sexta-feira, 13 de agosto de 2021

AS CAUSAS DO ATRASO CIENTÍFICO


Meu artigo no último número do JL:

Luís Miguel Bernardo é Professor de Física da Universidade do Porto, que se aposentou ao fim de uma longa carreira com foco na Óptica. Nos últimos tempos, tem-se dedicado  ao estudo da história da ciência em Portugal. Foi director do Museu da Ciência da Universidade do Porto de 2004 a 2015, tendo preparado dois catálogos de exposições:  Dois séculos – Instrumentos científicos da Universidade do Porto, em 2011, e 250 anos da criação da Aula Náutica do Porto, em 2012 e 2021. Além disso, é autor de cinco ensaios de história da ciência. Começou com a monumental História das Luz e das Cores, saída na editora da Universidade do Porto (2005-2010), que é uma extraordinária história cultural da luz em três volumes; continuou com Cultura Cientifica em Portugal. Uma perspectiva histórica, na mesma editora (2013), Visão, Olhos e Crenças (na colecção “Ciência Aberta” da Gradiva, 2018), e Luz, Vida e Saúde, na Imprensa da Universidade de Coimbra (2020); e publicou agora Sobre as Causas do Atraso Científico em Portugal. Uma digressão histórica, na editora UMinho, da Universidade do Minho. Esta última obra, de 662 páginas, está disponível on-line em PDF no sítio da editora: https://ebooks.uminho.pt/index.php/uminho/catalog/book/28 . Lembro que a Universidade do Minho foi pioneira entre nós nessa área ao ter iniciado no início deste século, sob o impulso de Eloy Rodrigues, um repositório institucional.

O autor, sempre preocupado com o rigor histórico e científico, como atestam as numerosas notas de pé de página  recheadas de bibliografia, tem uma escrita límpida. É enorme o conhecimento que tem das fontes primárias e secundárias, que lhe permitem abundantes, oportunas e fiéis citações. Depreende-se que frequenta alfarrabistas, livrarias  e bibliotecas.

O tema do atraso nacional é antigo: já no século XIX, mais precisamente em 1871,  Antero de Quental falava, numa Conferência do Casino que ficou famosa, das Causas da Decadência dos Povos Peninsulares (veja-se a edição da Artes e Letras, de 2017, com prefácio de Onésimo Teotónio Almeida). O autor olha para o tema do ponto de vista da história da ciência. No primeiro capitulo, “A Ciência Portuguesa”, apresenta em 124 páginas um resumo da história da ciência em Portugal (são escassos esses resumos: escrevi História da Ciência em Portugal, Arranha-Céus, 2.ª edição revista, 2014, porque não encontrei nada do género). Nos dois capítulos seguintes discorre sobre as causas do atraso, endógenas e exógenas. Recusa as causas endógenas, por exemplo “factores raciais, genéticos, futurarias e temperamentais” ou a “tendência para o amor romântico ou para a poesia”. Nas causas exógenas, mais plausíveis, reflecte sobre “política, poder, liberdade, religião e seus agentes”, alongando-se sobre o papel da Inquisição.  Nos três capítulos seguintes, disseca as causas económicas (77 páginas), onde analisa a situação do país após a Segunda Guerra Mundial, quando se tornou óbvio o papel da ciência no mundo; as causas ligadas ao sistema educativo (149 páginas), referindo as questões da alfabetização; e as causas relativas à organização do sistema científico (83 páginas), onde trata das instituições científicas como a Academia das Ciências de Lisboa. No capítulo final, deixa a seguinte conclusão: “É necessário termos nos governos de Portugal compatriotas competentes, com o saber e a prudência dos nossos mais ilustres avoengos, para que a nossa nação siga na senda do progresso científico que nunca nos foi negado por qualquer estranho condicionalismo endógeno ou exógeno, mas sim pela ausência de vontade e de orientação politica.” Não podia estar mais de acordo. As circunstâncias históricas e culturais podem ser contrariadas pela determinação política, como pudemos ver recentemente no período em que o físico José Mariano Gago foi ministro, aos quais se seguiu um tempo de  apagamento da ciência.

Apesar de o “atraso português” já ter sido tratado por vários outros autores, sob vários prismas (lembro-me, por exemplo, de um livrinho de Miguel Soares de Albergaria, Condições do Atraso do Povo Português nos Últimos Dois Séculos, Palimpsesto, 2012), Luís Miguel Bernardo tem o mérito de observar o problema usando o prisma da ciência, numa perspectiva histórica. Facto é que, após o período da expansão marítima, nos séculos XV e XVI, a nossa ciência sempre foi sempre mais receptora do que emissora.  Isto é, em Portugal sempre se ensinou ciência, mas raramente ela foi criada com saliência internacional.

Depreende-se, até pela extensão do número de páginas do respectivo capítulo, que o  nosso principal défice foi, ao longo dos tempos, o educativo. De facto, a alfabetização, que noutros sítios da Europa chegou com a Reforma protestante, em Portugal tardou demasiado. No século XIX, a Revolução Industrial crescia exponencialmente na Europa e na América, mas entre nós era incipiente, o que se reflectia na fraca escolarização da população. Os sucessivos poderes políticos não foram capazes de romper com essa situação de uma forma decidida: nem a monarquia constitucional, nem a Primeira República (com boas intenções, mas que só demorou 16 anos), nem o Estado Novo. O regime democrático em que vivemos hoje conseguiu notáveis progressos nessa área, mas as nossas estatísticas de escolarização da população ainda continuam muito más quando comparadas com as europeias. Sem escola para todos – e uma escola qualificada nos seus vários níveis – não podemos ter ciência na medida suficiente para que possamos competir internacionalmente num patamar elevado. E também não podemos ter ciência avançada sem suficiente investimento. O actual governo fala muito de ciência, mas o facto é que só gasta 1,4 por cento do Produto Interno Bruto em Investigação e Desenvolvimento, muito abaixo dos 2,1 por cento da média europeia. A baixíssima percentagem de aprovação em concurso de projectos da Fundação para a Ciência e Tecnologia reflecte o estado de debilidade em que a ciência portuguesa hoje.

O tema do “atraso português” está longe de ficar esgotado com esta última contribuição. Oxalá a esta obra se sigam outras sobre o mesmo tema, porque os livros, para usar uma metáfora de Newton, sobem “aos ombros uns dos outros”.

 

1 comentário:

  1. A Economia é que manda.
    Sem as margens férteis do Nilo, não haveria pirâmides do Egito. Sem a pimenta da India, não teríamos o Mosteiro dos Jerónimos. Muitas vezes as pessoas esquecem que os portugueses, e os seus navios, fizeram parte da Armada Invencível que foi derrotada pelos ingleses e holandeses em 1588. Desde então, os ladrões protestantes aproveitaram para nos roubarem tudo que puderam, fazendo de Portugal pouco mais do que um protetorado economicamente inviável, até hoje.
    Sem economia, a ciência não medra. Atualmente, os "cientistas da educação" defendem que nas escolas portuguesas não se deve ensinar ciência porque é uma matéria difícil de aprender, o que poderia dificultar a vida de todos os pobrezinhos, que têm tanto direito, como os ricos, de um dia chegarem a doutores!

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