terça-feira, 27 de novembro de 2018

“TERRA-ROSSA”

Sugiro ao leitor que, antes de ler este texto, leia ou releia o post MÁRMORE, de ontem.

Por agora, restrinjo-me ao solo (o chamado solo ferralítico dos pedologistas) e à capa barrenta de intensa cor vermelha que cobre e caracteriza a região de Estremoz- Borba-Vila Viçosa, geologicamente marcada pela presença de mármore calcítico, ou seja, o mármore essencialmente formado pelo mineral calcite (CaCO3, um carbonato de cálcio), como é o da pedreira que ruiu em Borba. “Terra- rossa” é a expressão italiana aceite internacionalmente para referir um solo característico das regiões de clima mediterrâneo, de intensa cor vermelha, como é o do sul de Portugal.

Trata-se de toda uma capa barrenta, incluindo o solo agrícola, composta essencialmente por barro ou argila, neste caso, uma ilite, e sesquióxido de ferro (Fe2O3, o conhecido ocre vermelho). Toda esta capa é o que fica como resíduo insolúvel, de um inimaginável volume de mármore dissolvido pelas águas pluviais ao longo de um período de tempo que vai muito para lá da história dos homens.

Estas águas ao atravessarem a atmosfera, incorporam o dióxido de carbono (CO2) sempre aí presente, adquirindo capacidade de dissolução do carbonato de cálcio da calcite. É esta acção dissolvente que gera a “terra-rossa” e toda a variedade de aberturas e espaços vazios (algares, grutas, galerias e outros) bem conhecidos dos espeleólogos.

Na origem do calcário que, por metamorfismo, se transformou em mármore, além da sedimentação biogénica e/ou quimiogénicas do carbonato de cálcio, houve sedimentação detrítica de argila (via de regra, um silicato hidratado de alumínio e potássio) e uma contaminação por ferro, que poderá ter continuado nos processos geológicos posteriores, ou seja, a diagénese e o metamorfismo.

É este ferro que, ao oxidar-se (o clima na região é suficientemente seco), gera o referido sesquióxido. Impregnada por um certo teor de água e sujeita à vibração de uma rodovia pavimentada a cubos (ou paralelepípedos) de granito, como foi o caso da derrocada na pedreira, esta capa barrenta entrou numa espécie de liquefacção e desmoronou, arrastando consigo as pedras e os blocos que envolvia e, tragicamente, o troço de estrada, com as lamentáveis consequências conhecidas. Comum, não só na região mediterrânea, mas também na África do Sul, Califórnia, Austrália, entre outras, a “terra-rossa” possui boas características de drenagem, sendo considerado um bom solo para a produção de vinho

Para compreender melhor o processo que gera a “terra-rossa”, recuemos ao século XVIII. A descoberta do oxigénio em 1774, pelo clérigo inglês Joseph Priestley (1733-1804), e o seu reconhecimento como o elemento mais abundante da crosta terrestre, associada à evolução da química analítica, na sequência dos trabalhos do francês Antoine Lavoisier (1743-1794) e dos suecos Carl Wilhelm Scheele (1741-1786) e Torbern Bergman (1749-1817) e de outros notáveis químicos da época, conduziram a que a composição química das rochas passasse a ser expressa em óxidos.

Tais análises forneciam as percentagens ponderais de, como então se dizia,
”terra siliciosa” (sílica, SiO2),
“terra argilosa” (alumina, Al2O3),
“ocres” (óxidos de ferro ferroso e férrico (FeO e Fe2O3),
“cal” (CaO),
“soda” ou “alcali fixo mineral” (Na2O),
“potassa” ou “alcali fixo vegetal” (K2O),
“magnésia” (MgO),
“titânia” (TiO2),
“anidrido fosfórico” (P2O5),
“ar ácido” ou “ácido aéreo” (CO2).
água (H2O).
Este modo de caracterizar a composição química das rochas foi decisivo no avanço do seu estudo (a petrologia) e, consequentemente, da geologia. Assim, para quem sabe lidar com as cifras resultantes destas análises químicas, face à composição química de um mármore, expressa em % de óxidos,
SiO2 - 3,3
Al2O3 - 0,08
MgO - 16,6
K2O - 0,01
Fe2O3 - 0,03
CaO - 38,1
Deduz imediatamente que há ali sílica (SiO2), alumina (Al2O3) e potassa (KO) a revelarem a presença de argila (ilite), sílica ainda a dizer que também ocorre ali algum quartzo de neoformação, e de sesquióxido de ferro.

Nota: Se o clima fosse mais húmido gerar-se-ia um hidróxido de ferro (FeO(OH)), como a goethite e outros, de cor amarelo-acastanhada o conhecido ocre amarelo. A limonite, que muitos aprenderam no liceu, é essencialmente uma mistura de hidróxidos de ferro e argila.

A. Galopim de Carvalho

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