segunda-feira, 23 de julho de 2018

"A utopia é a maior força ser humano"

Riccardo Petrella é um economista e politólogo com trabalho conhecido e reconhecido na Europa. Foi conselheiro de Jacques Delors (presidente da Comissão Europeia) e professor em várias universidades. Homem de causas, tem-se envolvido em diversas lutas pacíficas: a distribuição da riqueza e a extinção da pobreza, o direito de todos aos bens comuns (água, sementes, conhecimento...), a reconstrução da humanidade com base nod direitos humanos.

Esteve recentemente em Portugal e deu uma entrevista à Rádio Renascença que pode ser vista aqui e lida abaixo (transcrição nossa).
Não peçam aos grupos sociais dominantes para fazerem mudanças. Não façam petições. Eles não vão fazer nada. Não é por serem maus. Os grupos dominantes não são compostos por más pessoas. Imagino que sejam avós como eu, que também gostem de pessoas, que também falem de irmandade, de dignidade, mas não podem fazê-lo. Os cidadãos é que fazem a mudança. 
Vivemos numa era em que o conceito de cidadão se torna cada vez mais profundo. Ser cidadão não é apenas um “slogan”. 
Ainda faz sentido falar de “bem comum”?  
As nossas sociedades já não têm uma cultura de bens comuns. A água, o ar, as florestas, a terra mas também o conhecimento. Tudo isto foi orientado para o consumo, são como mercadorias, são coisas, já não são propriedade comum.
A Monsanto, a Bayer, a Sanofi são as donas da vida, dos micróbios, das plantas, dos organismos, dos animais e até dos genes. As nossas sociedades não partilham nada. Não temos nada em comum. Nada.
Neste contexto como é que se pode construir uma sociedade se não partilhamos nada? 
Petrella fundou a Universidade de Bem Comum e é promotor do manifesto “Banir a Pobreza 2018”  
O que é que eu pago? Qual é o preço das coisas? Qual é o preço? O preço da água, da terra, dos medicamentos? Quem decide isso? Decidimos juntos? 
Não, decide quem produz. E estes preços não reflectem o verdadeiro valor das coisas, reflectem o valor dos mercados. Os medicamentos são para quem os pode pagar, não para quem está doente. Eles dão formação, água e medicamentos apenas para quem os pode pagar, para aumentar o lucro. Quem paga as despesas com as actividades militares? Nós, o Estado, o orçamento. Porque não aceitamos que o orçamento cubra os custos do acesso à água? 
Os bens comuns e os serviços públicos estavam intimamente ligados aos direitos humanos. Se privatizarmos, se reduzirmos tudo a mercadorias a ligação aos direitos humanos desaparece.

Petrella preside ao Instituto Europeu de Investigação sobre a Política da Água 
A sociedade é hoje profundamente cínica. Sabemos que nos últimos 30 anos morreram quase 35 milhões crianças por falta de acesso à água. Estamos bem com isso numa sociedade cristã? Aceitamos hoje que 60 milhões de pessoas não tenham terra, não tenham para onde ir. E deixamos estas pessoas irem pelo mar, que morram no mar Mediterrâneo, que vão pelas terras, que sejam rejeitadas e pagamos à Turquia e à Líbia, nós os europeus, para que mantenham os africanos e os outros nos seus territórios. 
E claro que as pessoas pobres dos nossos países aceitam isso porque as nossas sociedade provocam conflitos sociais entre os pobres. É o jovem desempregado italiano que vai lutar contra o migrante sírio, não é o italiano rico que vai lutar contra o americano rico que bombardeia a Síria. As guerras são entre pessoas empobrecidas, são entre os excluídos. 
“Só o mais forte sobreviverá”. É o mantra quase universal de hoje. Não há empatia, não há simpatia, não há irmandade. 
Quando o Papa Francisco fala de irmandade as pessoas riem-se. Dizem: “pois ele é o Papa, pode dizer essas coisas, mas a realidade é bem diferente. E acho que é possível lutar contra isto. Há muitas coisas a fazer. 
A primeira é mudar realmente o sistema financeiro (…). 
O Presidente Macron está sempre a dizer que é uma pessoa aberta. “Aceito debater tudo, vamos lá.” Faço apenas uma pergunta: “O seu projecto, o seu programa é financiável”? Se responder que sim: “ok, vamos discutir”; se a resposta for não, esqueça. O que significa isto? Que um país como a França aceitou que não é a França, que não é Macron que decide, Macron faz os que os mercados decidem que é relevante, que é pertinente. 
Por isso, nós, os cidadãos, temos de dizer aos nosso poderes políticos que não têm legitimidade para fazer isto. Temos de recuperar a função do Estado. Vamos reconstruir a distinção entre finanças públicas e privadas 
TRÊS IDEIAS PARA COMEÇAR UMA “REVOLUÇÃO”  
1. Recuperar a noção de finanças públicas.
2. Acabar com os paraísos fiscais.
3. Regular as transacções financeiras de “alta frequência”. 
Porque aceitamos os paraísos fiscais? Acabemos com eles. Há três anos, 30% das transacções financeiras faziam-se à velocidade de milésimos de segundo. Agora são nanossegundos. As finanças deveriam ser uma ligação entre poupanças e investimento. Nanossegundos é um disparate! Porque não se cria legislação que diga que transacções de alta frequência deste tipo não são aceites? 
Se fizermos estas três coisas, podemos fazer uma revolução. 
Se tivéssemos este debate em 1930 as pessoas perguntariam: onde estão os trabalhadores? Qual o poder dos trabalhadores? Bem, os trabalhadores começaram algo e não fizeram apenas pequenas mudanças. Mudaram o direito às oito horas de trabalho, o direito a ter protecção no trabalho, um direito que parecia impossível depois da Segunda Grande Guerra: o direito a ter férias. “Quer ter férias e eu pago? Impossível, eu pago-lhe se trabalhar”. Por isso eles lutaram. 
E nós temos de lutar. Pacificamente. 
Petrella integra a “Ágora do Habitantes da Terra”, iniciativa que luta por justiça ecossocial.  
Em Dezembro vão propor a criação de um “conselho de segurança para os bens comuns”, numa reunião em Figueras, Catalunha. 
Sugerimos que se comece com três coisas: que se faça um conselho de segurança para a água, sementes e conhecimento. Vamos desenvolver um processo institucional em que todas as comunidades do mundo possam gradualmente participar para decidir o destino destes recursos. 
Claro que vai demorar gerações, mas temos de começar. 
Precisamos da utopia. A utopia é a maior força ser humano. Vivemos e somos fortes porque temos utopias. 
Não é pensar que algo nunca vai realizar-se, a utopia é um instrumento para que a mudança se concretize. 
Neste espírito, acredito que o amanhã existe. 
Temos de o criar.

3 comentários:

  1. Um bom exemplo, sendo importante lembrar que é possível derrubar um certo estado de inevitabilidades... Muitos de nós acreditaram no "evangelho da competitividade e santíssima trindade da liberalização, desregulamentação e privatização. Petrella foi conselheiro dos que mais fomentaram essa crença e criaram o ambiente para a dita "supremacia dos mercados". Reconhece que os mecanismos de produção e distribuição de renda e riqueza agora obedecem a um governo mundial de tipo privado, a lógica do capital financeiro. Macron, Obama, Lopes Obrador no México, assim como Costa em Portugal, acabam por ser falsas esperanças dado não usarem as ferramentas para mudar, para "rejeitar essa ditadura do mercado e os dogmas da liberalização, da desregulamentação e da privatização" para desarmar financeiramente o poder adquirido pela alta finança crescentemente criminosa para impor a sua vontade e benefícios. Claro que os cidadãos (o Povo!) tem a força imensa para derrotar esses poderes que capturaram a politica. O problema continua a ser em torno de que utopias e 'dirigidos' como e com que nível de transparência e participação.

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  2. É tudo pessoas e instituições boas!!! Porque será que o Youtube censura de imediato as revelações sobre o maravilhoso mundo novo construído e participado por bilionários e trilionários bonzinhos?

    US Military Child Sex Trafficking Whistleblower Exposes The United Nations & The U.S. State Department
    https://www.collective-evolution.com/2018/07/14/us-military-child-sex-trafficking-whistleblower-exposes-the-united-nations-the-u-s-state-department/

    The Common Enemy of Russia & the U.S. is the Deep State Shadow Government
    https://www.bitchute.com/video/59hhJBpk3o0/

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  3. Há uma louvável eloquência em Riccardo Petrella.
    Vou tocar simplesmente num ponto: a recuperação da função do Estado. Este é um nó górdio. Não se trata de recuperar propriamente, mas de atribuir, sim, atribuir ao Estado poderes que não tem e nunca teve. Só que o próprio conceito de Estado, na atualidade, está desfasado e o Estado, na acepção clássica, já deixou de existir.
    De qualquer modo, os políticos, na sua proeminente parolice de arrivistas, quais clérigos de antanho... adoram o Estado, que é um Estado desses políticos oportunistas, rurais, labregos...É o que temos tido. E à sua sombra, medram os que se dizem inimigos do Estado, privados muito interventivos e críticos do seu peso. Sem o Estado não sobreviveriam.
    E o Estado continua, como antigamente, na sua função espoliadora e agressora, sem respeito pelos contribuintes. Ninguém quer um Estado destes, a não ser os tais beneficiários, mormente os políticos, que todos conhecemos. Isto até parece um discurso de extrema direita e fico preocupado, sinto-me mal ao verificar que as críticas que se fazem ao Estado incidem sobre os partidos políticos que têm governado tão mal...Os partidos que capturaram o Estado são responsáveis por isso e devem ser responsabilizados.
    Há um fracasso, que se manifesta mas não se assume, dos modelos políticos em vigor. Há muito que se deveria ter resolvido o problema daquilo que pode e deve ficar no âmbito do privado do que tem que ser regido e conduzido coletivamente. Os líderes políticos continuam a portar-se como caixas de ressonância de uma visão dos almanaques de há cem anos.
    Ninguém com vergonha fala, hoje, em público, do alto dos seus milhões, para dar lições à humanidade. O mercado tem uma lógica que pode ser boa ou má. O Estado não tem sido capaz, em geral, de escolher o que deve ser mercado ou não e isso está a ser fatal, sobretudo porque, hoje, não faz muito sentido falar de Estado e, quando falamos de Estados, subsistem os problemas.
    A iniciativa privada e o capitalismo são perfeitamente autofágicas, amorais/imorais, ou seja, todo e qualquer problema que surja, é, mercantilmente, positivo. A guerra, a destruição de uma floresta, a doença, a morte...Não consegue ver nada de negativo, porque o negativo já não existe...
    Se o Estado, no (des)concerto dos Estados, puder ter alguma função útil, e volto a sentir incómodo ao dizê-lo, como se estivesse a concordar com os que defendem o fim do Estado, deverá ser na identificação e preservação daquilo que pode ser alienado à iniciativa privada sem prejuízo dos interesses coletivos. Um Estado ao serviço de interesses privados é que não. Temos pago muito caro e estamos fartos disso.

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