinários feitos militares. E só não chegou mais cedo a Berlim, porque Eisenhower o não permitiu, para não ofender os russos que, na altura eram aliados. A dívida da humanidade para com Patton é formidável e muito difícil de pagar. 

Pois bem, foi este mesmo Patton, quem, ao chegar a Berlim, e, tendo, com os russos, posto fim a um dos conflitos mais mortíferos que a humanidade já viveu, foi este mesmo Patton que detestava mais os russos do que detestava os nazis, quem quis convencer os americanos a invadirem imediatamente a União Soviética, que ele visava destruir! Este desígnio delirante e monstruoso, valeu-lhe ter sido imediatamente demitido do seu posto. Que vamos fazer dele? Esquecer o herói de tantas campanhas brilhantes? A insensatez final anula todo o brilhantismo militar de uma vida? Atire a primeira pedra quem disso se sentir capaz.

Outro exemplo foi o do general MacArthur, herói da guerra no Pacífico, que, em condições inicialmente muito desfavoráveis, acabou por infligir uma espectacular derrota ao império nipónico, que seriamente ameaçara todo o Pacífico e a própria América. Mas foi este mesmo indiscutível herói, que salvou o mundo da praga militarista e expansionista do Império de Hiroito, quem, na guerra da Coreia, em acesso de megalomania, se propôs invadir a China, pondo o mundo todo em sério risco. Foi imediatamente demitido pelo Presidente Truman, apesar da glória que o aureolava. Mais uma vez pergunto: o desvairo da Coreia anula a descomunal campanha do Pacífico?

Terceiro exemplo: outro grande herói da segunda guerra mundial foi o general Montgomery, cuja derrota infligida a Rommel em El Alamein ainda hoje inflama as imaginações. Na ofensiva europeia contra os nazis, desempenhou, de uma maneira geral o seu papel, com eficácia, embora ficasse totalmente obscurecido pelo génio militar de Patton. Houve, porém, um episódio em que a sua estrela se apagou, quando convenceu Eisenhower (“Operation Market Garden”) a invadir os Países Baixos e o Ruhr: falhou estrepitosamente, com perdas humanas desastrosas. Por outro lado, como pessoa, era conhecido como “unbeatable and unbearable” (imbatível e insuportável). 

Depois da guerra, aureolado de glória como poucos, apoiou vigorosamente o apartheid e opôs-se veementemente à legalização da homossexualidade, querendo preservar a lei brutal que levara Oscar Wilde à prisão, à ruína e à morte. Que vamos então fazer de Montgomery? Esquecer que ajudou homericamente a salvar-nos da praga nazi? Excomungá-lo por causa do apartheid e da sua homofobia? 

Repito: atire a primeira pedra quem se sinta capaz de o fazer!

Eugénio Lisboa

2 comentários:

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