quinta-feira, 5 de agosto de 2021

UM PROFESSOR

Novo texto do Professor Eugénio Lisboa

Tive muitos professores e alguns muito bons professores. E tive, sorte minha, um número, embora mais reduzido, de professores excepcionais. Incluo, nestes últimos, aqueles que me inspiraram, isto é, que me fizeram dizer com os meus botões: “Eu gostava de ser como ele!”, maneira velada de evitar dizer, com maior nudez: “Eu gostava de ser ele!”.

Tive uma excelente professora, na terceira classe da instrução primária, a D. Laurinda Magalhães, que nos aquecia, com a sua voz rouca e a sua ternura maternal, tornando-nos desenvoltos e sem medo de nada: nem da gramática nem da aritmética (nem da geografia!) Vinha tudo dela, logo, era bom. Na sala ao lado, uma fera de saias – besta mal saciada – despenhava sobre os alunos aterrados a sua fúria homicida. Quando ouvíamos a gritaria wagneriana, acolhíamo-nos, amedrontados, ao calor humano e pedagógico da D. Laurinda. Com ela, estávamos em território seguro e bom para dar fruta.

Isto passava-se tudo na Escola Paiva Manso, na zona não “chic” da cidade moçambicana de Lourenço Marques. No liceu da mesma cidade e na universidade (Instituto Superior Técnico, já em Lisboa) tive professores que variamente me inspiraram. De um ou outro até terei gostado menos, como pessoa. Mas, como professores, foram, todos esses, de excepção.

O Jaime Rebelo, em Francês, o Domingos Reis Costa, também em Francês, o Duarte Marques, em Português, o Vieira Júnior, em Matemática, a Maria Luísa Soares, em Filosofia, o Cardigos dos Reis, em Ciências Geográficas – isto, para o liceu.

Na universidade, Cândido da Silva, em Matemáticas Gerais (gostei imenso do professor e menos do homem), António da Silveira, em Física I e II, Ferreira Dias, em duas cadeiras do curso de Electrotecnia, Julio Palacios, em Termodinâmica, Abreu Faro, em Medidas Eléctricas. 

Mira Fernandes era mais a figura e a lenda merecida que nos inspiravam: era um grande matemático e suspeitávamos que fosse, também, como Ferreira Dias, um homem de cultura, fora do âmbito da sua especialidade. Mas não dava ênfase ao seu discorrer nem punha os itálicos dramáticos e certos nos grandes momentos daquela abstracção fulgurante. Era um enorme especialista, de reputação internacional, mas um inspirador apagado e, na altura, cansado e, provavelmente, desiludido. 

O liceu foi, com alguns professores, a grande promessa: o Reis Costa, com uma erudição fenomenal e viva, a municiar um temperamento nervoso e errático, transformava as suas aulas fascinantes numa espécie de Palatino da Roma Antiga, em que Petrónio e Tigelino se digladiavam perante um Nero caprichoso e imprevisível. O seu saber era enorme e não dissecado: vivo, quente, quase ameaçador... Se tomava um aluno de ponta, baixava, como Nero, o polegar, decretando a pena de morte. O nosso gozo era manipulá-lo, apelando para uma sua “grandeza secreta”, a favor da comutação da pena, para o colega condenado. Nunca dizia que não. Perdoava, mas não convertia a aversão em amor. No máximo, tolerava. Embirrava com os gordos e com os filhos de arrivistas: se não fizeste tu, fê-lo o teu pai... Conseguia, com dificuldade, ultrapassar isto mas, ocasionalmente, conseguia-o. Era um personagem. Conseguia fazer os alunos amar os Lusíadas. Existia fortemente. Inquietava!

O Vieira Júnior – o Bimbo, como lhe chamávamos – era um oportunista político e um pedagogo de gema. Nele, a Matemática era pura claridade e sedução: não se podia deixar de admirar a mais bela e esbelta construção do espírito humano. Tão bom como aquilo, só Mozart, um pouco mais tarde. E a grande Literatura!

O Duarte Marques era o entusiasmo a quente, o vibrar intenso com o texto literário, a interjeição frenética, o desflorar nervoso de particularidades um pouco escondidas, nos parágrafos que, a medo, sondávamos. Tendia muito ao enfloramento exagerado da prosa – empurrava-nos demasiado enfaticamente para imagens e metáforas de caixa alta – e só, um pouco adiante, a prosa voltaireana de Stendhal e o estilo descascado de Hemingway me curaram de todo aquele floreado espampanante. Mas como ele amava a literatura e como esse amor se nos comunicava! (“Ah, Balzac!”, dizia ele, em êxtase...). Amarrou-nos irremediavelmente aos textos, o Duarte Marques – o Caçador, como lhe chamávamos - , para o resto das nossas vidas. Quem nos dá isto dá-nos muito.

O Jaime Rebelo, o Rei da Vírgula – assim baptizado maldosamente pelo Reis Costa, devido à sua obsessão com a pontuação – era o nosso camarada... exigente! Professor de Francês, investia em nós saber, atenção meticulosa, fraternidade e escrúpulo. Compreendia-nos como poucos. E era tal a confiança que tinha na preparação que nos dava, que, nos exames orais, pedia aos examinadores que nos “espremessem” – para podermos brilhar.

A Maria Luísa Soares, a “Mamba”, foi a sedução da Filosofia. Mulher das Arábias, dava para ensinar tudo, porque sabia tudo. Quando algum colega se ausentava, de licença graciosa, que podia durar quase um ano, havia sempre a “Mamba” para dar a cadeira, fosse ela qual fosse. De “mamba” (cobra perigosíssima), não tinha nada, a não ser o seu modo de se deslocar. Era alegre, amiga, prestável, competente, sem amedrontar. E dava-nos sabedoria e saber às pazadas. As aulas de Filosofia eram um festival de informações, de inteligência animada, de afectos, de histórias exemplares, de anedotas, que iluminavam os conceitos mais subtis, de sugestões para leitura. Desafiou-me a apresentar dois trabalhos: ambicioso e irresponsável, atirei-lhe com Platão e Voltaire. Este último, com Stendhal e antes de Hemingway, ajudou-me a descascar o floreado luxuriante com que o Duarte Marques me atravancara!

Mas não vou aqui engorgitar-vos com descrições de todos estes mestres inesquecíveis. Tenho que escolher um, só um, hélas!, que me tenha particularmente marcado. Escolho, por razões que não saberei bem articular, o Dr. Norberto Cardigos dos Reis, meu professor de Ciências Geográficas, no sétimo ano do liceu. 

Era ruivo, de cara triangular e movia-se com uma espécie de hieratismo dançado. Olhava para nós como se descesse, por momentos, de umas alturas inacessíveis, onde pairava. Mas não havia nisto, propriamente, arrogância: era um jogo, um piscar de olhos disfarçado. Não antagonizava: seduzia, com ironia... Quando arregaçava a sobrancelha, tremíamos de gozo antecipado. Falava de uma forma muito particular, acutilante, mas de uma acutilância bem medida, bem calculada, para se não desperdiçar, por excesso de uso... Organizava a frase em torno de um termo, que fazia “cair” sobre nós, no momento exacto em que produzisse o maior efeito.

Falava-nos do Cosmos, como se fosse território seu, que perfeitamente dominava e governava... Nós, seus alunos, tínhamos alguma inveja por ficarmos, indignos, fora daquele universo imenso. O Cardigos pertencia-lhe ou o universo lhe pertencia a ele, mas nós, não: ficávamos à porta, deslumbrados, mas banidos, eternamente aspirantes! 

Tanto autodomínio, tanta mestria na manipulação da palavra certeira, tanta desenvoltura fácil na resolução de problemas de cosmografia reduziam-nos a pretendentes minúsculos a um estatuto idêntico, num futuro remoto! Apetecia-nos pregar-lhe rasteiras, a ver como se sairia delas.

Um dia, um aluno dos primeiros anos afoitou-se e fez-lhe uma pergunta “capciosa”: “Sr. Dr., por que razão, nas posições relativas dos astros do sistema solar, nunca se verifica uma situação em que o Sol fique entre a Terra e a Lua?” O Cardigos não se descompôs: arregaçou, com majestade, a sobrancelha castigadora e respondeu, quase com tristeza: “Olhe, menino, além do mais, porque não cabe.” 

Noutra ocasião, os deuses pareceram estar a nosso favor, estendendo ao Cardigos uma apetecida armadilha – desta não sairia ele de cara levantada: enquanto, no quadro preto, de costas voltadas para nós, explorava o Cosmos, um cão, perdido ou desorientado, entrou pela sala dentro, caminhou até ao tablado e sentou-se, olhando, com paciência expectante, para o homem que, de costas para ele, escrevia... Houve, na sala de aula, um sussurro de expectativa sádica – aquela torre de majestade impecável ia finalmente desmoronar-se... O Cardigos voltou-se, encarou o cão, arregaçou uma sobrancelha inquiridora e perguntou: “O colega foi transferido?”

Cardigos dos Reis fora aluno distinto do grande Orlando Ribeiro e estaria vocacionado para uma carreira universitária de forte gabarito, mas a vida não lhe permitiu o fulgurante percurso a que tinha jus, acabando por vir para o liceu de Lourenço Marques, deixando a família em Lisboa. A nós, abriu-nos uma porta que dava para horizontes de festa intelectual. Se aquilo, pensávamos, é o liceu, o que não será a universidade!

A universidade, infelizmente, com as raríssimas excepções que citei, viria a mostrar-se povoada por gente pequenina, mesquinha e medíocre. O Cardigos, com a sua voz carregada de erres guturais e arrastados, buscando, com génio swiftiano, a palavra assassina, num “show” de inteligência e sedução, pregou-nos uma partida perigosa: anunciou-nos um mundo que não existia, pois nunca mais foi fácil voltar a encontrar, no ensino superior, um personagem de igual gabarito. 

Quando eu fazia a prova escrita de Biologia, no exame do sétimo ano do liceu, o Cardigos entrou na sala, para rubricar as folhas em que escrevíamos. Olhou para a minha página de escrita cerrada, pejada de terminologia opaca e bizantina e observou, arrastando saborosamente os erres: “Agorrra é que é aprrrroveitarrr parrra despejarrr palavrrras exdrrrúxulas!”

Exdrúxula, no melhor e mais nobre sentido, foi a sua passagem pelo liceu de Lourenço Marques e também pela minha vida. Quando o via passar na rua, perguntava, angustiado, de mim para mim: “Como é que se pode não ser Cardigos?” 

 Eugénio Lisboa

1 comentário:

  1. O Eugénio Lisboa trata muito bem os professores e eles não merecem menos do que o alto pedestal em que os coloca.
    Não resisto a tomar como poderosa metáfora o episódio do cão colega, que logo me trouxe à memória um professor de matemática, numas provas de admissão ao 1º ano do ciclo preparatório, já lá vão umas décadas.
    Aos meus olhos de miúdo de nove anos, o professor teria mais de oitenta. Hoje, sei que não teria mais de sessenta e que, provavelmente, andaria pelos trinta. Era uma espécie de aula única, em que avaliador e avaliandos não se conheciam e, salvo algum caso particular, se viam confrontados pela primeira vez, numa sala para trinta alunos. Tudo muito formal e a maioria dos miúdos levava aquilo muito a sério, porque o professor, fosse para amedrontar, fosse para disciplinar, fosse para se divertir à nossa custa, ou por outro motivo qualquer, conseguia convencer de que aquela avaliação era uma questão de vida ou morte e que não haveria outra oportunidade.
    Para agravar o cagaço, o ambiente e as instalações eram labirintos mergulhados nas sombras. Tudo era estranho, para quem deixava a rua das mercearias do bacalhau e das tascas de negos e iscas e se via enclausurado, durante uma semana numa prisão de fantasmas que riam pela calada, a piscar o olho ao velhíssimo professor de monóculo garrafal.
    Receávamos que, a qualquer momento, para enfatizar as suas advertências, já de si solenes, como os mandamentos de um bisavô, nos atestasse alguma vergastada nas orelhas, com a cana zumbidora que ele fazia questão que ouvíssemos com atenção, porque era a música dos anjos.
    E nós acreditávamos piamente. E rezávamos para que aquela música nunca soasse.
    Nenhum de nós estava à altura de nada, quanto mais dos anjos?!
    As provas eram simples operações de aritmética, tipo 1+1, 2+2, mas com aquele professor isso transformava-se num enigma transcendente.
    O exame consistia em ir ao quadro de ardósia para resolver um monumental problema e, de cada vez que alguém errava, o problema tornava-se maior.
    Tive eu o azar de rir à gargalhada quando o emérito professor enunciava um problema.
    Começou por colocar a cana da índia no ombro do avaliando, que expressou o peso com uma inclinação do ombro de pelo menos vinte e cinco graus, e perguntou-lhe donde era. Vila da Feira, respondeu o imberbe assustado.
    «Calha bem», disse o professor erguendo a espada de Dâmocles, «Fui à feira, comprei um burro, você é outro, quantos burros são?»
    Inadvertida e espontaneamente, respondi «três» e soltei uma gargalhada.
    O professor nem queria acreditar no que acabara de acontecer e o caso mudou de figura. «Digam-me que ninguém falou, que ninguém riu.»
    Ninguém disse nada.
    «Alguém falou, alguém riu. Quem foi?».
    Enchi-me de coragem e respondi: eu sei a resposta.
    «Então responda, sua abécula», disse o professor.
    E conta para avaliação?, perguntei.
    «O que conta para a avaliação é isto» e, zás, comecei a ouvir a música dos anjos.

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